Quinta-feira, Setembro 30, 2004

CDs #6: Saint-Saëns (1835-1921), Le Carnaval des Animaux

Por vezes há coisas que ficam interminavelmente na lista de compras. Aconteceu no meu caso com O Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, que por lá andou uma boa dezena de anos. Assunto agora resolvido com um CD emitido pela Virgin Classics no ano passado, e acabado de receber. Boas audições para a véspera do Dia Mundial da Música!


CD

Camille Saint-Saëns
Le Carnaval des Animaux.
Fantaisie pour violon & harpe, Op.124.
Romance pour violoncelle & piano, Op.36.
Prière pour violoncelle & piano, Op.158.
Mon coeur s'ouvre à ta voix (Samson et Dalila).
Septuor pour piano, trompette, 2 violons, alto, violoncelle & contrebasse, Op.65.
Renaud Capuçon, Esther Hoppe (violins), Gautier Capuçon (cello), Frank Braley, Michel Dalberto (pianos), Emmanuel Pahud (flute), Paul Meyer (clarinet), David Guerrier (trumpet), Marie-Pierre Langlamet (harp), Béatrice Muthelet (viola), Janne Saksala (double-bass), Florent Jodelet (percussion)
Virgin Classics 5 45603 2





Internet

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Setembro 29, 2004

Ordem de Malta - 2

Quando Saladino (1138-1193), Sultão do Egipto e da Síria, entrou em Jerusalém, os Hospitalários mudaram-se para S. João de Acre, onde permaneceram por 84 anos, até 1290.


Saladino

Era a época das Cruzadas, ou da guerra santa contra os muçulmanos. A queda de Jerusalém iria levar o papa Gregório VIII a decretar a III Cruzada. Refira-se, por curiosidade, que o reinado deste Papa durou menos de 2 meses: eleito no dia 21 de Outubro de 1187, faleceria no dia 17 de Dezembro do mesmo ano.


Gregório VIII

Em 1291, S. João de Acre também acabaria por cair, e a Ordem dos Hospitalários mudou-se para Chipre. Por lá ficariam até 1309, convivendo com a Ordem dos Templários. Talvez por isso, ou pelo facto de não estarem autorizados a alargar os seus condomínios, os Hospitalários decidiram procurar outras paragens. O local escolhido foi a ilha de Rodes.




continua

Terça-feira, Setembro 28, 2004

Invasões Francesas #1

Numa altura em que se comemoram os 194 anos passados sobre a Batalha do Buçaco, que teve lugar a 27 de Setembro de 1810, aproveito a oportunidade para fazer uma breve descrição das três invasões francesas, e do significado profundo que elas trouxeram à expressão "levar na tarraqueta", aqui entendida como estar numa situação difícil e não relacionada com quaisquer actos sodómicos... Comecemos então pela 1ª invasão:

Em 1807, Napoleão Bonaparte (1769-1821) decidiu invadir Portugal, independentemente de eventuais tratados que estavam a ser negociados com Espanha, e que previam a simpática partilha entre eles deste nosso país, colónias incluídas. Para o efeito Napoleão organizou uma força de 28000 homens, comandados pelo general Junot (1771-1813), que chegaria a Lisboa no dia 30 de Novembro desse mesmo ano.



No ano seguinte Napoleão preparou a ocupação de Espanha, e a 6 de Junho o seu irmão José Bonaparte (1768-1844) foi mesmo nomeado rei constitucional, reinado que se prolongaria até 1813. Tarde demais terão os nossos vizinhos espanhóis descoberto que o herói francês não era homem para ver a sua ambição tolhida por meros acordos estabelecidos entre os dois países...


José Bonaparte

Já por essa altura havia inúmeros focos de resistência organizada, tendo este levantamento espanhol alimentado a revolta popular em Portugal.

No dia 1 de Agosto as tropas inglesas, sob o comando de Wellesley (1769-1852), mais tarde Duque de Wellington, desembarcaram em Portugal, perto da Figueira da Foz.



A 17 de Agosto, em Roliça, o exército anglo-luso enfrentou o francês, comandado pelo general Laborde. A vitória não foi absoluta, mas os franceses viram-se forçados a bater em retirada.

A 21 de Agosto nova batalha, desta vez no Vimeiro. Resultado: num espaço de 5 dias os franceses levaram duas vezes na tarraqueta.



Assinar-se-ia então a 30 de Agosto de 1808 a Convenção de Sintra, que formalizou a saída do exército francês. Foi assinada entre a França e a Inglaterra, esqueceram-se de envolver Portugal, que não foi tido nem achado. Apenas espoliado, porque no caminho do regresso, qual bando de ladrões, os franceses levaram tudo o que puderam...

Links

http://www.arqnet.pt/portal/portugal/invasoes/inv1807.html

http://www.arqnet.pt/dicionario/wellington.html



continua

Etiquetas: , , , , , ,

Segunda-feira, Setembro 27, 2004

Lugares - 20

Nos finais do século XVI a anterior prosperidade de Brugge não passava de uma recordação, chegando mesmo a ser considerada a cidade mais pobre da Bélgica em meados do século XIX. A revolução industrial passou-lhe ao lado.



Guido Gezelle (1830-1899), nascido em Brugge, era então o mais famoso poeta de língua flamenga. A casa onde viveu foi entretanto transformada em museu.

A obra "Bruges La Morte" de Georges Rodenbach (1855-1898) dá uma visão de uma cidade adormecida, embora misteriosa, e pelo sucesso obtido na altura ajudou à divulgação da cidade e quiçá à sua reanimação.



É por essa altura que se inicia a construção de um novo porto de mar, inaugurado em 1907, que contribuiu significativamente para a recuperação económica da cidade através da reanimação do comércio. Os seus efeitos notaram-se principalmente no período final do último século.

Brugge manteve um conjunto arquitectónico notável, com inúmeros edifícios nos estilos barroco e gótico. Aliando a isso os vários canais que atravessam a cidade, qual Veneza nórdica, e estavam criadas as condições para a tornar num pólo de atracção turística, o que veio a suceder no decorrer do século XX. É hoje uma das cidades medievais mais bem conservadas da Europa.

A seguir: Brugge vista pela óptica do desNORTE

Sábado, Setembro 25, 2004

Ordem de Malta - 1

Fundada em Jerusalém no século XI seguindo o ideal cavaleiresco da Idade Média, a Ordem de S. João de Jerusalém começou com a organização de um hospício religioso, a que se seguiu a criação de um hospital. A finalidade era, em ambos os casos, a de dar assistência aos peregrinos e aos doentes. Por estes factos ficou também conhecida por Ordem dos Hospitalários. O seu fundador foi Gerardo de Tenque, que faleceu em 1120.



A 15 de Fevereiro de 1113 o Papa Pascoal II (Papa entre 1099 e 1118, ano da sua morte) aprovou os estatutos da Ordem e concedeu-lhe inúmeros privilégios.



Raimundo de Puy, que sucedeu a Gerardo de Tenque à frente da Ordem, juntou a componente militar à hospitalar, com o objectivo de defender os peregrinos dos sarracenos.



A essa função seriam adicionadas posteriormente a defesa dos Lugares Santos e o apoio às Cruzadas.

continua

Quinta-feira, Setembro 23, 2004

Lugares - 19

Durante os séculos XIV e XV Brugge cresceu e prosperou: aproximou-se dos 50.000 habitantes e tornou-se numa das mais ricas cidades europeias.



Veio depois o declínio: a concorrência de Antuérpia, com um porto bem maior, o declínio da indústria têxtil e, principalmente, o assoreamento do canal que ditou o fecho do acesso ao mar do Norte, tiveram consequências devastadoras para a cidade.

Ainda assim os séculos XV e XVI viram uma importante escola de pintura flamenga desenvolver-se na cidade, de onde se podem destacar Jan van Eyck (1395?-1441), Hans Memling (1430?-1494), Hugo van der Goes (1440?-1482) e Rogier van der Weyden (1399?-1464). Aparentemente não se dava muita importância à data em que viam pela primeira vez a luz do dia, apenas há certezas quanto aquela em que esticaram o pernil...


Jan van Eyck, The Virgin of Chancellor Rolin


Hans Memling, The Mystic Marriage of St. Catherine


Hugo van der Goes, Adoration of the Shepherds


Rogier van der Weyden, Middelburg Altarpiece

Neste período a influência da pequena cidade de Brugge estendia-se pela Europa. Os mercadores de países como Portugal, Espanha ou Itália que durante o século XV vinham até estas paragens estabeleciam também as pontes culturais e ajudavam a espalhar o prestígio e a influência da escola flamenga de Brugge.

A seguir: até aos nossos dias

Quarta-feira, Setembro 22, 2004

Lugares - 18

Capital da Flandres Ocidental, Brugge é uma pequena cidade belga com cerca de 45.000 habitantes, ligada ao Mar do Norte por um extenso canal (braço de mar) de cerca de 13 km.



Foi nas margens desse canal que entre os séculos VII e IX se estabeleceu uma pequena comunidade. O século XII revelou-se marcante para Brugge, tendo sido elevada a cidade. Por esta altura já se tinha tornado num importante porto internacional, importância que seria posteriormente reduzida por efeito da concorrência de Génova e Veneza.

No século XIV deu-se a tentativa de anexação da Flandres por parte da França, tornada infrutífera pela população primeiro, em Maio de 1302, e pelo exército da Flandres depois, em Julho do mesmo ano.



Na batalha contra os franceses distinguiram-se em particular Jan Breydel, que dá o nome ao actual estádio do F. C. Brugge, e Pieter de Coninck, devidamente lembrados pela estátua existente na praça principal, Markt.

A seguir: os séculos XIV a XVI

Terça-feira, Setembro 21, 2004

Lugares - 17

Na Serra da Freita há um local especial, destino de inúmeras peregrinações até há uns tempos atrás. O motivo dessas peregrinações, as chamadas pedras parideiras. Desenganem-se aqueles que achem que quem por lá encostar o traseiro (!) resolve o problema da infertilidade... Elas têm esse nome por que são pedras que parem pedras, fenómeno antigo e muito raro no mundo, conforme se pode ver na descrição existente no local e nos links que aqui deixo. E já sabe: se parou o carro para ver a aldeia da Castanheira (ver post de 15 de Setembro), ao regressar não entre logo nele: atravesse antes a rua, suba 50 metros e talvez assista a um histórico e feliz parto!





Links

http://www.terravista.pt/fernoronha/1516/abrete.html
http://arouca.blogs.sapo.pt/arquivo/252445.html
http://www.cm-arouca.pt/directorio/municipio/ambiente_fisico.php

Segunda-feira, Setembro 20, 2004

Notícias - 5

Da última edição do Expresso:

"Bispos não querem concertos em igrejas
Os bispos portugueses querem proibir concertos de música clássica nos templos e «outras actividades» (...) "

Há três razões que me levam a visitar uma igreja: por obrigação, para apreciar a igreja propriamente dita e para assistir a concertos. Aparentemente os bispos portugueses, numa atitude difícil de compreender, preparam-se para reduzir esses motivos a apenas dois.

Não vou aqui lembrar todas as obras extraordinárias que foram compostas por encomenda da própria igreja, católica, anglicana, ou outra. Não vou questionar a que «outras actividades» os nossos estimados bispos se referem e a que atribuem a mesma gravidade dos ditos concertos. Espanto-me, isso sim, sobre a leviendade com que esses mesmos bispos, por norma interna, ignoram séculos de história e apagam a música erudita dos seus templos.

Pergunto-me, também, se planeiam emitir alguma nota interna sobre a qualidade das músicas tocadas durante as cerimónias religiosas em grande parte das igrejas deste país? Afinal qual é a «actividade» mais danosa? Ouvir uma cantata de Bach numa igreja católica de Portugal ou música pimba em versão sagrada durante uma missa dominical? Terão porventura os digníssimos senhores bispos adoptado a máxima: música barroca, nunca!, só bacoca...

Eu fico-me por Bach, e por isso o disco do dia no desNORTE é:

Johann Sebastian Bach
Cantatas Nos.136, 138, 95 & 46
Bach Collegium Japan, Masaaki Suzuki
BIS CD-991



Boas audições!!!

Domingo, Setembro 19, 2004

Mitologia #7

Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), poeta, dramatista e ensaísta austríaco, ficou famoso no seu tempo essencialmente devido à sua colaboração com o compositor alemão Richard Strauss (1864-1949). É com base num texto de von Hofmannsthal que Strauss compôs a ópera Ariadne auf Naxos, que teve a sua estreia no dia 23 de Outubro de 1912, em Estugarda.



Conforme apresentado em 23 de Agosto no texto "Mitologia #3", Teseu abandonou Ariadne na ilha de Naxos após ter morto o Minotauro, e é este o ponto de partida para o enredo. Ariadne ficou por lá a lamentar-se do abandono a que foi votada, quando Zerbineta e o seu grupo de comediantes a tentam animar de todas as formas possíveis.



Não tinha havido ainda grandes progressos na tentativa de alegrar Ariadne, senão quando chega à ilha Dionísio (Baco, em lídio), deus do vinho.



De início Ariadne tomou-o por mensageiro da morte, mas em breve apaixonar-se-iam um pelo outro, tendo-a Dionísio levado para o Olimpo já como sua noiva, para contentamento de Zerbineta. Coisa bonita, a apelar ao sentimento.




CDs

Richard Strauss
Ariadne auf Naxos.
Elisabeth Schwarzkopf, Irmgard Seefried, Rita Streich, Rudolf Schock, Hermann Prey
Philharmonia Orchestra
Herbert von Karajan
EMI 5 67077-2



Richard Strauss
Ariadne auf Naxos.
Gundula Janowitz, Sylvia Geszty, James King, Theo Adam,
Peter Schreier, Hermann Prey
Orchester der Staatsoper Dresden
Rudolf Kempe
EMI 7 64159-2




DVD

Richard Strauss
Ariadne auf Naxos.
Jessye Norman, Kathleen Battle, Tatiana Troyanos, James King
The Metropolitan Opera Orchestra
James Levine
Deutsche Grammophon 073 028-9



Internet

http://www.metopera.org/synopses/ariadne.html
http://www.evermore.com/azo/96season/aan_syn.php3
http://www.losangelesopera.com/learn_more/article_detail.asp?productionid=178&articleid=107
http://www.emiclassics.com
http://www.deutschegrammophon.com

Etiquetas: , , , , , ,

Sexta-feira, Setembro 17, 2004

Lugares - 16

O pretexto para a ida a Nelas foi a Festa / Feira do Vinho do Dão. O regresso ao Porto foi já entretanto descrito em dois posts anteriores.



Em simultâneo com a feira do vinho realizou-se um desfile de carros antigos e uma feira de artesanato. Para evitar acusações de promoção contínua do alcoolismo (ver igualmente post de 7 de Agosto, dedicado à Feira do Alvarinho, da Caça e Pesca e da Gastronomia, em Monção), desta vez as fotografias ficam-se pela exibição dos calhambeques... Não ficaram mal nas fotos, embora deva admitir que na altura, depois de um belo almoço regado a tinto, me pareceram ainda mais admiráveis!



Quinta-feira, Setembro 16, 2004

CDs #5: Arthur Bliss, Concerto para Piano

O Concerto para Piano de Arthur Bliss (1891-1975) foi composto para a Exposição Universal de 1939, em Nova Iorque. Bliss compô-lo tende em mente Solomon. A estreia foi no dia 10 de Junho de 1939, com Solomon ao piano e a Orchestra Filarmónica de Nova Iorque dirigida por Adrian Boult.
Em audição no desNorte.




Arthur Bliss
Concerto for Piano and Orchestra in B flat major.
Sonata for Piano. Concerto for Two Pianos and Orchestra.
Peter Donohoe, Martin Roscoe (pianos)
Royal Scottish National Orchestra
David Lloyd-Jones
Naxos 8.557146


Internet

http://www.naxos.com/mainsite/default.asp?label=Naxos
http://www.schirmer.com/composers/bliss/bio.html
http://www.musicweb.uk.net/bliss/

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Setembro 15, 2004

Viagens - 1

O desNORTE anda esta semana por terras mais a norte (da Europa). Os posts serão por isso mais irregulares. Mas, por outro lado, aparecerão mais temas para abordagem futura. É caso para dizer que "não há senão sem bela"...

Lugares - 15

Em plena Serra da Freita existe uma pequena aldeia, de seu nome Castanheira. Ficam as fotos. Não ficam, contudo, as fotos de alguns mamarrachos que cresceram entretanto lá no meio. É incrível ver as coisas que se permitem fazer neste país. Chamam-lhe progresso... mas são outros os nomes que me ocorrem. Se tiverem oportunidade de lá ir certamente que saberão escolher os adjectivos adequados.







Segunda-feira, Setembro 13, 2004

CDs #4: Johann Hummel (1778-1837), Sonatas para Piano

Em audição, de um compositor imortal enquanto vivo e largamente ignorado depois de morto. Outras histórias para outras alturas, agora é tempo de apreciar a interpretação de Stephen Hough e dar um pequeno contributo para uma maior divulgação de Hummel.


Hummel
Sonatas para Piano: Opp. 81, 106 & 20.
Stephen Hough
Hyperion CDA67390




Internet

http://www.classical-composers.org/cgi-bin/ccd.cgi?comp=hummel
http://www.stephenhough.com
http://www.hyperion-records.co.uk/

Etiquetas: ,

Domingo, Setembro 12, 2004

Lugares #14

Depois de Oliveira de Frades a paragem seguinte foi em Pinheiro de Lafões, terra do Dólmen de Antelas e de uma magnífica igreja.




As peripécias do passado tornaram-me sensível à coloração da pele alheia. Procedimento sensato: asseguro-me de que estão todos finos, fico bem visto pela família e ainda garanto a manutenção da limpeza interior da viatura. Bom para a vista, para o olfato e para o ego! Assim que a epiderme infanto-juvenil me pareceu normal partimos rumo a Ribeiradio, onde pude constatar o resultado do abandono da linha férrea do Vouga.



Perdeu-se o comboio, perdeu-se a linha, perdi a possibilidade de materializar uma das minhas memórias de infância. Perdeu-se aquele sentimento de perigo eminente, quando o carro do meu pai parava a meio da subida que leva à igreja de Ribeiradio, a minha mãe apeava-se e ia averiguar da eminência ou não de aparecer o foguete do Vouga na sua progressão ameaçadora. Só após gesto tranquilizador o nosso carro avançava e atravessava a linha. Quantas vezes aconteceu a minha mãe ainda mal ter saído do carro e já 3 ou 4 artistas do volante nos terem ultrapassado e prosseguido a marcha sem hesitações. Mas eu preferia assim: aquele ritual dava um ar misterioso e de suspense à viagem, e enquanto parados não havia curvas... Bom para a imaginação e para o bem estar físico. Hoje passa-se tranquilamente, não há vestígios que indiquem que um dia por ali passaram fumarentos monstros de ferro. Quem não souber, passa lá e sem saber continuará.



A altura era de festa, a igreja enfeitada, as pessoas menos melancólicas, o comércio mais animado. Também havia música, pareceu-me que do agrado geral; a minha ignorância, contudo, não me permitiu identificar nenhum dos compositores. Musicavam poemas portugueses, pareceu-me, custa-me admitir ter sido igualmente incapaz de lhes associar os nomes dos poetas.






A seguir: antes do regresso

Etiquetas: ,

Sábado, Setembro 11, 2004

Lugares - 13

Esta manhã seria uma como a de (quase) todos os outros Sábados, começando com a corrida higiénica no Parque da Cidade do Porto. Corrida sim, mas de higiénica pouco teve. Não sei que tipo de evento terá tido lugar na extremedidade ocidental do parque, mesmo junto à praia. O balão com publicidade a uma marca de cerveja que ainda por lá flutua permite antever o filme: bandos de nortenhos sequiosos a humedecer as goelas com o líquido amarelado, e que melhor sítio para aliviar os inevitáveis apertos da bexiga que aquele muro apetecível, logo ali à mão de semear? Às 9h de hoje o pivete ainda era insuportável. Pulmão da cidade?! Talvez, mas só com uma mola no nariz. Bem vindos ao reino dos suínos.

Sexta-feira, Setembro 10, 2004

Elisabete de Wittelsbach (1837-1898)

Passam hoje 106 anos sobre o assassínio em Genebra da Princesa Sissi, às mãos de um anarquista italiano. Elisabete de Wittelsbach havia casado em 1854 com Franz Joseph, Imperador da Áustria, tendo sido coroada Raínha da Hungria em 1867.



Seguindo uma tradição da família Wittelsbach, Elisabete não era muito estável emocionalmente (forma simpática de descrever os seus problemas), tendo entrado em forte depressão quando se apercebeu que a sua sogra controlava em absoluto a sua vida e que quase não lhe era permitido ver os seus filhos.

Um dos locais escolhidos pela Princesa para repousar e recuperar da maleita foi a Ilha da Madeira, certamente um local menos badalado na altura, pela ausência do nosso inestimável Alberto João... Outros tempos, outros sossegos.

Links

Quinta-feira, Setembro 09, 2004

CDs #3: Johannes Brahms (1833-1897), Sinfonia Nº2

Voltando à Sinfonia Nº2 de Brahms (ver post de 25 de Agosto). Há uma gravação a que regresso insistentemente: foi feita em Abril de 1940, com a Concertgebouw Orchestra dirigida por Willem Mengelberg. Mengelberg, que foi o maestro principal dessa orquestra durante 50 anos, entre 1895 e 1945! Certamente que a ele voltarei mais tarde, por agora fico pela audição deste disco. Gravação antiga, há que dar uns segundos ao ouvido para se adaptar ao ruído de fundo. Depois disso, há apenas que desfrutar do previlégio de a poder ouvir, e verificar que em 60 anos as coisas não mudaram assim tanto.

Além da referida sinfonia, o cd contém ainda uma gravação da Sinfonia nº4, efectuada em Novembro de 1938.


Johannes Brahms
Sinfonia Nº2 Op.73. Sinfonia nº4 Op.98.
Concertgebouw Orchestra
Willem Mengelberg
(Telefunken Legacy)
Teldec 0927 42662 2

Etiquetas: , ,

Quarta-feira, Setembro 08, 2004

Mitologia - 6

O prometido é devido, e é chegada a altura de saltar da mitologia para a música e ver alguns exemplos de composições baseadas na lenda do herói grego Teseu.

Harrison Birtwistle, compositor inglês nascido em 1934, compôs Theseus Game a partir da aventura no labirinto e da forma engenhosa como Teseu de lá conseguiu sair (ver post de 18 de Agosto). Composição recente, datada de 2002 e tendo tido a sua première em Setembro de 2003, foi uma encomenda do Ensemble Modern e da London Sinfonietta.



A complexidade da obra faz com que tenha de haver dois maestros, cada um deles dirigindo diferentes grupos de músicos. Acresce ainda o facto de a formação desses grupos não ser estática: os músicos ora estão a ser dirigidos por um dos maestros ora estão-no a ser pelo outro... Os sucessivos solos instrumentais, realizados sequencialmente pelos vários instrumentos, estabelecem a ligação entre a linha melódica da obra e o desenrolar do novelo que Ariadne deu a Teseu.

CD

Harrison Birtwistle
Theseus Game. Earth Dances
Ensemble Modern, Martin Brabbins, Pierre-André Valade
Ensemble Modern Orchestra, Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 477 070-2



Links

http://www.deutschegrammophon.com/home.htms
http://www.ensemble-modern.com/
http://www.londonsinfonietta.org.uk/

Terça-feira, Setembro 07, 2004

Brasil - 1

D. Pedro IV (1798-1834) embarcou para o Brasil em 1807, de que foi nomeado regente em 1821.



Por essa altura a colonização portuguesa era posta em causa por muitos brasileiros, para quem a emancipação do domínio lusitano era o objectivo final. Por mais do que uma vez a Príncipe Regente, quando forçado a optar, se colocou ao lado dos brasileiros. Esta situação não era sustentável por muito tempo, e em 1822 tudo se precipitou. Após mais uma deliberação das Cortes de Lisboa que punha em causa todo o processo de autonomia, e estando por essa altura em viagem pelo Estado de S. Paulo, D. Pedro IV lançou, nas margens do rio Ipiranga, o famoso grito "independência ou morte". Foi a 7 de Setembro de 1822, faz hoje portanto 182 anos, deu a independência ao Brasil e ficou conhecido para sempre como o Grito do Ipiranga.

Segunda-feira, Setembro 06, 2004

Agradecimentos - 2

Ao Nelsu, uma preta!, acompanhado dos votos do maior sucesso ao CR.

Lugares #12

No último Domingo, a ideia inicial era regressar de Viseu utilizando o IP5, gorada de imediato pelo trânsito caótico da referida via. Admito a indevida utilização da palavra trânsito, que pressupõe que alguma coisa se move, o que não era certamente o caso...

Em alternativa decidimos matar saudades e regressar por S. Pedro do Sul, fazendo o mesmo percurso que os meus pais faziam sempre que iam ver a família ou os terrenos que lá possuíam. Na altura tanto eu como o meu irmão éramos putos, e aquelas viagens eram inesquecíveis. Não tanto pela beleza da paisagem, algo a que não éramos particularmente sensíveis, mas pelas malditas curvas e curvinhas entre Sever de Vouga e Oliveira de Frades. Eu desenvolvi um ódio de estimação por aquela viagem; sabia de antemão que me esperava um terrível enjoo, não perto do destino, mas logo ali ao fim do segundo quilómetro de curvas. Atingido o ponto limite (pela experiência acumulada, a decisão de parar o carro já não se baseava apenas na cor da nossa pele, haveria um outro conjunto de parâmetros que eu nunca consegui apreender), o meu pai lá parava o carro, nós fazíamos aquilo que o organismo tinha determinado, e prosseguíamos. Quando por fim o suplício serpentuoso terminava, as duas criaturas amarelas que tinham conseguido sobreviver sentadas no banco de trás procuravam aguentar-se nas pernas o suficiente para se afastarem daquele instrumento de tortura sobre rodas, se possível sem fazerem figuras demasiado tristes. A odisseia acabava normalmente com aquela expressão familiar: "Ai coitadinhos, que vêm tão amarelinhos!". Ainda hoje não sei o que me custava mais, a indisposição ou a humilhação.

O regresso não era tão complicado, o estômago não se dispunha a ser apanhado desprevenido duas vezes no mesmo dia. Lembro-me claramente daquilo que, na altura, era para mim o percurso do terror: Porto - S. João da Madeira - Vale de Cambra - Sever do Vouga - (enjoo) - Ribeiradio - Oliveira de Frades - S. Pedro do Sul - Viseu.

Há mais de dez anos que não fazia este percurso. Dada a hora tardia a que saímos de Viseu não haveria tempo para efectuar muitas paragens, houve que optar. A primeira, coisa de poucos minutos, foi feita em Oliveira de Frades, terra dos meus avós paternos e do meu pai. A fotografia mostra a Câmara Municipal, onde ambos chegaram a trabalhar. Por que acho que fica bonito, incluo também o Brasão e o Estandarte da Vila de Oliveira de Frades.





Em próximo(s) post(s) relatarei o resto do passeio.

Etiquetas:

Domingo, Setembro 05, 2004

Compositores #3: Witold Lutoslawski (1913-1994)

Na passagem dos 10 anos da morte do compositor polaco Witold Lutoslawski, deixo aqui uma pequena biografia, alguns discos e uns quantos endereços virtuais para eventual consulta.



Talento precoce, Lutoslawski desde muito cedo mostrou uma enorme aptidão para a música. Não teve, todavia, vida fácil: terminados os estudos na sua cidade natal, Varsóvia, não lhe foi permitido prossegui-los em Paris, como era seu desejo, visto os seus serviços terem sido requisitados para ajudar ao esforço de guerra. Chegou mesmo a estar preso pelos alemães, mas lá arranjou forma de escapar e regressar a Varsóvia. Por essa altura, e estamos a falar do início dos anos 40, em plena 2ª guerra mundial, Lutoslawski formou um duo com outro bem conhecido compatriota, o compositor Andrzej Panufnik (1914-1991). Tocavam piano nos cafés da cidade, interpretando obras por eles compostas e transcrições de obras de outros compositores.

O fim da guerra não lhe resolveu todos os problemas, viu mesmo a sua 1ª sinfonia ser banida pelo regime estalinista.

Fortemente influenciado por Debussy, Ravel, Stravinsky e Bartók, as suas últimas composições pertencem essencialmente a dois géneros musicais: o vocal e o sinfónico. É desta fase que data a Sinfonia Nº4, uma das suas mais conhecidas obras.


CDs




Links

http://www.culture.pl/en/culture/artykuly/es_lutoslawski
http://www.bbc.co.uk/cgi-perl/music/muze/index.pl?site=music&action=biography&artist_id=47539
http://www.schirmer.com/composers/lutoslawski/bio.html

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Setembro 03, 2004

Lugares - 11

O banho de Verão que acabou de me ensopar os ossos teve o condão de me fazer recuar a Junho e à oportuníssima ponte que o dia 10 erigiu. Num rápido movimento, em vez de olhar para cima e ver os deuses furiosos, olhei para trás no tempo e voltei a ver a magnífica casa em Odemira que, graças ao deus Sol, nunca contribuiu para os proventos da EDP...



Destino natural de uma das incursões foi o Cabo Sardão, onde a companhia ao farol, com excelente aspecto para quem está em vias de chegar aos 90, é garantida por uma apreciável quantidade de cegonhas brancas, entre outros animais alados que por lá graciosamente pairam.







Links

http://www.janelanaweb.com/viagens/cabo_sardao.html

Quinta-feira, Setembro 02, 2004

Gregori Alexandrovich Potemkine (1739-1791)

O nosso amigo Potemkine estudou na Univerdade de Moscovo e entrou posteriormente para o exército russo, onde iria construir a sua carreira e chegar a comandante supremo.



Teve um papel distinto na primeira guerra contra o Império Otomano, que tinha entrado em declínio já na segunda metade do século XVII, tornando-se favorito de Catarina II em 1774 e conde em 1776.



Potemkine anbicionava o desmantelamento do Império Otomano e o estabelecimento de um Cristão no seu lugar. Desempenhou igualmente um papel relevante na anexação da Crimeia, em 1783, tendo então sido nomeado governador da nova província.

E assim chegamos ao ponto principal desta prosa: reza a lenda que foi precisamente no desempenho dessa função que, aquando da visita de Catarina II, para a impressionar e dar a ideia de paz e prosperidade, construiu inúmeras casas de fachada, coisa feita em grande escala, aldeias inteiras de casas com imponentes fachadas... mas só isso: por detrás delas nada havia! Nasceu daqui a expressão "aldeias de Potemkine".

Possivelmente não passa disso mesmo, de uma lenda; não há evidências que a suportem, nem indícios que a sustentem, dada a competência repetidamente evidenciada por Potemkine, nada compatível com semelhantes artimanhas. Mas uma coisa é certa: da fama o nosso homem não se livra...

Quarta-feira, Setembro 01, 2004

São Tomé e Príncipe - 1

A úlima edição da revista Fortune tem um pequeno artigo sobre a descoberta de petróleo em São Tomé e Príncipe, e especula sobre as suas possíveis consequências para o futuro desse país. Muitas questões e poucas respostas, pois os exemplos que abundam não deixam lugar a certezas absolutas nem a optimismos desmesurados. Antes de passarmos a essa parte, contudo, registem-se estes números para termos uma ideia do que estamos a falar:

Orçamento anual do Estado: 55 milhões de dólares (um quinto do orçamento anual da Biblioteca Pública de Nova Iorque...)

Montante que o consórcio ChevronTexaco e Exxon Mobil vai pagar para explorar uma das jazidas: 123 milhões de dólares

Número de jazidas já descobertas: 9

A história poderá contudo não ser tão simples como estes números poderão dar a entender. É que não há necessariamente uma relação directa entre os níveis de produção de petróleo de um país e o nível de vida da sua população. E quando procuramos esta ligação nos países africanos ainda mais ténue ela se revela. Senão vejamos:

Segundo o Boletim Anual Estatístico de 2003 emitido pela OPEP, foram os seguintes os maiores produtores de petróleo (em milhões de barris por dia, e incluindo apenas países membros dessa organização)



Atentemos agora nas tabelas seguintes (clicar sobre a imagem para obter uma versão mais legível)




Além de três países exportadores de petróleo (México, Venezuela e Nigéria) incluí igualmente Portugal e Espanha, para facilitar as comparações. Os valores mostrados em cada tabela foram obtidos de fontes diferentes: da revista The Economist, do já referido relatório da OPEP e do The World Factbook da CIA (que pode ser consultado via internet).

Vejam-se os valores do PIB per capita, da mortalidade infantil ou da expectativa de vida; reparemos no número de médicos por 1000 habitantes, ou no número de computadores: Portugal e Espanha estão claramente à frente de qualquer um deles. E, por último: que dizer da Nigéria? Alguém desconhecedor do assunto conseguiria dizer, pelos dados exibidos, que estamos perante o quinto ou sexto maior produtor de petróleo dos países da OPEP? Quais os benefícios que isso trouxe para os nigerianos? Com o quase nulo investimento na educação e no ensino, como é que poderão progredir?

O que é que vai suceder no caso de São Tomé e Príncipe? Só o tempo o dirá. Se não seguirem o exemplo do seu vizinho mais a sul, Angola, já terão pelo menos evitado um passo na direcção errada...


referer referrer referers referrers http_referer