10/07/2004

Poetas #1: António Manuel Couto Viana (1923-), Ermo

Eu vim ao mundo de hoje oito séculos antes
Da nuvem de napalm, antes do mar vazio,
A minha mãe: Espanha, de espadas arrogantes,
O meu pai: Portugal, em forma de navio.

Mas a espada oxidou, o navio perdeu
O rumo do ignoto, as velas da aventura,
E o germe que gerou a alma que sou eu
Estiolou no ventre da colheita futura.

Sou ermo neste mundo, frio no coração,
Uma lágrima ardente nos olhos da memória:
Ninguém para aprumar a pedra de um padrão!
Ninguém para lutar por orgulho da História!


António Manuel Couto Viana