30/06/2007

Compositores #83: Federico Mompou (1893-1987)

O catalão Federico Mompou nasceu e faleceu em Barcelona mas, ao longo da vida, foi alternando residência entre essa cidade e Paris. Mudou-se pela primeira vez para Paris em 1911, mas foi uma estadia de curta duração, pois o rebentar da guerra fá-lo-ia regressar à cidade natal em 1914; da segunda vez permaneceu na capital francesa cerca de 20 anos, entre 1921 e 1941. Refira-se, já agora, que a primeira deslocação a Paris, sob recomendação de um compositor já nosso conhecido, Enrique Granados (1867-1916), teve como objectivo estudar piano e harmonia. Só que, avesso às luzes da ribalta, Mompou preferiu o sossego da composição à exposição pública que lhe estava destinada como pianista.

Foi precisamente de França que vieram as maiores influências, encabeçadas por Claude Debussy (1862-1918) e Erik Satie (1866-1925). E terá sido deste último que Mompou herdou o gosto pelas miniaturas para piano, bem como um sentido de humor assim para o retorcido, revelado, nomeadamente, em várias notações espalhadas pelas partituras. Como, por exemplo, aquela do "Donnez des excuses"... Principalmente compositor de canções e das referidas miniaturas para piano, escreveu igualmente música de câmara, a mais notória no género sendo a Suite compostelana, dedicada a um músico que também já teve a honra de aqui passar: Andrés Segovia (1893-1987).

Federico Mompou faleceu há 20 anos, no dia 30 de Junho de 1987.


CDs



Federico Mompou
Piano Music.
Stephen Hough (piano)
Hyperion CDA66963

Federico Mompou
Cançons I danses. Six Charmes. Scènes d'enfants.
Jordi Masó (piano)
Naxos 8.554332

Federico Mompou
The Piano Music.
Martin Jones (piano)
Nimbus NI5724-7

Frédéric Chopin
Complete Waltzes.
Federico Mompou
Valse-Evocation.
Alexandre Tharaud
Harmonia Mundi HMC90 1927


Internet

Federico Mompou
Naxos / Wikipedia / Frederic Mompou / Karadar

27/06/2007

CDs #124: Guilhermina Suggia plays Haydn, Bruch, Lalo

O inglês John Barbirolli (1899-1970) já aqui foi apresentado, numa altura em que se aproveitou para realçar a sua faceta de regente de orquestra. E que extraordinário regente ele foi, diga-se! Só que, naquilo que à música de respeito, Barbirolli começou por fazer-se notado como violoncelista, tendo tocado pela primeira vez em público quando tinha 12 anos apenas. Em 1916 entraria, ainda como violoncelista, para a Queen's Hall Orchestra. Depois, e ainda antes da guerra estalar, estrear-se-ia a solo em público como violoncelista profissional mas, durante os anos em que esteve ao serviço das tropas de Sua Majestade, desenvolveu o interesse pela regência de orquestras.

Chamou particular atenção o sucesso que obteve em Dezembro de 1927 quando, em cima da hora, substituiu um adoentado Thomas Beecham (1879-1961). Como resultado, passou uma boa parte da temporada seguinte a dirigir óperas, nomeadamente em Covent Garden e Sadler's Wells, duas salas londrinas. Mas não só de ópera viveu o maestro nesse ano de 1928; no mês de Julho teve a oportunidade de pegar num número suficiente de músicos, provavelmente da sua própria orquestra, a John Barbirolli Chamber Orchestra, e gravar o Concerto para Violoncelo em ré maior de Joseph Haydn (1732-1809), com a nossa Guilhermina Suggia (1885-1950). E Barbirolli não foi o único maestro de renome com quem Suggia tocou; refiram-se, por exemplo, Artur Nikisch (1855-1922) e Adrian Boult (1889-1983), sem esquecer, obviamente, Pedro de Freitas Branco (1896-1963). Que, por sinal, é quem dirige a Orquestra Sinfónica de Londres no Concerto para Violoncelo em ré menor de Édouard Lalo (1823-1892), uma das mais significativas gravações de Suggia, e que aparece igualmente neste disco.

Guilhermina Suggia nasceu há 122 anos, no dia 27 de Junho de 1885.




Joseph Haydn
Cello Concerto in D major.
Max Bruch
Kol nidrei.
Édouard Lalo
Cello Concerto in D minor.
Giovanni Battista Sammartini
Sonata in G major (arr. Salmon).
Guilhermina Suggia (violoncelo), George Reeves (piano)
Orchestra, John Barbirolli
London Symphony Orchestra, Pedro de Freitas Branco
Dutton CDBP 9748


Internet

John Barbirolli
Sir John Barbirolli's Biography / Wikipedia / Bach Cantatas / Sir John Barbirolli Memorial Foundation

Guilhermina Suggia
Guilhermina Suggia / Centro Virtual Camões / Wikipédia / Internet Cello Society / Guilhermina Suggia

25/06/2007

CDs #123: Ginastera, Panambí, Estancia

Não foram tão poucos como isso os compositores que, a determinada altura da sua vida, como que renegaram as obras que tinham escrito até então; ainda aqui recentemente falámos do caso de Ferruccio Busoni (1866-1924), e das confusões que armou com a numeração das suas obras. O compositor argentino Alberto Ginastera (1916-1983) foi outro que tal; tendo começado a compor relativamente cedo, quando tinha aí uns 14 anos, viria mais tarde a destruir a maior parte das obras. Ao ponto de, à altura do primeiro encontro com Aaron Copland (1900-1990), em Setembro de 1941, apenas ter 7 obras publicadas.

Copland, diga-se de passagem, tinha Ginastera em grande consideração, tendo sobre ele escrito: "(...) He is looked upon with favor by all groups here, is presentable, modest almost to the timid degree, and will, no doubt, someday be an outstanding figure in Argentine music". Em 1945, Ginastera, que não era muito apreciado pelo governo de Juan Perón (1895-1974), mudou-se para os Estados Unidos, e aí voltou a cruzar-se de novo com Copland, em Tanglewood.

Um das atracções principais deste disco (além do preço...) reside no facto de apresentar duas obras marcantes na carreira de Ginastera como compositor: as músicas de bailado Panambí, de 1936/7, que chamou a atenção para um compositor largamente desconhecido até então, e Estancia que, em 1941, contribuiu em boa medida para a sua consagração. Estamos longe, muito longe, do Ginastera mais experimentalista que iria aparecer a partir dos inícios da década de 1960, mas isso são conversas para outra altura...

Alberto Ginastera faleceu há 24 anos, no dia 25 de Junho de 1983.




Ginastera
Panambí. Estancia. (Complete Ballets)
Luis Gaeta (narrador, baixo-barítono)
London Symphony Orchestra
Gisèle Ben-Dor
Naxos 8.557582
(1997)


Internet

Alberto Ginastera
Naxos / Wikipedia / Compositores & Intérpretes

23/06/2007

Notícias #10

É já no próximo dia 27 de Junho, data em que se comemora 0 122º aniversário do nascimento da violoncelista Guilhermina Suggia (1885-1950), que a Associação Guilhermina Suggia e a Câmara Municipal do Porto vão proceder à colocação de uma placa evocativa na casa onde ela viveu e faleceu, no nº665 da Rua da Alegria. A cerimónia terá lugar às 18:30, e estamos todos convidados para tão simbólico evento.

Para obter mais informações sobre Guilhermina Suggia basta visitar este blogue.

21/06/2007

Lugares #158

D. Afonso Henriques (1108/9?-1185) terá falhado completamente a sua missão! Só assim se poderá explicar o facto de, 860 anos depois, a zona sul do país continuar a ser o "reino dos mouros", pelo menos na opinião desapaixonada daqueles que vivem a norte do Mondego. Nós, é bom que se note, somos a favor das boas relações entre os povos, mouros incluídos, pelo que não temos problemas de maior em visitar o referido reino sulista. E assim o fizemos, em Abril passado, por motivos sonoros de que aqui já falámos anteriormente.

Aproveitámos, ainda, para visitar vários locais, num roteiro ditado no essencial pela pequenada que connosco habita. Um dos locais, está bom de ver, foi o Castelo de São Jorge, construído quando Lisboa era uma importante cidade portuária... muçulmana.

Ao longo da sua longa vida foi palco, como qualquer outro castelo, de várias lutas, mas este foi igualmente o palco onde foi representada a primeira peça de teatro português: o Auto do Vaqueiro, de Gil Vicente (1465?-1536?). Coisa em grande, porque se pretendia celebrar o nascimento daquele que viria a ser o rei D. João III, o Piedoso (1502-1557), pelo que, no dia 8 de Junho de 1502, dois dias depois do nascimento do príncipe, reuniu-se a nata da realeza para assistir à dita peça: os reis, claro, D. Manuel I (1469-1521) e D. Maria de Castela, mas também D. Leonor, viúva de D. João II (1455-1495), e D. Beatriz, mãe do rei. Ocasião única para Gil Vicente brilhar, evidentemente, pelo que, além de ter escrito a peça, tratou ele mesmo da encenação e ainda encontrou tempo para representar.

Por essa altura já o rei se orgulhava das grandes conquistas efectuadas, pois Vasco da Gama (1468/9?-1524) já tinha chegado à Índia e Pedro Álvares Cabral (1467?-1520?) ao Brasil; viriam ainda mais algumas, suficientes para D. Manuel I intitular-se de
Rei de Portugal e dos Algarves de aquém e de além mar, senhor da navegação e da conquista da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Gabe-se-lhe a modéstia...





Internet

Castelo de São Jorge
IPPAR / Wikipédia / Castelo de São Jorge / Câmara Municipal de Lisboa

Gil Vicente
Instituto Camões / Wikipédia / Casa de Sarmento / Gil Vicente

18/06/2007

Obras Vocais #7: Le marteau sans maître, de Pierre Boulez

Entre 1942 e 1945, Pierre Boulez (1925-) estudou no Conservatório de Paris com Olivier Messiaen (1908-1992), como aluno das famosas aulas de análise. Na segunda metade dessa década de 40, Boulez desenvolveu o seu estilo musical partindo do serialismo introduzido por Arnold Schoenberg (1874-1951).

Desses estudos resultaram 2 Sonatas para Piano, a primeira de 1946, a outra de 1948, e uma Cantata, também de 1948, Le Soleil des eaux. A Segunda Sonata para Piano foi inclusivamente a obra que lhe granjeou fama, inicialmente pela circulação da partitura, publicada em 1950, e, mais tarde, pela sua estreia pública em Darmstadt, em 1952, com Yvonne Loriod (1924-) ao piano. Loriod que, em 1961, iria casar com... Olivier Messiaen...

Le marteau sans maitre
consolidaria definitivamente a reputação de Pierre Boulez, uma obra para contralto e 6 instrumentistas, escrita entre 1953 e 1955, numa altura em que o compositor tinha já largado o serialismo puro e duro. Esta foi a 3ª obra em que Boulez utilizou poemas de René Char (1907-1988), depois de o ter feito nas cantatas Visage nuptial, de 1946, e Le Soleil des eaux, de 1948. Para esta obra Boulez inspirou-se em Pierrot Lunaire, de Schoenberg, só que concebeu uma obra bem mais complexa. De tal forma que vários músicos hesitaram em pegar-lhe e, aquando da preparação para a sua estreia, houve um que perguntou a Boulez "onde estava a poesia", ao que ele respondeu que "ela está lá"... A referida estreia teve lugar no dia 18 de Junho de 1955.


CD



Pierre Boulez
Le Marteau sans maïtre. Dérive 1. Dérive 2.
Hilary Summers (meio-soprano)
Ensemble Intercontemporain
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 20/21 477 5327


Internet

Pierre Boulez
IRCAM
/ Andante / Classical Music Pages / Wikipedia / Radio France

17/06/2007

CDs #122: Igor Stravinsky, The Firebird, Petrushka, The Rite of Spring

Nos inícios do século passado ou, mais precisamente, aí por volta de 1909, o russo Sergei Diaghilev (1872-1929) andava à procura de um compositor que fosse capaz de escrever músicas para bailados, com um importante detalhe: deveriam ser eminentemente russas, pois o objectivo era o de mostrar às audiências, nomeadamente parisienses, a riqueza da cultura russa. Depois de tentativas não sucedidas com Alexander Glazunov (1865-1936), Anatoly Liadov (1855-1914) e Nikolai Tcherepnin (1873-1945), Diaghilev abordou o compositor russo Igor Stravinsky (1882-1971). No Inverno de 1908, Diaghilev tinha assistido às estreias do Scherzo fantastique e do Feu d'artifice, e terá ficado convencido de que Stravinsky seria o compositor que procurava. O tempo encarregar-se-ia de lhe dar razão.

O primeiro resultado dessa colaboração seria O Pássaro de Fogo, e seria, igualmente, o primeiro grande sucesso de Stravinsky. A estreia, no dia 25 de Junho de 1910, e contou com a participação de Michel Fokine (1880-1942), como coreógrafo e bailarino. Seguir-se-iam mais dois bailados emblemáticos: Pétrouchka e a Sagração da Primavera, a primeira estreada no dia 13 de Junho de 1911 e a outra no dia 29 de Maio de 1913. Da estrondosa estreia da Sagração da Primaveraaqui falámos antes... Pois recentemente foi lançado um disco que contém estas três obras de Stravinsky, só que em versão para dois pianos. Gravado em 2002, apenas no ano passado apareceu nos escaparates; estranho atraso este, digo eu, para tão extraordinárias versões e interpretações. Uma vénia, veemente, para os britânicos Philip Moore e Simon Crawford-Philipps, por tão fabulosas transcrições. Ficamos a aguardar as próximas!

Igor Stravinsky nasceu há 125 anos, no dia 17 de Junho de 1882.




Igor Stravinsky
The Firebird. Petrushka. The Rite of Spring.
Philip Moore, Simon Crawford-Phillips (pianos)
Deux-Elles DXL1081
(2002)


Internet

Igor Stravinsky
Classical Music Pages / Wikipedia / Igor Stravinsky / Classical Net / Naxos

Philip Mooore, Simon Crawford-Phillips
Official Web Site

13/06/2007

CDs #121: Stravinsky, Les Noces, Messe, Cantate

O neoclassicismo foi um termo que, por volta dos finais do século XIX, apareceu ligado à poesia, para catalogar o movimento ligado ao poeta grego Jean Moréas (1856-1910), que defendia o regresso às origens, às influências romana e grega, opondo-se, nomeadamente, ao romantismo. Só começou a ser aplicado à música por alturas da 1ª Guerra Mundial e aí, de novo, para assinalar um movimento que propunha o regresso ao classicismo, como oposição, mais uma vez, ao romantismo. Houve muitos e bons compositores que, por um período mais ou menos longo, a ele aderiram, como, por exemplo, Paul Hindemith (1895-1963), Darius Milhaud (1892-1964), Francis Poulenc (1899-1963), Sergei Prokofiev (1891-1953), Maurice Ravel (1875-1937) e, o que talvez seja uma surpresa para alguns, Igor Stravinsky (1882-1971).

Das obras neoclássicas de Stravinsky destacam-se o bailado Pulcinella, composto entre 1919 e 1920, já o compositor vivia na Suíça, a Symphony of Psalms, de 1930, e a ópera The Rake´s Progress, escrita nos finais dos anos 40. O bailado Les Noces, apesar de datado de 1923, marca o fim do período russo do compositor e o início do referido período neoclássico. Isto pelo facto de nele ter começado a trabalhar muito antes, em 1914, a partir da ideia de compor algo relacionado com o tema do casamento, e para o qual o próprio Stravinsky preparou o libreto, baseando-se em textos populares russos. Para a versão original tinha pensado numa orquestra numerosa, aí com uns 150 músicos; tal veio, contudo, a revelar-se impraticável e, na sua versão final, em que Stravinsky apenas começou a trabalhar em 1921, requer apenas solistas (soprano, alto, tenor e baixo), coro, 4 pianos e percussão. A estreia, a 13 de Junho de 1923, contou de novo com os Ballets Russes de Sergei Diaghilev (1872-1929) e a direcção do regente suíço Ernest Ansermet (1883-1969).




Igor Stravinsky
Les Noces. Messe. Cantate.
Carolyn Sampson (soprano), Susan Parry (alto), Vsevolod
Grivnov, Jan Kobow (tenores), Maxim Mikhailov (baixo)
RIAS Kammerchor
musikFabrik
Daniel Reuss
Harmonia Mundi HMC 801913
(2005)


Internet

Igor Stravinsky
Classical Music Pages / Wikipedia / Naxos / Classical Net / Time

11/06/2007

Concertos #57

Há cerca de 3 meses atrás deixei aqui alguns comentários sobre a programação da Casa da Música para o 2º trimestre deste ano. A semana passada foi-nos dada a conhecer a programação para o trimestre que se avizinha; saiu tarde e a más horas, como é apanágio da casa desde que o filho pródigo retornou, e quase que dá vontade de dizer que mais valia que não tivesse saído! Consegue o impensável, ao conseguir ser pior que a do 2º trimestre, denotando uma confrangedora falta de imaginação e quase fazendo esquecer tudo o que de bom já se fez por aquelas bandas em termos de programação.

Julho resume-se a alguns concertos da Orquestra Nacional do Porto, a um da Orquestra Gulbenkian e ao regresso do pianista norte-americano Stephen Kovacevich (1940-). Ou seja, de todos os músicos extraordinários que poderiam ser convidados, a escolha tinha que recair novamente num pianista, e logo num que já lá tinha estado. E não tenho nada contra Kovacevich, antes pelo contrário, até já comprei os bilhetinhos. Só que gostava de ter a oportunidade de poder variar...

Agosto é como se não existisse. Já aqui referi antes: enquanto muitas outras cidades capricham nas programações de Verão, o Porto em geral, e a Casa da Música em particular, fazem ponto de honra em criar um deserto (cultural) para os camelos que por lá vagueiam. Enganou-se redondamente, o nosso ministro Mário Lino: o deserto não está a sul do Tejo, situa-se antes aí uns 300 quilómetros a norte...

De Setembro nem vale a pena falar. É revoltante ver a que nível foi possível baixar a qualidade da programação. Mas será assim tão difícil ver que o homem não serve para a função?!

08/06/2007

Obras Orquestrais #14: Adagio, de Tomaso Albinoni (1671-1751)

A Sonata de Igreja (do original "sonata da chiesa") é uma composição instrumental originária do barroco e que tem, normalmente, 4 andamentos, quer na sequência lento-rápido-lento-rápido, quer na rápido-lento-rápido-lento. Todos os movimentos andam à volta dos mesmos motivos e elementos temáticos, e esta sonata tem ainda a característica de ambos os movimentos rápidos serem em forma de fuga.

Pois foram apenas alguns compassos de uma sonata de igreja aquilo que o musicólogo Remo Giazotto (1910-1998) encontrou numa biblioteca de Dresden, pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial. Giazotto pegou naqueles rascunhos, que atribuiu ao compositor italiano do barroco
Tomaso Albinoni (1671-1751), sobre quem estava à altura a finalizar uma biografia, e fabricou uma peça de um único movimento para orgão e cordas. Disto tudo, resultou um notável conjunto de factos:

- Uma das obras orquestrais mais famosas do período barroco foi, na realidade, escrita no século XX;
- Uma das obras orquestrais mais famosas do barroco nasceu como um simples peça instrumental;
- A obra por que Tomaso Albinoni é indubitavelmente mais conhecido não foi escrita por ele, e
- Poucos, muito poucos, sabem quem na realidade compôs o "Adagio de Albinoni".

Nada disto terá impedido, contudo, Remo Giazotto de embolsar não módicas quantias, pois não se esqueceu de assegurar os direitos de autor de tão popular composição...

Tomaso Albinoni nasceu há 337 anos, no dia 8 de Junho de 1671.


CDs



A Portrait of Sir Neville Marriner
Bernard Soustrot, Maurice André (trompetes),
Iona Brown (violino), Ian Watson (cravo)
Ambrosian Singers
King's College Choir, Cambridge
Academy of St Martin in the Fields
Neville Marriner
Royal Classics DCL70597-2

Tomaso Albinoni
Adagio.
Johann Pachelbel
Canon and Guigue - Canon.
Orpheus Chamber Orchestra
Deutsche Grammophon 429 390-2

Antonio Vivaldi
Le Quattro Stagioni.
Tomaso Albinoni
Adagio.
Michel Schwalbé (violino)
Berlin Philharmonic Orchestra
Herbert von Karajan
Deutsche Grammophon 415 301-2


Internet

Sonata da chiesa
Classical Music Pages / Wikipedia / Answers.com

Remo Giazotto
Naxos / Wikipedia / Answers.com

Tomaso Albinoni
Wikipedia / Goldberg / Classical Net / Naxos / 8notes.com


Bibliografia

All Music Guide to Classical Music, editado pela Backbeat Books / Guia da Música Sinfónica, de François-René Tranchefort / Dictionnaire du Musicien, de Marc Honegger

05/06/2007

Pianistas #18: Martha Argerich (1941-)

O pianista e compositor italiano Ferruccio Busoni (1866-1924) tem sido ultimamente visita frequente aqui neste canto virtual, a última das quais, há uma semana e pouco, a propósito de um disco com o Concerto para Piano. Por ocasião dos 25 anos passados sobre o falecimento de Busoni, um senhor de nome Cesare Nordio, à altura director do Conservatório de Bolzano, criou um Concurso Internacional de Piano com o nome do compositor. Nordio teve artes de juntar um conjunto fabuloso de personalidades ligadas ao mundo da música; logo no ano de estreia contou com o apoio entusiástico (e monetário...) de Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995). Nesse ano um pianista bem nosso conhecido ficou em 4º lugar: o austríaco Alfred Brendel (1931-). O primeiro prémio não foi atribuído e dos outros premiados já ninguém se lembra. Refira-se que, nas suas primeiras 12 edições, este concurso internacional apenas por 5 vezes atribuiu o 1º prémio; em 1957 a honra coube à argentina Martha Argerich, a nossa aniversariante de hoje. Do júri desse ano fazia parte o russo, igualmente pianista, Nikita Magaloff (1912-1992), com quem Argerich tinha estudado depois de se ter mudado com a família para o velho continente, em meados da década de 1950.

Já agora, refira-se que, apenas 3 semanas antes, Argerich havia vencido o Concurso Internacional de Piano de Genebra e, como não há duas sem três, em 1965 limpou o Concurso Internacional de Piano Frédéric Chopin. Hão-de-me dizer quantos pianistas se podem gabar de tal curriculum... E já que estamos numa onde de curiosidades, diga-se também que estreou-se em público a tocar música de câmara quando tinha 17 anos, e com um músico já bem nosso conhecido: o violinista Joseph Szigeti (1892-1973). Para não esgotar o assunto de uma só vez, hoje só exibimos os disquinhos em que Argerich aparece (bem) acompanhada a executar precisamente música de câmara.

Martha Argerich celebra hoje o seu 66º aniversário.


CDs





Ludwig van Beethoven
Violin Sonatas - No.6, Op.30 No.1; No.7, Op.30 No.2; No.8, Op.30 No.3.
Gidon Kremer (violino), Martha Argerich (piano)
Deutsche Grammophon 445 652-2

Béla Bartók
Contrasts, Sz111.
Franz Liszt
Concerto Pathétique, S258.
Sergei Prokofiev
Quintet in G minor, Op.39.
Michael Collins (clarinete), Chantal Juillet (violino), Martha
Argerich, Nelson Freire (pianos), Richard Woodhams (oboé),
Isabelle van Keulen (viola)
EMI 5 56816-2

Ludwig van Beethoven
Violin Sonata No.9 in A, Op.47, "Kreutzer".
César Franck
Violin Sonata in A.
Itzahk Perlman (violino), Martha Argerich (piano)
EMI 5 56815-2

Robert Schumann
Andante and Variations, Op.46. Fantasiestück, Op.73.
Märchenbilder, Op.113. Piano Quintet, Op.44.
Martha Argerich, Alexandre Rabinowitch (pianos), Marie-Luise
Neunecker (trompa), Dora Schwarzberg, Lucia Hall (violinos),
Nobuko Imai (viola), Mischa Maisky, Natalia Gutman (violoncelos)
EMI 5 57308-2

Johannes Brahms
Piano Quartet No.1 in G minor, Op.25.
Robert Schumann
Fantasiestück, Op.88.
Martha Argerich (piano), Gidon Kremer (violino),
Yuri Bashmet (viola), Mischa Maisky (violoncelo)
Deutsche Grammophon 463 700-2

Ludwig van Beethoven
Triple Concerto in C, Op.56.
Robert Schumann
Piano Concerto in A minor, Op.54.
Martha Argerich (piano), Renaud Capuçon (violino),
Mischa Maisky (violoncelo)
Orchestra della Svizzera Italiana
Alexander Rabinovitch-Barakovski
EMI 5 57773-2

Sergei Prokofiev
Cinderella - Suite (arr. Pletnev).
Maurice Ravel
Ma mère l'oye.
Martha Argerich, Mikhail Pletnev (pianos)
Deutsche Grammophon 474 868-2


Internet

Martha Argerich
A Tribute to Martha Argerich / Wikipedia / Calouste Gulbenkian Foundation / Biographie, CDs und Konzertkritik

02/06/2007

Óperas #15: Lulu, de Alban Berg

Antes de virar dramaturgo, o alemão Frank Wedekind (1864-1918) teve uma vida deveras aventurosa, boémia a maior do tempo, com passagens pelo circo, pela prisão (como hóspede...) e por vários cabarets. A estadia na prisão, diga-se, foi o resultado mais visível de uma das suas primeiras actividades como escritor. Mais tarde, já como dramaturgo, não deixou de agitar as almas dos seus contemporâneos, pela forma como abordou temas como a sexualidade. Entre outras, escreveu duas obras, Der Erdgeist e Die Büchse der Pandora, com o mesmo personagem central, Lulu, uma mulher sensual e de instintos animalescos.

Em Maio de 1905 a peça Die Büchse der Pandora estava em cena em Viena e, entre os que a ela assistiram, contou-se o jovem Alban Berg (1885-1935), vivamente impressionado com "a nova direcção, e o ênfase que dava à sensualidade". Lá impressionado pode ter ficado, mas o que é certo é que só começaria a trabalhar na ópera Lulu mais de 20 anos depois, tendo ele próprio tratado do libreto, a partir das duas referidas obras de Wedekind. A ópera foi banida mesmo antes de finalizada, pois os estômagos nazis não conseguiam digerir tão ostensiva provocação, em que os amantes de Lulu morrem sucessivamente, de morte morrida ou matada; após uma passagem pela prisão, Lulu acaba como prostituta nas ruas de Londres, sendo assassinada pelo famoso Jack the Ripper.

Alban Berg não viveu o suficiente para terminar a ópera, mas ainda teve tempo para, a pedido do maestro Erich Kleiber (1890-1956), escrever uma suite orquestral nela baseada. É que Kleiber não era homem para ceder facilmente aos caprichos dos nazis e, na impossibilidade de apresentar a ópera, desafiou-os interpretando a respectiva suite. Escusado será dizer que teve que se pirar de imediato do país...

A ópera, no ponto em que Berg a deixou, foi estreada em Zurique 70 anos, no dia 2 de Junho de 1937. O compositor austríaco Friedrich Cerha (1926-) trabalhou durante 12 anos na orquestração do 3º acto, e esta versão completa foi estreada por Pierre Boulez em Paris no dia 24 de Fevereiro de 1979.


CD



Alban Berg
Lulu.
Teresa Stratas, Yvone Minton (sopranos), Hanna Schwarz, Franz
Mazura, Toni Blankenheim (barítonos), Kenneth Riegel, Robert Tear,
Helmul Pampuch (tenores), Gerd Nienstedt (baixo)
Paris Opera Orchestra
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon The Originals 463 617-2


DVD



Alban Berg
Lulu.
C. Schäfer (soprano), W. Schöne (barítono), D. Kuebler,
S. Drakulich, N. Jenkins (tenores), K. Harries, P. Bardon
(meios-sopranos), N. Bailey, J. Vieira, D. Maxwell (baixos)
London Philharmonic Orchestra
Andrew Davis
Warner Music Vision 0630 15533-2


Internet

Alban Berg
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