31/05/2007

Lugares #157

Lembro-me, com saudades, da feira que decorria na Praça de Lisboa. Não era, possivelmente dos nomes mais agradáveis para dar a uma praça espetada no coração do Porto, mas era um local que visitava sempre com prazer.



Apesar de localizada na parte nova da cidade, a chamada zona dos clérigos, desenhada entre os finais do século XVIII e os primeiros anos do século XIX, a praça não escapou aos ares de modernidade portugueses, orgulhosamente estimulados pelos nossos envaidecidos autarcas. Da requalificação do local nasceu um... centro comercial, baptizado de Clérigos Shopping. Óptima localização, atractivas lojas, comes e bebes, lugares de estacionamento, o futuro só podia ser risonho. Como aliás, o dos outros centros comerciais que foram sendo plantados bem dentro da cidade. As imagens procuram mostrar o estado vergonhoso a que este chegou. E dêem-se por felizes por elas só fazerem apelo ao sentido da visão, pois estão a contemplar um dos maiores mijadouros deste país!

A uma requalificação seguir-se-á uma reabilitação, a começar um dia destes. Não tendo colhido a proposta de lá instalar uma Loja do Cidadão, tudo aponta para que o espaço venha a receber o famoso Pólo Zero da Federação Académica do Porto, "uma ambição antiga dos estudantes universitários". Será um "espaço multifuncional", combinando áreas reservadas ao estudo, com zonas de acesso à internet, outras dedicadas ao convívio e a tertúlias, complementadas com uma papelaria, tudo isto "com um horário alargado". O objectivo é que a praça se torne num "espaço de oportunidades para o enriquecimento profissional, pessoal e cultural", pelo que está igualmente considerada a criação de um espaço comercial, que se "deverá constituir como um ambiente de compras inovador, associado a um «lifestyle» jovem". Se tenho sérias reservas em relação a muitas das ideias expostas, não posso estar mais de acordo com esta última; certamente que da combinação de estudantes universitários, de zonas de convívio e de tertúlias, e de um espaço comercial, só poderá resultar um ambiente de compras deveras inovador...


Internet

Praça de Lisboa
Jornal de Notícias / Jornalismo Porto Net / O Primeiro de Janeiro

29/05/2007

Blogues #17

Parabéns ao Masson e ao seu excelente Almocreve das Petas. Parabéns atrasados, pois claro, mas o próprio autor se esqueceu de tão relevante festividade... Longa vida!

28/05/2007

Compositores #82: Leopold Mozart (1719-1787)

Por mera coincidência, o hotel em que ficámos instalados no ano passado em Salzburgo era contíguo ao cemitério onde está sepultado o compositor Leopold Mozart, pai de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791); da janela do nosso quarto avistava-se a entrada do cemitério e adivinhava-se a sepultura de Leopold Mozart, uma das primeiras atrás do portão. E se do pai, pouco conhecido, se conhece o local do repouso eterno, já do filho, bem mais famoso, pouco mais se sabe além do facto de ter sido enterrado numa vala comum.

Os primeiros anos de Leopold Mozart não foram propriamente musicais; incentivado pelo pai a seguir estudos religiosos, abandonou-os após a morte deste e, na década de 1740, já tocava música de câmara integrado na orquestra do Príncipe-Arcebispo. Dedicou-se depois também à composição, que abandonaria mais tarde para dar atenção à carreira do seu filho e ao ensino. Que não foi propriamente um compositor medíocre prova-o o facto de algumas das suas obras terem sido erradamente atribuídas a Wolfgang. E de que também terá visto no seu filho uma potencial fonte de (interessantes) rendimentos não restam grandes dúvidas, tendo sido frequentemente acusado de se dedicar em demasia a actividades exploratórias...


Em 1756 publicou um tratado sobre a arte de tocar violino, Versuch einer gründlichen Violinschule, que acabaria por ser editado em vários países europeus, e que se tem revelado um instrumento precioso para os estudiosos do nosso tempo nas suas investigações sobre as práticas interpretativas da época, em que se baseia o movimento HIP (Historically Informed Performances). A sua obra mais conhecida, ou melhor, a obra que faz com que hoje em dia ainda seja conhecido como compositor, é o Concerto para Trompete, escrito em 1756.

Leopold Mozart faleceu há 220 anos, no dia 28 de Maio de 1787.


CD



Classical Trumpet Concertos
Franz Joseph Haydn
Trumpet Concerto in E flat.
Michael Haydn
Trumpet Concerto in C.
Leopold Mozart
Trumpet Concerto in D.
Johann Wilhelm Hertel
Trumpet Concerto No.1 in E flat.
Johann Nepomuk Hummel
Trumpet Concerto in E.
Crispian Steele-Perkins (trompete)
The King's Consort
Robert King
Hyperion CDA67266
(2001)


Internet

Leopold Mozart
the Mozart Project / Wikipedia / Leopold Mozart / HOASM

25/05/2007

CDs #120: Ferruccio Busoni, Piano Concerto, Op.39

O italiano Ferruccio Busoni (1866-1924) mostrou desde muito as suas qualidades musicais, quer como pianista virtuoso, quer como compositor. Refira-se, por exemplo, o facto de, aos 17 anos, já ter atingido o seu opus 40. E aí, tal como Antonín Dvorák (1841-1904) tinha feito uns anos antes, resolveu baralhar os estudiosos da sua obra, tendo decido recomeçar a contagem a partir do opus 31...

Em 1904, Busoni escreveu o seu Concerto para Piano; estruturado em 5 andamentos, é um caso único do repertório concertante, por fazer uso de um coro masculino no último andamento. É, além disso, um concerto de dimensões
dantescas, com uma duração a rondar os 70 minutos, e que o próprio compositor apelidou de "concerto arranha-céus"... Tem ainda uma outra particularidade: apesar de exigir elevada técnica e mestria do pianista, não lhe dá especial relevo, colocando-o ao mesmo nível da orquestra; é assim um concerto para piano em que o pianista deverá saber, amiúde, passar despercebido!

O pianista dinarmaquês, mais tarde naturalizado norte-americano, Gunnar Johansen (1906-1991), foi aluno de Egon Petri (1881-1962) em Berlim. Daqui resultou a sua primeira ligação à música de Busoni, de quem Petri tinha sido aluno. Anos mais tarde, ao recomendar Johansen ao grande maestro grego Dimitri Mitropoulos (1896-1960), Petri escreveu mais ou menos isto (tradução minha...): "
Ele foi meu aluno quando tinha 16 anos e sempre o considerei o mais talentoso de todos os meus estudantes. É um verdadeiro artista, e a nossa relação é a mesma que foi a minha com Busoni". Nessa mesma missiva, Petri assegura a Mitropoulos que, na sua opinião, mais ninguém tocava o Concerto para Piano de Busoni como Gunnar Johansen. É esta a obra que preenche este disco, numa gravação efectuada ao vivo, em Hamburgo, em Janeiro de 1956. De absoluta referência.

Gunnar Johansen faleceu há 16 anos, no dia 25 de Maio de 1991.




Ferruccio Busoni
Piano Concerto, Op.39.
Gunnar Johansen (piano)
Men's Choir of the NDR
NDR Symphony Orchestra
Hans Schmidt-Isserstedt
Music & Arts CD-1163


Internet

Gunnar Johansen
Bach Cantatas / Wikipedia / Gunnar Johansen: Master Musician / Legendary Artist

Ferruccio Busoni
Ferruccio Busoni / Centro Studi Musicali Ferruccio Busoni / Wikipedia / Karadar / Fondazione Concorso Pianistico Internazionale Ferruccio Busoni / Classical Net

20/05/2007

Lugares #156

Depois de uma luta estóica de várias horas que, felizmente, resultou em mais uma brilhante (!!!) exibição de força e técnica ciclísticas na maratona mais in de Portugal, nada como dispensar o manjar oferecido pela organização e zarpar a terra próxima, local actualmente pacífico mas palco de inúmeras lutas ao longo dos seus inúmeros séculos de história.

Há registos de episódios guerreiros ocorridos nos séculos IX e X, e sabe-se que Marvão foi conquistada por D. Afonso Henriques (1108/9?-1185) na década de 1160. Foi interveniente nalguns dos mais importantes acontecimentos da história do nosso país: nas lutas entre os irmãos D. Dinis (1261-1325) e D. Afonso, nos finais do século XIII; na crise de 1383-85; na Guerra da Restauração; na Guerra das Laranjas, travada com os nossos vizinhos, incentivados pela França de Napoleão Bonaparte (1769-1821), e nas que lhe sucederam, as Guerras Peninsulares da 2ª metade da década de 1800; e nas Guerras Liberais, em que esteve na maior parte do tempo dominada pelas forças liberais. Pelo meio, ainda teve tempo de se meter em assuntos alheios, como a Guerra de Sucessão de Espanha, no início do século XVIII.




Com um ambiente destes, o dia só poderia acabar com mais uma luta, que se antevia difícil, coisa para várias horas, mas em que acabámos por derrotar inapelavelmente perdizes, porcos e javalis. Devidamente regada, pois claro, que o calor da refrega, como é sabido, provoca suores múltiplos. Apenas nos rendemos por altura da sericaia, já a noite ia longa e o veredicto final há muito ditado...


Internet

Marvão
Município de Marvão / Associação Nacional de Municípios Portugueses / Wikipédia / 3D Marvão

16/05/2007

CDs #119: Dvorák, Czech Suite, Waltzes & Polonaise

Os primeiros anos musicais do compositor checo Antonín Dvorák (1841-1904) estiveram longe de ser fáceis. Os seus pais, senhores de poucas posses, incentivaram-no a estudar música, ajudando-o na medida do possível. Dvorák além de órgão em igrejas, chegou a tocar viola em cafés, por forma a aumentar um pouco os rendimentos. Isto passou-se nas décadas de 1860 e 1870, numa altura em que já tinha composto, por exemplo, as duas primeiras sinfonias, um concerto para violoncelo, a ópera Alfred e a comédia Král a uhlír.

A situação começou a melhorar nos meados da década de 1870, primeiro com a nomeação para organista da igreja de S. Vojtech (
bispo emérito de Praga que viveu entre 957 e 997), depois com a atribuição de um apoio (aqui em substituição da palavra subsídio, mal-querida dos nossos amigos mais liberais...) do governo austríaco, que lhe foi dado durante 3 anos. Durante os quais ele era suposto escrever um certo número de obras, sendo dessa época as e 4ª sinfonias. Refira-se que um dos membros do júri que decidiu a atribuição de tal apoio foi o crítico musical Eduard Hanslick (1825-1904), o tal que foi ridicularizado por Richard Wagner (1813-1883) na ópera Die Meistersinger von Nürnberg.

A segunda metade da década de 70 foi particularmente produtiva, tendo Dvorák composto nesse período música de câmara (quinteto de cordas, trio para piano, quarteto para piano), a 5ª sinfonia, a ópera Vanda, o primeiro conjunto das Danças Eslavas, e as Serenatas Op.22 e Op.44, entre outras obras. A Suite Checa foi composta quase imediatamente após estas serenatas, prolongando-lhes o espírito. Nasceu apenas como Suite mas, aquando da estreia, no dia 16 de Maio de 1879, o maestro Adolf Cech (1841-1903) adicionou-lhe o Checa e assim ficou para a posteridade... Por indicação de Johannes Brahms (1833-1897), a obra foi editada pela Simrock, de Berlim, com quem Dvorák iria ter uma relação tumultuosa. Que começou pelo facto da Simrock insistir em germanizar o seu nome, chamando-lhe Anton, indiferente aos protestos do compositor...




Antonín Dvorák
Czech Suite, Op.39 (B93). Polonaise, B100. Waltzes, Op.54 (B101).
Prague Philharmonia
Jakub Hrusa
Supraphon SU 3867-2
(2005)


Internet

Antonín Dvorák
Classical Music Pages
/ Wikipedia / Classical Net / BBC

14/05/2007

Compositores #81: Fanny Mendelssohn (1805-1847)

Apesar de, tal como o irmão, ter desde muito cedo mostrado um enorme talento para a música, Fanny Mendelssohn nunca teve a vida facilitada nessa área, pelo simples facto de ser do sexo feminino. Felix Mendelssohn (1809-1847), ao mesmo tempo que solicitava frequentemente as opiniões da irmã sobre as obras que ia compondo, exortava-a a nada publicar, no que era coadjuvado pelo pai de ambos...

O pintor Wilhelm Hensel (1794-1861), irmão da poetisa Luise Hensel (1798-1876), aprendeu a pincelar em Paris, cidade onde teve ainda a oportunidade de exibir bons dotes para a escrita. Talvez os ares internacionais lhe tenham ajudado a ter uma mente mais aberta do que a de uma boa parte dos seus contemporâneos, pois mais tarde, bem casado com Fanny Mendelssohn, foi dos poucos a incentivá-la, não só a compor, como a procurar editar as obras. Tarefa difícil, está bom de ver, e, das poucas que conseguiu editar, algumas foram-no sob o nome do irmão (opp. 8 & 9). O destino tem destas coisas...

Fanny Mendelssohn faleceu há 160 anos, no dia 14 de Maio de 1847. A maioria das suas obras apenas seria publicada a partir da década de 80... do século XX...


CDs



Fanny Mendelssohn
Lieder.
Susan Gritton (soprano), Eugene Asti (piano)
Hyperion CDA67110
(1999)

First Encounter
Johannes Brahms
3 Duets, Op.20 - Weg der Liebe I; Die Boten der Liebe.
Antonín Dvorák
9 Moravian Duets, B62.
Felix Mendelssohn
6 Duets, Op.63.
Fanny Mendelssohn-Hensel
Wenn ich in deine Augen sehe. Im wunderschönen Monat Mai.
Aus meinen Tränen spriessen.
Robert Schumann
3 Lieder, Op.43 - Wenn ich ein Vöglein wär. Spanische
Liebeslieder, Op.138 - Bedeckt mich mit Blumen. Spanisches
Liederspiel, Op.74 - Erste Begegnung; Liebesgram; Botschaft.
Barbara Bonney (soprano), Angelika Kirchschlager (meio-soprano),
Malcolm Martineau (piano)
Sony Classical SK93133

Clara Schumann
Sonata for Piano.
Felix Mendelssohn
Piano Concerto.
Fanny Mendelssohn-Hensel
Das Jahr - February (Scherzo); March (Agitato); May: Spring Song;
September: On the River; December (Allegro molto).
Robert Schumann
Piano Concerto.
Jennifer Eley (piano)
English Chamber Orchestra
Sayard Stone
Koch International 37197-2


Internet

Fanny Mendelssohn
Women of Note / W. W. Norton & Company / Female Ancestors / Wikipedia

12/05/2007

CDs #118: Smetana, Má vlast

Bedrich Smetana (1824-1884) foi o primeiro grande compositor nacionalista da boémia, responsável pela estabelecimento de uma tradição operática no seu país natal. Escreveu mais de 40 óperas, datando a primeira, Os brandenburgueses na Boémia, de 1866, e a última, O muro do diabo, de 1882, numa altura em que já sofria de severos problemas de saúde.


Eliska Krásnohorská

Os libretos para 3 das suas últimas óperas, O beijo, O Segredo e a referida O muro do diabo, foram da responsabilidade da mesma pessoa: a poetisa Eliska Krásnohorská (1847-1926). Krásnohorská publicou diversos livros de poesia, escreveu livros para crianças, traduziu inúmeras obras e, conforme referido, escreveu ainda libretos para diversas óperas. Teve, além disso, um papel muito activo no movimento feminino, fundando um jornal, um liceu feminino, em 1890, o primeiro em toda a Europa Central, e acabando por ser a primeira mulher checa a receber um doutoramente honoris causa em filosofia.


Bedrich Smetana

O ciclo de poemas sinfónicos Ma vlast (Minha pátria) de Smetana adequa-se na perfeição a este ambiente profundamente checo. Contém alguns dos trechos mais conhecidos do compositor, naquilo que constituiu uma celebração da história, das tradições, da mitologia e das paisagens da Boémia. Começou a ser escrito em 1874, quando os primeiros sinais de surdez apareceram, resultantes de sífilis, e foi terminado em 1879, com o poema sinfónico Blaník.

Bedrich Smetana faleceu há 123 anos, no dia 12 de Maio de 1884.



Smetana
Má Vlast - Vysehrad; Vltava; Sárka; From Bohemia's Woods and Fields;
Tábor; Blaník.
Polish National Radio Symphony Orchestra
Antoni Wit
Naxos 8.550931


Internet

Eliska Krásnohorská: Biografia 1
/ Biografia 2
Bedrich Smetana: Biografia 1
/ Biografia 2 / Biografia 3

11/05/2007

Notícias #9

A notícia da suspensão do programa Ritornello não foi propriamente inesperada, mas foi profundamente chocante. Era o programa da Antena 2 que ouvia com mais prazer e era, é bom que se diga, um dos que tinha maior audiência, senão mesmo o mais popular dessa rádio pública. Desconhecendo os detalhes, sabia dos últimos problemas ocorridos, com a diminuição da duração do programa para uma hora diária, primeiro, e a restrição imposta às entrevistas, nos finais do ano passado. Apesar de todo o profissionalismo de Jorge Rodrigues, sentia-se um ambiente diferente no seu Ritornello dos últimos tempos; a vida que lhe era dada pelas entrevistas desapareceu, e o desaparecimento da segunda hora por, alegadamente, ter menos audiência, deixou-me sempre a impressão de que o programa tinha sido incompreensivelmente amputado.

O facto de, ao fim de cerca de doze anos, o programa terminar abruptamente e os protagonistas irem, segundo parece, esgrimir argumentos em tribunal, é de lamentar. Pergunto-me se os ouvintes foram alguma vez tidos em consideração em todo este processo; ou se o facto de ser uma estação pública paga por todos, quer os que a ouvem quer os outros, deu azo a que a administração tomasse decisões baseadas em birras de folhetim. Não tenho nada contra João Almeida, mas custa-me muito ouvi-lo entre as seis e as sete da tarde; é que dou invariavelmente comigo a tentar recordar-me dos extraordinários momentos de rádio que Jorge Rodrigues me proporcionou. Injusto para João Almeida?! Talvez, mas não foi por minha vontade que o Ritornello acabou...

E se souberem de alguma petição que tente fazer ver a alguns o quanto apreciávamos aquele programa, façam o favor de dizer. Assinarei de imediato.

09/05/2007

Obras para Piano #6: Valses Nobles et Sentimentales, de Maurice Ravel

"O título da obra indica de uma forma suficientemente clara a minha intenção de compor uma série de valsas seguindo o exemplo de Schubert". Depois de um regresso ao século XVIII, com Le Tombeau de Couperin, Maurice Ravel (1875-1937) virou-se para o século seguinte, com as Valses Nobles et Sentimentales. Escritas em Paris no início de 1911, foram estreadas a 9 de Maio desse ano pelo seu dedicatário, o pianista e compositor Louis Aubert (1877-1968). Muito antes de ser reconhecido como uma pianista exímio, Aubert tinha-se notabilizado como um notável... soprano!, e foi como tal que, por exemplo, participou na estreia do Requiem de Gabriel Fauré (1845-1924), em 1888. Teve ainda tempo de brilhar no Stabat Mater de Rossini e na Missa de Carl Maria von Weber (1786-1826), até que lá se decidiu dedicar a actividades mais compatíveis com a condição masculina...

Há ainda uma outra curiosidade relacionada com esta obra. A estreia foi efectuada num concerto em que várias outras peças foram tocadas sem que, contudo, se tivesse procedido à identificação dos respectivos compositores. À audiência foi então pedido que os identificasse e, no que às Valses Nobles et Sentimentales diz respeito, há que dizer que o nome de Ravel esteve longe de ser o mais votado! Zoltán Kodály (1882-1967) e Eric Satie (1866-1925) pareceram nomes mais prováveis; Claude Debussy (1862-1918), a bem da sua reputação, foi dos poucos que acertou no nome...


CDs




Modest Mussorgsky
Pictures at an Exhibition.
Maurice Ravel
Valses Nobles et Sentimentales.
Ivo Pogorelich (piano)
Deutsche Grammophon 437 667-2

Wolfgang Amadeus Mozart
Piano Concerto No.13 in C major, K415.
Maurice Ravel
Valses Nobles et Sentimentales
Arturo Benedetti Michelangeli (piano)
Orchestra Sinfonica di Roma della RAI
Orchestra Sinfonia de Torino della RAI
Carlo Maria Giulini, Nino Sanzogno
Urania URN22230

Sergei Prokofiev
Piano Sonata No.2.
Alexander Scriabin
Piano Sonata No.7.
Maurice Ravel
Valses Nobles et Sentimentales.
Sviatoslav Richter (piano)
Live Classics LCL 472

Claude Debussy
Children's Corner.
Gabriel Fauré
Five Impromptus - No.2, Op.31; No.3, Op.34.
Maurice Ravel
Valses Nobles et Sentimentales.
Nikita Magaloff (piano)
Accord 476 1679

Franz Schubert
Piano Sonata in A minor, D845. Piano Sonata in B flat major, D960.
Four Impromptus, D899. Moments Musicaux, D780.
Claude Debussy
Pour le piano. Suite bergamasque. Préludes, Books I & II.
Images, Set I. L'Isle joyeuse.
Maurice Ravel
Sonatine. Le tombeau de Couperin. Valses Nobles et Sentimentales.
Friedrich Gulda (piano)
Andante AN2110


Internet

Maurice Ravel
Maurice Ravel frontispice / Wikipedia / IRCAM / Naxos / Classical Music Pages / Classical NetUniversité du Québec

Louis Aubert
Musica et Memoria / Wikipedia

07/05/2007

Obras para Piano #5: Mikrokosmos, de Béla Bartók

Há vários exemplos de (conceituados) compositores que escreveram obras com evidentes objectivos didácticos; lembramo-nos, nomeadamente, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), com as Invenções, e Claude Debussy (1862-1918), com os Études. Posteriormente, também Béla Bartók (1881-1945) escreveria, sob o título de Mikrokosmos, um conjunto alargado de peças, cujo objectivo inicial era eminentemente didáctico:

"Os quatro primeiros cadernos deste conjunto de peças para piano foram escritos para colocar à disposição dos iniciados, jovens ou velhos, um material abrangendo na medida do possível todos os problemas que eles irão encontrar nos primeiros passos."

Se a intenção inicial era essa, o resultado final foi um tanto diferente. Do total de 153 peças individuais, 121 pertencem aos 4 primeiros cadernos (36 ao primeiro, 30 ao segundo, 30 ao terceiro e 25 ao quarto), e destinam-se aos primeiros um ou dois anos da aprendizagem. E se os dois primeiros cadernos são relativamente simples, já os terceiro e quarto requerem uma técnica mais desenvolvida, por apresentarem uma mais elevada complexidade harmónica. Os últimos 2 cadernos contêm 32 peças (18 o 5º caderno, 14 o ) e foram concebidos para as salas de concerto, a serem tocados principalmente por pianistas profissionais.

A estreia dos primeiros cadernos ocorreu há 70 anos, no dia 7 de Maio de 1937.


CDs



Béla Bartók
Mikrokosmos, Sz107.
Zoltán Kocsis (piano)
Philips 462 381-2

Béla Bartók
Mikrokosmos, Sz107.
György Sandor (piano)
CBS Nasterworks MP2K 52528


Internet

Béla Bartók
Classical Music Pages
/ Wikipedia / Béla Bartók Memorial House Budapest / Karadar / Bartók's Mikrokosmos

03/05/2007

Lugares #155

A arte do abandono é uma tradição secular em Portugal, onde tudo, ou quase, se acaba por deixar à sua sorte. O Porto, em particular, esmerou-se em tal arte, e adicionou-lhe variantes assombrosas; é ver, por exemplo, aquele edifício transparente que, apesar do nome, até hoje só serviu para impedir a vista do mar, abandonado como foi logo que terminado (situação que parece em vias de ser resolvida); ou aquele projecto sizudo para a Avenida dos Aliados que, por não ter sido abandonado, abandonaram os portuenses a dita cuja. Foram séculos de experiência acumulada, ficamos doutores no assunto; chegámos ao ponto de sermos abandonados pelos nossos primeiros-ministros, aqueles mesmo que se esfalfaram a calcorrear quilómetros mendigando os votos que os iriam colocar no poleiro. Já para não falar do outro que, por manifesta falta de iniciativa do abandono, foi a ele grosseiramente votado... embora "ainda ande por aí", segundo o próprio e para mal dos nossos pecados. Adiante.



Um país sem história não será necessariamente um país sem futuro, mas um país que se preza em a ignorar dificilmente o terá. E é a nossa história comum que vai desaparecendo quando, sempre em nome do nosso bem-estar, se vão implementando as famosas requalificações que, na maioria das vezes, têm como resultado mais visível a destruição do nosso património. Monumentos, jardins, árvores, casas com história, tudo é devorado pela fúria de progresso do nosso poder local.




Um dia destes fomos até ao distrito de Vila Real, ver coisas novas e rever outras já nossas velhas conhecidas. O castelo de Pena de Aguiar pertence ao grupo destas últimas, e também ao do grupo dos monumentos abandonados. Não nos dias de hoje, em que já algo se fez no sentido da sua preservação e mesmo promoção, mas a partir dos finais do século XV por, na altura, se ter deixado de lhe reconhecer qualquer papel relevante. O resultado, esperado, foi ter sido impiedosamente abandonado, de nada lhe tendo valido a longa história, velha dos tempos dos romanos, em que protegia a via que ligava Chaves a Lamego passando, uns séculos depois, pelo apoio dado a D. Afonso Henriques na luta pela independência.

Internet

Castelo de Pena de Aguiar
IPPAR / Wikipedia / Castelo de Aguiar

01/05/2007

CDs #117: Dvorák Piano Trios, Smetana Trio

A dumka é um canto popular de origem ucraniana, de uma expressão marcadamente melancólica que, não raras vezes, atraiu os compositores românticos, de entre os quais se salientou o compositor checo Antonín Dvorák (1841-1904), com várias obras nela directamente inspiradas: Dumka et Furiant, Op.12; Dumka, Op.35; e o Trio Dumky, Op.90.

Esta última obra foi escrita por Dvorák entre Novembro de 1890 e Fevereiro do ano seguinte, tendo sido estreada em Praga no dia 11 de Abril de 1891. A estreia contou com o próprio Dvorák ao piano, Ferdinand Lachner (1856-1910) no violino e Hanus Wihan (1855-1920) no violoncelo. O Trio Dumky seria mesmo a peça de câmara que Dvorák mais vezes iria tocar ao longo da vida; só nos cinco meses que se seguiram à estreia tocá-la-ia cerca de 40 vezes.

Esta seria a última obra de Dvorák para esta formação (violino, violoncelo e piano) e, ao contrário dos tradicionais 4 andamentos mais ou menos contrastantes, é composta por 6 peças, pequenas, ligadas de uma forma nem sempre evidente. O que é evidente é o excelente nível interpretativo do Trio Smetana, cujas origens remontam à década de 1930 e que é actualmente composto pela pianista Jitka Cechová, pela violinista Jana Vonásková-Nováková e pelo violoncelista Jan Pálenícek.

Antonín Dvorák morreu há 103 anos, no dia 1 de Maio de 1904.




Antonín Dvorák
Piano Trio Nº4, Op.90, "Dumky". Piano Trio Nº3, Op.65.
Smetana Trio
Supraphon SU3872-2
(2006)


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Antonín Dvorák
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