28/02/2006

Concertos #36

A biografia do compositor alemão Robert Schumann (1810-1856) diz-nos que cedo exibiu talentos musicais, ao piano e na composição, e que apreciava particularmente os prazeres da vida, nomeadamente os relacionados com namoradas e champanhe... Coisas do destino, seria por amor a uma mulher que Schumann se veria metido em trabalhos, quando decidiu apaixonar-se pela filha do seu antigo professor Friedrich Wieck (1785-1873), Clara. O professor fez os possíveis e impossíveis para impedir o casamento, que só uma ordem judicial viria a possibilitar. Casariam finalmente em Setembro de 1840, não sem que antes tivessem passado longos períodos afastados um do outro e Schumann atravessado períodos de profundas depressões.

O ano de 1840 marcaria ainda uma viragem importante na produção de Schumann que, se até essa altura se tinha dedicado a compôr música para piano, começou a escrever principalmente canções. Nesse ano compôs mesmo alguns dos mais importantes ciclos de canções de sempre: Myrthen, Frauenliebe und -leben e Dichterliebe, além de outros onde musicou poemas de Joseph von Eichendorff (1788-1857) e Heinrich Hein (1797-1856). Deste último já falámos aqui, a propósito do ciclo Schwanengesang de Schubert (1797-1828) e do recital de Matthias Goerne (1967-), e falou também recentemente o Nuno Guerreiro na Rua da Judiaria, nos 150 anos passados sobre a sua morte.

Poucos meses antes de casar com Clara Wieck, Schumann escreveu o ciclo de canções Liederkreis, com poemas de Heine que, por essa altura, vivia em Paris, e a quem Schumann fez questão de que lhe fosse entregue uma cópia do ciclo. Enquanto não chegava uma resposta do poeta, Schumann pegou nos Lyrisches Intermezzo e escreveu um outro ciclo de canções, que designou por Dichterliebe. Composto inicialmente por 20 canções, viria a ser reduzido para 16, após Schumann ter visto recusada a sua publicação por 2 vezes. As 4 que foram retiradas seriam mais tarde publicadas, como os Opp.127 Nºs 2 & 3, e Opp.142 Nºs 2 & 4.

E se no dia de Natal do ano passado
confessei a minha predilecção pelo jovem tenor Ian Bostridge, amanhã vou ter o enorme prazer de o ouvir ao vivo na Casa da Música, num recital em que, acompanhado pelo pianista, igualmente britânico, Julius Drake, irá interpretar o ciclo de canções Kernerlieder, além do já referido Dichterliebe. Grandes audições certamente, não tenho a menor dúvida quanto a isso!


Programa

Robert Schumann
Kernerlieder, Op.35. Dichterliebe, Op.48.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)


Internet

Robert Schumann
Classical Music Pages
/ Robert Schumann / Wikipedia

Heinrich Hein
Buch der Lieder - Lyrisches Intermezzo


Ian Bostridge
EMI Classics
/ Bach-Cantatas / Calouste Gulbenkian Foundation / Wikipedia


Adenda

Não era propriamente uma meia dúzia de gatos pingados, mas o recital merecia muito mais assistência. A hora a que decorreu, imprópria para consumo, terá para tal contribuído, mas não justificará tudo.

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