29/08/2007

Lugares #164

Ao visitante que, vindo de Ovar, chega à Torreira, são apresentadas duas alternativas: ou segue a (grande) maioria e vai plantar-se no areal a esturricar as banhas, ou opta por ficar logo por ali, do lado onde as águas salgadas não se revoltam. Na Torreira, a distância entre o mar e a ria é de apenas algumas, poucas, centenas de metros, mas é quase certo que quem por hábito opta por um dos lados dificilmente se sentirá atraído pelo outro. O que é uma excelente notícia para aqueles que, como nós, apreciam infinitamente a calma reinante, impossível de usufruir caso todos os veraneantes das lancheiras decidissem acampar do lado da ria...

Há não muito tempo aqui o agregado mudou-se, fugindo mais para sul, com ganhos evidentes no que à qualidade de vida diz respeito. Senão vejamos: perdeu as corridas de calhambeques ruidosos, vai perder as de passarecos não menos barulhentos e, como se tal já não bastasse, ainda ficou mais perto da Torreira! No fim-de-semana que se avizinha, enquanto muitos, parece que várias centenas de milhares, vão estar de nariz para o ar a forçar as vistas e a danificar os tímpanos, nós vamos estar a preguiçar, pernas esticadas com as plantas dos pés a cheirar a Ria de Aveiro, embrenhados em cativantes leituras, e reconfortados pelas especialidades da zona, devidamente regadas para ajudar à digestão.



Não será o paraíso na Terra, mas fica mesmo aqui ao lado...


Internet

Torreira
Junta de Freguesia da Torreira / Wikipédia / Guia da Cidade

27/08/2007

Lugares #163

As trapalhadas à volta da construção de infraestruturas não são, naturalmente, um exclusivo dos lisboetas, e muito menos do nosso tempo. A propósito das peripécias à volta do novo aeroporto de Lisboa, lembrei-me daquelas que envolveram a Cadeia da Relação do Porto que, criada há 425 anos, no dia 27 de Julho de 1582, apenas iria possuir instalações próprias duradouras mais de 200 anos depois, em 1796.

A versão mais optimista diz-nos que o edifício apenas demorou qualquer coisa à volta de 30 anos para ser construído, uma vez que as obras iniciaram-se em 1765. Isto até é verdade, mas esconde o lado mais pitoresco da história. Depois de ter utilizado instalações alheias durante duas dezenas de anos, a Cadeia da Relação viu as obras para o seu próprio edifício começarem em 1606.




Coisa enorme, imponente, não era um edifício qualquer; abarbatou todos os recursos financeiros disponíveis, durante 3 anos nada mais de relevante se fez na cidade. Recursos esses que se revelaram insuficientes, é bom que se diga, pelo que se tornou necessário, à imagem do que hoje se vai por vezes fazendo, inventar uma nova espécie de imposto; na altura calhou aos degredados terem a hipótese de o deixarem de ser, bastando para tal pagar uma módica quantia que lhes permitiria evitar o desterro africano e cumprir a pena em território luso. Fluxo financeiro garantido, obras expeditas, e lá pode a cadeia deixar as instalações da Câmara Municipal e mudar-se para o novo código postal.

Só que no dia dos enganos do ano de sua graça de 1752 a casa veio abaixo, literalmente. Ruiu, qual executivo municipal da nossa proveta capital, e do investimento dos degredados apenas sobraram escombros. E, claro, lá voltou a Cadeia da Relação para o edifício da Câmara Municipal... Até que, no mesmo sítio, ergueu-se novo edifício, o tal de que falei no início deste texto; melhor construído, ainda hoje faz companhia à Torre dos Clérigos e ao conhecido mijadouro municipal. Alberga actualmente o Centro Português de Fotografia. Do granítico campo de futebol que lhe plantaram à frente e do jardim (da Cordoaria) que a Porto 2001 fez questão de destruir, prefiro não falar. Já outros o fizeram, repetida e sabiamente. Quiçá o silêncio será de ouro, não vá o homem lembrar-se de destruir o pouco que sobrou para lá fazer mais uma corrida de calhambeques!

23/08/2007

CDs #130: Roslavets, Chamber Symphony, In the hours of the New Moon

A 6 de Novembro de 1927, em Leninegrado, teve lugar um concerto de celebração do 10º aniversário da Revolução de Outubro, durante o qual foram interpretadas (e estreadas) a cantata Outubro, de Nikolay Roslavets (1881-1944), a Sinfonia Nº2 de Dimitri Shostakovich (1906-1975) e a peça orquestral Iron Foundry, de Alexander Mosolov (1900-1973). Tudo obras dedicadas ao evento, evidentemente; a sinfonia de Shostakovich, por exemplo, leva como título "Dedicada a Outubro".

Lembram-se de, não há muito tempo, aqui ter falado de um célebre compositor russo, hoje quase esquecido? Pois aqui vai mais um, igualmente russo (nascido naquilo que é hoje a Ucrânia): Nikolay Roslavets, de que (muito) provavelmente nunca ouviram falar, mas que, e cito do livrinho que acompanha o disco de que hoje aqui se fala, "(...) emergiu como uma das mais fascinantes figuras da música russa da primeira metade do século XX". Adepto da modernidade, promoveu e apoiou diversos concertos da 2ª Escola de Viena, apesar de se ter mantido completamente independente dela e de ter desenvolvido a sua própria forma de composição serial. Seguramente que tais modernidade lhe teriam que trazer complicações, e as autoridades russas, mais uma vez, não desiludiram; a sua música "não era do proletariado", mas antes "arte burguesa", e a vigilância das autoridades levou a que, a partir de meados da década de 1920, Roslavets começasse a compor para os proletários, de que resultaram inúmeras canções, geralmente descritas como horríveis. Mas sempre eram ao gosto de quem mandava...

A principal obra presente neste disco é a Sinfonia de Câmara, e foi por ele composta entre Maio de 1934 e Fevereiro do ano seguinte, sendo esta a primeira vez que aparece em disco. Isto porque se desconhecia a sua existência até à recente descoberta do manuscrito, e da sua publicação em 2005. Como fonte inspiradora, teve a Primeira Sinfonia de Câmara, de Arnold Schoenberg (1874-1951), um dos membros da referida 2ª Escola de Viena.

Nikolay Roslavets faleceu há 63 anos, no dia 23 de Agosto de 1944.




Nikolay Roslavets
Chamber Symphony. In the hours of the New Moon.
BBC Scottish Symphony Orchestra
Ilan Volkov
Hyperion CDA67484
(2004, 2005)


Internet

Nikolay Roslavets
IRCAM / Wikipedia / Answers.com / Naxos

20/08/2007

Violinistas #6: Maxim Vengerov (1974-)

Em tempos idos, não era difícil vir para aqui vangloriar-me dos grandes intérpretes que tinha tido o prazer de assistir a tocar ao vivo; esses tempos passaram, infelizmente, e hoje em dia não me resta senão lamentar o estado calamitoso a que chegou a programação da Casa da Música. Em jeito de compensação, pelo menos para a minha pessoa..., irei trazendo para aqui alguns daqueles músicos que gostaria que fossem convidados a tocar na cidade do Porto. Sonho dificilmente realizável a curto prazo, evidentemente, mas a esperança perdura e lá chegará o dia em que o homem seja tirado do poleiro.

Começo pelo aniversariante do dia, o violinista Maxim Vengerov, nascido a 20 de Agosto de 1974 (algumas fontes indicam 15 de Agosto, mas convém-me mais o dia de hoje, à falta de tema alternativo para aqui apresentar...). Habituado a tocar desde muito novo com outros grandes músicos, já passou pela Gulbenkian onde, em 2000, tocou ao lado de Trevor Pinnock (1946-). Antes disso já tinha tido a oportunidade de tocar e gravar com o violoncelista e maestro Mstislav Rostropovich (1927-2007), falecido em Abril deste ano. Um dos discos resultantes dessa colaboração foi editado em 1995, incluía os Concertos para Violino Nºs.1 de Dmitri Shostakovich (1906-1975) e de Sergei Prokofiev (1891-1953), e ganhou tudo o que era prémio, sendo nomeadamente escolhido como Disco do Ano pela Gramophone.

Com a ajuda de uma benemérita, Vengerov adquiriu há uns anos, cerca de 7, um violino Stradivarius de seu o nome "Kreutzer", em homenagem ao violinista virtuoso Rodolphe Kreutzer (1766-1831), que toca regularmente com um arco que pertenceu a Jascha Heifetz (1901-1987), violinista de quem aqui falámos há menos de uma semana. Mais uma prova de quão pequeno este mundo é...


CDs





Sergei Prokofiev
Violin Concerto No.1 in D, Op.19.
Dmitri Shostakovich
Violin Concerto No.1 in D minor, Op.99.
Maxim Vengerov (violino)
London Symphony Orchestra
Mstislav Rostropovich
Teldec 92256-2

Johannes Brahms
Violin Concerto in D, Op.77.
Sonata for Violin and Piano No.3 in D minor, Op.108.
Maxim Vengerov (violino), Daniel Barenboim (piano)
Chicago Symphony Orchestra
Daniel Barenboim
Teldec 0630 17144-2

Antonín Dvorák
Violin Concerto in A, B108.
Edward Elgar
Violin Sonata in E minor, Op.82.
Maxim Vengerov (violino)
New York Philharmonic Orchestra
Kurt Masur
Teldec 4509 96300-2

Dmitri Shostakovich
Violin Concerto No.1 in A minor, Op.77 (Op.99).
Violin Concerto No.2 in C sharp minor, Op.129.
Maxim Vengerov (violino)
London Symphony Orchestra
Mstislav Rostropovich
Warner Elatus 0927 46742-2

Johann Sebastian Bach
Toccata and Fugue in D minor, BWV565.
Rodion Shchedrin
Echo Sonata. Balalaika.
Eugène Ysaÿe
Solo Violin Sonatas, Op.27 - No.2 in A minor;
No.3 in D minor (Ballade); No.4 in E minor; No.6 in E.
Maxim Vengerov (violino)
EMI 5 57384-2

Benjamin Britten
Violin Concerto, Op.15.
William Walton
Viola Concerto.
Maxim Vengerov (violino, viola)
London Symphony Orchestra
Mstislav Rostropovich
EMI 5 57510-2

Antonín Dvorák
Symphonies. Overtures. Symphonic Poems.
Mstislav Rostropovich (violoncelo), Pierre-Laurent
Aimard (piano), Maxim Vengerov (violino)
Chamber Orchestra of Europe
Royal Concertgebouw Orchestra
Lausanne Chamber Orchestra
Rochester Philharmonic Orchestra
Nikolaus Harnoncourt, Armin Jordan
Warner Classics 2564 61530-2

Vengerov.
Works by Wieniawski, Paganini, Kreisler, Rachmaninov,
Saraste, Williams and Ysaÿe.
Maxim Vengerov (violino), Ian Brown (piano)
EMI 5 57916-2

Wolfgang Amadeus Mozart
Violin Concertos - No.2, K211; No.4, K218.
Sinfonia Concertante, K364.
Maxim Vengerov (violino), Lawrence Power (viola)
UBS Verbier Festival Chamber Orchestra
Maxim Vengerov
EMI 3 78374-2


Internet

Maxim Vengerov
Fundação Calouste Gulbenkian: Biografia, Not@s Soltas / Wikipedia / La Scena Musicale / Cosmopolis

17/08/2007

Lugares #162

À terceira foi de vez! Depois de duas tentativas frustradas, em Agosto de 2005 e em Agosto de 2006, acabámos por ter sucesso em Julho de 2007, e lá conseguimos visitar a Casa-Estúdio Carlos Relvas, transformada em museu do grande fotógrafo da segunda metade do século XIX.



Talvez como reconhecimento da nossa persistência (teimosia), tivemos a honra de inaugurar o... livro de honra. Não porque tenhamos sido os primeiros a visitar a casa-museu, mas pelo simples facto de o livro apenas ter chegado naquele dia... E lá ficaram todas as nossas assinaturas a encimar a primeira página, incluindo a do puto, que ainda não saber ler nem escrever...




Para aqueles que ainda estejam eventualmente a hesitar em dar lá um salto, deixo aqui a apresentação de Carlos Relvas, conforme aparece n'O Portal da História:

"Fidalgo da Casa Real, comendador da ordem de Nossa Senhora da Conceição do Vila Viçosa, opulento lavrador e proprietário na Golegã. 0 seu nome completo era Carlos Augusto Mascarenhas Relvas de Campos, sendo, porém, conhecido mais vulgarmente só pelo nome abreviado de Carlos Relvas.

Era uma das figuras mais simpáticas de Portugal, no seu tempo, admirado pela sua elegância, perícia e arte, como cavaleiro e toureiro amador, pelo seu delicado talento artístico de fotógrafo, um distintíssimo sportman".


Internet

Carlos Relvas
Câmara Municipal da Golegã / Câmara Municipal da Golegã / Portugal - Dicionário histórico / Wikipédia / Ecos do Ribatejo

14/08/2007

CDs #129: Heifetz, it ain't necessarily so

Passa hoje um ano sobre a morte do pianista Milton Kaye (1909-2006) que, no meio das celebrações em 2006 de Robert Schumann (falecido há 150 anos), Wolfgang Amadeus Mozart (250º aniversário do nascimento) e Fernando Lopes Graça (100º aniversário do nascimento), foi completamente ignorada no nosso rectângulo. Compreensível, pois claro, visto não ser um músico muito conhecido e, por via disso, não ser potenciador de grandes receitas. Até porque o que de mais notável consta do seu CV foi o facto de ter acompanhado o grande violinista Jascha Heifetz (1901-1987), este sim uma enorme celebridade. Heifetz era normalmente acompanhado pelo pianista Emanuel Bay, só que um desentendimento entre ambos, em meados da década de 1940, fez com que Heifetz se virasse para Kaye por uns tempos. Parece que para Bay as férias eram sagradas, pelo que não se dispôs a acompanhar Heifetz em mais uma turné de apoio às forças aliadas, no Verão de 1944. Acabou por ter mais férias do que esperava, diga-se, pois Heifetz colocou-o de quarentena durante toda a temporada de 1944-5...

Lembram-se de por aqui falarmos do violinista Leopold Auer (1845-1930), quando andámos às voltas com o Concerto para Violino de Tchaikovsky (1840-1893)? Pois em 1909, era Auer um famoso professor no Conservatório de S. Petersburgo, deslocou-se a Vilnius, terra natal de Heifetz, e teve a oportunidade de ouvir o jovem prodígio, à altura com apenas 8 anos. Auer previu-lhe de imediato um futuro de sucesso, e convidou-o a vir estudar com ele, o que veio na realidade a acontecer pouco depois. Não antes de uns pequenos mal-entendidos, de que provavelmente falaremos noutra ocasião. Convém sempre guardar alguma prosa para eventuais futuras necessidades...

As gravações que aparecem neste duplo CD foram efectuadas entre 1944 e 1946, as primeiras com Heifetz acompanhado por Milton Kaye e as mais recentes por Emanuel Bay. Contêm imensas preciosidades, com vários arranjos do próprio violinista, duas canções interpretadas por Bing Crosby (1903-1977) e um último tema, que fecha o disco 2, com Jascha Heifetz ao... piano, numa gravação nunca anteriormente disponibilizada em disco. Grandes audições!




Heifetz
in ain't necessarily so
Legendary Classic and Jazz Studio Takes

Jascha Heifetz (violino, piano), Milton Kaye,
Emanuel Bay (pianos), Bing Crosby
Salvatore Camarata and his orchestra
Deutsche Grammophon 477 6269


Internet

Milton Kaye
New York Times
/ National Public Radio / Cleveland.com

Jascha Heifetz
Official Web Site of Violinist Jascha Heifetz / Wikipedia / Legendary Violinists / Classical Notes / The New Criterion online

12/08/2007

Sonatas para Piano #1: 1.X.1905, de Leos Janácek

Conforme já referido aqui, só nos inícios do século XX as obras do compositor checo Leos Janácek (1854-1928) começaram a gozar de alguma popularidade. Tal ficou a dever-se, no essencial, ao facto de ter passado a incorporar nelas temas folclóricos moldavos, resultado de um trabalho de investigação e recolha que iniciou em 1885.


Leos Janácek

Janácek não deixou, todavia, de dar atenção aos acontecimentos sociais, como aquele que esteve na base da Sonata para Piano 1.X.1905: a morte de um trabalhador, Frantisek Pavlik, durante uma manifestação anti-germânica e a favor da instalação da
Universidade de Brno, em Outubro de 1905. O prefácio que Janácek escreveu para a obra é mais ou menos assim:

The white marble steps of the Beseda in Brno
Frantisek Pavlik, a humble worker, sinks down covered in blood
He came, his heart filled with passion, for the university,
And was struck down by brutal murderers.

Passam hoje 79 anos sobre a morte de Leos Janácek.


CDs



Leos Janácek
Piano Sonata 1.X.1905.
In the Mist.
On an Overgrown Path, Series 1.
Leif Ove Andsnes (piano)
Virgin Classics 5 61839-2
(gravação: 1990)

Leos Janácek
In the Mist.
Piano Sonata 1.X.1905.
On the Overgrown Path.
A Recollection.
András Schiff (piano)
ECM 461 660-2
(gravação: 2000)


Leif Ove Andsnes, András Schiff


Internet

http://www.mzm.cz/engmzm/osobnosti/l_j.htm
http://www.calperfs.berkeley.edu/presents/season/2001/program_notes/pn.schiff.pdf
http://w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/janacek.html
http://www.sun.rhbnc.ac.uk/Music/Janacek/
http://www.geocities.com/Paris/Parc/9893/leos.html

09/08/2007

CDs #128: Wagner, Tannhäuser

Para a carreira do maestro francês de origem belga André Cluytens (1905-1967) contribuíram muito as substituições, que se foram sucedendo em várias circunstâncias: a primeira logo em 1927, quando substituiu o seu pai, Alphonse Cluytens, adoentado; depois, em meados da década seguinte, já em Lion, quando substituiu Josef Krips (1902-1974), de quem era assistente; em 1958 foi a vez de substituir Otto Klemperer (1885-1973), e aproveitar para fazer a sua estreia em solo inglês. Um pouco antes, em 1955, tinha tido lugar aquela que foi, porventura, a sua mais significativa substituição: nesse ano Cluytens, que se tinha tornado no primeiro maestro francês a dirigir uma récita no Festival de Bayreuth, foi convidado à última da hora para substituir o maestro alemão Eugen Jochum (1902-1987), na ópera Tannhäuser, de Richard Wagner (1813-1883).

Com tempo para efectuar apenas dois ensaios em condições, estariam reunidos, à partida, os condimentos para cozinhar um belo desastre. Puro engano!, a récita do dia 9 de Agosto de 1955 ficaria como uma das mais celebradas de sempre de Tannhäuser, com os encómios a serem democraticamente distribuídos pelos solistas, pela orquestra e pelo maestro, o nosso André Cluytens. O naipe de cantores, refira-se, era excelente, contando, nomeadamente, com Fischer-Dieskau, o baixo alemão Josef Greindl (1912-1993), o tenor francês Wolfgang Windgassen (1914-1974), particularmente celebrado em Wagner, o soprano holandês Gré Brouwenstijn (1915-1999) e ainda com o meio-soprano Herta Wilfert, em grande como Venus. Grandes audições, pois claro!




Richard Wagner
Tannhäuser.
Wolfgang Windgassen, Josef Traxel (tenores), Gré Brouwenstijn (soprano),
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), Herta Wilfert (meio-soprano),
Josef Greindl (baixo)
Chor der Bayreuther Festspiele
Orchester der Bayreuther Festspiele
André Cluytens
Orfeo C643 043
(1955)


Internet

Richard Wagner
Classical Music Pages / Wikipedia / Classical Net / OperaGlass / Fundação Biblioteca Nacional / Richard Wagner Web Site / Richard Wagner Tannhäuser

06/08/2007

SACDs #12: Stanford, The Revenge: A Ballad of the Fleet

At Flores in the Azores Sir Richard Grenville lay,
And a pinnace, like a fluttered bird, came flying from far away:
"Spanish ships of war at sea! we have sighted fifty-three!"
Then sware Lord Thomas Howard: "'Fore God I am no coward;
But I cannot meet them here, for my ships are out of gear,
And the half my men are sick. I must fly, but follow quick.
We are six ships of the line; can we fight with fifty-three?"

É assim que começa o poema The Revenge: A Ballad of the Fleet do poeta inglês Alfred Tennyson (1809-1892), de quem hoje se assinala o 198º aniversário do nascimento. Relata a última batalha de Richard Grenville (1542-1591), travada nos Açores, onde os ingleses tinham uma frota estacionada, com o objectivo de apanhar desprevenidos os barcos espanhóis e rapinar-lhes os tesouros. Só que, em vez de navios carregados de preciosos valores, os espanhóis enviaram uma armada para destruir os ingleses; quando verificou estar em evidente inferioridade numérica, o comandante das forças inglesas, Thomas Howard (1561-1626), optou por uma retirada estratégica (fugiu a todo o vapor...), no que não foi seguido por Richard Grenville, que decidiu enfrentar o inimigo. Perdeu a vida, mas ganhou o título de Sir, algo de que Thomas Howard nunca se poderá gabar. Está visto que o encontro de espanhóis e ingleses nos Açores nunca foi bom prenúncio...

O compositor, igualmente inglês, Charles Stanford (1852-1924), apesar de nunca ter sido marinheiro, empolgava-se de sobremaneira com os relatos dos feitos marítimos, em particular com os descritos pelos poemas de Tennyson. E foi assim que, em meados da década de 1880, resolveu musicar o referido poema; a estreia de The Revenge: A Ballad of the Fleet de Charles Stanford teve lugar em Bristol e em Glasgow em Dezembro de 1886, e com assinalável sucesso. No ano seguinte, em que se celebravam os 50 anos do reinado da rainha Victoria (1819-1901), a obra foi tocada inúmeras vezes, dado que se enquadrava perfeitamente no espírito da época, da celebração dos "grandes homens".

A obra divide-se em três partes, as duas primeiras descrevendo a dureza da batalha e a recusa de Grenville em render-se, e a última a verificação de que não havia fuga possível, com a consequente rendição da tripulação e a morte do herói. É uma das obras que consta de um excelente disco editado pela editora Chandos em 2006, de que apenas fazem parte peças de Stanford relacionadas com o mar.




Charles Stanford
Songs of the Fleet, Op.117. Songs of the Sea, Op.91.
The Revenge: A Ballad of the Fleet, Op.24.
Gerald Finley (bar)
BBC National Chorus of Wales
BBC National Orchestra of Wales
Richard Hickox
Chandos CHSA5043


Internet

Charles Stanford
Classical Net / Wikipedia / Stainer & Bell / Boosey & Hawkes

03/08/2007

CDs #127: Schnittke, Symphony No.6, Concerto grosso No.2

Em 1959, Oleg Kagan (1946-1990) entrou para a Escola Central de Moscovo onde foi aluno de, entre outros, David Oistrakh (1908-1974). Uma década depois, e já Kagan fazia dupla com um outro extraordinário músico, o pianista ucraniano Sviatoslav Richter (1915-1997). Nada de espantar, se nos lembrarmos de que, por exemplo, em 1966, havia obtido o 2º prémio do Concurso Tchaikovsky.

Natalia Gutman
(1942-) também estudou em Moscovo, e obteve de igual modo uma medalha de prata no Concurso Tchaikovsky, só que em 1962. Tocou igualmente com grandes músicos, como o violoncelista Mstislav Rostropovich (1927-) e... Sviatoslav Richter. Naturalmente que também tocou inúmeras vezes com o seu marido, o violinista... Oleg Kagan. Juntos estrearam, por exemplo, o Concerto para Violino e Violoncelo de Sofia Gubaidulina (1931-).

En 1948, Oleg Kagan teve a oportunidade de estrear duas obras do compositor russo Alfred Schnittke
(1934-1998): o Concerto para Violino Nº3 e a Sonata para Violino e Orquestra. Bastantes anos mais tarde, em 1982, Schnittke compôs o Concerto grosso Nº2, e dedicou-o precisamente a Oleg Kagan e a Natalia Gutman. Esta é uma das obras constantes de um disco editado em 2004 pela editora Chandos, com a violinista Tatiana Grindenko, ela própria dedicatária dos Concertos grossos nºs 1 & 3 de Schnittke.




Alfred Schnittke
Symphony No.6. Concerto grosso No.2.
Tatiana Grindenko (violino), Alexander Ivashkin (violoncelo)
Russian State Symphony Orchestra
Valeri Polyansky
Chandos CHAN10180
(2001)


Internet

Oleg Kagan
Live Classics
/ Oleg Kagan

Natalia Gutman
Live Classics / Conversation with Natalia Gutman / Calouste Gulbenkian Foundation

Alfred Schnittke
G. Schirmer Inc. / Wikipedia / Boosey & Hawkes

01/08/2007

CDs #126: Lucien Durosoir, Musique pour violon & piano

Durante as duas primeiras décadas do século XX o francês Lucien Durosoir (1878-1955) obteve assinalável sucesso como violinista, promovendo os compositores seus compatriotas sempre que actuava no estrangeiro, e os compositores de fora sempre que o fazia no seu país. Os encómios vinham de muito lado, e o Le Figaro, por exemplo, trazia o seguinte na sua edição do dia 19 de Maio de 1904: "(...) Com as suas soberbas interpretações, Lucien Durosoir colocou-se entre os mais virtuosos do seu tempo". A guerra veio, contudo, a interromper abruptamente tão promissora carreira; no dia 1 de Agosto de 1914, passam hoje 93 anos, deu-se a mobilização geral, de que Durosoir não se livrou. Viveu os horrores da guerra ao lado do compositor André Caplet (1878-1925) tendo, apesar de tudo, tido a oportunidade de tocar amiúde juntos.

Profundamente afectado pelo que viu durante o conflito, foi mostrando um crescente desinteresse pela prossecução da carreira de violinista; assim que foi desmobilizado, em Fevereiro de 1919, refugiou-se num
canto obscuro de França e começou a cumprir um outro sonho: o de se dedicar à composição. Sem ter atingido o mesmo sucesso obtido anteriormente como violinista, diga-se, para o que também terá porventura ajudado o facto de se ter mantido longe de Paris. Aonde se iria dirigir apenas em 1950, para vender o seu violino Guarnerius, único meio que viu de arranjar forma de se sustentar a ele e aos dois filhos. Decisão extremamente difícil, tal como o próprio reconheceu: "(...) Ce n'est pas sans une peine profonde que je me sépare de lui, mais la vie actuelle est tellement dure (...). C'est donc le premier pas vers la séparation des biens de la terre, c'est certainement le plus dur. Que je le retrouve un jour, dans une vie future, c'est mon voeu le plus ardant".

Nenhuma das obras constantes deste CD tinha sido anteriormente editada em disco. Nenhuma das obras compostas por Durosoir, e foram mais de 4 dezenas, foi editada em vida do compositor. Indiferença generalizada que ele está longe de merecer. Ouçam o disquinho e depois digam se concordam ou não...




Lucien Durosoir
Sonate en la mineur. Oisillon bleu. Rêve. Nocturne.
Légende. Cinq Aquarelles. Chant élégiaque. Prière à Marie.
Geneviève Laurenceau (violino), Lorène de Ratuld (piano)
Alpha ALPHA105
(2005)


Internet

Lucien Durosoir
MeGeP / Wikipedia / Symétrie / musicologie.org