07/09/2007

Poetas #4: Camilo Pessanha (1867-1926)

Nos finais do século XIX apareceu em França um movimento artístico e literário que se designou por simbolismo, uma corrente literária oposta, por exemplo, ao realismo, e que acabou por fazer a ponte entre as épocas romântica e contemporânea. Enquanto o realismo defendia a objectividade na análise da realidade, o simbolismo dava primazia à subjectividade, exultava a imaginação e, privilegiando a melodia, não raras vezes resvalava para a música. E é aqui que a coisa se torna interessante para este blogue...

O simbolismo foi introduzido em Portugal por Eugénio de Castro (1869-1944), com a publicação, em 1890, da obra Oaristos. O maior poeta do simbolismo português, contudo, foi Camilo Pessanha, nascido em Coimbra, onde se formou em Direito, tendo-se mudado para Macau em 1894, e onde viria a falecer em 1926. Os seus poemas foram reunidos por Ana de Castro Osório e editados em 1920 sob o título de Clepsidra, obra essa mais tarde reeditada em versão aumentada pelo seu filho, João de Castro Osório. É daqui então que eu retiro um poema, evidência da ligação do simbolismo ao mundo da música e versando um dos meus instrumentos favoritos:


Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha nasceu há 140 anos, no dia 7 de Setembro de 1867.


Internet

Camilo Pessanha
Mundo Cultural / Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas / Instituto Camões / Wikipédia / Projecto Vercial

Simbolismo
Instituto Camões / Enciclopédia Universal / Wikipédia / por trás das letras

2 comentários:

  1. Muito bem! Gosto desta relação entre poesia e música (Como se pode perceber por alguns dos meus postais). É importante notar a comunhão da(s) fonte(s) de que irisam as diversas fórmulas. Carl Nielsen disse que "a música, como a vida, é inextinguível" (citação de memória. É fecunda esta referência. A música, a poesia, a pintura...enfim, a Arte!
    Cumprimentos!

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  2. Obrigado pela ligação ao desNorte, já exerci entretanto o "direito de reciprocidade"...

    Não conhecia o seu blogue. Acabei de visitá-lo e é muito interessante. Gostei muito.


    Saudações,

    Heitor

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