27/12/2005

Reis de Portugal #11: D. Maria II (1819-1853)

O facto de ter abafado a revolta de Torres Novas, em Fevereiro de 1844, não significou o fim das atribulações para o governo de Costa Cabral e, por consequência, para o reinado de D. Maria II.

A decisão de Costa Cabral de proibir enterramentos dentro das igrejas provocou a ira popular, que iria rapidamente tomar proporções inesperadas. Não terá sido esta decisão de Costa Cabral a única causa para a revolta, que o homem, decidido como era, não recuava perante oposições, por mais aguerridas que fossem, mas terá tido valiosa contribuição para a insatisfação popular. A promulgação das leis sobre cadastro e saúde pública, em simultâneo com as campanhas levadas a cabo pelos adversários de Costa Cabral criaram as condições para o estalar da revolta.

Uma das mais activas intervenientes nessa revolta foi Maria da Fonte, que iria dar o nome à própria revolta. Que começou no Minho em Abril de 1846 como uma sublevação militar e que, a 20 de Maio, levou mesmo à queda do gabinete. Numa primeira fase, D. Maria II chamou o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque para exercerem o poder. No dia 6 de Outubro, ainda de 1846, a rainha deu um golpe de Estado, formando um ministério presidido pelo marechal Saldanha e deixando Costa Cabral de fora. E aqui voltam entrar velhos conhecidos. Primeiro os portuenses que, quando souberam das manobras reais, acharam-se também no direito à revolta. Depois, o duque da Terceira, nomeado lugar tenente da rainha no norte de Portugal para aí tentar acalmar as hostes. Acabou sendo preso no castelo de S. João da Foz por José Passos, que logo depois foi nomeado vice-presidente da junta provisória então formada, a Junta do Porto.

Os anos de 1846 e 1847 assistiram a diversas lutas, em que as forças da Junta do Porto não foram, de uma maneira geral, muito felizes. O visconde de Sá da Bandeira, que tinha entretanto aderido à revolução, foi derrotado em Vale Passos; o conde de Bonfim em Torres Vedras; houve ainda tempo para uma derrota em Viana do Castelo. As tropas inglesas acabaram por ser chamadas a intervir por forma a terminar de vez com a Patuleia, designando a aglutinação de todas as forças anti-Cabral. A Convenção de Gramido poria fim à insurreição.

Costa Cabral seria de novo chamado a formar ministério, em Junho de 1849, mas não chegou a ocupar o lugar por 2 anos sequer. Enfrentando violentíssima oposição, demitir-se-ia em Maio de 1851, colocando assim um ponto final na sua carreira política. O duque de Saldanha, demitido pela rainha antes da investidura de Costa Cabral, tratara de organizar devidamente a oposição ao cabralismo, culminando na referida demissão.


Internet

Maria da Fonte / Costa Cabral / Duque de Saldanha


Nota

Nos próximos dias estaremos entre cabanas, montanhas e lagos, perto da civilização mas longe da internet, pelo que deixamos desde já os votos de um excelente 2006 para todos os que por aqui passarem.

25/12/2005

Tenores #4: Ian Bostridge (1965-)

É um jovem tenor, que admiro particularmente em Mozart (1756-1791), Schubert (1797-1828) e Schumann (1810-1856): Ian Bostridge, que comemora hoje o seu 40º aniversário. Grande ano, 1965, berço de gente admirável (!!!...).

As primeiras linhas do seu curriculum vitae não soam demasiadamente musicais, com estudos em Filosofia e um doutoramento em História. A vitória em 1991 do prémio National Federation of Music Societies / Esso Award foi o ponto de viragem e, em 1995, já se dedicava em exclusivo à carreira musical. Pelo caminho tinha feito a sua estreia no Wigmore Hall de Londres, em 1993, local onde, 2 anos depois, estrear-se-ia a solo. A estreia operática aconteceu em 1994, com o papel de Lysander na ópera A Midsummer Night's Dream, de Benjamin Britten (1913-1976). Deste mesmo compositor já interpretou o War Requiem em diversas cidades europeis, Lisboa incluída. Aliás, fora do lieder alemão, Britten passa por ser mesmo um dos compositores mais visitados por Bostridge, tendo já feito igualmente o papel de Quint, na ópera The Turn of the Screw.

A escrita também não lhe passa ao lado, com 2 livros já editados e colaborando regularmente com diversas revistas e jornais. E para que não se diga que o homem só se interessa por assuntos musicais, o primeiro livro que publicou trata de... bruxarias!

Um Natal nada assombrado, é o que vos deseja este escriba.


CDs







The English Songbook.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)
EMI 5 56830-2

Bach
Cantatas & Arias.
Ian Bostridge (tenor), Fabio Biondi (violino)
Europa Galante
Fabio Biondi
Virgin Classics 5 45420-2

Britten
The Red Cockatoo. Harmonia Sacra - Lord, I Have Sinned!;
Hymn to God the Father.
Ian Bostridge (tenor), Graham Johnson (piano)
Hyperion CDA66823

Britten
The Turn of the Screw.
Ian Bostridge (tenor), Joan Rodgers, Vivien Tierney,
Caroline Wise, Jane Henschel (sopranos)
Gustav Mahler Chamber Orchestra
Daniel Harding
Virgin Classics 5 45521-2

Coward
The Noël Coward Songbook.
Ian Bostridge (tenor), Sophie Daneman (soprano), Jeffrey Tate (piano)
EMI 5 57374-2

Henze
Six Songs from the Arabian. Three Auden Songs.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)
EMI 5 57112-2

Janácek
The Diary of One Who Disappeared. Piano Works.
Ian Bostridge (tenor), Diane Atherton (soprano), Deryn Edwards,
Ruby Philogene (meios-sopranos), Susan Flannery (contralto),
Thomas Adès (piano)
EMI 5 57219-2

Monteverdi
L'Orfeo.
Ian Bostridge, Paul Agnew (tenores), Patrizia Ciofi, Natalie Dessay,
Veronique Gens, Carolyn Sampson (sopranos), Alice Coote,
Sonia Prina (contraltos), Mario Luperi, Lorenzo Regazzo (baixos),
Christopher Maltman (barítono)
European Voices
Le Concert d'Astrée
Emmanuelle Haïm
Virgin Classics Veritas 5 45642-2

Mozart
Die Entführung aus dem Serail.
Christine Schäfer, Patricia Petibon (sopranos), Ian Bostridge,
Iain Paton (tenores), Alan Ewing (baixo), Jürg Löw (narrador)
Les Arts Florissants
William Christie
Erato 3984-25490-2

Mozart
Idomeneo.
Ian Bostridge, Anthony Rolfe Johnson, Paul Charles Clarke (tenores),
Lorraine Hunt Lieberson (meio-soprano), Lisa Milne,
Barbara Frittoli (sopranos), John Relyea (baixo)
Edinburgh Festival Chorus
Scottish Chamber Orchestra
Charles Mackerras
EMI 5 57260-2

Purcell
Dido and Aeneas.
Susan Graham (meio-soprano), Ian Bostridge, Paul Agnew (tenores),
Camilla Tilling, Cécile de Boever (sopranos), Felicity Palmer (contralto),
David Daniels (contratenor), Emmanuelle Haïm (cravo)
European Voices
Le Concert d'Astrée
Emmanuelle Haïm
Virgin Classics Veritas 5 45605-2

Schubert
Lieder, Volume 1.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)
EMI 5 56347-2

Schubert
Lieder, Volume 2.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)
EMI 5 57141-2

Schubert
Piano Sonata in A, D959. Die Sterne, D176. Auf dem Strom, D943.
Pilgerweise, D789. Der Unglücklick, D713.
Ian Bostridge (tenor), Timothy Brown (trompa), Leif Ove Andsnes (piano)
EMI 5 57266-2

Schubert
Piano Sonata in B flat, D960. Abschied von der Erde, D829.
Viola, D786. Der Winterabend, D938.
Ian Bostridge (tenor), Leif Ove Andsnes (piano)
EMI 5 57901-2

Schubert
Lieder, Volume 25.
Ian Bostridge (tenor), Dietrich Fischer-Dieskau (narrador),
Graham Johnson (piano)
Hyperion CDJ33025

Schumann
Liederkreis, Op.24. Dichterliebe, Op.48. Belsatzar, Op.57.
Abends am Strand, Op.45 No.3. Die beiden Grenadiere.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)
EMI 5 56575-2

Schumann
The Songs of Robert Schumann, Volume 7.
Dorothea Röschmann (soprano), Ian Bostridge (tenor), Graham Johnson (piano)
Hyperion CDJ33107

Vaughan Williams
Symphony No.6 in E minor. In the Fen Country. on Wenlock Edge.
Ian Bostridge (tenor)
London Philharmonic Orchestra
Bernard Haitink
EMI 5 56762-2


Internet

Ian Bostridge: Biografias 1
, 2, 3, 4

23/12/2005

CDs #65: Shostakovich, Piano Concertos, Fantastic Dances, Preludes & Fugues

No dia 23 de Dezembro de 1952 a pianista russa Tatiana Nikolaeva estreou os 24 Prelúdios e Fugas, Op.87, de Dmitri Shostakovich (1906-1975), compostos num pequeno espaço de tempo entre finais de 1950 e Março de 1951.


Dmitri Shostakovich

A fuga, apesar de já utilizada na Idade Média, teve o seu apogeu no período barroco, em particular com Bach (1685-1750). No século XX houve como que um ressurgimento, e compositores como Bartók, Hindemith e Shostakovich incluiram fugas em várias obras. Os 24 Prelúdios & Fugas de Shostakovich foram compostos após uma visita do compositor a Leipzig, cidade onde Bach faleceu. O disco que aqui hoje se trouxe tem ainda a curiosidade adicional de ter o próprio Shostakovich ao piano.

O disco inclui ainda os Concertos para Piano Nº1 (um improvável concerto para piano e trompete, aliás) e Nº2, bem como as Três Danças Fantásticas. Boas audições!



Dmitri Shostakovich
Concerto for piano, trumpet and strings in C minor, Op.35.
Piano Concerto No.2 in F, Op.102.
Three Fantastic Dances, Op.5.
Preludes and Fugues, Op.87.
Dmitri Shostakovich (piano)
Ludovic Vaillant (trompete)
Orchestre National de la Radiodiffusion Française
André Cluytens
EMI GROC 5 62646-2

22/12/2005

Lugares #120

As boas-vindas são-nos dadas pelo ilustre filho da terra, José Maria dos Reis Pereira:

"... E o sol desmaia na cal
da capela a branquejar
da Senhora do Socorro
onde sonhei me ir casar...
"



O poeta, romancista, professor, ensaísta, memorialista, crítico e dramaturgo José Régio, nome com que ficou para a história, nasceu em 1901 e faleceu no dia 22 de Dezembro de 1969, há 36 anos, portanto.



A Capela de Nossa Senhora do Socorro, em Vila do Conde, terra natal de José Régio, foi mandada erigir no século XVII, sendo assim contemporânea do castelo de S. João Baptista, do hospital e da igreja do Carmo. O seu interior é embelezado por belos azulejos do século XVIII e do exterior, por se encontrar em local privilegiado, tem-se uma excelente panorâmica da cidade e do rio. A capela está classificada como imóvel de interesse público.


Internet

José Régio, um vilacondense muito ilustre / José Régio e os mundos em que viveu / Casa Museu José Régio

20/12/2005

Pianistas #8: Artur Rubinstein (1887-1982)

O seu ambiente natural era entre mulheres, vinho e canções. O seu dom, igualmente natural, permitia-lhe passar muito mais tempo a socializar do que a praticar ao piano. Artur Rubinstein (mais tarde Arthur Rubinstein), polaco de nascimento e norte-americano desde 1946, foi um inveterado bon vivant, frequentador da alta sociedade e amigo de realezas, estrela de Hollywood e capa da revista Time. Foi, simultaneamente, um dos maiores pianistas de todos os tempos. Impossível? As gravações que nos deixou provam o contrário... Faleceu há 23 anos em Genebra, Suíça.


Artur Rubinstein

Tinha igualmente o hábito de se expressar sobre os seus outros colegas pianistas e não só, realçando cuidadosamente os defeitos que neles via. Entre os visados contaram-se Vladimir Horowitz (1903-1989) e Josef Hofmann (1876-1957), este último por sinal igualmente polaco e posteriormente naturalizado norte-americano.

Igualmente à vontade em Isaac Albéniz (1860-1909), Igor Stravinsky (1882-1971) , Karol Szymanowski (1882-1933) ou Manuel de Falla (1876-1946), foi com a música de Frédéric Chopin que mais se distinguiu. Setenta anos depois os diversos discos com as Mazurkas, os Scherzos, as Polonesas ou os Nocturnos são ainda gravações de referência, pelo menos aqui para este escrevinhador.

Nos anos 60, Artur Rubinstein tocou e gravou assiduamente com o violinista Henryk Szeryng (1918-1988), algo já anteriormente aqui
referido. Por sua vez, Szeryng teve um dia um encontro imediato com a violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, história essa que podem encontrar aqui.


CDs




Chopin
Polonaises.
Artur Rubinstein, piano
Naxos Historical 8.110661

Chopin
Mazurkas. Valsas.
Artur Rubinstein, piano
Naxos Historical 8.110656/7

Chopin
Nocturnes. Scherzos.
Artur Rubinstein, piano
Naxos Historical 8.110569-60

Chopin
Piano Concerto No.2 in F minor, Op.21. Ballade. Mazurka. Scherzo. Études.
Artur Rubinstein, piano
Philharmonia Orchestra
Carlo Maria Giulini
BBC Legends BBCL4105-2


Internet

http://www.arims.org.il/artist.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Artur_Rubinstein


Notas

1 - Parabéns ao A Barriga De Um Arquitecto, pelo 2º aniversário.
2 - A Casa da Música lá divulgou a programação para 2006, para já até Julho. Lá se foi um dos segredos mais bem guardados do regime...

19/12/2005

CDs #64: Rimsky-Korsakov, Symphonies No.1 & No.3

O Grupo dos Cinco, de que aqui falámos no mês passado, foi formado por Mily Balakirev (1837-1910) entre 1857 e 1862. Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908) foi um dos últimos a entrar, em 1861, mas um dos primeiros a ser apadrinhado.

A sua primeira sinfonia foi sugerida por Balakirev, que foi ainda quem a estreou, há precisamente 140 anos. Em 1884, Rimsky-Korsakov procedeu a uma extensa revisão desta sua primeira sinfonia, que resultou, entre outras coisas, na subida de meio tom, do original mi bemol menor para mi menor, aparentemente para grande alívio dos intérpretes...

Apesar de não ter tido grande formação musical, já que foi, sobretudo, um autodidacta, em 1871 o nosso Rimsky-Korsakov viu-se nomeado professor de composição e orquestração no Conservatório de S. Petersburgo. Nessa altura procurou colmatar eventuais lacunas, tendo tido, por exemplo, aulas de contraponto com Tchaikovsky. A terceira sinfonia foi escrita em 1874 e, logo na estreia, no dia 18 de Fevereiro desse ano, foi criticada por ter demasiado contraponto! O próprio Tchaikovsky não se coibiu de afirmar que, nesta obra, "a técnica predominou sobre a qualidade das ideias"...

Na verdade, a audição destas obras, mesmo que feita através da excelente interpretação da Orquestra Filarmónica da Malásia, não nos deixa momentos memoráveis, daqueles irresistíveis para inúmeras repetições. Uma surpresa, aliás, esta orquestra, em estreia aqui nos nossos domínios. Enfim, voltou a predominar a técnica...



Rimsky-Korsakov
Symphony No.1 in E minor, Op.1. Fantasia on Serbian Themes, Op.6.
Symphony No.3 in C major, Op.32.
Malaysian Philharmonic Orchestra
Kees Bakels
BIS CD-1477
(2002)



Internet

The Rimsky-Korsakov Home Page
/ The Famous Russian Composer N. Rimsky-Korsakov / Les Compositeurs: Mili Balakirev

17/12/2005

DVDs #9: Jacques Offenbach, La Belle Hélène

O compositor francês de origem alemã (nasceu em Colónia) Jacques Offenbach (1819-1880) foi o grande percursor da opereta moderna, género musical que, existente desde o século XVII, com ele teve acentuada evolução.


Jacques Offenbach

Offenbach satirizou frequentemente a mitologia grega, torcendo-a e distorcendo-a a seu belo prazer, e para gáudio do público francês. Além disso ainda parodiou outros compositores como Christoph Willibald Gluck (1714-1787), Giacomo Meyerbeer (1791-1864) ou Gioachino Rossini (1792-1868), numa mistura irresistível de histórias mais ou menos inverosímeis com melodias de encher o ouvido.

Uma das operetas mais marcantes foi La belle Hélène, que teve a sua estreia em Paris no dia 17 de Dezembro de 1864, há exactamente 141 anos. Uma boa forma de assinalar tal efeméride é ver e ouvir um extraordinário DVD lançado em 2001 pela TDK. Sem menosprezo pelos outros intervenientes, não deixo de realçar as interpretações de Felicity Lott, no papel de Helena, e de Michel Sénéchal, o rei Menelaus.


DVD



Jacques OffenbachLa Belle Hélène.Felicity Lott, Yann Beuron, Michel Sénéchal, Laurent Naouri, François Le Roux,
Maria-Ange Torodovitch, Eric Huchet, Alain Gabriel, Laurent Alvaro
Choeur des Musiciens du Louvre
Les Musiciens du Louvre
Marc Minkowski
TDK DV-OPLBH


Internet
http://www.musicaltheatreguide.com/composers/offenbach/belle_helene.htm
http://www.eleves.ens.fr/home/mlnguyen/divers/belle_helene.html

15/12/2005

Concertos #31

Em Agosto último, aquando da nossa passagem por Praga, aproveitámos naturalmente para assistir a um concerto, que naquela cidade oferta é que não falta.

Escolhemos um programa adequado, totalmente dedicado aos grandes compositores checos, Bedrich Smetana (1824-1884) e Antonín Dvorák (1841-1904). O concerto iria decorrer na Casa Municipal, outro ponto a seu favor.

O actual edifício data dos inícios do século XX, após todos os anteriores terem sido arrasados, por diversos motivos, entre os quais uma reforma sanitária, nos finais do século XIX, sendo hoje um dos edifícios Arte Nova mais representativos da cidade. Como nisto de furar orçamentos os portugueses não são os únicos especialistas, o custo da obra, inicialmente previsto para 3 milhões de coroas checas, acabou em 6 milhões...

A principal sala de concertos levou o nome daquele que é geralmente considerado como o pai da música checa, Smetana. Tudo apontava então para que viesse a ser um concerto normal, em que a Orquestra Sinfónica Real de Praga, dirigida por Jaroslav Vodnansky, interpretaria Vltava, do ciclo de poemas sinfónicos Má Vlast, de Smetana, e a Sinfonia Nº9, de Dvorák, que teve a sua estreia há 112 anos, no dia 15 de Dezembro de 1893. Só que o ambiente turístico de Agosto invadiu também a sala e, além do espectáculo musical, foi-nos proporcionado um extra, sem acréscimo de custo...




Íamos já a meio do poema sinfónico e ainda entrava gente na sala, muita gente mesmo que, tendo pago o bilhetinho, não via motivo para ficar à porta. Os flashes das máquinas fotográficas foram as estrelas da noite, brilhando enquanto durou o concerto. A simpática senhora que se sentou à nossa frente desprezou em absoluto o que de musical se passava naquela sala, e passou o tempo de máquina de filmar em riste; o seu paciente marido certamente que mais tarde se esforçaria por lhe pintar o quadro que ela na altura não quis ver. Para completar o ramalhete, nada como bater furiosas palmas sempre que os músicos paravam de tocar. O pobre do maestro bem que se virava para a plateia a suplicar silêncio entre os andamentos, mas tais gestos de modéstia tinham apenas o condão de comover o público, que mais vibrantemente aplaudia. Um festival...

13/12/2005

Concertos #30

Quando no início deste ano por aqui assinalámos o 208º aniversário do nascimento do compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828), referimos o facto de ele ter sido o primeiro grande compositor do período romântico, e de ter composto um impressionante número de obras, atendendo também ao facto de ter falecido com apenas 31 anos de idade.

Das mais de 900 obras que compôs, à volta de 600 foram canções (lieder); escreveu ainda música dramática e coral, orquestral, de câmara e para piano, sendo esta última a que hoje nos interessa. Schubert deixou-nos 23 sonatas para piano; nenhum outro (grande) compositor do período romântico viria a dar tal importância a este género. As 15 primeiros sonatas pertencem ao período da juventude do compositor, sendo que Schubert não chegou a terminar uma boa parte delas. As mais importantes e grandiosas são as últimas 7. A última delas, a nº23 D960, foi acabada no dia 26 de Setembro de 1828, menos de 2 meses antes de Schubert morrer, e foi também a última obra de envergadura por ele escrita.

Será precisamente esta sonata que ocupará integralmente a 2ª parte do recital que o pianista norte-americano Stephen Kovacevich (1940-) irá dar daqui a 2 dias na Casa da Música
. As minhas primeiras aquisições de música para piano foram precisamente de discos deste pianista que, na altura, ainda utilizava o nome de Stephen Bishop Kovacevich. Aí pelos finais da década de 80 a Philips reeditou algumas gravações a preços económicos, numa série a que deu o nome de Concert Classics. De certa forma, este recital será um regresso às origens.

Na primeira parte do recital ouviremos a Sonata Op.1 de Alban Berg (1885-1935) e, de Beethoven, (1770-1827) as Bagatelles, Op.126 Nºs. 1, 2, 5 & 6, e a Sonata em lá maior, Op.101.

Que admirável forma de encerrar o nosso ano musical... Continuamos, contudo, sem nada saber da programação da Casa da Música para 2006. Fosse realmente genuína a preocupação do PGR com as constantes fugas de informação envolvendo processos em segredo de justiça, e já teria certamente contactado a Administração da Casa da Música, inultrapassável em preservar a informação longe do público. A começar por aquela que devia divulgar...


Internet

Stephen Kovacevich: Biografias 1
, 2

12/12/2005

Obras Orquestrais #5: A Valsa, de Maurice Ravel

A primeira década do século XX encontrou o compositor francês Maurice Ravel (1875-1937) ocupado com a música para o bailado Daphnis et Chloé, uma encomenda do empresário, fundador e director dos Ballets Russes, Sergei Diaghilev (1872-1929).

Com libreto do coreógrafo Mikhail Fokine (1880-1942), coube a Ravel ser o escolhido para escrever a música, tarefa a que se dedicou durante cerca de 3 anos. As dúvidas de Diaghilev quanto à música, a recepção fria que esta recebeu aquando da interpretação dos primeiros fragmentos, e os constantes desentendimentos entre Fokine e Nijinski (1890-1950), levaram ao adiamento sucessivo da estreia e quase ao seu cancelamento definitivo.

A experiência, contudo, não terá sido completamente negativa, dado que, nos finais de 1919, Ravel inicia a composição de mais uma obra encomendada por Diaghilev. E o mais curioso no meio disto tudo é que a história se repetiu! Os Ballets Russes deveriam montar A Valsa para a temporada de 1920-21, mas Diaghilev não gostou da obra, parou o projecto e deu o assunto por terminado. Escusado será dizer que Ravel e Diaghilev nunca mais se entenderam...

A primeira audição pública da obra teve lugar em Paris no dia 12 de Dezembro de 1920, mas a estreia do bailado, também em Paris, aconteceu apenas no dia 23 de Maio de 1929, e graças aos esforços da bailarina russa Ida Rubinstein (1885-1960).


CDs



Maurice Ravel
Daphnis et Chloé. La Valse.
Berlin Radio Chorus
Berlin Philharmonic Orchestra
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 447 057-2

Maurice Ravel
Boléro. Alborada del gracioso. Ma mère l'oye. La Valse.
Pavane pour une infante défunte. Le tombeau de Couperin.
Valses nobles et sentimentales. Daphnis et Chloé - Suite Nº2.
Orchestre Symphonique de Montréal
Charles Dutoit
Decca 460 214-2


Internet

Maurice Ravel: Maurice-Ravel.net
/ Biografia 1 / Biografia 2
Sergei Diaghilev: Biografia 1
/ Biografia 2
Ballets Russes: Diaghilev's Ballets Russes