31/05/2005

CDs #38: Haydn, Creation Mass, Missa "rorate coeli desuper"

Durante cerca de 30 anos, entre 1761 e 1790, Joseph Haydn (1732-1809) trabalhou na corte dos Esterházy, uma das mais importantes (monetariamente saudáveis...) famílias húngaras. Primeiro como vice-Kappelmeister e, depois da morte de G. J. Werner, em 1766, como Kappelmeister (director de instituição musical), era sua responsabilidade não só compor, como dirigir os músicos residentes e organizar a colecção de manuscritos e instrumentos existente na corte.


Joseph Haydn

Após a morte de Nikolaus Esterházy, em 1790, Haydn manteve-se ao serviço da corte mas ganhou liberdade de movimentos, aproveitada para mudar residência para Viena e para duas visitas a Londres (1791-2 e 1794-5). No regresso a Viena depois da 2ª deslocação a Londres, Haydn foi encarregue pelo seu novo patrono, o príncipe Nikolaus II, neto de Nikolaus Esterházy, de escrever uma série de missas para a celebração do dia do onomástico de sua esposa, princesa Marie Esterházy. Escreveu 6, entre 1796 e 1802, sendo a "Creation Mass" a , composta na segunda metade de 1801 e estreada no dia 13 de Setembro desse ano. Haydn viria a falecer a 31 de Maio de 1809.

Este excelente disco contém ainda a Missa em sol maior "rorate coeli desuper", apenas descoberta já no decorrer do século XX, sucessivamente atribuída a Georg Reutter, Ferdinand Arbesser e finalmente a Reutter e Haydn em conjunto...



Joseph Haydn
Mass in B flat major, "Shöpfungsmesse", Hob.XXII:13.
Mass in G major, "rorate coeli desuper", Hob.XXII:3.
Susan Gritton, soprano
Pamela Helen Stephen, meio-soprano
Mark Padmore, tenor
Stephen Varcoe, barítono
Collegium Musicum 90
Richard Hickox
Chandos CHAN 0599


Internet

30/05/2005

Lugares #83

Não vão assim tão longe os tempos em que se reconhecia a difícil situação do país, mas se afirmava "pelo menos ainda temos o ouro...", última esperança de uma nação sem perspectivas. Seguíssemos as recentes recomendações do Dr. Miguel C. e nem o ouro já teríamos, salvar-se-ia o país abrindo um buraco nas discretas caves do Banco de Portugal, para tapar toscamente alguns dos outros que sucessivos governantes foram esmeradamente abrindo um pouco por todo o lado.



Sem esperar pelo nefasto momento em que tal pregação venha a fazer doutrina, fomos diligentemente ao local de futuras peregrinações, abrigo último de peças resultantes da arte de trabalhar o vil metal: o
Museu do Ouro, na freguesia de Travassos, Póvoa de Lanhoso.




Não queremos correr riscos, pelo que aqui não se mostram as peças de ouro que por lá se exibem. É que haveria hipóteses de, além das reservas do banco, também se perderem os efectivos do museu...

29/05/2005

Compositores #32: Erich Korngold (1897-1957)

Anschluss é o termo que designa a união da Áustria com a Alemanha, engendrada durante 20 anos e finalmente obtida à força pelo chanceler Adolfo Hitler em Março de 1938. Max Reinhardt (1873-1943), Max Goldmann de nascimento, judeu, foi um dos muitos atingidos pela precipitação dos acontecimentos na década de 30, numa primeira fase vendo-se impedido de continuar a sua actividade de director teatral, e posteriormente, nesse ano de 1938, acabando mesmo por ter de sair do país.


Max Reinhardt, Erich Korngold

Uma das peças que Reinhardt levou à cena nos Estados Unidos foi A Midsummer Night's Dream (com música original de Felix Mendelssohn, de que já anteriormente por aqui se falou, neste postal
), com assinalável sucesso. De tal forma assim foi que a Warner Brothers o convidou a passá-la para a tela, naquele que viria a ser o único filme por ele realizado e, simultaneamente, uma das primeiras transposições sérias de uma obra de William Shakespeare (1564-1616) para o cinema (anteriormente, em 1929, Taming of the Shrew tinha igualmente dado origem a um filme). Para a banda sonora do filme Reinhardt convidou o compositor de origem austríaca Erich Korngold, nascido a 29 de Maio de 1897 e ele próprio pouco apreciado no seu país natal, por ter raízes judaicas.

A Midsummer Night's Dream seria assim o primeiro filme a contar com a colaboração de Korngold para uma banda sonora, embora neste caso partindo da partitura original de Felix Mendelssohn (1809-1847), este igualmente de ascendência judaica. O filme, como não podia deixar de ser, foi proibido na Alemanha: realização, música original e banda sonora de judeus, era limpinho...



Erich Korngold continuaria depois por Hollywood a compôr música para filmes, cerca de 20, durante os anos da 2ª Grande Guerra, de que se podem ouvir alguns extractos num excelente cd aqui
anteriormente referenciado.


CD



Max Reinhardt's A Midsummer Night's Dream
Music by Mendelssohn, Original Score by Erich Wolfgang Korngold
Celina Lindsey, Michelle Breedt, Scot Weir, Michael Burt
Rundfunkchor Berlin
Deutsches Symphonie-Orchester Berlin
Gerd Albrecht
CPO 999 449-2


Internet

http://www.icebergradio.com/artist/26630/erich_korngold.html
http://www.albany.edu/writers-inst/fns98n5.html

28/05/2005

Concertos #15

Começaram por aparecer em Itália e Espanha durante o século XVI, tiveram o seu apogeu no século XVIII e foram desaparecendo gradualmente no seguinte. Os castratos eram cantores masculinos que mantinham o registo de contralto ou soprano por via de serem castrados antes da puberdade, normalmente entre os 6 e os 8 anos de idade. O último castrato terá sido Alessandro Moreschi, que viveu entre 1858 e 1922, e a última ópera importante a conter um papel específico para castrato foi Il Crociato in Egitto, do compositor alemão Giacomo Meyerbeer (1791-1864).


Andreas Scholl

A oposição à criação de castratos foi crescendo e estes acabariam por desaparecer ainda antes do final do século XIX. Desde então uma boa parte dos papéis a eles anteriormente destinados (refira-se que Handel, por exemplo, lhes destinou inúmeros papéis principais em várias das suas óperas) é interpretada por contratenores.

Um dos mais conceituados actualmente é o alemão Andreas Scholl (1967-), que hoje teremos a oportunidade de ouvir em recital na Casa da Música
, num programa onde constarão obras de Handel, Haydn e Mozart. Até lá!


Internet

http://www.haendel.it/interpreti/old/moreschi.htm
http://www.meyerbeer.com/velutti.htm
http://www.andreasschollsociety.org/
http://www.radix.net/~dalila/singers/scholl.html

27/05/2005

Lugares #82

O Ayuntamiento de La Coruña criou uma rede de museus a que deu o nome de mc2 (Los Museos Científicos Coruñeses), e de que fazem parte a Casa das Ciências, a Casa do Homem e o Aquário Finisterrae.




Este último, magnificamente banhado pelo Atlântico, tem para mostrar aos visitantes uma colecção apreciável de peixinhos e afins, uma piscina exterior com focas, um jardim botânico com mais de uma centena de diferentes plantas e uma sala expondo artigos relacionados com as 20.000 Léguas Submarinas.




O Aquarium Finisterrae gaba-se de ter
la piscina más grande del mundo, com o seu tanque com uma capacidade de 4,4 milhões de litros. Se nos lembrarmos de que o aquário do Oceanário de Lisboa tem uma capacidade de 5.000 m3, então sentimo-nos no direito de duvidar de tal asserção! E se anda às voltas com a máquina de calcular sem chegar a conclusão alguma, talvez seja consequência daquelas aulinhas de matemática a que se baldou...

26/05/2005

Maestros #15: Paul Sacher (1906-1999)

Poderia ter tido uma vida pacata, nalguma ilha paradisíaca. Poderia mesmo ter comprado a ilha, e até as outras mais próximas, não há nada pior do que má vizinhança. Mas o suíço Paul Sacher, accionista maioritário da farmacêutica Roche e presença obrigatória na lista dos mais abonados da revista Forbes, preferiu dedicar-se às artes em geral, como patrono, e à música em particular, como maestro. Faleceu no dia 26 de Maio de 1999.


Paul Sacher

E não se pense que a regência de orquestras foi um mero capricho de alguém sem talento para tal. Entre obras por ele encomendadas ou estreadas contam-se perto de 250, entre as quais algumas de Richard Strauss (Metamorphosen), Bela Bartók (Percussion and Celesta, Music for Strings), Paul Hindemith (Symphonie "Die Harmonie der Welt", Marsch für Orchester über den alten "Schweizerton") e Arthur Honegger (Sinfonia Nº2).

Em 1926 Paul Sacher fundou a Orquestra de Câmara de Basileia, em 1933 a Schola Cantorum Basiliensis, em 1954 a Musikakademie der Stadt Basel e em 1973 a Fundação Paul Sacher
.


CDs



Homage to Clara Haskill and Dinu Lipatti
Clara Haskill, Dinu Lipatti (pianos)
South West German Radio Symphony Orchestra
Bavarian Radio Symphony Orchestra
Paul Sacher, Eugen Jochum
Tahra TAH366/7

Bach, Bartók, Liszt
Dinu Lipatti (piano)
Royal Concertgebouw Orchestra, Amsterdam
Suisse Romande Orchestra
South West German Radio Symphony Orchestra
Ernest Ansermet, Eduard van Beinum, Paul Sacher
EMI 5 67572-2

Henri Dutilleux
Métaboles. Mystère de l'instant. Symphony No.1. Symphony No.2, "Le double".
G. Cachemaille, M. Bourgue, B. Balet, D. Geringas, B. Cazauran, G. Joy,
H. Dutilleux, H. Dreyfus
Collegium Musicum
Sine Nomine Quartet
French National Orchestra
Orchestre de Paris
Daniel Barenboim, Mstislav Rostropovich, Paul Sacher
Erato 0630-14068-2

25/05/2005

Sopranos #6: Beverly Sills (1929-)

Beverly Sills, soprano americana, nasceu Belle Miriam Silverman a 25 de Maio de 1929. Os seus talentos vocais cedo chamaram a atenção, e levaram a que, com apenas 7 anos, começasse a ter lições de canto com Estelle Liebling (1880-1970).


Beverly Sills

A sua estreia operática aconteceu apenas em 1948, como Frasquita, na ópera Carmen, de Georges Bizet (1838-1875). Em 1955 deu-se a passagem para a Ópera da Cidade de Nova Iorque, e a sua estreia com o papel de Rosalinde na ópera Die Fledermaus, de Johan Strauss II (1825-1899).

A fama e o reconhecimento internacionais só viriam uma década mais tarde, contudo, com o papel de Cleópatra na ópera Giulio Cesare, de Händel (1685-1759). Além deste, há outros dois papéis que lhe assentavam que nem uma luva: Elizabeth, da ópera Roberto Devereux, de Donizetti (1797-1848), e Thaïs, da ópera com o mesmo nome de Massenet (1842-1912).



Em 1979 assumiu a direcção geral da Ópera de Nova Iorque, e no ano seguinte abandonaria de vez os palcos.

Preferiu sempre os palcos ao estúdio de gravação (chegou a afirmar que odiava gravar), pelo que não é de estranhar que as melhores gravações disponíveis tenham sido efectuadas ao vivo.

DVD



Gaetano Donizetti
Roberto Devereux.
Beverly Sills, John Alexander, Susanne Marsee, Richard Fredricks
New York City Opera
Julius Rudel
Video Artists International VAI 4204

CDs



Georg Friedrich Händel
Giulio Cesare.
Beverly Sills, Norman Treigle
New York City Opera Chorus and Orchestra
Julius Rudel
RCA Victor GD86182

Jules Massenet
Thaïs.
Beverly Sills, Montserrat Caballe, Victoria de los Angeles, Nicolai Gedda,
Jessye Norman, Kiri Te Kanawa
New Philharmonia Orchestra
Lorin Maazel
EMI Classics CMS5 65479-2

24/05/2005

Revolução liberal #16

D. Miguel andaria certamente um bocado cansado das chefias indígenas, dada a sequência de derrotas que parecia interminável, situação ainda agravada com a barracada de Beja e a consequente perda da capital. E se em terra as coisas não corriam muito bem para os absolutistas, não se pode afirmar que no mar fossem diferentes; na verdade, no início de Julho de 1833 a esquadra liberal, sob o comando do inglês Charles Napier (1782-1853), dizimou a absolutista e passou a reinar nos mares. Ninguém de boa fé poderá acusar os realistas de inconsistentes: tanto metiam água em terra como no mar...


Charles Napier, Marechal Bourmont

E é assim que D. Miguel contrata o marechal Bourmont para chefiar o seu exército. A 25 de Julho de 1833, portanto no dia seguinte ao da queda de Lisboa, procurou Bourmont mostrar serviço recuperando a cidade do Porto. A cena não diferiu em demasia das anteriores, devidamente sovados lá se convenceram a ir tentar a sorte noutras paragens...

Esquecido o Porto, estava-se mesmo a ver qual seria o objectivo seguinte: Lisboa, pois claro, que continuava um espinho atravessado na garganta de D. Miguel! O estágio foi efectuado em Coimbra, após o que as forças concentradas se dirigiram para sul. Por uma questão de coerência, supomos nós, voltaram a dar-se mal, mesmo muito mal: os ataques foram repelidos um a um, até que Bourmont achou a moléstia demasiada e demitiu-se. O seu sucessor, o escocês MacDonnel, nem tempo teve para se rir, escorraçado como foi de imediato pelos liberais, no dia 12 de Outubro de 1833.

Com ou sem espinho na garganta lá desistiu D. Miguel de vez de recuperar a capital, refugiando-se estrategicamente em Santarém.

continua

23/05/2005

Lugares #81

A vantagem de ter Rui Rio à frente da Câmara do Porto é... não o ter à frente de outras autarquias, pelo que se nos abrem inúmeras hipóteses de destinos onde arboricidas militantes ainda não tenham atacado.

Os responsáveis pelos destinos de Mondim de Basto, distrito de Vila Real, não estão certamente deslumbrados por singulares corridas de calhambeques fora de uso, pelo que não se sentem compelidos a destruir o património de todos para poder estender um tapete apenas para alguns.



A natureza em Mondim de Basto ganha um colorido agressivo e é pomposamente exibida aos visitantes. No Porto ganha patins, e é ostensivamente retirada para local onde atrapalhe menos, longe da vista!




Propomos assim um novo grito de ordem: "Vivam Dom Plátano e Dona Magnólia, abaixo Dom Rio e Dona Elvira, de efémera glória!!!"

22/05/2005

Maestros #14: Georg Tintner (1917-1999)

Quando em Janeiro deste ano aqui falei de um dos meus maestros favoritos, Günter Wand, referi que um dia aqui traria igualmente o maestro austríaco de nascimento, mais tarde cidadão da Nova Zelândia, Georg Tintner, nascido há 88 anos em Viena.



Quando o Anschluss (união da Alemanha e da Áustria) teve finalmente lugar em Março de 1938, através da invasão da Áustria pelas forças de Hitler, o maestro, de origem judia, rumou à Nova Zelândia.

O seu primeiro contacto com Bruckner aconteceu quando ainda cantava no
Coro dos Rapazes de Viena, e onde teve oportunidade de cantar as 3 grandes missas deste compositor (ver este postal). Nos anos 30 estudou com dois dos mais reputados professores: composição com Joseph Marx (1882-1964) e direcção de orquestras com Felix Weingartner (1863-1942).

Em meados dos anos 50 mudou-se para a Austrália e uma década depois chegou a dirigir a Orquestra Municipal da Cidade do Cabo. Foi curta estadia, a sua repulsa pelo regime do apartheid levou-o a resignar ao fim de 2 meses! Teve uma pequena passagem pelo velho continente, entre 1969 e 1970 fixou residência em Londres, após o que regressou aos nossos antípodas. Viria a passar no Canadá a última fase da sua vida. Por ele mesmo terminada, refira-se, numa altura em que já sofria há alguns anos de um melanoma incurável.

Georg Tintner introduzir a música de Bruckner na Nova Zelândia, lá fundou os Auckland String Players e a Auckland Choral Society, e dirigiu a
New Zealand Opera. Na Austrália regeu a Australian National Opera, a Elizabethan Opera, a West Australian Opera, e a Queensland Philharmonic Orchestra. Foi ainda maestro da Symphony Nova Scotia, da National Youth Orchestra e da Prince George Symphony Orchestra, todas do Canadá.


CDs



Bruckner
Symphony No.1 in C minor (1866 version, ed. Carragan).
Symphony No.3 - Bewegt, quasi Andante (1876 version).
Royal Scottish National Orchestra
Georg Tintner
Naxos 8.554430

Bruckner
Symphony No.2 in C minor (1872 version, ed. Carragan).
Ireland National Symphony Orchestra
Georg Tintner
Naxos 8.554006

Bruckner
Symphony No.3 in D minor (1873 version, ed. Nowak).
Royal Scottish National Orchestra
Georg Tintner
Naxos 8.553454

Bruckner
Symphony No.9 in D minor (ed. Nowak).
Royal Scottish National Orchestra
Georg Tintner
Naxos 8.554268


Internet

http://www.andrys.com/gtta1019.html
http://www.thecanadianencyclopedia.com/index.cfm?PgNm=TCE&Params=U1ARTU0003427