12/09/2004

Lugares #14

Depois de Oliveira de Frades a paragem seguinte foi em Pinheiro de Lafões, terra do Dólmen de Antelas e de uma magnífica igreja.




As peripécias do passado tornaram-me sensível à coloração da pele alheia. Procedimento sensato: asseguro-me de que estão todos finos, fico bem visto pela família e ainda garanto a manutenção da limpeza interior da viatura. Bom para a vista, para o olfato e para o ego! Assim que a epiderme infanto-juvenil me pareceu normal partimos rumo a Ribeiradio, onde pude constatar o resultado do abandono da linha férrea do Vouga.



Perdeu-se o comboio, perdeu-se a linha, perdi a possibilidade de materializar uma das minhas memórias de infância. Perdeu-se aquele sentimento de perigo eminente, quando o carro do meu pai parava a meio da subida que leva à igreja de Ribeiradio, a minha mãe apeava-se e ia averiguar da eminência ou não de aparecer o foguete do Vouga na sua progressão ameaçadora. Só após gesto tranquilizador o nosso carro avançava e atravessava a linha. Quantas vezes aconteceu a minha mãe ainda mal ter saído do carro e já 3 ou 4 artistas do volante nos terem ultrapassado e prosseguido a marcha sem hesitações. Mas eu preferia assim: aquele ritual dava um ar misterioso e de suspense à viagem, e enquanto parados não havia curvas... Bom para a imaginação e para o bem estar físico. Hoje passa-se tranquilamente, não há vestígios que indiquem que um dia por ali passaram fumarentos monstros de ferro. Quem não souber, passa lá e sem saber continuará.



A altura era de festa, a igreja enfeitada, as pessoas menos melancólicas, o comércio mais animado. Também havia música, pareceu-me que do agrado geral; a minha ignorância, contudo, não me permitiu identificar nenhum dos compositores. Musicavam poemas portugueses, pareceu-me, custa-me admitir ter sido igualmente incapaz de lhes associar os nomes dos poetas.






A seguir: antes do regresso