03/05/2007

Lugares #155

A arte do abandono é uma tradição secular em Portugal, onde tudo, ou quase, se acaba por deixar à sua sorte. O Porto, em particular, esmerou-se em tal arte, e adicionou-lhe variantes assombrosas; é ver, por exemplo, aquele edifício transparente que, apesar do nome, até hoje só serviu para impedir a vista do mar, abandonado como foi logo que terminado (situação que parece em vias de ser resolvida); ou aquele projecto sizudo para a Avenida dos Aliados que, por não ter sido abandonado, abandonaram os portuenses a dita cuja. Foram séculos de experiência acumulada, ficamos doutores no assunto; chegámos ao ponto de sermos abandonados pelos nossos primeiros-ministros, aqueles mesmo que se esfalfaram a calcorrear quilómetros mendigando os votos que os iriam colocar no poleiro. Já para não falar do outro que, por manifesta falta de iniciativa do abandono, foi a ele grosseiramente votado... embora "ainda ande por aí", segundo o próprio e para mal dos nossos pecados. Adiante.



Um país sem história não será necessariamente um país sem futuro, mas um país que se preza em a ignorar dificilmente o terá. E é a nossa história comum que vai desaparecendo quando, sempre em nome do nosso bem-estar, se vão implementando as famosas requalificações que, na maioria das vezes, têm como resultado mais visível a destruição do nosso património. Monumentos, jardins, árvores, casas com história, tudo é devorado pela fúria de progresso do nosso poder local.




Um dia destes fomos até ao distrito de Vila Real, ver coisas novas e rever outras já nossas velhas conhecidas. O castelo de Pena de Aguiar pertence ao grupo destas últimas, e também ao do grupo dos monumentos abandonados. Não nos dias de hoje, em que já algo se fez no sentido da sua preservação e mesmo promoção, mas a partir dos finais do século XV por, na altura, se ter deixado de lhe reconhecer qualquer papel relevante. O resultado, esperado, foi ter sido impiedosamente abandonado, de nada lhe tendo valido a longa história, velha dos tempos dos romanos, em que protegia a via que ligava Chaves a Lamego passando, uns séculos depois, pelo apoio dado a D. Afonso Henriques na luta pela independência.

Internet

Castelo de Pena de Aguiar
IPPAR / Wikipedia / Castelo de Aguiar

3 comentários:

  1. Sou de Vila Pouca de Aguiar! Lá vivi até aos 5 anos e fui mantendo, agora menos, uma forte ligação a essa terra. O Castelo de Aguiar nunca o conheci de outra maneira. Abandonado, de complicado acesso, enfim, esquecido na sua história. Passei lá (no Castelo) muitos dias, muitas horas...
    Excelentes recordações.

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  2. Andei perto, no Alvão. Felizmente esquecido, mal damos com as fisgas do Ermelo. Mas é entusiasmante sair do Ip e cair no silêncio arredondado dos montes, amarelos e roxos. Ah...se não fosse a Natureza a preservar-se, tudo andaria pior. Abç

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  3. Sair faz parte da nossa rotina de fim-de-semana, e é saindo que vamos descobrindo as coisas admiráveis que ainda há neste país. Só que as paredes dos centros comerciais são o que de mais admirável conhece a maioria dos portugueses...

    Saudações,

    Heitor

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