30/09/2006

CDs #97: Shostakovich, Violin Concertos Nos.1 & 2

Este ano de 2006 ficará certamente marcado pelas celebrações do 250º aniversário do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), profusamente divulgadas (€€€...). Tal não justificará que nos esqueçamos de outras, igualmente significativas, como o facto de há 5 dias atrás ter passado o 1º centenário do nascimento do compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975). Aquele compositor que, frequentemente apelidado de do regime, teve vários e sérios problemas com as autoridades russas, algo que já anteriormente referimos de passagem, neste postal de há um ano.

É que Estaline (1879-1953) e seus apaniguados viam as artes como um meio de propaganda, tolerando mal a experimentação e as modernidades, incluindo as musicais. Más notícias para Shostakovich, obviamente, que tinha uma admiração especial pelas obras de Bela Bartók (1881-1945), Alban Berg (1885-1935) e Ernst Krenek (1900-1991), entre outros, todos eles compositores contemporâneos cujos sons não eram dos mais apreciados por quem mandava na Rússia. As décadas de 30 e 40 foram particularmente difíceis para Shostakovich, vítima de diversos ataques das autoridades, sempre zelosas em corrigir-lhe os desvios do rumo (oficial).

Neste ambiente, entende-se que Shostakovich tenha mantido na gaveta o Concerto para Violino que escreveu entre 1947 e 1948, o primeiro para aquele instrumento. Bem acompanhado, seguramente, que obras por publicar não faltavam nessa gaveta como, por exemplo, o Quarteto de Cordas Nº4. O concerto haveria de ser estreado apenas em 1955, no dia 29 de Outubro, e pelo violinista a quem tinha sido dedicado, David Oistrakh (1908-1974). O mesmo dedicatário, aliás, do 2º Concerto para Violino. Pouco após a estreia, em Leninegrado, o mesmo David Oistrakh interpretaria o 1ª Concerto para Violino em Dezembro em Nova Iorque, obtendo um extraordinário sucesso.

No CD que aqui trazemos hoje, o violino é tocado pelo igualmente russo Maxim Vengerov (1974-), com a
Orquestra Sinfónica de Londres dirigida por Mstislav Rostropovich (1927-), que também chegou a ser russo e de quem aqui já se falou, só que da sua faceta de violoncelista.

David Oistrakh nasceu há 98 anos, em Setembro de 1908.




Dmitri Shostakovich
Violin Concerto No.1 in A minor, Op.77.
Violin Concerto No.2 in C sharp minor, Op.129.
Maxim Vengerov (violino)
London Symphony Orchestra
Mstislav Rostropovich
Warner Classics Elatus 0927 46742-2
(1994, 1996)


Internet

David Oistrakh
beethoven / Wikipedia / David Fiodorovich Oistrakh

Maxim Vengerov
Official Website / Calouste Gulbenkian Foundation / Maxim Vengerov Fan Website

28/09/2006

CDs #96: York Bowen, Violin Concerto, Piano Concerto No.1

Volta que não volta lá voltamos aos compositores desconhecidos, que têm tido por aqui um destaque que raramente encontramos noutros locais. Veja-se o caso do compositor aqui hoje trazido, o londrino York Bowen (1884-1961): quantos dos prezados leitores já terão dele ouvido falar? Provavelmente nunca, o que não será de admirar. Dos livros, livrinhos, mini-enciclopédias e afins, todos versando assuntos directamente relacionados com a música, que ocupam aqui as prateleiras, apenas um faz uma pequena referência a este compositor. Honra lhe seja feita, pelo que aqui fica o devido destaque:

The Oxford Companion to Music
edited by Alison Latham
Oxford University Press
ISBN 0-19-866212-2

Contemporâneo de Arnold Bax (1883-1953), estudou igualmente na Royal Academy of Music
, entre 1898 e 1905 e, tal como Bax, escolheu como instrumento de eleição o piano. Para o qual escreveu 4 concertos e inúmeras peças instrumentais, a maioria por ele mesmo estreadas. Escreveu ainda 4 concertos para outros tantos instrumentos, um dos quais o violino. Composto em 1913, haveria de ser apenas estreado 7 anos depois, no dia 28 de Setembro de 1920, num Concerto Promenade. Dedicado a Daniel Melsa (1892-1952) com quem Bowen, juntamente com o violista Lionel Tertis (1876-1975), formou um trio pouco antes do início da 1ª Grande Guerra, contou na estreia com a violinista Marjorie Hayward, tendo a direcção da orquestra ficado a cargo do próprio compositor. E se aqui e ali lhes vier à memória o Concerto para Violino de Edward Elgar (1857-1934), tal dever-se-á, possivelmente, ao facto de Bowen lá ter ido buscar uma ou outra inspiraçãozinha... Nada que desmereça este extraordinário concerto, contudo!




York Bowen
Violin Concerto in E minor, Op.33.
Piano Concerto No.1 in E flat, Op.11.
Michael Dussek (piano), Lorraine McAslan (violino)
BBC Concert Orchestra
Vernon Handley
Dutton Epoch CDLX 7169
(2005)


Internet

York Bowen
The York Bowen Society
/ Wikipedia / JW Music Publishing

25/09/2006

SACDs #10: Sibelius, Symphonies Nos.3 & 7

Os Concertos Promenade nasceram de uma ideia do empresário Robert Newman, que pretendia que, no seu início, eles fossem populares, porque popular seria a música apresentada para, aos poucos, irem introduzindo obras mais difíceis e, desse modo, criar um público para a música clássica. A Henry Wood (1869-1944) coube a responsabilidade de ser o maestro principal desses concertos, função que desempenhou até Julho de 1944. O primeiro concerto teve lugar no dia 10 de Agosto de 1895 e, duas décadas e meia depois, já por lá tinham passado obras de Claude Debussy (1862-1918), Sergei Rachmaninov (1873-1943), Maurice Ravel (1875-1937), Richard Strauss (1864-1949) e Vaughan Williams (1872-1958), resultado dos objectivos inicialmente traçados.

Em 1901, houve um outro compositor que viu uma obra sua ser interpretada nos Proms: o finlandês Jean Sibelius (1865-1957), com a suite orquestral King Christian II. É que, por essa altura, Sibelius gozava já de uma óptima reputação, fruto de algumas obras de sucesso que já tinha composto, com particular destaque para Finlandia, escrita em 1900.

A obra seguinte, a Sinfonia Nº2, foi entendida pelos seus compatriotas como um hino contra o opressor (na altura a Finlândia não era um país independente, estando reduzida a uma província do império russo), ficando mesmo conhecida na altura como a "Sinfonia da Libertação". Tanto quanto se sabe, nunca foi essa a intenção do compositor... A sinfonia que se seguiu foi de gestação longa, composta entre 1904 e 1907, e dedicada ao compositor inglês e um dos primeiros promotores da sua música, Granville Bantock (1868-1946). Ao contrário das tendências do romantismo (tardio) da época, com obras que exigiam grandes orquestras, Sibelius escreveu uma sinfonia sóbria, num estilo próximo do clássico, para uma orquestra de proporções razoáveis, que Beethoven certamente não estranharia... A Sinfonia Nº3 foi estreada em Helsínquia pelo próprio compositor, no dia 25 de Setembro de 1907.




Jean Sibelius
Symphony No.3. Symphony No.7.
London Symphony Orchestra
Colin Davis
LSO0051 (CD) / LSO0552 (SACD)
(2003)


Internet

Jean Sibelius
Jean Sibelius - The website
/ Classical.net / Sibelius - Finland's voice in the world / Classical Music Pages

Proms
History of the Proms / Wikipedia

24/09/2006

Compositores #71: Malcolm Arnold (1921-2006)

Mais uma morte a lamentar, desta vez a do compositor inglês Malcolm Arnold. Prolífico, escreveu 9 sinfonias, 20 concertos, 5 músicas para bailado e um sem número de obras para várias formações, além de bandas sonoras para mais de 80 filmes. Uma delas, como é sobejamente sabido, para o filme A Ponte do Rio Kwai, que lhe valeu um Óscar em 1958, o primeiro atribuído a um compositor britânico.

Nunca tendo sido demasiado aventuroso, foi etiquetado de tradicionalista, o que lhe valeu, além do desfavorecimento dos críticos, o ter sido ostracizado pela BBC, principalmente nos anos 60, altura em que esta privilegiava o serialismo e o avant-garde. O que não o impediu de receber variadíssimas distinções e honrarias, como o Ivor Novello Award em 1986, por "Outstanding Services to British Music".


Textos no desNorte

Malcolm Arnold
Compositores #44
/ CDs #33: The Chamber Music of Malcolm Arnold


Internet

Malcolm Arnold
BBC News
/ Official Website / Wikipedia / IRCAM / Chester Novello / IMDb

23/09/2006

Lugares #145

Mozart
Dinner Concert
Im Barocksaal des
Stiftskeller St. Peter

Menue

from "Don Giovanni", KV527
Salzburger Divertimento in F, KV138: Allegro
"Notte giorno"
"Madamina, il catalogo...": 1. Teil
"Batti, batti o bel Masetto"
"Deh vieni alla finestra": 1. Teil
"Là ci darem la mano"

Lemon Cream soup with cinnamon

from "Le Nozze di Figaro", KV492
"Cinque, dieci, venti"
"Non so pií cosa son..."
"Non più andrai"
"Deh vieni non tardar"
Salzburger Divertimento in D, KV136: Allegro
"Crude! Perché finora"

Brest of roasted capon with vegetables from Pater Prior's garden with polenta, potato stuffed pear and truffled cream of sage

from "Die Zauberflöte", KV620
Serenade G-Dur, KV525
"Eine kleine Nachtmusik": 1. Satz, Allegro
"Bei Männern welche Liebe fühlen!"
"Ein Mädchen oder Weibchen..."
"Klinget Glökchen klinget"
"Pa-pa-pa"

Semi-frozen parfait of honey



Stiftskeller St. Peter gaba-se de ser o mais antigo restaurante da Europa Central, sendo citado em documentos datados do início do século IX. Fica situado na praça de St. Peter, em Salzburgo, ao lado da igreja com o mesmo nome e, desde 1996, organiza diariamente um jantar-concerto dedicado à música de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

Por lá passámos e tirámos a barriga de misérias numa recente noite de Verão; onde chegámos devidamente protegidos por impermeáveis e guarda-chuvas, ou não fosse o Verão de Salzburgo...


Internet

Stiftskeller St. Peter
St. Peter Keller - Das ältest Restaurant Europas in Salzburg / My TravelGuide / Mozart's Musical Cities

20/09/2006

SACDs #9: Nikos Skalkottas, Piano Concerto No.2

Das Busch der hängenden Gärten (O Livro dos Jardins Suspensos), uma obra de 1908 de Arnold Schoenberg (1874-1951) terá sido a primeira obra atonal da história, resultante do sistema por ele desenvolvido e que, basicamente, negava os princípios fundamentais do sistema tonal. As obras atonais caracterizam-se precisamente pela inexistência de uma organização hierárquica dos sons em relação a um som de referência, ou seja, resultam da abolição da polaridade tonal.

O grego Nikos Skalkottas (1904-1949) foi aluno de Schoenberg entre 1927 e 1931, e é portanto natural que tenha aderido ao sistema atonal, dentro do qual escreveu inúmeras obras. O seu Concerto para Piano Nº1 é considerado o primeiro para esse instrumento que utiliza a escala de 12 meios tons, outra das características do sistema atonal. Skalkottas compôs este concerto em 1931, em Berlim, antes portanto do regresso a Atenas, em 1933, incentivado pela subida ao poder de Adolf Hitler. Em 1937, Skalkottas compôs o 2º Concerto para Piano, ainda no sistema atonal. Tal como aconteceu com a maior parte das suas obras, este concerto apenas foi estreado após a sua morte, mas contribuiu decisivamente para o reconhecimento póstumo do compositor, em especial a partir da década de 60 do século XX.

Nikos Skalkottas faleceu há 57 anos, no dia 20 de Setembro de 1949.




Nikos Skalkottas
Concerto No.2 for Piano and Orchestra. Tema con variazioni.
Little Suite for Strings. Four Images.
Geoffrey Douglas Madge (piano)
BBC Symphony Orchestra
Nikos Christodoulou
BIS SACD-1484
(2004)


Internet

Nikos Skalkottas
The Official Site of the Friends of Nikos Skalkottas's Music Society / Wikipedia / Nikos Skalkottas

17/09/2006

Tenores #6: Fritz Wunderlich (1930-1966)

Assim como no ano passado andámos frequentemente embrulhados em assuntos checos, este ano, por motivos não muito diferentes, estamos particularmente sensíveis aos austríacos. E destes, os relacionados com Salzburgo e o respectivo festival levam primazia, que as memórias ainda são recentes.

Pois foi nesse festival que o tenor alemão Fritz Wunderlich registou o seu primeiro grande êxito internacional, com o papel de Henry em Die Schweigsame Frau, de Richard Strauss (1864-1949). Isto deu-se por volta de 1960, poucos anos depois da sua estreia operática, que teve lugar na Ópera de Estugarda, em 1955. Com o papel que o marcaria definitivamente, o de Tamino n'A Flauta Mágica de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Apesar de ter alargado o seu repertório a Bach (1685-1750), Mahler (1860-1911), Schubert (1797-1828) e Strauss, por exemplo, ficaria irremediavelmente ligado a Mozart. Com o tempo foi dando mais atenção ao lieder, de Schubert (1797-1828) e Schumann (1810-1856).

Deste último, Wunderlich cantou Dichterliebe no Festival de Edinburgo apenas 2 semanas antes de falecer, vítima de uma queda em casa de um amigo. O que levou alguns a traçar um paralelo com James Dean (1931-1955): ambos faleceram jovens, vítimas de acidentes, no pico das suas carreiras (se é que tal se pode afirmar), e a reputação dos dois continuou a crescer bem para além da sua morte.

Fritz Wunderlich faleceu há 40 anos, no dia 17 de Setembro de 1966.


CDs




Fritz Wunderlich
in Memoriam.
Opera Arias by Bellini, Gluck, Handel, Lortzing, Mozart, Puccini, Tchaikovsky, Verdi.
Lieder by Beethoven, Schubert, Schumann.
Deutsche Grammophon 435 145-2

Mahler
Das Lied von der Erde.
Christa Ludwig, Fritz Wunderlich
Philharmonia Orchestra
New Philharmonia Orchestra
Otto Klemperer
EMI GROC 5 66892-2

Mozart
Die Entführung aus dem Serail.
Köth, Wunderlich, Böhme, Schädle, Lenz, Schmitz, Boysen
Bavarian State Opera Chorus and Orchestra
Eugen Jochum
Deutsche Grammophon 459 424-2

Mozart
Die Zauberflöte.
Peters, Lear, Crass, Wunderlich, Fischer-Dieskau
Berlin Radio Chamber Chorus
Berlin Philharmonic Orchestra
Karl Böhm
Deutsche Grammophon 445 464-2

Haydn
Die Schöpfung.
Gundula Janowitz, Fritz Wunderlich, Kim Borg, Hermann Prey
Vienna Singverein
Vienna Philharmonic Orchestra
Deutsche Grammophon 474 955-2

Verdi
La traviata.
Stratas, Gilles, Fassbaender, Wunderlich, Prey
Bavarian State Opera Chorus and Orchestra
Giuseppe Patanè
Orfeo C344932I



Internet

Fritz Wunderlich
The Official Website / Wikipedia / Bach Cantatas / The Great German Tenor / Wunderlich, Fritz


Texto anterior

desNorte, 17 de Setembro de 2005

16/09/2006

Concertos #44

Na chamada época de férias, o Porto fecha definitivamente as portas, em particular no que à cultura diz respeito. Talvez porque pense que só por cá fica quem a tal é forçado, certamente gentes desprovidas de interesses culturais, e que quem para cá vem sempre tem esplanadas e umas quantas praias, devidamente condimentadas com a famosa nortada, não havendo assim necessidade de lhes proporcionar quaisquer outras alternativas. Ou seja, só cá fica quem não tem dinheiro e só para cá vem quem é desprovido de miolos. O resultado é o que se sabe: durante todo o mês de Agosto não se passa absolutamente nada na cidade. Parece que houve um conjunto de velhos reumáticos que, devidamente idolatrado e pago a peso de ouro, acedeu a abanar os ossos e a dar muitos berros, estes possivelmente como resultado da referida maleita, mas concordarão que tal nunca será o suficiente para alterar a nossa visão do panorama geral.

Daí só agora regressarmos aos nossos muito apreciados concertos, que o responsável da programação da Casa da Música foi colocar os brincos a brilhar para outras paragens, e a Casa alinhou pela abstinência geral. Das curiosidades do concerto que lá terá lugar amanhã, faz parte uma obra do compositor francês Edouard Lalo (1823-1892), que permitirá a muito boa gente descobrir que afinal ele sempre compôs algo para além da famosa Symphonie Espagnole. Lalo, que nos anos 50 do século XIX fez parte de um movimento que procurou reavivar em França o interesse pela música de câmara, encontrou na Société Nationale de Musique, fundada em 1871, o veículo ideal para a divulgação das suas obras. A sociedade tinha como objectivo inicial a promoção da música francesa e dos jovens compositores daquele país, e foi fundada pelo poeta Romain Bussine (1830-1899) e pelo já nosso bem conhecido compositor Camille Saint-Saëns (1835-1921).

Na década de 1870, Lalo escreveria algumas das suas mais significativas obras, como o Concerto para Violino, a referida Sinfonia Espanhola, a Fantaisie norvegienne e o Concerto para Violoncelo. Este último passa por ser o seu mais conhecido concerto, superando em popularidade o que escreveu para piano e os dois que compôs para violino. Finalizado em 1877 e estruturado em 3 andamentos, um perfume espanhol exala de todos eles, ou não fosse Lalo descendente dos nossos vizinhos ibéricos. Do programa farão ainda parte obras de Georges Bizet
(1838-1875), Camille Saint-Saëns (o Concerto para Violoncelo, bem apropriado neste contexto) e Paul Dukas (1865-1935). O violoncelo ficará a cargo da russa Natalia Gutman.


Georges Bizet
L'Arlésienne, Suites I e II.
Edouard Lalo
Concerto para Violoncelo e Orquestra em ré menor.
Camille Saint-Saëns
Concerto para Violoncelo e Orquestra Nº1.
Paul Dukas
O Aprendiz de Feiticeiro.
Natalia Gutman (violoncelo)
Orquestra Nacional do Porto
Marc Tardue


Internet

Edouard Lalo
Classical Net
/ Wikipedia / Galerie de Compositeurs / Musicologie

Société Nationale de Musique
Wikipedia / IRCAM

Natalia Gutman
Calouste Gulbenkian Foundation
/ Cello.org / Live Classics

14/09/2006

Quartetos de Cordas #4: Quarteto de Cordas Nº12, de Shostakovich

O compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) compôs, além de outras obras, 15 sinfonias e 15 quartetos de cordas, e que são dos mais importantes do género que foram escritos no século XX. Os Quartetos Nºs 11, 12, 13 e 14 foram destinados ao, e estreados pelo, Quarteto Beethoven. Cada um deles foi dedicado a um dos membros desse agrupamento, e a quem é dada a honra do papel principal.

Refira-se ainda que os últimos 4 Quartetos, dos Nºs 12 a 15, são geralmente vistos como um grupo. Por, nomeadamente, partilharem o uso de técnicas de composição mais avançadas, como a utilização dos 12 meios-tons da escala cromática. Utilizados intermitentemente, contudo, o que leva muito boa gente a considerar o Quarteto de Cordas Nº12 como uma obra atonal e outros, igualmente bem intencionados, a achar que ele está bem longe disso.

À altura da sua composição Shostakovich padecia de problemas de saúde, e deste quarteto transpira um ambiente pesado, comum, aliás, a várias outras obras do mesmo período. O contraste chega no fim, assaz triunfante, como se à falta de alento sucedesse uma crença absoluta na chegada de melhores dias. Será que estes vieram mesmo?!

A estreia do Quarteto de Cordas Nº12 teve lugar em Leninegrado no dia 14 de Setembro de 1968.


CDs




Dmitri Shostakovich
String Quartets - No.2, Op.68; No.3, Op.73; No.7, Op.108;
No.8, Op.110 & No.12, Op.133.
Borodin Quartet
Virgin Classics
VC5 61630-2

Dmitri Shostakovich
String Quartets (complete).
Emerson Quartet
Deutsche Grammophon 463 284-2

Dmitri Shostakovich
String Quartets 1-13.
Borodin Quartet
Chandos CHAN10064H


Internet

Dmitri Shostakovich
Classical Music Pages / Wikipedia / BBC / Compositions by Dmitri Shostakovich

13/09/2006

CDs #95: CD Premières, Leopold Stokowski and the Philadelphia Orchestra

Nos inícios do século XX havia 3 maestros que, mais do que quaisquer outros, rivalizavam em popularidade e que, nessa época, eram autênticas celebridades: Arturo Toscanini (1867-1957), de quem no próximo ano se assinalará o cinquentenário da morte, Serge Koussevitzky (1874-1951) e Leopold Stokowski (1882-1977). Este último , filho de pai polaco e mãe irlandesa, nasceu Leo Stokes, um nome pouco sonante e muito menos exótico, nada adequado para uma superstar.

A grande depressão dos anos 30 encontrou cada um à frente da sua orquestra: Koussevitzky da Sinfónica de Boston
, Toscanini da Filarmónica de Nova Iorque, e Stokowski da de Filadélfia. De todos, Stokowski foi sem dúvida o menos afectado, tendo sido a sua a única orquestra a continuar a efectuar gravações durante esse período, tendo mesmo alargado significativamente o seu repertório. E aprofundando, simultaneamente, o novo som da orquestra, luxuriante e colorido, o "Som Filadélfia", também conhecido pelo "Som Stokowski".

Stokowski foi ainda o responsável por inúmeros arranjos, orquestrações e transcrições, de que este disco é exemplo significativo. Com gravações efectuadas entre 1927 e 1940, incluindo, portanto, as efectuadas durante a referida grande depressão, inclui arranjos seus de obras de compositores como Vivaldi (1678-1741), Lully (1632-1687), Handel (1685-1759) e Boccherini (1743-1805), e orquestrações de obras de Handel, Bach (1685-1750), Haydn (1732-1809) e Byrd (1543?-1623), entre outros.

Leopold Stokowski faleceu há 29 anos, no dia 13 de Setembro de 1977.




Leopold Stokowski and the Philadelphia Orchestra
CD Premières Of Their Rarest 78 rpm Recordings
Philadelphia Orchestra
Leopold Stokowski
Music & Arts CD-1173 (4 CD set)
(1927-1940)


Internet

A Grande Depressão
Wikipedia
/ America's Great Depression / Photographs of the Great Depression / The Great Depression and The New Deal / A Grande Depressão de 1929

Leopold Stokowski
the Leopold Stokowski society / Wikipedia / Bach Cantatas / BBC

11/09/2006

CDs #94: Arvo Pärt, Orient & Occident

No seu filme Fahrenheit 9/11, o realizador Michael Moore utilizou uma obra do compositor estoniano Arvo Pärt (1935-), Cantus in Memory of Benjamin Britten, para acompanhar as imagens que mostravam as consequências dos ataques às torres gémeas, no dia 11 de Setembro de 2001. Por coincidência, o próprio Arvo Pärt nasceu num dia 11 de Setembro, só que de 1935. O que não terá sido certamente coincidência foi a utilização de uma obra sua no referido filme, dado Pärt ser dos compositores modernos (e vivos...) um dos mais conhecidos e reconhecidos internacionalmente, com obras suas a darem som a mais de 50 filmes.

A produção musical de Pärt é geralmente dividida em dois períodos: um primeiro onde, apesar do isolacionismo imposto pela União Soviética, Pärt foi fortemente influenciado por Shostakovich (1906-1975), Prokofiev (1891-1953), Bartók (1881-1945) e Schoenberg (1874-1951), tendo sido o primeiro compositor do seu país a aderir ao serialismo, para evidente irritação das autoridades soviéticas; e um segundo período, marcado pelo estudo da música coral dos séculos XIV a XVI, da polifonia e do canto gregoriano.

É deste último período que pertencem as obras incluídas neste disco: Wallfahrtslied / Pilgrims' Song, de 1984, Orient & Occident, de 2000, e Como cierva sedienta, de 1998. A interpretação é da Orquestra Sinfónica da Rádio Sueca, que hoje em dia talvez não seja uma das orquestras mais conhecidas mas que, nos anos 60, teve a atenção de muito boa gente. E porquê? Pelo facto de, entre 1962 e 1971, ostentando na altura o nome de Orquestra Sinfónica da Rádio de Estocolmo, ter tido à sua frente o extraordináro maestro romeno Sergiu Celibidache (1912-1996). Aquele mesmo de que poucas gravações existem, por ter-se recusado sistematicamente a gravar discos. E que também compôs, mas nunca permitiu que alguém interpretasse as suas obras...




Arvo Pärt
Orient & Occident.
Wallfahrslied / Pilgrims' Song. Orient & Occident. Como cierva sedienta.
Swedish Radio Choir & Symphony Orchestra
Tönu Kaljuste
ECM New Series 472 080-2
(2001)


Internet

Arvo Pärt Website / musiclog / arvopart.org / Wikipedia

07/09/2006

Compositores #70: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

Continuação do texto de 23 de Junho de 2006


Apenas cerca de um ano depois de se ter casado com Constanze Weber, em Viena, é que o casal Mozart se deslocou a Salzburgo, para visitar Leopold Mozart. Chegaram a essa cidade no dia 31 de Julho de 1783, e por lá ficaram até Outubro. O regresso a Viena é feito por Linz, por forma a visitarem um amigo da família, o conde Thun. Este, grande admirador do compositor, sugere um concerto para o dia 4 de Novembro que Mozart, apesar de não ter com ele qualquer partitura que servisse minimamente para a ocasião, se apressa a aceitar. O resultado é por demais conhecido: nesse dia 4 de Novembro de 1783 teve lugar a estreia da Sinfonia Nº36, Linz, dedicada naturalmente ao conde Thun e composta por Mozart em... 3 dias!

Nessa altura o conde convidou Mozart a visitar Praga, oferecendo-lhe estadia num dos palácios que possuía nessa cidade. E foi precisamente num deles que Mozart e respectiva comitiva ficaram hospedados uns anos depois, aquando da primeira visita a Praga, em Janeiro de 1787. Mozart era um ídolo para o público de Praga, e esta sua primeira estadia nessa cidade foi disso prova evidente. No dia 17 assistiu à sua ópera As Bodas de Fígaro e, assim que o público se apercebeu da sua presença, ovacionou-o efusivamente na primeira oportunidade, logo após o fim da abertura. Dois dias depois seria o próprio Mozart, ao teclado, a mostrar todos os seus dotes, de intérprete, de compositor e de improvisador, numa sessão que incluiu ainda a estreia da Sinfonia Nº38, K504, convenientemente apelidada de Praga. Sobre esse recital memorável escreveu o seu biógrafo Franz Xaver Niemetschek (1766-1820): "(...) This recital was a unique event for the people of Prague, and Mozart similarly counted this day as one of the happiest of his life".

No dia 20 de Janeiro de 1787 houve nova récita d'As Bodas de Fígaro, com o próprio Mozart a assegurar a direcção. O sucesso obtido assegurou-lhe a encomenda de uma ópera para a temporada seguinte e, em meados de Fevereiro, os Mozart regressariam finalmente a Viena.

continua


Bibliografia

Mozart and Prague, de Harald Salfellner
Guia da Música Sinfónica, de François-René Tranchefort

06/09/2006

Lugares #144

A década de 1660 assistiu à assinatura dos tratados de paz com a Holanda, com as Províncias Unidas e com a Espanha; por outro lado, registou também vários acontecimentos menos pacíficos, como as batalhas de Castelo Rodrigo e de Montes Claros. Houve ainda um tal general espanhol, de seu nome Pantoja, que invadiu o nordeste transmontano e por lá semeou desgraças. Andou por Vinhais, por exemplo, assim como por Arcos de Valdevez, que deixou reduzida a cinzas.

Não foi o que sucedeu com o Paço da Giela. O espanhol terá gostado da edificação medieval, e por lá assentou arraiais. O que, está bom de ver, não agradou muito aos portugueses que, para o convencer a procurar outras paragens, utilizaram a artilharia. O homem foi-se embora, só que deram cabo do edifício...



Como é de bom tom nestas coisas, antes de ir ao local, fomos primeiro ao site da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez procurar mais algumas informações e, do que por lá se diz, ficámos a saber que o edifício entrou em fase de declínio e abandono a partir do século XIX, e que a autarquia local o adquiriu em 1999. Abriu-se-nos uma porta de esperança, certamente que a compra teria sido feita com a intenção de o recuperar. A fotografia que encima este texto dá para perceber que, se a casa-torre abandonada estava, abandonada continuou!



Claro que não podemos exigir muito. Afinal de contas, como é que uma autarquia vai remediar em 7 anos aquilo que esteve (está...) abandonado há 1 século?! Podia era ter poupado uns tostões, não adquirindo o edifício. Ele caía na mesma...


Internet

Paço de Giela
Câmara Municipal de Arcos de Valdevez / Solares de Portugal / Castelos.org

04/09/2006

Organistas #1: Albert Schweitzer (1875-1965)

Ora aqui está um título profundamente errado, por redutor! Na verdade, Albert Schweitzer estudou música desde muito cedo, tendo tido numa fase inicial lições de piano com o seu pai e, uns anos mais tarde, beneficiado de lições privadas em Paris com o organista francês Charles Marie Vidor (1844-1937). E foi como organista que Schweitzer começou a sobressair no meio musical, primeiro na Société J. S. Bach de Paris, que ele ajudou a fundar e, depois, através dos inúmeros recitais que deu um pouco por todo o lado. Da sua forte ligação a Bach resultou um primeiro livro, uma biografia do grande compositor alemão que Schweitzer escreveu em francês e editou em 1905; 3 anos mais tarde e o próprio Schweitzer escreveria uma versão em alemão. A meio caminho, por achar que os órgãos existentes não eram os mais apropriados para tocar Bach, estudou o seu funcionamento em detalhe, incluindo a forma de os construir pelo que, em 1906, lançou um livro sobre "A Arte de Construir e Tocar Órgãos na Alemanha e em França"...

Só que, como é sabido, Albert Schweitzer foi muito mais do que organista: foi também teólogo, filósofo, médico e missionário, com particular destaque para a actividade desenvolvida em Lambaréne, Gabão, que lhe valeu o Prémio Nobel da Paz em 1952. Foi por ter decidido ir para África que, em 1905, começou a cursar Medicina, licenciatura que iria acrescentar às que já tinha em Filosofia e Teologia. Em 1913 fundou um hospital em Lambaréne, que viria a ser financiado pelos donativos que ia recebendo, bem como pelos proventos dos recitais de órgão.

Apesar de, a partir de 1924, Schweitzer se ter radicado definitivamente em África, continuou a deslocar-se regularmente à Europa, o que lhe permitiu, por exemplo, continuar a dar recitais de órgão no velho continente. E o que possibilitou, igualmente, que gravasse 3 discos para a EMI, inteiramente dedicados à música de órgão de Bach, claro! O produtor na altura era Walter Legge (1906-1979), marido da soprano Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006), recentemente falecida.

Albert Schweitzer faleceu há 41 anos, no dia 4 de Setembro de 1965.




Internet

Albert Schweitzer
Albert Schweitzer / Association Internationale Albert Schweitzer / The Albert Schweitzer Page / Albert Schweitzer - Philosopher, Physician & Humanitarian / Albert Schweitzer - The Nobel Peace Prize 1952 / Wikipedia / Albert Schweitzer - Der Arzt von Lambaréné

01/09/2006

CDs #93: Schumann, Brahms, Curzon, Budapest String Quartet

É de todo apropriado considerar 1842 como o "ano da música de câmara" de Robert Schumann (1810-1856) que, nesse ano e num curto espaço de 8 meses, compôs algumas das suas mais importantes obras, como os 3 Quartetos de Cordas, o Quinteto para Piano e Cordas e a Phantasiestücke. Foi o seu primeiro ciclo de música de câmara, durante o qual não se dedicou a qualquer outro género musical, e o único em que escreveria peças para mais de 3 instrumentos.

Do Quinteto para Piano e Cordasaqui falámos anteriormente, e do apreço que por ele mostraram tanto Richard Wagner (1813-1883) como Felix Mendelssohn (1809-1847). Este último teve mesmo intervenção decisiva na versão final da obra, dedicada e destinada a Clara Schumann (1819-1896), presumivelmente com o fito de celebrar o fim da longa espera pelo casamento, pela oposição obstinada do pai de Clara (história contada aqui). Foi Mendelssohn quem substituiu uma Clara indisposta na primeira audição privada da obra, no dia 6 de Dezembro de 1842 e, de imediato, propôs algumas alterações, nomeadamente nos e 3º andamentos. Propostas aceites por Schumann, e já introduzidas aquando da estreia pública do quinteto, no dia 8 de Janeiro de 1843, dessa vez já com Clara Schumann ao piano, acompanhada por músicos do Gewandhaus.

Esta obra é, indubitavelmente, uma das mais importantes de todo o repertório de música de câmara, e o autor do texto que acompanha o disco aqui trazido hoje, Tully Potter, afirma mesmo que "Robert Schumann never wrote anything better than this Piano Quintet, one of the most perfect creations in Western music". As interpretações neste disco estão a cargo do grande pianista inglês Clifford Curzon (1907-1982) e do Quarteto de Cordas de Budapeste.

Clifford Curzon faleceu há 24 anos, no dia 1 de Setembro de 1982.




Robert Schumann
Quintet in E flat major for Piano and Strings, Op.44.
Johannes Brahms
Quartet No.2 in A major for Piano and Strings, Op.26.
Clifford Curzon (piano)
Budapest String Quartet
Naxos 8.110306
(1951, 1952)


Internet

Robert Schumann
Biography
/ Classical Music Pages / Wikipedia

Clifford Curzon
Decca / Wikipedia

Budapest String Quartet
Biography / Wikipedia