Segunda-feira, Julho 13, 2009

CDs #210: Carlo Bergonzi, Verdi & Puccini Arias

O meu fascínio pelas gravações da década de 1950 continua intacto, e um disco que acabei de receber só o veio reforçar. Há 4 anos o italiano Carlo Bergonzi (1924-) foi o primeiro tenor a ter honras de ser nosso convidado; agora aparece de novo por aqui, precisamente graças a este extraordinário disco, lançado no ano passado pela editora Regis Records.

As gravações mais antigas datam de 1951, que é como quem diz, das suas primeiras abordagens ao repertório de tenor; é que, se bem se lembram, Bergonzi começou como barítono mas, não se sentindo totalmente confortável nesse papel, acabou rapidamente por virar tenor. Está visto que era um rapaz que se adaptava rapidamente a novas situações, em poucos anos passou de operário numa fábrica de queijos a tenor de sucesso, sendo que, pelo meio, ainda teve tempo para ser militar e iniciar uma carreira de cantor como barítono!

Bergonzi nasceu em Vidalenzo, não muito longe do local onde Giuseppe Verdi (1813-1901) nasceu e, desde que se retirou dos palcos, ocupa-se da gestão do seu restaurante I Due Foscari, em Busseto, perto da estátua de... Verdi. Tudo dentro da normalidade, pois o restaurante tem o nome de uma das óperas deste compositor, e foi precisamente em Verdi que Bergonzi mais se distinguiu, sendo com árias de óperas dele que se preenche maioritariamente este disco.

Carlo Bergonzi celebra hoje o seu 85º aniversário.




Carlo Bergonzi
Verdi & Puccini Arias.
Carlo Bergonzi (tenor)
Orchestra of the Accademia di Santa Cecilia, Rome
Gianandrea Gavazzeni
Chorus of RAI
Orchestra of RAI
Francesco Molinari-Pradelli, Carlo Maria Giulini, Alfredo Simonetto
Regis Records RRC 1305
(1951, 1958)


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Carlo Bergonzi
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Quinta-feira, Julho 09, 2009

CDs #209: Respighi

Não foi fácil ao italiano Ottorino Respighi (1879-1936) ver as suas composições conhecidas do grande público. Compositor quase anónimo durante uns bons anos, apenas após a mudança para Roma, em 1913, obteve o reconhecimento generalizado, graças à trilogia de poemas sinfónicos dedicados a essa cidade: Fontane di Roma, de 1915-6, Pini di Roma, de 1924, e Feste Romane, de 1928. Pelo meio, contudo, já Respighi tinha escrito outras obras importantes, como Vetrate di Chiesa (Janelas de Igreja), em 1925, resultante da orquestração de uma anterior para piano, Tre preludi sopra melodie gregoriane. Vetrate di chiesa foi estreada em Fevereiro de 1927 por um dos maestros mais conhecidos na altura, Serge Koussevitzky (1874-1951).

Por essa altura já Respighi tinha deixado a direcção do Conservatorio di Musica Santa Cecilia, de Roma, para ter mais tempo disponível para se dedicar à composição. No dia 12 de Maio de 1927, acompanhado da esposa, Elsa Respighi (1894-1996), entrou a bordo do navio Conte Verde para aquela que seria a sua primeira viagem ao Brasil, para dirigir a sua própria música numa série de concertos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Pelo meio ainda arranjou tempo para tomar contacto com a música popular local e, à partida, prometeu que comporia uma suite orquestral em 5 andamentos nela inspirada, para ser apresentada no ano seguinte. A verdade é que, em Junho de 1928, Respighi estava de regresso ao Rio de Janeiro, para apresentar Impressione brasiliane, uma suite orquestral em... 3 andamentos. É que, apesar de em Janeiro desse ano já ter estes 3 andamentos escritos e orquestrados, não encontrou tempo para mais, e teve que a apresentar mesmo assim! Contudo, a obra foi calorosamente recebida, pelo que nunca mais lhe mexeu...

Ottorino Respighi nasceu há 130 anos, no dia 9 de Julho de 1879.




Ottorino Respighi
Vetrate di chiesa. Impressioni brasiliane.
Rossiniana: Suite for Orchestra.
Buffalo Philharmonic Orchestra
JoAnn Falletta
Naxos 8.557711
(2006)


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Ottorino Respighi
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Domingo, Julho 05, 2009

Lugares #188

Águeda não é propriamente famosa pelos seus parques ou jardins, mas o Parque Municipal Alta Vila, situado junto à EN1 e bem perto do centro da cidade, justifica visita demorada. A única coisa que dele nos é dita é que foi concebido por um tal Dr. Eduardo Caldeira, de que nada mais sabemos, pois o site da Câmara Municipal lá do sítio tem muitas cores e passarinhos a voar mas pouca informação. Os autarcas locais referem orgulhosamente ser Águeda "uma das mais industrializadas cidades do país" mas, como ainda (tanto quanto sabemos) não começaram a organizar passeios guiados pelas principais fábricas, também não fazem grande esforço para atrair forasteiros; só assim se compreende, por exemplo, que o Posto de Turismo não tenha um mapa da cidade digno desse nome para fornecer aos visitantes, limitando-se a distribuir uma fotocópia de um mapa extraído do Google...





A bem da verdade, devo reconhecer que o motivo da nossa deslocação àquela cidade não foi o referido parque, mas a minha participação em mais uma aventura de duas rodas, de cujo resultado final não fiquei propriamente orgulhoso. Nada que "Two More Bottles of Wine" ao almoço não remediassem...


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Águeda
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Quarta-feira, Julho 01, 2009

Compositores #95: Erik Satie (1866-1925)

Nada como o francês Erik Satie para destoar decisivamente daquela lenga-lenga usual quando desfilamos as proezas dos grandes compositores. Satie não foi um menino prodígio, não tendo mostrado, enquanto jovem, um talento musical acima da média; e aos 13 anos entrou no Conservatório de Paris, de onde foi banido cerca de 3 anos depois, por não atingir os requisitos mínimos exigidos. Ou, dito doutra maneira, os professores acharam-no desprovido do indispensável talento musical para frequentar tal casa...

Satie retomaria os estudos quando já contava quase 40 anos de idade, quando, em 1905, se inscreveu na Schola Cantorum de Vincent d'Indy (1851-1931). Bastantes anos depois, portanto, de ter escrito as suas obras mais famosas, as Trois Gymnopédies, inspiradas, segundo informação do autor mas não aceite consensualmente, nos escritos de Gustave Flaubert (1821-1880). Uns dos admiradores destas peças foi o compositor Claude Debussy (1862-1918), que chegou mesma a orquestrá-las, com grande sucesso, ao ponto de quase superarem em popularidade as versões originais. Um pouco à imagem do sucedido com os Quadros de Uma Exposição de Modest Mussorgsky (1839-1881) e a respectiva orquestração efectuada por um outro compositor francês, Maurice Ravel (1875-1937)

Erik Satie faleceu há 84 anos, no dia 1 de Julho de 1925.


CDs




Erik Satie
Sports et divertissements. Enfantillages pittoresques.
Valse-ballet. Fantaisie-valse.
Pascal Rogé (piano)
Decca 455 370-2

Erik Satie
Trois morceaux en forme de poire. Parade. La belle excentrique.
Désespoire agréable. Songe-creux.
Pascal Rogé, Jean-Philippe Collard (pianos), Chantal Juillet (violino)
Decca 455 401-2

Erik Satie
Trois gymnopédies. Six gnossiennes. Trois embryons desséchés.
Morceaux en forme de poire. Trois descriptions automatiques.
Anne Queffélec, Catherine Collard (pianos)
Virgin Classics VM5 61846-2

Erik Satie
Trois Gymnopédies. Pièces Froides - Airs à faire fuir. Embryons
desséchés. Véritable Préludes Flasques (pour un chien). Je te veux.
Joanna MacGregor (piano)
Sound Circus SC902

Erik Satie
Poudre d'or. Avant-dernières pensées. Pièces froides: trois airs
à faire fuire.
Pascal Rogé (piano)
Decca 421 713-2


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Erik Satie
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Sábado, Junho 27, 2009

Pianistas #28: Leonard Pennario (1924-2008)

O pianista norte-americano Leonard Pennario poucas vezes tocou fora dos Estados Unidos, o que explicará em boa medida o facto de não ter atingido grande notoriedade deste lado do Atlântico. Não deixou de passar pelo velho continente, onde realizou uma primeira turné em 1952, mas não era com duas cantigas que se ausentava de Los Angeles, cidade onde assentou arraiais desde bastante jovem.

Pouco conhecido do lado de cá, foi dos pianistas mais populares no seu país natal, tendo, por exemplo, formado um trio com o violinista Jascha Heifetz (1901-1987) e o violoncelista Gregor Piatigorsky (1903-1976). Aplicando aquela do "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és", estaríamos desde já em condições de concluir estarmos perante um grande pianista... A mesma opinião teve, por exemplo, o compositor Miklós Rózsa (1907-1995), que lhe dedicou duas obras, um Concerto para Piano e uma Sonata para Piano. Por curiosidade, diga-se que, depois de abandonar os palcos, Pennario prosseguiu com outra carreira de sucesso, de jogador de bridge, em que foi igualmente campeão...

Leonard Pennario faleceu há um ano, no dia 27 de Junho de 2008.


CD



Felix Mendeslssohn
Cello Sonata No.2 in D, Op.58.
Frédéric Chopin
Cello Sonata in G minor, Op.65.
Richard Strauss
Cello Sonata in F, Op.6.
Gregor Piatigorsky (violoncelo), Leonard Pennario,
Rudolf Firkusny (pianos)
Testament SBT1419
(1965, 1966)


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Leonard Pennario
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Quarta-feira, Junho 24, 2009

Lugares #187

A participação em provas desportivas tem servido de mero alibi para diversas passeatas pelo país, e foi exactamente isso o que aconteceu recentemente. Dando-se o caso de, desta vez, a prova decorrer em Bragança, e de da sua organização ter feito parte um colega das aventuras de duas rodas, teve um gosto especial, além de ter ficado mais barata...

Para a tarde de Sábado programámos uma visita ao castelo, algo que não nos pareceu demasiadamente incompatível com o período de estágio para o evento desportivo do dia seguinte... Do que nos esquecemos, mais uma vez, foi da incompatibilidade dos horários de abertura dos monumentos nacionais com os da maioria dos portugueses; talvez não os da maioria, mas pelo menos com os nossos, o que, para o caso, é o que mais nos interessa! Vai daí, e tal como nos tinha acontecido há relativamente pouco tempo em Amieira do Tejo, demos com o nariz na porta, pois chegámos lá depois das malfadadas 17 horas. Diferentes razões (o de Amieira do Tejo encontra-se em obras) mas a mesma impossibilidade de os visitar...



Ficámos novamente limitados a ver as paredes pelo lado de fora e a dar um pequeno passeio pelas muralhas o que, apesar de melhor do que nada, esteve longe de corresponder às nossas expectativas, para utilizar uma expressão muito querida dos nossos especialistas de marketing. É o fim...


Internet



Castelo de Bragança
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Domingo, Junho 21, 2009

CDs #208: Eduard Erdmann, Reger, Schubert, Schumann

As obras do compositor alemão Max Reger (1873-1916) não gozam de grande popularidade, existindo um número muito limitado de (boas) gravações e raramente sendo interpretadas em público. Até recentemente apenas tinha um CD com obras suas, no caso música de câmara, editado pela Nimbus e adquirido há mais de 7 anos. Conhecia, mal, o seu Concerto para Piano, Op.114, e espreitava uma oportunidade para adquirir uma das poucas gravações de referência que existem. Se poucos (bons) pianistas houve que se deram ao trabalho de o tocar em público, menos ainda o gravaram, com duas honrosas excepções, do já nosso conhecido Rudolf Serkin (1903-1991), e do até agora ignorado por estas bandas Eduard Erdmann (1896-1958). Pois no ano passado a Orfeo d'Or teve a amabilidade de ajudar a colmatar a minha falha, editando um disco notável, com gravações dos inícios dos anos 50 do século passado, em que Erdmann interpreta obras de Reger (o referido concerto para piano), Schubert (1797-1828) e Schumann (1810-1856). Para o concerto, Erdmann conta com a parceria da Orquestra Sinfónica da Rádio de Colónia, dirigida por Hans Rosbaud (1895-1962).

Erdmann, tal como Reger, também teve direito à sua dose de indiferença: enquanto vivo, foi muito admirado como pianista mas largamente ignorado como compositor; hoje em dia, mais democraticamente, ignoram-se tanto as suas facetas de pianista como de compositor... Além de tocar os clássicos, Eduard Erdmann promoveu imenso as obras dos compositores seus contemporâneos; entre elas, obviamente, este concerto de Reger, em que poucos mais pianistas pegaram. Nada de surpreendente para o autor, diga-se, que terá afirmado (e transcrevo do livro que acompanha o disco): "My piano concerto will remain misunderstood for many years to come; its musical language is too austere and too serious". Chegou mesmo a escrever à pianista Frida Kwast-Hodapp (1880-1949), que foi quem estreou a obra, questionando-se sobre as razões que a terão levado a interpretá-la: "But you'll sweat, really sweat! Why do you play such stuff!"...

Eduard Erdmann faleceu há 51 anos, no dia 21 de Junho de 1958.




Max Reger
Konzert für Klavier und Orchester f-Moll, Op.114.
Franz Schubert
Sonata B-Dur, D960.
Robert Schumann
Sechs Intermezzi, Op.4.
Eduard Erdmann (piano)
Kölner Rundfunk-Sinfonie-Orchester
Hans Rosbaud
Orfeo d'Or C722 071
(1950, 1951)


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Max Reger
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Eduard Erdmann
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Quarta-feira, Junho 17, 2009

Óperas #21: Roméo et Juliette, de Charles Gounod

Foi logo no início da década de 1850 que o compositor francês Charles Gounod (1818-1893) escreveu a sua primeira ópera que, por evidente falta de qualidades dramáticas, foi um rotundo insucesso. As duas que se seguiram não contribuíram de forma alguma para aumentar o prestígio de Gounod até que, em 1859, teve lugar a estreia de Faust, uma das óperas mais bem sucedidas de sempre.

O sucesso foi enorme e nunca mais repetido com qualquer outra obra sua, nomeadamente com a ópera Roméo et Juliette, que estreou em Paris em Abril de 1867. Os libretistas Jules Barbier (1825-1901) e Michel Carré (1821-1872) seguiram de muito perto o texto de William Shakespeare (1564-1616), embora conservando apenas os elementos mais significativos Se Hector Berlioz (1803-1869) já não tinha ficado nada convencido com a utilização que Vincenzo Bellini (1801-1835) tinha feito da obra do poeta inglês, na sua ópera I Capuleti e i Montecchi, muito menos o terá ficado com a de Gounod, não só pela chegada tardia ao grupo (a primeira metade do século XIX em Paris tinha ficado marcada por uma shakespearmania...), como pela óbvia fonte de inspiração: a sinfonia dramática Roméo et Juliette, de... Berlioz!

Charles Gounod nasceu há 191 anos, no dia 17 de Junho de 1818.


CDs



Charles Gounod
Roméo et Juliette.
Plácido Domingo, Paul Clarke (tenores), Ruth Ann Swenson, Susan
Graham (sopranos), Alastair Miles (baixo), Kurt Ollmann, Alan
Vernhes, Christopher Maltman (barítonos), Sarah Walker (meio-soprano)
Bavarian Radio Chorus
Munich Radio Orchestra
Leonard Slatkin
RCA Red Seal 09026 68440-2
(1995)

Farrar in French Opera.
Ambroise Thomas
Mignon - Connais-tu le pays?
Georges Bizet
Carmen - L'amour est un oiseau rebelle (Habanera); Si tu m'aimes, Carmen.
Charles Gounod
Roméo et Juliette - Je veux vivre (Waltz)
Jules Massenet
Manon - Allons! Il le faut... Adieu, notre petite table.
Thaïs - Te souvient-il du lumineux voyage.
Jacques Offenbach
Les Contes d'Hoffmann - Belle nuit, ô nuit d'amour.
Geraldine Farrar (soprano), Edmond Clément, Giovanni Martinelli (tenores),
Antonio Scotti, Pasquale Amato (barítonos)
Milan La Scala Orchestra
Arturo Toscanini
Nimbus NI7872

Janine Micheau
French Opera Arias.
Arias by Gustave Charpentier, Ambroise Thomas, Jacques Offenbach,
Charles Gounod, Georges Bizet, Emmanuel Chabrier.
Janine Micheau (soprano), Jean Mollien, Libero de Luca, Pierre
Gianotti (tenores)
Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire
Paris National Opera Theater Orchestra
Alberto Erede, Roger Désormière, Jean Fournet
Testament SBT1347


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Charles Gounod
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Sexta-feira, Junho 12, 2009

CDs #207: Arturo Benedetti Michelangeli, The Master Pianist

Dificilmente um concurso poderia ter um começo mais auspicioso do que aquele que teve o Concurso Internacional de Genebra, em 1939. Na sua primeira edição, e na categoria de piano, contou entre os membros do júri com os consagrados pianistas Alfred Cortot (1877-1962) e Artur Rubinstein (1887-1982), e teve como vencedor um jovem italiano, Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995), que não tardaria muito a atingir o estrelato. Enquanto Rubinstein, mais comedido, se limitou a admirar a técnica impecável de Michelangeli, já Alfred Cortot afirmou alto e bom som estar-se perante um "novo Liszt"!

O virtuosismo granjeou-lhe a fama, mas também para ela contribuiram a sua aversão em gravar em estúdio e a facilidade com que cancelava concertos à última hora (muitas vezes pelos problemas de saúde que o afectavam). Mas muito antes disso, mesmo antes de se juntar à Força Aérea Italiana durante a 2ª Guerra Mundial, Michelangeli efectuou várias gravações nos estúdios da EMI em Milão, entre 1939 e 1942. Várias dessas gravações aparecem num disco (quádruplo) editado no ano passado, e incluem interpretações de obras de Alessandro Scarlatti (1660-1725), Ludwig van Beethoven (1770-1827), Edvard Grieg (1843-1907), Federico Mompou (1893-1987), Isaac Albéniz (1860-1909), Enrique Granados (1867-1916) e Frédéric Chopin (1810-1849).

Inclui também três Concertos para Piano e Orquestra de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), dando-se o caso de um deles, Nº13 K415, já ter aparecido num disco que aqui trouxe anteriormente. São gravações distintas, contudo: a deste novo disco é de Novembro de 1953, enquanto que a outra é de Dezembro de 1951.

Arturo Benedetti Michelangeli faleceu há 14 anos, no dia 12 de Junho de 1995.




Arturo Benedetti Michelangeli - The Master Pianist
Johann Sebastian Bach

Partita No.2 in D minor, BWV1004 - Chaconne.
Alessandro Scarlatti
Sonata in D minor (Pastorale), Kk9. Sonata in C minor, Kk11.
Ludwig van Beethoven
Piano Sonata No.3 in C, Op.2 No.3.
Johannes Brahms
Variations on a Theme by Paganini, Op.35.
Edvard Grieg
Melancholy, Op.47 No.5. At the Cradle, Op.68 No.5.
Federico Mompou
Canción y Danza No.1.
Isaac Albéniz
Rumores de la caleta, Op.71 No.8 - Malagueña.
Enrique Granados
Danzas españolas, Op.37 No.5 - Andaluza.
Wolfgang Amadeus Mozart
Piano Concertos - No.13 in C, K415; No.15 in B flat, K450; No.23 in A, K488.
Joseph Haydn
Piano Concertos - in D, Hob.XVIII:11; in G, Hob.XVIII:4.
Robert Schumann
Carnaval, Op.9. Album für die Jugend, Op.68.
Maurice Ravel
Piano Concerto in G.
Sergei Rachmaninov
Piano Concerto No.4 in G, Op.40.
Frédéric Chopin
Mazurka No.47 in A minor, Op.68 No.2. Scherzo No.2 in B flat minor, Op.31.
Waltz No.9 in A flat, Op.69 No.1.
Claude Debussy
Images, Set 1 No.1 - Reflets dans l'eau: Andantino molto.
Arturo Benedetti Michelangeli (piano)
Orchestra Alessandro Scarlatti, Franco Caracciolo
Orchestra Sinfonica da Camara dell'Ente dei Pomeriggi Musical
di Milano, Ettore Gracis
Philharmonia Orchestra, Ettore Gracis
EMI Classics 2 06005-2


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Arturo Benedetti Michelangeli
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Sábado, Junho 06, 2009

DVDs #19: Mahler, Symphonies 1 & 8

Klaus Tennstedt (1926-1998) nasceu em Junho de 1926 em Merseburg, uma cidade no sul da Alemanha. Depois de efectuar os primeiros estudos com o pai, o violinista Hermann Tennstedt, prosseguiu-os em Leipzig. Um ferimento no braço esquerdo impediu-o de continuar a carreira de violinista, pelo que optou por se virar para a regência, tendo-se estreado como maestro em 1952. Desde 1949 que a Alemanha em que Tennstedt vivia tinha passado a ser a Alemanha de Leste., o que lhe valeu ter permanecido um perfeito desconhecido no Ocidente, situação que apenas se alterou na primeira metade da década de 1970, depois de, em 1971, se ter recusado a regressar a casa após uma deslocação à Suécia. 1974 seria um ano marcante, com o extraordinário sucesso que obteve no Canadá, ao dirigir a Orquestra Sinfónica de Toronto na 7ª Sinfonia de Anton Bruckner (1824-1896).

Sucesso premonitório, pois Tennsted, que nunca iria alargar muito o seu repertório, foi ganhando a reputação de um dos mais conceituados maestros da música do romântico, destacando-se em particular nas obras sinfónicas de Bruckner e Gustav Mahler (1860-1911). É assim normal que Tennstedt já por aqui tenha passado com um disco de Mahler (Sinfonia Nº8, gravação de 1986), e normal é também o seu regresso, de novo com Mahler e desta vez com duas sinfonias, a de novo incluída.

As gravações deste DVD foram efectuadas em 1990 (1ª sinfonia) e 1991 (8ª sinfonia). Esta última, uma sinfonia vocal, conta com as participações do Coro da Filarmónica de Londres e do Coro da Sinfónica da mesma cidade; o maestro Richard Hickox (1948-2008), que faleceu em Novembro do ano passado, foi director deste último coro entre 1976 e 1991.

Klaus Tennstedt nasceu há 93 anos, no dia 6 de Junho de 1926.




Gustav Mahler
Symphony No.1 in D. Symphony No.8 in E flat.
Julia Varady, Jane Eaglen, Susan Bullock (sopranos), Trudeliese
Schmidt, Jadwiga Rappé (altos), Kenneth Riegel (tenor), Eike
Wilm Schulte (barítono), Hans Sotin (baixo)
London Symphony Chorus
London Philharmonic Choir
Chicago Symphony Orchestra
London Philharmonic Orchestra
Klaus Tennstedt
EMI Classics 3 67443-9


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Klaus Tennstedt
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Quarta-feira, Junho 03, 2009

Óperas #20: Die Fledermaus, de Johann Strauss II

Devo confessar que nunca fui grande adepto das famosíssimas valsas vienenses, ao contrário da minha mãe, que se derretia logo que soavam os primeiros compassos do Danúbio Azul. Penso que o facto de já uma vez ter comprado um DVD de um dos Concertos de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena não será o suficiente para desmentir tal afirmação...

Isto não invalida, obviamente, que eu reconheça que a valsa e a opereta sejam dois géneros musicais intimamente ligados a Viena, que tiveram em Johann Strauss II (1825-1899) um dos seus expoentes. Dado o meu menor interesse pelo primeiro género, perdoar-me-ão que apenas me debruce sobre o segundo... Johann Strauss II começou a compor em meados da década de 1840, mas a sua primeira opereta, Indigo, data apenas de 1871, e isto graças à persistência da sua primeira esposa, Henriette Treffz (1818-1878).

No dia 5 de Abril de 1874, Domingo de Páscoa, teve lugar a estreia da sua terceira e mais famosa opereta, Die Fledermaus (O Morcego), perto de um ano depois, portanto, do grande crash bolsista de Maio de 1873 no Império Austro-Húngaro. O grande sucesso da obra deveu-se acima de tudo, e como não podia deixar de ser, à música de Strauss Jr.; refira-se que, após a apresentação do primeiro número, o compositor apenas precisou de 42 dias para completar a obra!

Johann Strauss II faleceu há 110 anos, no dia 3 de Junho de 1899.


CDs




Johann Strauss II
J. Strauss II in Berlin: Overtures - Die Fledermaus;
Eine Nacht in Venedig (versão orig.). Kaiser Franz-Joseph I.
Berlin Philharmonic Orchestra
Nikolaus Harnoncourt
Teldec 3984-24489-2

Johann Strauss II
A Tribute to Johann Strauss. Schwipslied. Die Fledermaus - Overture;
Spiel' ich die Unschuld.
Sumi Jo (soprano)
Vienna Volksoper Orchestra
Rudolf Bibl
Erato 3984-25500-2

Johann Strauss II
Die Fledermaus.
Hilde Gueden, Wilma Lipp (sopranos), Julius Patzak, Anton Dermota,
August Jaresch (tenores), Alfred Poell, Kurt Preger (barítonos),
Sieglinde Wagner (meio-soprano)
Vienna State Opera Chorus
Vienna Philharmonic Orchestra
Clemens Krauss
Naxos Historical 8.110180-81
(1953)

Johann Strauss II
Die Fledermaus.
Peter Anders, Helmut Krebs, Edwin Heyer (tenoress), Anny Schlemm,
Rita Streich, Sylvia Menz (sopranos), Hans Wocke, Herbert
Brauer (barítonos), Anneliese Müller (meio-soprano), F. Hoppe (narrador)
RIAS Chamber Choir, Berlin
RIAS Symphony Orchestra
Ferenc Fricsay
Audite Aud23.411
(1949)


DVD



Johann Strauss II
Die Fledermaus.
Lucia Popp, Edita Gruberová (sopranos), Bernd Weikl, Josef
Hopferweiser (tenores), Walter Berry, Erich Kunz (barítonos),
Brigitte Fassbaender (meio-soprano)
Vienna State Opera Chorus
Vienna State Opera Orchestra
Theodor Guschlbauer
TDK DV-CLOPDFM


Internet



Johann Strauss II
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Domingo, Maio 31, 2009

Compositores #94: Joseph Haydn (1732-1809)

O facto de não tocar instrumento algum, ao contrário da maioria dos compositores seus contemporâneos, não impediu o austríaco Joseph Haydn de atingir um sucesso de que poucos se puderam gabar. Na altura, aliás, só um lhe fazia frente, mas era um adversário de peso: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)...

Haydn teve uma influência decisiva na definição de vários géneros musicais, como a sonata, a música de câmara e a sinfonia; é normalmente considerado o pai da sinfonia e do quarteto de cordas. Foi, além do mais, um compositor extremamente prolífico, tendo composto, por exemplo, mais de 100 sinfonias!

A partir de 1803, ano em que deixou de compor, passou a prefaciar a sua correspondência com uma pequena frase, retirada de uma das suas obras vocais: "A minha força já se foi; estou velho e fraco".

Joseph Haydn faleceu há 200 anos, no dia 31 de Maio de 1809.


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Joseph Haydn
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Quarta-feira, Maio 27, 2009

Concertos #75

Há alguns anos era frequente termos acesso a bilhetes completamente grátis para concertos no Europarque, e foi num desses que tivemos a oportunidade de ouvir pela primeira vez ao vivo o barítono norte-americano Thomas Hampson (1955-). Juntou-se lá uma pequena multidão, pois o cavalheiro atrai inúmeros seguidores por onde passa; claro que nem todos vão pelas suas qualidades interpretativas, ou não tivesse Hampson sido nomeado em 1993 pela revista People como uma das 50 pessoas mais atraentes do planeta, mas isso são pormenores para nós irrelevantes...

No próximo Sábado regressará a Portugal, para um recital no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, para viajar em território que lhe é deveras familiar e no qual se tem destacado: o lied alemão e a canção americana, representada por um dos seus expoentes, Samuel Barber (1910-1981).

É o último concerto da temporada 2008/9 a que vamos assistir na Gulbenkian, numa altura em que se discute a qualidade da programação da temporada 2009/10. O nosso amigo Il Dissoluto Punito está especialmente desapontado com ela, mais do que eu, devo confessar; admito que não esteja ao nível da última, mas há alguns concertos que gostaria de não perder. Temo, tal como o Paulo já afirmou, que a dificuldade estará em arranjar bilhetes; nada a que já não estejamos habituados...


Programa

Franz Liszt
Im Rhein, im schönen Strome.
Es rauschen die Winde.
Die drei Zigeuner.

Franz Schubert
An die Leier, D.737.
Das Fischermädchen, D.957 nº10.
Der Doppelgänger, D.957 nº13.

Gustav Mahler
De «Des Knaben Wunderhorn»:
Aus! Aus!
Nicht wiedersehen.
Der schildwache Nachtlied.
Zu Straßburg auf der Schanz.
Revelge.

Hugo Wolf
Goethe-Lieder:
Harfenspieler I: «Wer sich der Einsamkeit ergibt».
Harfenspieler II: «An die Türen will ich schleichen».
Harfenspieler III: «We nie sein Brot mit Tränen Aß».

Samuel Barber
Now have I fed and eaten up the rose, op.45 nº1.
A green lowland of pianos, op.45 nº2.
O boundless, boundless evening, op.45 nº3.
Rain has fallen, op.10 nº1.
Sleep now, op.10 nº2.
I hear an army, op.10 nº3.


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Thomas Hampson
The Official Website of the America's Leading Baritone / Culture Kiosque / Hyperion Records / Bach Cantatas Website / Wikipedia

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Segunda-feira, Maio 25, 2009

Sinfonias #37: Sinfonia Nº3, de George Enescu

O romeno George Enescu (1881-1955), que já uma vez passou por estas páginas, estudou em Viena e em Paris, tendo tido aulas com alguns pesos pesados da história da música: Josef Hellmesberger (1828-1893), Robert Fuchs (1847-1927), Jules Massenet (1842-1912) e Gabriel Fauré (1845-1924). Enescu, violinista virtuoso dotado de uma memória extraordinária, nunca tomou como actividade principal a composição, e o conjunto da sua obra é ainda hoje pouco conhecido. É geralmente considerado, contudo, como o grande compositor do seu país, estando para a Roménia um pouco como Béla Bartók (1881-1945) está para a Hungria.

Enescu compôs 3 sinfonias, a primeira em 1905, a segunda entre 1912 e 1914, e a terceira entre 1916 e 1918. Esta última, transpirando Brahms por todos os poros, além de um coro, exige uma orquestra de dimensões apreciáveis, que deverá incluir, nomeadamente, 12 contrabaixos. Será outra das razões para o pequeno, muito pequeno número de boas gravações disponíveis, destacando-se uma do nosso Lawrence Foster (1941-).

A estreia da Sinfonia Nº3 de George Enescu teve lugar no dia 25 de Maio de 1919, passam hoje 90 anos.


CD



George Enescu
Symphonies - No.1 in E flat major, Op.13.; No.2 in A major, Op.17;
No.3 in C major, Op.21. Vox maris.
Catherine Sydney (soprano), Marius Brenciu (tenor)
Les Éléments Chamber Choir
Monte-Carlo Philharmonic Orchestra
Lyon National Orchestra
Lawrence Foster
EMI 5 86604-2
(1992, 2004)


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George Enescu
George Enescu / International Enescu Society / International Festival and Competition George Enescu / Naxos / Bach Cantatas Website / Answers.com / Wikipedia

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Sexta-feira, Maio 22, 2009

CDs #206: Richard Wagner, Götterdämerung

O maestro austríaco Felix Mottl (1856-1911) construiu uma reputação baseada essencialmente nas interpretações das obras de Richard Wagner (1813-1883), tendo estado envolvido na preparação da primeira apresentação integral de Der Ring des Nibelungen no Festival de Bayreuth. Mottl faleceria de ataque cardíaco em Julho de 1911, quando dirigia precisamente uma ópera de Wagner, Tristan und Isolde. Joseph Keilberth nasceu em Abril de 1908 em Karlsruhe (Alemanha), cidade para onde os seus progenitores se tinham mudado após o seu pai ter sido recomendado por Mottl para violoncelista principal da orquestra da cidade. Depois de ter igualmente entrado no mundo da música como violoncelista, não demorou muito até que pegasse na batuta, sob clara influência de Mottl no que à interpretação de Wagner dizia respeito. Ironia do destino, Keilberth iria morrer exactamente nas mesmas condições de Mottl: em Munique e a dirigir Tristan und Isolde!

Keilberth dirigiu o primeiro ciclo O Anel dos Nibelungos em 1936 e, em 1950, foi finalmente convidado pelo Festival de Bayreuth para dirigir Die Meistersinger von Nürnberg. Recusou o convite, por não querer partilhar as interpretações com Hans Knappertsbusch (1888-1965), tendo ficado convencido de que nunca lá chegaria a pôr os pés. Felizmente para nós estava redondamente enganado, e passados apenas 2 anos já lá estava a pisar os palcos, o que se iria repetir ao longo da década de 1950. Uma década que para mim, conforme já aqui disse várias vezes, foi uma das mais ricas musicalmente; esta interpretação de Götterdämmerung, a ópera que encerra a tetralogia, foi captada ao vivo na edição de 1955 do referido festival. Da ópera propriamente dita falarei mais tarde, pois não convém esgotar todos os temas de uma vez só...

Richard Wagner nasceu há 196 anos, no dia 22 de Maio de 1813.




Richard Wagner
Götterdämmerung.
Astrid Varnay, Gré Brouwenstijn, Jutta Vulpius, Mina Bolotine
(sopranos), Wolfgang Windgassen (tenor), Hermann Uhde (barítono),
Maria von Illosvay, Elisabeth Schärtel, Maria Graf (meios-sopranos),
Gustav Neidlinger (baixo-barítono)
Bayreuth Festival Chorus
Bayreuth Festival Orchestra
Joseph Keilberth
Testament SBT4 1393


Internet



Richard Wagner
Wagner Operas.com / Classical Music Pages / Opera Glass / Island of Freedom / Essentials of Music / Wikipedia / P. Q. P. Bach

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

CDs #205: Boris Christoff, Lebendige Vergangenheit

O azar de uns é, não tão poucas vezes como isso, a sorte de outros, e foi esse o caso do baixo Cesare Siepi (1923-), que recentemente por aqui referi; a impossibilidade de Boris Christoff entrar nos Estados Unidos em 1950, por possuir passaporte búlgaro, foi a oportunidade que Siepi não desperdiçou. Apesar de ter nascido em 1914, na altura a carreira de Boris Christoff ainda estava no início, pois a sua estreia em palco tinha apenas tido lugar em Março de 1946, com o papel de Calline na ópera La bohème, de Giacomo Puccini (1858-1924).

Claro que, entretanto, já se tinha registado o seu extraordinário sucesso no Covent Garden, em 1949, num dos papéis que marcariam toda a sua carreira: Boris Godunov, na ópera homónima de Modest Mussorgsky (1839-1881). O baixo búlgaro esteve mesmo para nem chegar a apresentar-se em Londres, pois armou-se em esquisito e esteve em vias de ser corrido; lá levou a dele avante, e acabou a ser o único do elenco a cantar em russo, enquanto todos os outros o fizeram em inglês, e a seguir uma versão distinta da ópera (a de Rimsky-Korsakov, enquanto todos os outros se guiaram pela versão original de Mussorgsky). Uma coisa fantástica!

A par dos papéis operáticos em que se notabilizou, Boris Christoff revelou-se igualmente um excelente recitalista, e cantou e gravou um sem-número de canções russas. Que estão em grande número no disco aqui hoje trazido, excelentemente acompanhadas por canções de Mussorgsky. Gravações dos anos 50 do século passado, o que só vem reforçar a minha convicção, já várias vezes aqui expressa, de que a década de 1950 foi decididamente vintage...




Boris Christoff
Lebendige Vergangenheit, Volume 3.
Boris Christoff (baixo), Gerald Moore (piano)
The Feodor Potojinski Russian Choir
Orchestre National de la Radiodiffusion Française
Georges Tzipine
Preiser PR89713
(1951, 1955, 1957)


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Boris Christoff
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Quinta-feira, Maio 14, 2009

Compositores #93: Joly Braga Santos (1924-1988)

Joly Braga Santos foi um dos mais importantes sinfonistas da história da música portuguesa, senão mesmo o maior, mas nem assim consta da maioria dos livros dedicados a estes assuntos. Isto diz-nos algo sobre os autores de tais livros, pois claro, mas evidencia ao mesmo tempo a incapacidade deste país em promover os seus maiores vultos. Os próprios portugueses não querem saber deles para nada, pelo que a situação não se afigura demasiadamente preocupante...

Desde muito cedo que Joly Braga Santos se inspirou no folclore português para as suas composições, o que não deixa de ser algo de muito interessante; é que, com apenas 24 anos, foi estudar direcção de orquestra para Itália com Hermann Scherchen (1891-1966), igualmente professor de, entre outros, Bruno Maderna (1920-1973) e Luigi Nono (1924-1990). Que é como quem diz, estava em contacto directo com alguns dos expoentes da moderna música europeia mas, com particular destaque nas suas primeiras obras, procurou fazer a ponte com a música tradicional portuguesa. Datam deste período as suas primeiras 4 sinfonias, sendo de referir que tinha apenas 27 anos de idade quando terminou a .

Joly Braga Santos nasceu há 85 anos, no dia 14 de Maio de 1924.


CDs





Joly Braga Santos
Staccato brilhante, Op.63. Divertimento No.2. Concerto in D, Op.17.
Sinfonietta. Elegia a Vianna da Motta.

Orquestra Clássica do Porto
Meir Minsky
Koch Schwann 315102

Joly Braga Santos
Symphonies - No.1; No.5.
Portuguese Symphony Orchestra
Álvaro Cassuto
Marco Polo 8.223879

Joly Braga Santos
Symphonies - No.3; No.6.
Ana Ester Neves (soprano)
Chorus of Teatro Nacional de Sao Carlos
Portuguese Symphony Orchestra
Álvaro Cassuto
Marco Polo 8.225087
(1997)

Joly Braga Santos
Symphony No.2 in B minor. Crossroads.
Bournemouth Symphony Orchestra
Álvaro Cassuto
Marco Polo 8.225216
(2000)

Joly Braga Santos
Concerto for Strings in D. Sinfonietta. Variations concertantes.
Concerto for Violin, Cello, Harp and Strings.
Bradley Creswick (violino), Alexander Somov (violoncelo),
Sue Blair (harpa)
Northern Sinfonia
Álvaro Cassuto
Marco Polo 8.225186

Joly Braga Santos
Symphony No.4. Symphonic Variations on a Popular Song from the Alentejo.
National Symphony Orchestra of Ireland
Álvaro Cassuto
Marco Polo 8.225233

Joly Braga Santos
Staccato Brilhante. Nocturno for Strings. Divertimentos Nos.1 & 2.
Cello Concerto.
Jan Bastiaan Neven (violoncelo)
Algarve Orchestra
Álvaro Cassuto
Marco Polo 8.225271


Internet



Joly Braga Santos
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Domingo, Maio 10, 2009

Compositores #92: Arthur Honegger (1892-1955)

Nos finais da década de 1850 o pianista e compositor russo Mily Balakirev (1837-1910) fundou o Grupo dos Cinco, ambicionando criar uma escola de composição tipicamente russa. Em plena 1ª Guerra Mundial, a organização de um concerto no estúdio do pintor Émile Lejeune (1885-1964) deu origem, a partir de uma ideia de Erik Satie (1866-1925), a Les Nouveaux Jeunes, um grupo formado pelos mais relevantes compositores franceses da altura. Satie abandonaria o grupo cerca de um ano depois e, com os compositores que sobraram, em Janeiro de 1920 dar-se-ia o arranque oficial de Les Six, nome atribuído pelo compositor e crítico musical Henri Collet (1885-1951), que assim estabeleceu um óbvio paralelo com o referido Grupo dos Cinco.

Do grupo Les Six faziam parte Georges Auric (1899-1983), Louis Durey (1888-1979), Darius Milhaud (1892-1974), Francis Poulenc (1899-1963), Germaine Tailleferre (1892-1983) e Arthur Honegger (1892-1955). Este último, de ascendência suíça, passou por ser um dos mais importantes do grupo, apesar de, conforme reconhecido pelo próprio, não ter fortes laços musicais com os restantes membros, e da sua ligação aos movimentos de reacção aos ideais impressionistas e wagnerianos, que estiveram na origem da criação do grupo, serem meramente superficiais. Honegger tinha origens germânicas, além de ter vivido e estudado algum tempo em Zurique, e quando chegou a Paris para estudar no Conservatório, em 1911, era um entusiasta da música de Richard Wagner (1813-1883), pelo que se compreenderão as suas reticências...

Naquela altura Honegger vivia em Le Havre, que fica a perto de 200Km de Paris, e deslocava-se à capital de comboio. Daqui terá nascido o seu fascínio por locomotivas, que serviu de inspiração para uma das suas mais conhecidas e bem sucedidas obras, Pacific 231 (2 pequenas rodas laterais à frente, 3 grandes rodas centrais e 1 roda atrás), composta em 1923 e estreada no dia 8 de Maio de 1924 pelo maestro Serge Koussevitzky (1874-1951).

Arthur Honegger nasceu há 117 anos, no dia 10 de Março de 1892.


CDs



Arthur Honegger
Symphonies - No.2; No.3, "Liturgique". Pacific 231.
Oslo Philharmonic Orchestra
Mariss Jansons
EMI 5 55122-2

Arthur Honegger
Symphonies - No.2; No.3, "Liturgique".
Berlin Philharmonic Orchestra
Herbert von Karajan
Deutsche Grammophon 423 242-2

Arthur Honegger
Sonatina, H80.
Bohuslav Martinu
Duo No.1, H157.
Johann Sebastian Bach
Die Kunst der Fuge, BWV1080 - Canon alla ottava; Canon alla
duodecima in contrapuncto all quinta.
Matthias Pintscher
Study I for 'Treatise on the Veil'.
Maurice Ravel
Sonata for Violin and Violoncello.
Frank Peter Zimmermann (violino), Heinrich Schiff (violoncelo)
ECM New Series 476 3150


SACD



Francis Poulenc
Gloria.
Arthur Honegger
Symphony No.3, H186, 'Liturgique'.
Luba Orgonásová (sop)
Netherlands Radio Choir
Royal Concertgebouw Orchestra
Mariss Jansons
RCO Live RCO06003


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Arthur Honegger
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Quinta-feira, Maio 07, 2009

CDs #204: Brahms, Sonates pour Violoncelle & Piano

Johannes Brahms (1833-1897) compôs dois concertos para piano e orquestra, datando o primeiro de 1858 e tendo composto o segundo 20 anos depois, entre 1878 e 1881. Por coincidência, foram também em número de 2 as sonatas para violoncelo e piano que compôs; a primeira foi concluída em 1865 e editada no ano seguinte, enquanto que a segunda foi escrita e estreada em 1886. A separá-las, portanto, exactamente... 20 anos! A uni-las, todavia, o facto de a primeira ter emprestado um andamento à outra.

Supõe-se que tal ter-se-á devido ao facto de a mãe de Brahms ter entretanto falecido, e o compositor achado que o adagio dessa primeira sonata não se coadunava com o ambiente de pesar resultante desse triste acontecimento. Como consequência disso, a primeira sonata ficou sem qualquer andamento lento, e a segunda ganhou um adagio absolutamente grátis...

Tal não impediu que a primeira sonata para violoncelo e piano de Johannes Brahms obtivesse um êxito imediato, tendo sido extraordinariamente bem recebida. Foi dedicada a Josef Gänsbacher, violoncelista amador e amigo do compositor, como agradecimento por ter mexido os cordelinhos que permitiram que Brahms fosse nomeado director da Singakademie de Viena, em 1863. Talvez isso explique o facto, pouco usual, de Brahms ter entrado no mundo das sonatas pela porta do violoncelo e não do violino; na verdade, compôs a sua primeira sonata para violino e piano apenas em 1879, quase uma década e meia depois da sonata para violoncelo.

Johannes Brahms nasceu há 176 anos, no dia 7 de Maio de 1833.




Johannes Brahms
Sonate Nº1 pour Violoncelle et Piano en mi mineur, Op.38.
Sonate Nº2 pour Violoncelle et Piano en fa majeur, Op.99.
Anklange, Op.7. Die Mainacht, Op.43.
Anthony Leroy (violoncelo), Sandra Moubarak (piano)
Zig Zag Territories ZZT070202
(2006)


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Johannes Brahms
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Segunda-feira, Maio 04, 2009

Lugares #186

Há muito, muito tempo, referi neste texto o facto de o Mosteiro de Leça do Balio ter sido a primeira sede da Ordem dos Hospitalários em Portugal, no início do século XII.

D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai do recém canonizado Nuno Álvares Pereira (1360-1431), foi prior dessa Ordem e responsável, entre outras obras, pela edificação da fortaleza da Flor da Rosa e do Castelo da Amieira. Há uns bons anos atrás tivemos a oportunidade de passar uns dias no Crato e agora, a pretexto de mais um desafio ciclístico, pernoitámos na Casa do Chão do Prior, situada na aldeia de Amieira do Tejo e localizada a poucos metros do castelo.




Um programa perfeito, evidentemente: fim-de-semana prolongado, saudável competição desportiva (cheguei direito ao fim...) e passeio familiar, que incluía uma visita ao castelo. Que não se realizou, pois este encontra-se "encerrado temporariamente para obras", de acordo com a explicação fornecida no site do IPPAR. Uma vez na vida bem que podíamos encontrar um monumento aberto... once in a lifetime:

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