28/02/2006

Concertos #36

A biografia do compositor alemão Robert Schumann (1810-1856) diz-nos que cedo exibiu talentos musicais, ao piano e na composição, e que apreciava particularmente os prazeres da vida, nomeadamente os relacionados com namoradas e champanhe... Coisas do destino, seria por amor a uma mulher que Schumann se veria metido em trabalhos, quando decidiu apaixonar-se pela filha do seu antigo professor Friedrich Wieck (1785-1873), Clara. O professor fez os possíveis e impossíveis para impedir o casamento, que só uma ordem judicial viria a possibilitar. Casariam finalmente em Setembro de 1840, não sem que antes tivessem passado longos períodos afastados um do outro e Schumann atravessado períodos de profundas depressões.

O ano de 1840 marcaria ainda uma viragem importante na produção de Schumann que, se até essa altura se tinha dedicado a compôr música para piano, começou a escrever principalmente canções. Nesse ano compôs mesmo alguns dos mais importantes ciclos de canções de sempre: Myrthen, Frauenliebe und -leben e Dichterliebe, além de outros onde musicou poemas de Joseph von Eichendorff (1788-1857) e Heinrich Hein (1797-1856). Deste último já falámos aqui, a propósito do ciclo Schwanengesang de Schubert (1797-1828) e do recital de Matthias Goerne (1967-), e falou também recentemente o Nuno Guerreiro na Rua da Judiaria, nos 150 anos passados sobre a sua morte.

Poucos meses antes de casar com Clara Wieck, Schumann escreveu o ciclo de canções Liederkreis, com poemas de Heine que, por essa altura, vivia em Paris, e a quem Schumann fez questão de que lhe fosse entregue uma cópia do ciclo. Enquanto não chegava uma resposta do poeta, Schumann pegou nos Lyrisches Intermezzo e escreveu um outro ciclo de canções, que designou por Dichterliebe. Composto inicialmente por 20 canções, viria a ser reduzido para 16, após Schumann ter visto recusada a sua publicação por 2 vezes. As 4 que foram retiradas seriam mais tarde publicadas, como os Opp.127 Nºs 2 & 3, e Opp.142 Nºs 2 & 4.

E se no dia de Natal do ano passado
confessei a minha predilecção pelo jovem tenor Ian Bostridge, amanhã vou ter o enorme prazer de o ouvir ao vivo na Casa da Música, num recital em que, acompanhado pelo pianista, igualmente britânico, Julius Drake, irá interpretar o ciclo de canções Kernerlieder, além do já referido Dichterliebe. Grandes audições certamente, não tenho a menor dúvida quanto a isso!


Programa

Robert Schumann
Kernerlieder, Op.35. Dichterliebe, Op.48.
Ian Bostridge (tenor), Julius Drake (piano)


Internet

Robert Schumann
Classical Music Pages
/ Robert Schumann / Wikipedia

Heinrich Hein
Buch der Lieder - Lyrisches Intermezzo


Ian Bostridge
EMI Classics
/ Bach-Cantatas / Calouste Gulbenkian Foundation / Wikipedia


Adenda

Não era propriamente uma meia dúzia de gatos pingados, mas o recital merecia muito mais assistência. A hora a que decorreu, imprópria para consumo, terá para tal contribuído, mas não justificará tudo.

26/02/2006

Sinfonias #10: Sinfonia Nº6, de Anton Bruckner

As origens rurais de Anton Bruckner (1824-1896) não faziam antever o compositor que dali sairia. Deu-se mesmo o caso dos vienenses terem, numa primeira fase, ignorado olimpicamente as suas obras, não pelo seu valor intrínseco, mas precisamente pela ruralidade do autor...

Depois, temos ainda o facto de Bruckner apenas muito tardiamente ter iniciado uma formação musical formal, já bem entrado na casa dos 30. Claro que os anos passados em S. Florian, entre 1845 e 1855 tinham-lhe permitido evoluir como compositor, só que com muito de autodidactismo. Situação que procurou modificar, com perseverança, ao prosseguir longos estudos musicais, nomeadamente com Simon Sechter (1788-1867), Otto Kitzler (1834-1915) e Ignaz Dorn (1830-1872). Foi um período, superior a 10 anos, que Bruckner passou em Linz, como organista da respectiva catedral, e em que os últimos 5 foram particularmente produtivos, com a composição, entre outras obras, de 3 Missas e da Sinfonia Nº1.

No Verão de 1868, Bruckner mudou-se para Viena, a última etapa da sua carreira como compositor e aquela onde escreveu a maior parte das sinfonias. Sem grande sucesso inicialmente, como já referi, bastando reparar nas razões dadas pela Orquestra Filarmónica de Viena para sucessivamente as rejeitar: a era "desvairada", a por ser "absurda" e a como "inexecutável"...

Quando, nos finais de 1881, Bruckner terminou a Sinfonia Nº6, o ambiente já estava mais desanuviado pelo sucesso obtido com a 4ª Sinfonia, estreada em Fevereiro desse mesmo ano por Hans Richter (1843-1916). A estreia da , a 26 de Fevereiro de 1899, encontrou a reger a orquestra outro dos grandes sinfonistas de sempre, Gustav Mahler (1860-1911). É uma das poucas sinfonias, a par da , que não sofreu revisões posteriores, não havendo portanto lugar às habituais confusões entre as várias e disputadas versões...


CDs



Anton Bruckner
Symphony No.6.
Christoph Gluck
Iphegénie en Aulide - Overture.
Engelbert Humperdinck
Hänsel und Gretel - Overture.
New Philharmonia Orchestra
Philharmonia Orchestra
Otto Klemperer
EMI GROC 5 62621-2

Anton Bruckner
Symphony No.6. Te Deum.
Heather Harper (soprano), Janet Baker (meio-soprano),
Richard Lewis (tenor), Marian Nowakowski (baixo)
BBC Symphony Chorus & Orchestra
Otto Klemperer
Testament SBT1354


Internet

aeiou / Classical Music Pages / Classical.net / Wikipedia / Tribute to Anton Bruckner

24/02/2006

Concertos #35

Aderindo alegremente ao espírito da época, esta noite iremos assistir ao concerto de carnaval na Casa da Música. Desta vez o entusiasmo estende-se à pequenada, menos pela música propriamente dita, mas mais pelo facto de poderem ir mascarados a preceito, dos pés à cabeça. Os progenitores ainda hesitam quanto à indumentária, que os ostensivos cabelos brancos desaconselham trajes demasiadamente ridículos.

Os músicos da Orquestra Nacional do Porto, quando moravam no Mosteiro de S. Bento da Vitória, aderiam em pleno à festança e apareciam com visuais inesperados. Agora, aconchegados na nova arquitectura portuense, será que ainda irão alinhar na irreverência?! Um dos seus membros, vizinho de longa data, ainda no início desta semana desconhecia se se iria apresentar reconhecível. Ou não nos quis dizer...

Não deixaremos, contudo, de continuar a assinalar o ano Mozart, pois a abrir o programa teremos Ein musikalischer Spaß (Uma brincadeira musical), uma obra composta em 1787, quando o compositor vivia em Viena. Numa época em que, se bem se lembram, os seus sinais exteriores de riqueza disfarçavam as dificuldades financeiras que a família atravessava. A primeira parte encerrará com os conhecidos Chants d'Auvergne de Joseph Canteloube (1879-1957), que resultaram de arranjos por ele efectuados a canções folclóricas francesas, principalmente da sua terra natal (pois... Auvergne...).

A 2ª parte abrirá com a não menos conhecida Abertura 1712 do compositor barroco P. D. Q. Bach, nascido no Iowa no longínquo ano de 1935..., e o concerto terminará com a Suite de Star Wars, do compositor americano John Williams (1932-). E quanto a nós, finalizamos com uma pequena nota, sobre algo até hoje muito pouco divulgado: estes dois compositores, o barroco P. D. Q. Bach e o contemporâneo John Williams, frequentaram a mesma escola, a
Juilliard School, em Nova Iorque. Extraordinário, não?!


Programa

Wolfgang Amadeus Mozart
Uma brincadeira musical, K522.
Joseph Canteloube
Chansons d'Auvergne.
P. D. Q. Bach
Abertura 1712.
John Williams
Suite de Star Wars.
Dora Rodrigues (soprano)
Orquestra Nacional do Porto
Marc Tardue

23/02/2006

Sopranos #8: Régine Crespin (1927-)

Quando a soprano francesa Régine Crespin subiu ao palco pela primeira vez, no dia 20 de Janeiro de 1949, no papel de Charlotte da ópera Werther de Jules Massenet (1842-1912), deu-se início à extraordinária carreira daquela que se viria a tornar na primeira prima donna francesa desde a 2ª Grande Guerra, com uma brilhantíssima carreira internacional. Régine Crespin comemora hoje o seu 79º aniversário.


Régine Crespin

Senhora de uma belíssima voz (em Abril de 1946 venceu um concurso em Nîmes destinado a descobrir As mais bonitas vozes francesas) e de uma dicção exemplar, distinguiu-se particularmente nas óperas de Wagner: Lohengrin (como Elsa), Die Walküre (Sieglinde), Tannhäuser (Elisabeth), Parsifal (Kundry) e de Richard Strauss: Der Rosenkavalier (Marschallin). Foi com este último papel que se estreou no Bayreuth, em 1958. Pode-se dizer mesmo que foi o papel da vida dela: cantou-o pela primeira vez no dia 28 de Novembro de 1953, em Marselha, e com ele se estreou, conforme já referido, no Festival de Bayreuth, em 1958, no Covent Garden, em 1960 e no Met de Nova Iorque, em 1962.


CDs




Hector Berlioz
Les nuits d'été, Op.7.
Maurice Ravel
Shéhérazade.
Claude Debussy
Trois chansons de Bilitis.
Francis Poulenc
Banalités. Deux poèmes de Louis Aragon.
Régine Crespin (soprano), John Wustman (piano)
L'Orchestre de la Suisse Romande
Ernest Ansermet
Decca Legends 460 973-2

Hector Berlioz
La Damnation de Faust, Op.24.
Régine Crespin (soprano), André Turp (tenor),
John Shirley-Quirk, Michel Roux (barítonos)
London Symphony Chorus & Orchestra
Pierre Monteux
BBC Legends BBCL4006-2

Francis Poulenc
Dialogues des Carmélites.
F. Lott, J. Chamonin, R. Crespin, A.-M. Rodde (sopranos), G. Barrial,
F. Laurent-Gérimont (meio-sopranos), P. d'Hollander (barítono), L. Pezzino,
B. Plantey (tenores), C. Vierne (contr)
French Radio Chorus
French National Orchestra
Jean-Pierre Marty
INA Mémoire Vive IMV035

Richard Strauss
Der Rosenkavalier, Op.59.
R. Crespin, H. Donath, Y. Minton, E. Loose, R. Schwaiger, A. Auger (sopranos),
L. Pavarotti, K. Equiluz, M. Dickie, H. Prikopa (tenores), Otto Wiener (barítono)
Vienna State Opera Chorus
Vienna Philharmonic Orchestra
Georg Solti
Decca 417 493-2

Richard Wagner
Die Walküre.
H. Hotter (baixo-barítono), R. Crespin, B. Nilsson, V. Schlosser, B. Lindholm,
H. Dernesch (sopranos), C. Ludwig, B. Fassbaender, C. Hellmann, V. Little,
M. Tyler (meio-sopranos), H. Watts (contralto), J. King (tenor), G. Frick (baixo)
Vienna Philharmonic Orchestra
Georg Solti
Decca 455 559-2


Internet
http://www2.ups.edu/faculty/mdelos/Crespin.htm

22/02/2006

CDs #73: Hugo Wolf, Mörike Lieder

Além da curta vida que teve, o austríaco Hugo Wolf (1860-1903), falecido há 103 anos, viu-se frequentemente incapaz de compor o que quer que fosse, por sofrer de uma instável saúde mental. Desde cedo começou a ter problemas, se nos recordarmos de que em 1877 foi corrido do Conservatório de Viena e, em 1881, pouco tempo se aguentou em Salzburgo como assistente do maestro alemão Karl Muck (1859-1940), por ter um temperamento inadequado.

O final da década de 80, todavia, revelar-se-ia especialmente produtivo para Wolf. São dessa altura os 53 lieder de Mörike, os de Eichendorff e os de Goethe, naquilo que constitui um dos maiores legados de lieder (canções) depois dos de Schubert (1797-1828) e de Schumann (1810-1856). O sucesso obtido levou-o a tentar o género operático e, em 1895, terminou aquela que viria a ser a sua única ópera completa, Der Corregidor, que não obteria qualquer sucesso. Seguir-se-iam novos problemas mentais, com o internamento definitivo em 1898.

Sendo um ciclo incontornável, os Mörike-Lieder, com base em textos do poeta alemão Eduard Mörike (1804-1875), já foram cantados por muitos e bons intérpretes, tanto damas como cavalheiros, mas o CD aqui trazido hoje ostenta nomes menos conhecidos: o barítono Roman Trekel, o pianista Oliver Pohl e a editora Oehms. Problema? Nenhum, apenas grandes audições!




Hugo Wolf
Mörike-Lieder.
Roman Trekel (barítono), Oliver Pohl (piano)
Oehms Classics OC 305
(2001)


Internet

Hugo Wolf
La Médiathèque
/ Classical Music Pages / Wikipedia

20/02/2006

Obras Orquestrais #6: Ibéria, de Claude Debussy

Além do apoio dado a Tchaikovsky (1840-1893), a baronesa russa Nadezdha von Meck (1831-1894) ajudou igualmente o jovem Claude Debussy (1862-1918), contratando-o como pianista acompanhante e proporcionando-lhe várias viagens à Rússia, a Itália e à Áustria, que o enriqueceram cultural e musicalmente, sem esquecer, obviamente, a vertente mais financeira da questão...

Só que Debussy estava mais virado para a composição do que para uma carreira de pianista virtuoso, e o tempo vir-lhe-ia a dar razão. Nem foi preciso muito tempo, verdade seja dita, pois em 1884 ganharia o Prémio de Roma. Aquele que Ravel nunca ganhou, apesar de a ele ter concorrido por 4 vezes...

Depois das aventuras e desventuras, em 1902, à volta da ópera Pelléas et Mélisande, Debussy iria escrever as suas melhores peças para piano, bem como algumas das mais emblemáticas obras orquestrais. O tríptico Images, de 1912, pertence a estas últimas, sendo formado por Gigues, Iberia e Rondes de printemps. Refira-se, já agora, que Images é uma obra orquestral mas esteve para o não ser, pois a primeira ideia de Debussy era que fosse uma obra para dois pianos. Das 3, Ibéria é de longe a que mais popularidade alcançou, sendo ainda hoje a mais tocada, apesar da estreia, a 20 de Fevereiro de 1910, ter sido um assinável fracasso. Nela Debussy descreve uma Espanha por ele imaginada: "Oiço os ruídos que fazem os caminhos na Catalunha, ao mesmo tempo que a música nas ruas de Granada". Debussy nunca esteve em nenhum desses dois locais...


CDs



Claude Debussy
Ibéria.
Joaquin Turina
Danzas fantásticas, Op.22. Sinfonia sevillana, Op.23.
La Procésion del Rocio, Op.9.
Cincinatti Symphony Orchestra
Jesus López-Cobos
Telarc CD80574

Claude Debussy
Berceuse héroïque. Images. Jeux. MArche écossaire. Nocturnes. La Mer.
Prélude à l'Après-midi d'un faune. Danses pour harpe et orchestre à cordes.
Rhapsodie pour orchestre et clarinette principale.
Royal Concertgebouw Orchestra
Bernard Haitink, Eduard van Beinum
Philips 438 742-2

Claude Debussy
Nocturnes. La mer. Images - Ibéria.
Maurice Ravel
Alborada del gracioso. Rapsodie espagnole. Daphnis et Chloé - Suite No.2.
Le tombeau de Couperin. La valse.
SWR Vocal Ensemble
SWR Stuttgart Radio Symphony Orchestra
Sergiu Celibidache
Deutsche Grammophon 453 194-2


Internet

Claude Debussy
Claude Debussy Website / Biographie / IRCAM / Wikipedia

Prix de Rome
Les Prix de Rome / Wikipedia

19/02/2006

CDs #72: Joseph Szigeti, Brahms

33 anos faleceu um extraordinário violinista, Joseph Szigeti (1892-1973), norte-americano de origem húngara. Tendo dado nas vistas desde muito novo, Joseph Joachim (1831-1907) chegou a propor dar-lhe aulas, numa altura, em 1906, em que Szigeti vivia na Alemanha. Declinou a oferta e preferiu mudar-se para Londres, onde viveu até 1913 e teve a oportunidade de ser dirigido por Thomas Beecham (1879-1961) e de tocar com músicos como a soprano Nellie Melba (1861-1931) e os pianistas Wilhelm Backhaus (1884-1969) e Myra Hess (1890-1965).

Numa das obras constantes do disco aqui hoje trazido, o Quarteto para Piano Nº3 de Johannes Brahms (1833-1897), Szigeti é acompanhado precisamente por Myra Hess, bem como pelo violista Milton Katims (1909-) e pelo violoncelista Paul Tortelier (1914-1990). Este quarteto de Brahms nasceu de parto difícil, aí coisa para ter durado uns bons 20 anos! Começado a conceber em 1856, apenas em 1875 o compositor o terminaria tendo, no entretanto, conhecido várias versões e arranjos. A estreia, em Fevereiro de 1876, contou com o próprio Brahms ao piano.

1856, recordemos, foi o ano da morte de Robert Schumann (1810-1856), depois de, 2 anos antes, ter começado a sofrer de alucinações e tentado o suicídio, o que impressionou profundamente Brahms. Este quarteto é assim atravessado por uma atmosfera sombria, de quase desespero, espelho dos acontecimentos à altura em que começou a ser escrito, e que resistiu às alterações posteriormente introduzidas pelo compositor. Que, aquando da sua publicação, escreveu ao editor:

"Na capa deve ter uma fotografia, de uma cabeça com uma pistola a ela apontada. Isto dar-lhe-á uma ideia da música. Para o efeito, envio-lhe uma fotografia minha!..."



Johannes Brahms
Violin Sonata No.1 in G, Op.78.
Piano Quartet No.3 in C minor, Op.60.
Joseph Szigeti (violino), Mieczyslaw Horszowski, Myra Hess (pianos),
Milton Katims (viola), Paul Tortelier (violoncelo)
Biddulph 80212-2
(1951, 1952)


Internet

Brahms
Johannes Brahms WebSource
/ Classical Music Pages

Szigeti
Legendary Violinists
/ Wikipedia

17/02/2006

Maestros #22: Bruno Walter (1876-1962)

Gustav Mahler (1860-1911) escreveu das mais importantes páginas sinfónicas da história da música, constituindo as suas 10 sinfonias, compostas entre 1888 e 1910, um notável e doloroso documento de adeus ao romantismo. Das sinfonias de Mahler temos vindo a falar regularmente, já por aqui tendo passado a , a , a (1 e 2), a e a , mas hoje, dia em que passam 44 anos sobre a sua morte, queremos lembrar alguém que teve uma estreita relação com a música de Mahler e com o próprio compositor: Bruno Walter.

É conhecido o facto de Walter, pianista de formação, ter decidido enveredar pela carreira de maestro após assistir a concertos dirigidos por Hans von Bülow (1830-1894), bem como ter sido durante o funeral deste último que Mahler encontrou a inspiração para terminar a 2ª Sinfonia, em 1894. Nesse mesmo ano Bruno Walter teve a sua estreia à frente de uma orquestra, em Colónia. Seguir-se-ia a colaboração com Mahler, primeiro em Hamburgo, onde foi seu assistente e, a partir de 1901, em Viena. Mahleriano desde a primeira hora, Bruno Walter estrearia postumamente duas obras deste compositor: Das Lied von der Erde (O Canto da Terra), em 1911, e a Sinfonia Nº9, em 1912.

Em 1933, pela disseminação do anti-semitismo na Alemanha, Walter mudou-se para a Áustria, onde trabalhou até 1938. Nessa altura teve novamente que mudar de ares, tendo sido mais uma das vítimas do anschluss
, ocorrido em Março desse ano. Após uma breve passagem por França, fixar-se-ia definitivamente nos Estados Unidos, tendo obtido cidadania americana em 1946.


CDs




Bruno Walter
The Vienna Farewell Concert.
Franz Schubert

Symphony No.8, "Unfinished".
Gustav Mahler
Symphony No.4.
Elisabeth Schwarzkopf (soprano)
Vienna Philharmonic Orchestra
Music & Arts CD4705(2)

Great Conductors of the 20th Century: Bruno Walter
Ludwig van Beethoven
Symphony No.6.
Johannes Brahms
Symphony No.2.
Wolfgang Amadeus Mozart
Le Nozze di Figaro: Overture.
Franz Joseph Haydn
Symphony No.92.
Richard Wagner
Die Meistersinger: Prelude to Act 1.
Die Walküre: Act 2, Scene 5.
Gustav Mahler
Symphony No.5: Adagietto.
Johann Strauss
Die Fledermaus: Overture.
Wiener Philharmoniker
New York Philharmonic
British Symphony Orchestra
Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire
Symphony Orchestra
Bruno Walter
EMI 5 75133-2

Gustav Mahler
Das Lied von der Erde.
Kerstin Thorborg (meio-soprano), Charles Kullman (tenor)
Vienna Philharmonic Orchestra
Bruno Walter
Dutton Laboratories CDBP9722

Gustav Mahler
Symphony No.9 in D minor.
Vienna Philharmonic Orchestra
Bruno Walter
Dutton Laboratories CDBP9708


Internet

Bruno Walter Memorial Foundation
/ Bruno Walter (Conductor) / Biografia

15/02/2006

Lugares #123

Há não muito tempo referi por estas páginas que uma das maiores atracções de Praga é o relógio astronómico, e deixei a ameaça de o trazer aqui um dia. Pois acabei de decidir ser hoje esse famoso dia, à falta de melhor tema para aqui trazer...

Tendo uma aversão doentia por tudo a que me cheire a "Maria-vai-com-as-outras", evito, sempre que possível, os passeios turísticos organizados, aqueles com guias com ridículos chapéus de chuva a apontar para as estrelas por forma a que nenhuma ovelha do rebanho se tresmalhe, e que ficam com pele de galinha sempre que um dos mamíferos se lembra de orientar os cascos para um trilho não previsto. O que não significa, obviamente, que deixe de visitar os locais mais representativos e inteirar-me da sua história. Como esta, que diz respeito ao assunto de hoje.

Nos finais do século XI havia dois mercados principais em Praga, um dos quais situado onde hoje fica a célebre Praça da Cidade Velha. Na época românica a maioria da população concentrou-se à volta dessa praça, que cresceu, desenvolveu-se e prosperou. No século XIII esta zona recebeu privilégios de cidade e, em 1338, uma Câmara Municipal. A Câmara foi-se expandindo, à custa de anexações de casas vizinhas. Em 1364 foi acrescentada uma torre a uma dessas casas onde, no início do século XV, foi colocado um relógio.

A coisa não terá corrido demasiadamente bem e, em 1490, um mestre relojoeiro, de seu nome Hanus, foi contratado para o reconstruir. Reza a história que, para azar dele, fez obra de tal maneira perfeita que os contratantes apenas tiveram uma preocupação, a de evitar que a fosse repetir para outras paragens. E como atingiram tal desiderato? Cegaram o desgraçado...

De hora a hora, penso que apenas durante o dia, abrem-se duas portinholas de onde saem em desfile os Apóstolos. É nesse altura que, principalmente no Verão, há centenas de pategos a fazer horas e a olhar para o balão, que os bons lugares são marcados com antecedência. Já reconfortados com a procissão anunciada, é então altura de ouvir um galo cantar e de finalmente o relógio dar as horas. Curiosamente, o relógio astronómico propriamente dito não pretendia informar as horas, mas antes imitar as órbitas do Sol e da Lua em redor da Terra, pois só muito mais tarde é que a Terra e o Sol trocaram de posições...


Internet

Prague Astronomical Clock / The Prague Astronomical Clock / Astronomical Clock / Wikipedia

14/02/2006

CDs #71: Rubbra, Violin Sonatas Nos.1, 2 & 3

Em Novembro de 1918, Edmund Rubbra (1901-1986), na altura ainda a trabalhar nos Caminhos de Ferro Ingleses para ajudar ao orçamento familiar, organizou um concerto na biblioteca local dedicado exclusivamente à música de Cyrill Scott (1879-1970), de quem aqui falámos recentemente a propósito de um outro CD. Este evento chegou mais tarde ao conhecimento de Scott, com quem Rubbra viria então a ter algumas lições. Posteriormente, Rubbra seria aluno de Gustav Holst (1874-1934), na Reading University e no Royal College of Music.

Foi durante a estadia no RCM, onde esteve entre 1922 e 1925, que Rubbra compôs a primeira sonata para violino, cuja partitura se perdeu entretanto. E é por isso que a sonata que compôs em 1925 se tornou oficialmente na primeira, à falta da anterior... Além dos 2 já citados, desta sonata transparece a influência de um outro compositor inglês, John Ireland (1879-1962), até agora ausente destas páginas.

Curiosamente, tal como acontecera com Ireland em 1917, Rubbra obteve o seu primeiro grande sucesso com a 2ª Sonata para Violino, que o próprio estreou ao piano acompanhado pela esposa, a violinista Antoinette Chaplin, no dia 21 de Março de 1932. Rubbra levaria 35 anos até regressar ao género, e apenas no dia 4 de Julho de 1968 teria lugar a estreia da 3ª Sonata.

Uma última nota, para referir o facto de Northampton, uma cidade que, no virar do século, tinha uma importante indústria do calçado, ter visto nascer, num espaço de duas décadas, 3 dos mais importantes compositores ingleses: o próprio Edmund Rubbra, em 1901, William Alwyn em 1905 e
Malcolm Arnold, em 1921.

Edmund Rubbra faleceu há 20 anos, no dia 14 de Fevereiro de 1986.




Edmund Rubbra
Sonata No.1 for Violin and Piano, Op.11.
Four Pieces for Violin and Piano, Op.29.
Sonata No.2 for Violin and Piano, Op.31.
Variations on a Phyrgian Theme for Solo Violin, Op.105.
Sonata No.3 for Violin and Piano, Op.133.
Krysia Osostowicz (violino), Michael Dussek (piano)
Dutton Laboratories Epoch CDLX 7101
(1999)


Internet

EdmundRubbra.org / Edmund Rubbra by Francis Routh

11/02/2006

Blogues #4

Por tradição, a família mais chegada sempre teve uma certa queda para as ciências, e enveredou maioritariamente pelas matemáticas e engenharias, poupando assim o trabalho de procurar um daqueles cursos em que a Matemática não fosse disciplina obrigatória. Irmãos, irmãs, primas e outros eventuais familiares mostraram apetência pelos números, só me restava manter a tradição.

Lá fui seguindo os ditames dessa tradição familiar, desenrascando-me nas actividades numéricas e entupindo noutras áreas, com destaque especial para os Trabalhos Manuais. Eu era um daqueles que, para fazer uma caixinha de madeira para guardar clips, necessitava de uma tábua que daria para fazer um guarda-fatos e não terminava a obra por falta de matéria prima...

A História, seguramente, também não foi dos meus pontos fortes. Adepto da improvisação em detrimento da memorização, confiava que uma prosa escorreita, à volta de uns conhecimentos vagos da matéria em causa, chegaria para convencer os doutos professores. Puro engano, conforme constatei rapidamente nas primeiras notas esborrachadas nas pautas. Para grandes males, grandes remédios, pelo que a certa altura do campeonato mudei de estratégia: em vez de tentar compreender os livros de história e expressar a minha criatividade nos testes, passei a fazer como os outros, os bons alunos, memorizando textos completos, que despejava religiosamente nas provas escritas. Deixei de perceber os assuntos, mas passei a tirar boas notas...

A Filosofia, curiosamente e para meu desespero, não foi muito diferente, só que, em vez de perguntarem em que dia D. Carlos tinha sido assassinado, queriam saber em que data Descartes fora pela primeira vez assaltado pela Dúvida. O mesmo problema, a mesma solução. Só que, se a História já tinha sérias interrogações sobre aquilo que escrevia, imaginem a Filosofia... Ainda hoje dou comigo a pensar nesta coisa extraordinária, no facto daquela disciplina ter-me servido principalmente para treinar a memória!

E aqui chego ao objecto deste (demasiadamente longo) texto, para referir dois dos meus blogues favoritos: o
Digitalis e o Persona. Versam a Psicologia, a Filosofia, esplanam pensamentos e, no caso do Digitalis, ainda somos frequentemente premiados com receitas culinárias, certamente admiráveis, soubesse eu cozinhar. Fazem parte das minhas leituras diárias, tendo renovado o meu interesse pelos assuntos que abordam. O meu obrigado aos seus autores, espero que continuem a bloggar por muitos e bons anos.

10/02/2006

CDs #70: Harriet Cohen Plays Bax

Arnold Bax (1883-1953) foi, em conjunto com Ralph Vaughan Williams (1872-1958), um dos mais importantes sinfonistas ingleses e um digno sucessor de Edward Elgar (1857-1934). Onde a música de Elgar revela as influências cosmopolitas (mais "europeia" do que "inglesa"), a de Bax baseou-se no folclore inglês, não disfarçando ainda uma forte influência celta.

Bax escreveu 7 sinfonias, entre 1922 e 1939. Winter Legends, a primeira obra apresentada neste disco, foi composta entre o final de 1929 e Abril de 1930, logo após a 3ª Sinfonia. Nota-se a influência de Jean Sibelius (1865-1957) a quem, por sinal, Bax dedicou a obra. A estreia teve lugar há 74 anos, no dia 10 de Fevereiro de 1932, com Adrian Boult (1889-1983) à frente da Orquestra Sinfónica da BBC.

O interesse deste disco resulta também do facto de ter Harriet Cohen (1895-1967) ao piano. É que foi por ela que Bax, em 1918, largou mulher e filhos, e seria ainda a ela que Bax viria a dedicar uma boa parte das suas obras, que a própria estrearia. Já agora, diga-se que Winter Legends viu a sua dedicatória original a Sibelius ser apagada por Harriet Cohen e substituída por "written for and dedicated to Harriet Cohen"...

O disco termina com a Sonata para Viola, com Harriet Cohen acompanhada pelo grande violista escocês William Primrose (1903-1982). Membro fundador do London String Quartet, em 1930, Primrose viria posteriormente a enveredar por uma carreira de solista, tendo encomendado, inclusivamente, um Concerto a Béla Bartók (1881-1945). Que o compositor húngaro não teve tempo de terminar, tendo a tarefa ficado a cargo do violista húngaro Tibor Serly (1901-1978), a partir dos esboços deixados por Bartók. A estreia aconteceria apenas em 1949, com William Primrose como solista.



Harriet Cohen Plays Bax
Winter Legends. A Mountain Mood. A Hill June. Viola Sonata.
Harriet Cohen (piano), William Primrose (viola)
BBC Symphony Orchestra
Clarence Raybould
Dutton CDBP 9751
(1954, 1942, 1937)


Internet

Arnold Bax: bbc.co.uk
/ Sir Arnold Bax / Wikipedia
Harriet Cohen: Wikipedia

09/02/2006

DVDs #11: Giuseppe Verdi (1813-1901), Falstaff

Em 1870 o compositor italiano Giuseppe Verdi começou a trabalhar na ópera Aida, que iria estrear no Cairo no dia 24 de Dezembro do ano seguinte. Passar-se-iam mais de 15 anos até que Verdi se metesse noutra aventura operática, para escrever uma das mais trágicas óperas do seu repertório, Otello.


Giuseppe Verdi

A ópera que se seguiu, Falstaff, foi também a sua última. Composta por sugestão de Arrigo Boito (ver este texto
), que forneceu o libreto (tal como já fizera para a versão revista de Simon Boccanegra e Otello), baseado principalmente em The Merry Wives of Windsor, de William Shakespeare (1564-1616).



Falstaff não foi apenas a última ópera de Verdi, foi igualmente a sua primeira comédia, retratando as desventuras de Sir John Falstaff à procura de noiva que o tirasse da penúria. A estreia aconteceu no La Scala de Milão a 9 de Fevereiro de 1893.



Giuseppe Verdi
Falstaff.
José van Dam, William Stone, Barbara Madra, Livia Budai, Benedetta Pecchioli,
Laurence Dale, Elzbieta Szmytka, Franco Careccia, Mario Luperi, Ugo Benelli
Chorus and Orchestra of the Théatre Royal de la Monnaie de Bruxelles
Sylvain Crambeling
NVC Arts 5050467-4469-2-2


Internet

http://www.classical.net/music/comp.lst/works/verdi/falstaff/
http://www.giuseppeverdi.it/page.asp?IDCategoria=162&IDSezione=580&ID=19737

07/02/2006

Compositores #59: Wilhelm Stenhammar (1871-1927)

A música incidental, nomeadamente a composta para produções dramáticas, apareceu, com o sentido que lhe damos hoje, no Renascimento. Ao contrário de outros formas musicais, verdadeiros hinos do efémero, esta atravessou vários séculos, e teve notáveis promotores no século XX, como Gabriel Fauré (1845-1924), Igor Stravinsky (1882-1971) e o finlandês Jean Sibelius (1865-1957). Este último, um nome incontornável da música dos países nórdicos, escreveu uma boa parte da sua música incidental ainda bastante jovem.

Precisamente o oposto aconteceu com o compositor sueco Wilhelm Stenhammar (1871-1927), que compôs a maior parte da sua música incidental na última década de vida. Uma época complicada para Stenhammar, aliás, com diversos compromissos como maestro, visto ter sido maestro principal da Orquestra de Gotemburgo entre 1906/7 e 1922, e afectado por problemas de saúde, que o levaram a cancelar alguns projectos. Foi à frente dessa orquestra que, em 1913, Stenhammar estreou a 4ª Sinfonia de Sibelius em solo sueco. Diga-se, já agora, que, enquanto vivo, Stenhammar era conhecido principalmente como pianista e maestro, não como compositor.

E como a gente aqui gosta de se entreter a ouvir obras dos compositores (geralmente apelidados de) menos conhecidos, é com um prazer especial que nos rendemos às melodias de Stenhammar, nascido passam hoje 135 anos. Um dia destes ainda vamos divulgar o nosso Top +, composto exclusivamente de compositores de que talvez nunca tenham ouvido falar...


CD



Wilhelm Stenhammar
"Music for the Theatre".
Helén Finnberg, Caroline Sjöberg (sopranos), Peter Boman (barítono),
Carl Andersson (oboé), Magnus Nilsson (fagote)
Helsingborg Concert Hall Choir
Helsingborg Symphony Orchestra
Arvo Volmer
Sterling CDS1045-2


Internet

Wilhelm Stenhammar / Wikipedia / Musical Settings / Wilhelm Stenhammar International Music Competition