27/08/2007

Lugares #163

As trapalhadas à volta da construção de infraestruturas não são, naturalmente, um exclusivo dos lisboetas, e muito menos do nosso tempo. A propósito das peripécias à volta do novo aeroporto de Lisboa, lembrei-me daquelas que envolveram a Cadeia da Relação do Porto que, criada há 425 anos, no dia 27 de Julho de 1582, apenas iria possuir instalações próprias duradouras mais de 200 anos depois, em 1796.

A versão mais optimista diz-nos que o edifício apenas demorou qualquer coisa à volta de 30 anos para ser construído, uma vez que as obras iniciaram-se em 1765. Isto até é verdade, mas esconde o lado mais pitoresco da história. Depois de ter utilizado instalações alheias durante duas dezenas de anos, a Cadeia da Relação viu as obras para o seu próprio edifício começarem em 1606.




Coisa enorme, imponente, não era um edifício qualquer; abarbatou todos os recursos financeiros disponíveis, durante 3 anos nada mais de relevante se fez na cidade. Recursos esses que se revelaram insuficientes, é bom que se diga, pelo que se tornou necessário, à imagem do que hoje se vai por vezes fazendo, inventar uma nova espécie de imposto; na altura calhou aos degredados terem a hipótese de o deixarem de ser, bastando para tal pagar uma módica quantia que lhes permitiria evitar o desterro africano e cumprir a pena em território luso. Fluxo financeiro garantido, obras expeditas, e lá pode a cadeia deixar as instalações da Câmara Municipal e mudar-se para o novo código postal.

Só que no dia dos enganos do ano de sua graça de 1752 a casa veio abaixo, literalmente. Ruiu, qual executivo municipal da nossa proveta capital, e do investimento dos degredados apenas sobraram escombros. E, claro, lá voltou a Cadeia da Relação para o edifício da Câmara Municipal... Até que, no mesmo sítio, ergueu-se novo edifício, o tal de que falei no início deste texto; melhor construído, ainda hoje faz companhia à Torre dos Clérigos e ao conhecido mijadouro municipal. Alberga actualmente o Centro Português de Fotografia. Do granítico campo de futebol que lhe plantaram à frente e do jardim (da Cordoaria) que a Porto 2001 fez questão de destruir, prefiro não falar. Já outros o fizeram, repetida e sabiamente. Quiçá o silêncio será de ouro, não vá o homem lembrar-se de destruir o pouco que sobrou para lá fazer mais uma corrida de calhambeques!

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