16/01/2007

Maestros #28: Arturo Toscanini (1867-1957)

Até que ponto as democracias deverão permitir, no seu seio, o desenvolvimento de ideais que, em pontos essenciais, atentam contra os princípios mais básicos em que elas próprias se baseiam?! Que pergunta mais fora do contexto deste modesto blogue, pensarão alguns! É que não deixa de ser irónico que, quando se assinala o cinquentenário da morte do maestro italiano Arturo Toscanini, que passou uma boa parte da sua vida lutando contra tais ideais, estejamos a assistir no Parlamento Europeu ao nascimento de um grupo parlamentar de extrema-direita.

Em 1931, Toscanini, que na altura já andava de candeias às avessas com os governantes do seu país natal, recusou-se a tocar a Giovinezza, o hino fascista italiano. Toscanini não voltaria a tocar em Itália até à morte de Benito Mussolini, em Abril de 1945. A partir de 1933 passou a boicotar todas as orquestras e teatros alemães, como forma de protesto contra as leis anti-semitas introduzidas pelo regime nazi. Foi essa a razão de, nesse ano, não ter participado no Wagner Festspielhaus, em Bayreuth; festival onde Toscanini, dois anos antes, tinha sido o primeiro maestro não-alemão a pisar o palco. Também deixou de pôr os pés no Festival de Salzburgo após o Anschluss
, decisão reforçada pelo facto de as actuações do maestro Bruno Walter (1876-1962) não serem transmitidas na Alemanha, pela sua ascendência judaica. Por outro lado, em 1937, dirigiu em Jerusalém os primeiros concertos da Orquestra da Palestina, composta por músicos judeus exilados. E, entre 1938 e 1939, dirigiu no Festival de Lucerna, Suíça, uma orquestra formada exclusivamente por músicos fugidos da perseguição nazi.

As democracias também se fazem exaltando os grandes, e Toscanini foi um dos maiores. Hoje, 50 anos após a sua morte, ocorrida no dia 16 de Janeiro de 1957, será a sua música que soará cá em casa. Pena que não soe em Bruxelas e em Estrasburgo!


Internet

Arturo Toscanini
Toscanini Online
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Bibliografia

La Symphonie des Chefs, de Robert Parienté
All Music Guide to Classical Music, editado pela Backbeat Books

4 comentários:

  1. Muito bem! Lembrei-me do Stefan Zweig, que nas suas extraordinárias memórias «O Mundo de Ontem», lamentava a sua sorte de foragido judeu, em bolandas por essas fronteiras da Europa. Recordava que a "raça" passara então a ter importância, quando, antes da catástrofe, o que (lhe) importava era os espíritos com que se relacionava. E Toscanini era um deles.

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  2. É verdade. E que fim dramático Stefan Zweig teve, suicidando-se por temer o avanço irremediável do nazismo!

    Saudações,

    HVA

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  3. Toscanini!!! O Mestre de todos os que se lhe seguiram!

    Sobre o post em si, estimado HVA, genial o ponto de encontro!
    Abraço

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  4. Toscanini antinazista.Ótimo. Incomprensível e indecifravel o anti-semitismo de Hitler! No livro deste ,-Mein Kampf-, não se encontra nenhuma razão plausível,racional para o genocídio dos judeus!

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