31/03/2005

Lugares #65

Em Janeiro deste ano passei umas horas em Trier, e do que por lá vi deixei registos aqui e aqui. O destino seguinte foi Bruxelas, o que, dado o adiantado da hora, fez com que atravessasse o Luxemburgo como quem passa pela Igreja do Bonfim para ir ver o jogo ao Estádio do Dragão: ela está lá, mas os passantes apressados nem reparam, preocupados como andam com os caminhos erráticos dos seus (ex-)heróis azuis! Havia pois que remediar o mal pelo que, na primeira oportunidade, fiz questão de lá parar e ficar a conhecer um pouco da Cidade do Luxemburgo.




Já deu para ver pelas primeiras fotografias que não foi desta que me livrei do gelo, para tirar a primeira nem foi preciso sair do quarto do hotel... Nas seguintes vemos a Catedral e o Palácio do Duque:



E nestas últimas podemos ver um bonito (digo eu) conjunto de plátanos (disseram-me os nossos amigos dos Dias com árvores, a quem se deverão dirigir no caso de dúvidas ou questões...), além de uma das personagens mais famosas lá do sítio, aqui em todo o seu esplendor:

30/03/2005

Revolução liberal #11

Os focos de resistência ao regime absolutista foram aparecendo um pouco por todo o lado mas, na maioria dos casos, foram sendo sucessivamente abafados. A Junta do Porto deu à sola em direcção à Galiza em Julho de 1828, o levantamento da Madeira terminou no mês seguinte, o único que sobreviveu foi o da ilha Terceira, após várias lições infligidas aos absolutistas. Os Açores transformaram-se assim no último reduto dos liberais.

Enganada no meio disto tudo estava D. Maria da Glória, filha de D. Pedro IV, que por esta altura, pelos acordos feitos, já deveria estar há muito casada com D. Miguel e com o trono a seus pés. D. Pedro enfrentava assim dois problemas: o primeiro, no Brasil, onde a contestação ao seu reinado subia de tom; o segundo, em Portugal, dado ser óbvio que D. Miguel nunca iria cumprir o prometido. Em Julho de 1831 D. Pedro abdica a favor de seu filho, D. Pedro de Alcântara, na altura com a apreciável idade de 5 anos (!), e decide regressar a Portugal, para fazer valer os direitos de sua filha.


D. Maria da Glória

Em Agosto desse ano deu-se um mal sucedido levantamento em Lisboa, prontamente esmagado pelos fiéis a D. Miguel. Entre os liberais revoltosos encontrava-se um conhecido escritor e historiador, que esteve em vias de ser guilhotinado. Sabem quem ele era?

Antes de D. Pedro chegar a território português, o que só viria a acontecer em 1832, já os apoiantes da causa liberal tinham conseguido alargar os seus domínios a todas as ilhas dos Açores. A última a cair em sua posse foi a de São Miguel, em Agosto de 1831. Igualmente vítimas de quedas foram os regimes britânico e francês, no decorrer de 1830, substituídos por governos mais sensíveis à causa liberal. Estavam assim reunidas condições mais favoráveis para que os opositores ao regime absolutista avançassem na tentativa da sua deposição.

continua

29/03/2005

CDs #28: Arturo Benedetti Michelangeli, Mozart & Beethoven

Desde que chegou anda num rodopio frenético e constante, ou não se desse o caso de termos ao piano Arturo Benedetti Michelangeli.



As gravações, inéditas ("two newly discovered broadcast recordings"), são de 1967 (Mozart) e 1975 (Beethoven). E com o disco não corremos o risco de sofrermos uma falta de comparência do artista. É que terão sido mais as turnés e os concertos cancelados por Michelangeli, muitos dos quais à última hora, do que aqueles que chegou a efectuar. Boas audições!



Mozart
Piano Concerto (No.20), K466.
Beethoven
Piano Sonata Nº3, Op.2 No.3.
Arturo Benedetti Michelangeli
Stuttgart Philharmonic Orchestra
Karl Münchinger
Music & Arts CD-1147

28/03/2005

Lugares #64

Azar do camandro! Certamente que cada um de nós deu o seu melhor nos últimos tempos: preces, institucionais ou não, rezas mais ou menos pagãs, dedos cruzados, macumbas, danças apropriadas, tudo terá servido para atrair chuva ao rectângulo sequioso. E não é que esta resolveu cair copiosamente logo no dia em que tínhamos um encontro inadiável com uma irresistível travessa de cabrito? Bem vistas as coisas, no aconchego do repasto tanto faz que na rua chova como não, e sempre daríamos o nosso apoio a quem tão dedicadamente organizou o IV Festival Gastronómico do Cabrito de Barroso, em Montalegre. Por isso, lá fomos!

Não sendo a máquina anfíbia, e dando-se o caso do próprio autor deste blogue ser assaz sensível a tudo o que caia do céu sob a forma líquida, repescámos umas fotografiazinhas lá tiradas não há muito tempo, em Dezembro do ano passado. Ainda dentro do prazo de validade, portanto...



Se bem se recordam, já anteriormente
por aqui se tinha falado de Montalegre, a propósito da corajosa debandada francesa que determinou o fim da 2ª invasão, e também neste postal, aquando da visita à ponte da Misarela. Seria uma desconsideração não dedicar um postal à própria vila de Montalegre, falha essa agora colmatada. As fotografias mostram-nos o respectivo castelo, construção do século XIII (foi mandado erigir por D. Afonso III) largamente modificada no decorrer do século seguinte, destacando-se as 4 torres ligadas por muralha arredondada.

27/03/2005

Exposições #6: Cruzeiro Seixas (1920-)

O motivo para irmos a Santo Tirso foi a exposição que lá esteve patente de obras do pintor surrealista Cruzeiro Seixas.



Decorrendo a exposição no Museu Abade Pedrosa, e ocupando este uma das aulas do antigo mosteiro beneditino de Santo Tirso, aproveitámos naturalmente para também o visitar. Ao Mosteiro de S. Bento, fundado no século X, foram adicionadas uma casa religiosa no século XI e a actual igreja, já no século XVII.




A forma como vemos as coisas vai sendo também moldada pelos comentários que vamos recebendo, chamando a atenção para insensibilidades gritantes. Até há algum tempo atrás não olhávamos devidamente para as criações da natureza, conforme notaram (acertadamente) os autores do blogue Dias com Árvores. Mais recentemente o autor do Blog do Alex realçou a nossa indiferença relativamente à heráldica. Olhando retrospectivamente aquilo que por aqui se foi mostrando somos forçados mais uma vez a dar a mão à palmatória, e começamos desde já a corrigir o erro mostrando o brasão que encima a entrada do museu:



E já que por ali andávamos de objectiva em riste, e os sinais de Primavera antecipada enchiam-nos a vista, não perdemos a oportunidade de embelezar o álbum...


26/03/2005

Compositores #27: Pierre Boulez (1925-)

O desNorte não pretende ser conhecido como o Blogue de Agramonte, pelo que sempre que a ocasião se proporciona faz o devido louvor aos vivos, nomeadamente aqueles que se vão ouvindo por estes recantos. Não poderia assim passar sem menção especial este dia, em que o compositor e maestro francês Pierre Boulez comemora o seu 80º aniversário.


Pierre Boulez

Desde a década de 70 que Pierre Boulez se tem dedicado principalmente à direcção de orquestras: Orquestra Sinfónica da BBC
, entre 1971 e 1974, Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, entre 1971 e 1978, onde sucedeu a Leonard Bernstein (1918-1990) e, desde 1995, maestro convidado da Orquestra Sinfónica de Chicago. Os anos 70 ficaram ainda marcados pela fundação do Ircam (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique) e do Ensemble Intercontemporain.

A influência de Boulez na música do século XX vem de antes, com a adopção do serialismo, método de composição iniciado por Schoenberg (1874-1951), e em particular com a publicação das Structures, em 1952, e de Le marteau sans maître, em 1954. Foi aliás na década de 50 que conheceu Karlheinz Stockhausen (1928-) e que juntos lideraram o vanguardismo na Europa. E assim, no dia em que o compositor e maestro completa 80 anos, nós aqui damos especial destaque à faceta de compositor:


CDs




Pierre Boulez
Répons. Dialogue de l'ombre double.
Alain Damiens (clarinete)
Ensemble Intercontemporain
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 457 605-2

Pierre Boulez
Sur Incises. Messagesquisse. Anthèmes II.
Jean-Guihen Queyras(violoncelo), Hae-Sun Kang (violino)
Ensemble Intercontemporain
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 463 375-2

Pierre Boulez
Rituel: In memoriam Maderna. Notations - I; II; III; IV & VII. Figures-Doubles-Prisme.
Lyon National Orchestra
David Robertson
Naïve Montaigne MO782163

Igor Stravinsky
Le Sacre du Printemps.
Claude Debussy
La Mer.
Pierre Boulez
Notations VII.
Chicago Symphony Orchestra
Daniel Barenboim
Teldec 8573-81702-2

Claude Debussy
12 Études.
Pierre Boulez
Piano Sonata No.2.
Maurizio Pollini
Deutsche Grammophon 471 359-2


Internet

http://w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/boulez.html
http://www.classical.net/music/comp.lst/boulez.html
http://www.radiofrance.fr/chaines/france-musiques/biographies/fiche.php?numero=95

25/03/2005

Concertos #9

Das 7 missas que o compositor austríaco Anton Bruckner (1824-1896) escreveu, as mais conseguidas foram as compostas na década de 60:

- Missa Nº1 em ré menor, composta em 1864 (revista em 1876 e 1881)
- Missa Nº2 em mi menor, composta em 1866
- Missa Nº3 em fá menor, composta em 1868


Anton Bruckner

É esta última que será interpretada esta noite na Igreja da Lapa, no Porto, com o Coro da Sé Catedral do Porto, dirigido por Engénio Amorim e a
Orquestra Nacional do Porto dirigida pelo seu maestro titular, Marc Tardue. Os solistas serão Christine Wolff (soprano), Annunziata Vestri (alto), Mário João Alves (tenor) e Jorge Vaz de Carvalho (baixo).



Desta feita os bilhetes foram substituídos por convites, o que normalmente torna as coisas mais difíceis para o público anónimo que quer assistir. Não é coisa de que me gabe particularmente, mas sempre posso admitir que só me safei através de uma pequena habilidade, usualmente designada por factor C. Foi a bem da arte, os deuses compreenderão!

Boa Páscoa e... boas audições!

24/03/2005

Lugares #63

Não estamos longe de colocar de novo à prova o provérbio "Em Abril águas mil", mas entretanto fomos aproveitando a secura dos últimos tempos para deambulações várias. Com este postal ficámos física e psicologicamente preparados para enfrentar o pivete emanado pelo rio Leça. Assim artilhados, estamos em condições de vaguear pelo distrito do Porto, indiferentes a eventuais odores menos agradáveis, vindos desse rio ou de qualquer outra fonte de mau cheiro criada pelo homem.

Em Alfena, concelho de Valongo, existe uma ponte medieval, a Ponte de S. Lázaro, à volta da qual se fez um pequeno mas agradável parque. Com uma pontinha de sorte ainda podem usufruir de típicas cenas bucólicas do campo, compondo um quadro dificilmente imaginável nas cidades de betão ali mesmo ao lado.



23/03/2005

Compositores #26: Franz Schreker (1878-1934)

Se houve compositores que pereceram nos campos de concentração, conforme há uns tempos atrás referi aqui e aqui, outros houve que pouco tempo viveram após a subida ao poder de Adolf Hitler, no início de 1933. Foi o caso do compositor austríaco Franz Schreker, nascido há exactamente 127 anos e falecido em Março de 1934.


Franz Schreker

O Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, liderado por Hitler, passou de uns meros 12 deputados em 1928 para 230 em 1932, evidenciando a popularidade das ideias anti-semitas que defendia. E foi em resultado disso que Schreker foi forçado a resignar aos cargos que exercia: o de director da Musikhochschule de Berlim, em 1932, e de professor na Academia Prussiana das Artes, em 1933. Estes acontecimentos acabaram por arrasar Schreker, que por duas vezes veio a Portugal (Estoril) procurando restabelecer-se: a primeira entre Novembro de 1931 e Janeiro do ano seguinte, a segunda no Verão de 1933. Regressaria a Berlim em Outubro, vindo a falecer no dia 21 de Março de 1934.

Aditamento

Virgílio Marques, autor do blogue Guilhermina Suggia, teve a amabilidade de me enviar uma mensagem explicando melhor as passagens de Franz Schreker por Portugal. A sua intenção seria então não só a de se recompor passando por cá uma temporada, mas sim a de por aqui ficar definitivamente. E tal só não aconteceu pelo facto de a sua esposa não suportar os portugueses, sentimento inultrapassável, que o fez regressar por duas vezes ao seu país.

Internet

http://www.schreker.org/index_e.htm
http://www.k-faktor.com/en/schreker.htm
http://www.boosey.com/pages/cr/composer/composer_main.asp?composerid=3390

22/03/2005

Revolução liberal #10

Juradas todas as fidelidades, o infante D. Miguel regressa a Portugal, onde chegou no dia 22 de Fevereiro de 1828. Tal como acordado com D. Pedro, assumiu a regência do reino e jurou novamente a Carta, não fosse haver ainda espíritos não totalmente convencidos de tanta lealdade.

D. Pedro IV
D. Miguel

Do ministério que formou faziam parte, entre outros, D. Nuno Caetano Alvares Pereira de Melo, 6º duque de Cadaval, e D. José Luís de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, 1º conde de Vila Real. Uns eram absolutistas puros e duros, outros nem tanto assim. O conde de Vila Real fazia parte do grupos dos nem por isso, pelo que não durou muito tempo no posto.

Pressionado pelos seus partidários para assumir de vez o poder, D. Miguel dissolve as cortes e volta a convocá-las em Maio, com um objectivo único: que o nomeassem
rei, cargo que passou a desempenhar oficialmente a partir de Junho de 1828.

A história estava em vias de se repetir, desta vez com os protagonistas a trocar de posições: quando o movimento de Agosto de 1820 instalou o regime liberal em Portugal, vários focos de resistência apareceram em diversos pontos do país. Agora, com D. Miguel finalmente no poder, foi a vez dos liberais e apoiantes de D. Pedro se sublevarem. E, mais uma vez, o fulcro desta resistência concentrou-se no Porto. Seguir-se-ia (mais) uma guerra civil, que terminaria apenas em 1834.

continua

21/03/2005

DVDs #7: Arthur Grumiaux (1921-1986)

No dia em que se assinalam os 84 anos passados sobre o nascimento do violinista belga Arthur Grumiaux, trazemos aqui um DVD com gravações suas efectuadas nos anos 60.


Arthur Grumiaux

Naturalmente que o som é mono e a imagem a preto-e-branco, mas uma vez sintonizados os tímpanos e as pupilas não há razão alguma para não desfrutar plenamente o disco. Como curiosidade, refira-se que Grumiaux era igualmente um pianista dotado, chegando a gravar sonatas para violino e piano em que tocou ambos os instrumentos...



Arthur Grumiaux
Felix Mendelssohn
Concerto for Violin and Orchestra in E minor, Op.64.
Nicolò Paganini
Caprice for Solo Violin in E flat major, Op.1 No.14.
Ludwig van Beethoven
Concerto for Violin and Orchestra in D major, Op.61.
Johann Sebastian Bach
Partita for Solo Violin No.2 in D minor, BWV1004: III - Sarabande; V - Chaconne.
Ernest Bloch
Baal Shem.
Orchestre National de l'ORTF
Manuel Rosenthal, Antal Dorati
EMI Classics DVB 4 90445-9

20/03/2005

Lugares #62

Qualquer alma penada já se deparou com indicações várias apontando o Caminho de Santiago. Ao contrário do que alguns indígenas poderão pensar, nem só as almas lusas penam, pelo que as de França, Hungria, Inglaterra e Itália, entre outros países, também se arvoram do mesmo direito de usufruir de tal caminho.

Pois bem, independentemente do ponto de partida, o de chegada era igual para todos os peregrinos: Santiago de Compostela. O culto vem do início do século IX, nascendo com a descoberta do túmulo do apóstolo Santiago, também conhecido como Santiago Mata-Mouros. Desconhecem-se eventuais conotações futebolísticas...

E em Santiago de Compostela o destino era a Catedral, situada na Praça do Obradoiro, que ganhou este nome graças às intermináveis obras para erguer os edifícios que a compõem: a Catedral, o Colégio de San Jerónimo, o Pazo Raxoi e o Hospital dos Peregrinos, na actualidade Parador de Santiago de Compostela (Hostal de los Reyes Católicos). Fosse neste rectângulo e a praça receberia certamente o nome de Santa Engrácia!



O hospital foi erigido no final do século XV, com o objectivo de apoiar os peregrinos que iam chegando. Feito apressadamente, não se aguentou sequer um século de pé, pelo que teve que ser reconstruído. Diz a história que a mesma rapidez não se verificou no pagamento ao arquitecto contratado e este, para mostrar o seu desagrado, providenciou que no tecto do claustro se esculpissem duas belas figuras humanas exibindo os seus belos, proeminentes e desnudados... rabos!


Internet

http://www.paradores-spain.com/spain/pscompostela.html
http://fotos.euroresidentes.com/viajes/paradores/parador_hostal_reyes_catolicos.htm