28/09/2007

CDs #132: Florent Schmitt, Musiques Pour Piano

É bem conhecido o facto de Maurice Ravel (1875-1937), entre os anos de 1901 e 1905, ter, sem sucesso, concorrido ao Prix de Rome. Théodore Dubois (1837-1924), um compositor bem menos conhecido, venceu-o, em 1861; em 1905, contudo, Dubois ver-se-ia forçado a sair do Conservatório de Paris, de que era director desde 1896, precisamente por ter-se recusado a atribuir o Prix de Rome a Maurice Ravel. As peripécias entre os dois não ficariam por aqui: em Maio de 1911, num concerto na Société Musical Indépendante (Paris) em que os autores das obras executadas não foram indicados, o público atribuiu a autoria das Valses Nobles et Sentimentales aos mais diversos compositores, nomeadamente a... Théodore Dubois!

Além de compositor, Dubois, foi organista e professor. De entre os seus alunos dois houve que se destacaram: Paul Dukas (1865-1935) e Florent Schmitt (1870-1958), de cuja música para piano a Solstice lançou um CD no ano passado. Schmitt, tal como Ravel, concorreu várias vezes ao Prix de Rome, só que com sucesso, tendo obtido um 2º Prémio, em 1897, e vencido em 1900, com a cantata Sémiramis. E ainda se queixou: "(...) entre um milhar de desafortunados, tive que competir cinco vezes ao Prix de Rome para apenas vencer uma!". Pois Ravel não teve direito a nada...

Apesar de ser considerado um dos importantes nomes da cena musical francesa, Florent Schmitt está longe de ser um compositor muito conhecido. Mas se pensam que nada conhecem da sua obra, talvez estejam enganados! Ouçam as suas Petites Musiques, recuem uns anitos, e vejam lá se não se lembram da Loja do Mestre André...

Florent Schmitt nasceu há 137 anos, no dia 28 de Setembro de 1870.




Florent Schmitt
Musiques Pour Piano.
Pièces Romantiques, Op.42. Enfants, Op.94. Crépuscules, Op.56.
Petites Musiques, Op.32. Chaîne Brisée, Op.87.
Alain Raës (piano)
Solstice FYCD 902
(1985)


Internet

Florent Schmitt
IRCAM / Wikipedia / MusicWeb International / Naxos

26/09/2007

Notícias #12

Há já uns meses que o Virgílio Marques, autor do blogue Guilhermina Suggia, anda a chamar a atenção de todos nós para o estado lamentável em que se encontra o Salão Nobre da Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa. Procurou agitar as consciências, enviou missivas a detentores de (importantes) cargos políticos e a outros que a eles se candidataram, mas nada mudou.




Nada, excepto o dito cujo, obviamente, que continuou a sua degradação, que será porventura irreversível se nos mantivermos impassíveis. Recentemente, o Fórum Cidadania LX lançou uma petição para chamar a atenção de quem pode para o estado em que o salão se encontra, a ver se as indispensáveis obras avançam de vez. A sua assinatura pode fazer a diferença, bastando clicar aqui.

Nota: fotografias surripiadas do blogue Guilhermina Suggia

24/09/2007

Lugares #166

A freguesia de Santo Estêvão terá actualmente pouco mais de 6 centenas de habitantes não sendo, seguramente, das mais conhecidas do concelho de Chaves. Em tempos idos foi, contudo, dos locais mais badalados, envolvido em desaguisados com os mouros, dotes reais, casamentos não menos nobres e habitantes dos mais ilustres, com o castelo como denominador comum de tão relevantes acontecimentos.




Isso são histórias que remontam à fundação de Portugal. Hoje do castelo nada resta, existindo apenas nesse local uma torre senhorial, de que há dúvidas de que alguma vez dele tenha feito efectivamente parte. E logo ali pegadinha a essa torre encontra-se a Quinta de Santa Isabel, o nosso feliz pouso do último fim-de-semana e o pretexto para esta prosa. Começa a ser um hábito, aliás: com a desculpa das maratonas ciclísticas do chefe da família, o agregado muda de ares e dedica-se afincadamente a outras actividades, não tanto desportivas, mas nem por isso menos apelativas, tais como preguiçar e nada fazer. Sem esquecer a vertente gastronómica, claro, fundamental para a boa harmonia familiar!


Internet

Santo Estêvão
Website da Vila de Santo Estêvão / Guia do Lazer / Freguesia de Santo Estêvão / Castelos de Portugal / IPPAR / Wikipédia / Quinta de Santa Isabel

20/09/2007

SACDs #13: Sibelius, Kullervo

O compositor finlandês Jean Sibelius (1865-1957), ao contrário de outros que por aqui já passaram, não foi um talento precoce com uma entrada antecipada no mundo da música, nem teve uma longa carreira dedicada à composição; bem pelo contrário, a sua última composição, A Tempestade, data de 1925 e, nos últimos 30 anos da sua vida, dedicou-se quase em exclusivo à revisão de uma parte das suas obras. Nada que abalasse a sua reputação do maior sinfonista finlandês, e um dos mais representativos da sua geração, contudo, pelo que pôde viver dos louros... e da pensão vitalícia que lhe tinha sido atribuída em 1897, evidentemente!

Depois de efectuados os primeiros estudos musicais em Helsínquia, na segunda metade da década de 1880, Sibelius prosseguiu-os em Berlim, cidade onde permaneceu entre 1889 e 1890, para estudar contraponto com o professor, e igualmente compositor, Albert Becker (1834-1899). Aí teve a oportunidade de assistir a concertos ao vivo com várias celebridades já nossas conhecidas, como Hans von Bülow (1830-1894) e Joseph Joachim (1831-1907), além de ter travado conhecimento com Ferruccio Busoni (1866-1924). Depois de uma breve estadia em Helsínquia, Sibelius iria assentar arraiais em Viena, onde viveria entre 1890 e 1891 para continuar os estudos musicais, primeiro com Karl Goldmark (1830-1915) e depois com Robert Fuchs (1847-1927).

Foi nessa cidade que, instado por Goldmark a investir mais nas suas composições, Sibelius começou magicar a Sinfonia Kullervo, obra que terminaria em Abril de 1892, já no seu país natal. Um misto de sinfonia, poema sinfónico e cantata, Kullervo baseia-se na epopeia nacional finlandesa Kalevala, compilada pela etnógrafo Elias Lönnrot (1802-1884). A estreia, a 28 de Abril de 1892, foi um sucesso, o primeiro de Sibelius que, contudo, nunca mais permitiu que a obra fosse interpretada. Tal só viria a acontecer na década seguinte à do seu falecimento, sem que, contudo, viesse a atingir a popularidade de outras obras do compositor. Irrelevante para este vosso amigo, claro, e fosse o CD um LP e já estaria assim para o transparente...

Hoje assinala-se o cinquentenário do falecimento de Jean Sibelius.




Jean Sibelius
Kullervo.
Peter Mattei (barítono), Monica Groop (meio-soprano)
Men of the London Symphony Chorus
London Symphony Orquestra
Colin Davis
LSO Live LSO0574
(2005)


Internet

Jean Sibelius
Jean Sibelius / Helsinki.fi / Kullervo by Jean Sibelius / Guardian / Virtual Finland / Classical Music Pages / Wikipedia / Jean Sibelius

19/09/2007

Pianistas #19: Robert Casadesus (1899-1972)

Um pouco na onda do "se não os consegues vencer, junta-te a eles", rendi-me à evidência e optei por alinhar pelo diapasão da Casa dos Pianistas, situada ali para os lados da Boavista, no Porto. É assim que o nosso convidado de hoje é o francês Robert Casadesus, compositor e... pianista, tendo sido esta última faceta, realce-se, aquela que lhe granjeou bem mais prestígio e popularidade. É que, se poucos conhecerão algumas das obras que compôs, a maior parte para o piano solo, mas onde se incluem igualmente alguns concertos e sinfonias, muitos recordarão com saudade as suas extraordinárias interpretações, nomeadamente de Mozart (1756-1791). Compositor que era o seu favorito, aliás, algo de que não fazia segredo: "My favourite composers, I have one above all, and that's Mozart".

Casadesus cresceu e viveu no seio de uma família eminentemente musical, a começar pelo seu pai, que se entretinha a escrever umas canções; depois, os tios: Francis Casadesus (1870-1954), violinista e compositor, Henri Casadesus (1879-1947), violista e compositor, e Marius Casadesus (1892-1981), violinista e compositor. Compositores bem modestos, estes seus tios, que nunca tiveram problemas em deixar os louros para os outros! Marius, por exemplo, foi o autor do "Concerto Adelaide" de Wolfgang Amadeus Mozart, e Henri, para lhe não ficar atrás, escreveu um Concerto para Viola de Handel e um Concerto para Violoncelo de J. Christian Bach. Uns tios notáveis! Finalmente, é de toda a justiça referir Gaby Casadesus (1901-1999), esposa de Robert e igualmente pianista, tendo os dois tocado frequentemente em duo.

Robert Casadesus faleceu há 35 anos, no dia 19 de Setembro de 1972.


CDs



Piano Masters
Robert Casadesus
Works by Chopin, Schumann, Ravel, Fauré and de Sévérac.
Robert Casadesus (piano)
Pearl GEM0068

Robert Casadesus plays Mozart
Piano Concertos - No.21 in C, K467; No.23 in A, K488;
No.24 in C, K491; No.26 in D, K537.
Robert Casadesus (piano)
French National Orchestra
Lovro von Matacic, Jean Martinon, Pierre Monteux, David Zinman
Music & Arts CD1179


Internet

Robert Casadesus
Robert Casadesus - A model website for an exceptional artist / Casadesus, Robert / Wikipedia / Bach Cantatas Website

16/09/2007

Sopranos #14: Maria Callas (1923-1977)

Meia dúzia de anos depois de ter emigrado da Grécia para os Estados Unidos, o pai George decidiu mudar o nome da família de Kalogeropoulos para Callas, sábia decisão que se veio a revelar muito útil para a filha Maria. Esta, nascida em Nova Iorque em Dezembro de 1923, desde cedo mostrou interesse pela arte vocal, mas dificilmente poderia utilizar como nome artístico Maria Anna Sophie Cecilia Kalogeropoulos... Só que tal alteração vir-se-ia a tornar bem mais complicada do que inicialmente previsto: com a separação dos pais, em 1937, a mãe Evangelia regressou à Grécia com as filhas, Maria incluída, e lá se foi o apelido! Só em 1945, com o final da 2ª Grande Guerra e com a decisão de voltar para Nova Iorque, é que Maria voltaria a ser Callas.

Enquanto em Atenas, Maria Callas teve a oportunidade de se cruzar com a professora de canto Elvira de Hidalgo (1892-1980) que, impressionada com a voz, embora destreinada, da jovem prodígio, propôs-se dar-lhe aulas grátis no Conservatório dessa cidade. Conhecedora das limitações vocais da aluna, deu-lhe inúmeros conselhos sobre, por exemplo, o tipo de repertório a que ela se deveria dedicar, conselhos ignorados por Maria Callas a maior parte das vezes, o que terá contribuído para a pouca longevidade da sua voz.

Em 1947, Callas teve a sua mais importante estreia até à altura quando, em Verona, cantou La Gioconda, da ópera homónima de Amilcare Ponchielli (1834-1886). A dirigir a orquestra esteve Tullio Serafin (1878-1968) que, ao contrário de Elvira de Hidalgo, a incentivou a cantar um pouco de tudo...

Maria Callas faleceu em Paris 30 anos, no dia 16 de Setembro de 1977.


CD



Amilcare Ponchielli
La Gioconda.
Maria Callas (soprano), Gianni Poggi, Piero Poldi (tenores),
Paolo Silveri (barítono), Giulio Neri (baixo), Maria Amadini,
Fedora Barbieri (meios-sopranos)
CETRA Chorus
RAI Symphony Orchestra
Antonino Votto
Naxos Historical 8.110302-04
(1952)


Internet

Maria Callas
The Official Website / mariacallas.org / The Art of Maria Callas / Scott's Home Page / Wikipedia

13/09/2007

Concertos #59

Tinha prometido a mim mesmo não voltar ao assunto, mas há coisas que são mais fortes do que nós. Ou mais fracas, melhor dizendo, daquelas capazes de deprimir o mais comum dos mortais. Não havendo médicos disponíveis para prescrever anti-depressivos para estas situações, é com fundado receio pela minha saúde mental que consulto a programação da casa para o trimestre seguinte. É já uma imagem de marca consolidada: a programação sai sempre tarde e a más horas, cobre apenas o trimestre que se avizinha, e é sempre pior do que a anterior.

Talvez seja embirração minha, admito, mas reparem nisto: em Outubro, o único músico com um mínimo reconhecimento internacional que se vai apresentar a solo é, de novo, Artur Pizarro, pianista; e em Novembro, o alemão Andreas Staier, cravista e... pianista. Possivelmente não haveria nenhum teclista com datas disponíveis em Dezembro, pelo que... não haverá recitais a solo para ninguém. Recitais com outros instrumentos? Zero. Música de câmara? Zero. Outras orquestras? Grandes maestros? Nada. Claro está que não se dá um doce a quem adivinhar qual o instrumento que toca o ainda programador da casa...

Os mais dados às questões estatísticas poderão sempre argumentar que há uma evidente consistência no rumo traçado pelas sucessivas programações trimestrais: os preços dos bilhetes têm vindo a aumentar de uma forma inversamente proporcional à qualidade dos espectáculos a que dão acesso; em média, tudo se mantém na mesma... Aos que gostam de música, só lhes resta irem procurando outras paragens.

10/09/2007

Lugares #165

As novas teorias de desenvolvimento sustentado têm, neste país particular, características... particulares; para a produção de energia verde, por exemplo, não raras vezes deitamos abaixo tudo o que é genuinamente verde para lá plantarmos eólicas, a nova praga amiga do ambiente português. Os nossos antepassados, contudo, menos cientistas, talvez, mas mais ajuizados, seguramente, fizeram bem melhor uso dos recursos naturais: onde havia água semearam azenhas; houvesse vento, e sabemos o quão generoso ele é em muitas regiões deste país!, e não se esqueceriam de plantar uns moinhos. E se não me custa imaginar que daqui a uns bons anos ainda haja muito boa gente que vá admirar essas belas construções, já não estou a ver alguém a andar meia dúzia de quilómetros para perder tempo a admirar os monos do século XXI...

No que a moinhos diz respeito não há muitos lugares que rivalizem com Penacova, terra da predilecção de Vitorino Nemésio (1901-1978), que dela disse ser "(...) luz e penedia, com o querer que é de pirenaico trazido às proporções da ternura e rusticidade portuguesa". Há vários núcleos de moinhos, alguns ainda em fase de recuperação; um deles situa-se na Portela de Oliveira, e é lá que encontramos o Museu do Moinho ou Museu Vitorino Nemésio, homenagem justa a quem daquela terra tão bem disse. Na Serra da Atalhada existe um outro conjunto, já adiantado em termos de recuperação, pelo que bem mais fotogénico, quase compensando a azelhice fotográfica do autor destas linhas...




Da próxima vez que forem para aquelas bandas, não se limitem a atacar inofensivas lampreias, o outro ex-libris lá do sítio; metam antes os pés ao caminho e ponham a vista em tão notáveis construções, do tempo em que as paisagens ainda sossegavam como verdes. De outros tempos.


Internet

Penacova
Câmara Municipal de Penacova / Região de Turismo do Centro / Moinhos de Portugal / Lifecooler

07/09/2007

Poetas #4: Camilo Pessanha (1867-1926)

Nos finais do século XIX apareceu em França um movimento artístico e literário que se designou por simbolismo, uma corrente literária oposta, por exemplo, ao realismo, e que acabou por fazer a ponte entre as épocas romântica e contemporânea. Enquanto o realismo defendia a objectividade na análise da realidade, o simbolismo dava primazia à subjectividade, exultava a imaginação e, privilegiando a melodia, não raras vezes resvalava para a música. E é aqui que a coisa se torna interessante para este blogue...

O simbolismo foi introduzido em Portugal por Eugénio de Castro (1869-1944), com a publicação, em 1890, da obra Oaristos. O maior poeta do simbolismo português, contudo, foi Camilo Pessanha, nascido em Coimbra, onde se formou em Direito, tendo-se mudado para Macau em 1894, e onde viria a falecer em 1926. Os seus poemas foram reunidos por Ana de Castro Osório e editados em 1920 sob o título de Clepsidra, obra essa mais tarde reeditada em versão aumentada pelo seu filho, João de Castro Osório. É daqui então que eu retiro um poema, evidência da ligação do simbolismo ao mundo da música e versando um dos meus instrumentos favoritos:


Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha nasceu há 140 anos, no dia 7 de Setembro de 1867.


Internet

Camilo Pessanha
Mundo Cultural / Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas / Instituto Camões / Wikipédia / Projecto Vercial

Simbolismo
Instituto Camões / Enciclopédia Universal / Wikipédia / por trás das letras

05/09/2007

CDs #131: Liszt, Symphonic Poems, Vol.2

Johann Faustus até poderá ter tido uma vida mais ou menos normal, mas também é possível que tenha sido um perfeito herege, responsável por actos inconfessáveis. Quando faleceu, por volta de 1540, gozava de uma reputação pouco recomendável, e as lendas que foram depois aparecendo encarregaram-se de impossibilitar de vez a distinção entre a realidade e a ficção. Do que o homem não se livrou foi de ficar para a posteridade como Dr. Fausto, aquele que fez um pacto com o Diabo.

História apetecível, dramatizada por vários escritores que, dessa forma, mais contribuíram para a fama do homem; Christopher Marlowe (1564-1593), poeta e dramaturgo inglês, foi o primeiro de vários, numa lista naturalmente dominada pelo escritor alemão Goethe (1749-1832). Goethe publicou Fausto em 2 partes, a datando, na sua última versão, de 1808, e a de 1832. Na versão de Goethe, a coisa começa com Mefistófeles a pedir autorização a Deus para corromper a alma de Fausto, pedido a que Deus acedeu, convencido como estava da impossibilidade de tal se vir a verificar. Se estava ou não certo não nos cabe aqui revelar...

O que nos interessa por agora é saber que em 1830, ainda não tinha Goethe editado a 2ª parte do seu drama, Hector Berlioz (1803-1869) chamou a atenção de Franz Liszt (1811-1886) para essa obra, e que esta não o deixou indiferente, ao ponto de uns anos mais tarde ter escrito que, assim que se sentisse com condições para tal, escreveria uma obra baseada em Dante e, depois, uma outra em Fausto. O próprio Berlioz não resistiu ao tema, tendo composto, em 1846, a lenda dramática A Danação de Fausto, que dedicou a Franz Liszt. Este, por sua vez, escreveu Eine Faust-Symphonie, em 1854, após uma visita ao Festival de Roterdão, onde esteve (muito bem) acompanhado pelo nosso já bem conhecido Anton Rubinstein (1829-1894). Obra que, naturalmente, dedicou a Berlioz... Em 1857 adicionaria um coral no final, mas é a versão original que é usualmente interpretada, tal como acontece no disco que aqui trago hoje.

Passam hoje exactamente 150 anos sobre a estreia de Eine Faust-Symphonie, de Franz Liszt.




Franz Liszt
Symphonic Poems Vol.2.
Eine Faust-Symphonie in drei Charakterbildern (nach Goethe), S108.
Von der Wiege bis zum Grabe, S107.
BBC Philharmonic Orchestra
Gianandrea Noseda
Chandos CHAN10375
(2005)


Internet

Franz Liszt
Classical Music Pages / Classical Net / Maestro Maurice Abravanel / Franz Liszt Project / Wikipedia / The Franz Liszt Site

03/09/2007

Compositores #84: Morton Feldman (1926-1987)

Aqui neste cantinho andamos sempre à procura de motivos para trazer à baila personalidades menos conhecidas do mundo da música; têm tanto direito à vida como as outras e, por vezes, ainda nos encantam com histórias deliciosas. O norte-americano Morton Feldman não é, seguramente, dos compositores mais conhecidos neste nosso planeta. Há americanos bem mais conhecidos, e nem sempre pelos melhores motivos; um deles, por coincidência, está agora no Iraque, para constatar no local o êxito da intervenção que lá ordenou...

Mas isso são assuntos que não são para aqui chamados, voltemos então a Feldman. Uma das preocupações do nosso compositor de hoje foi a de fugir aos cânones tradicionais, procurando, para tal, novas formas de escrita musical. Tentou um pouco de tudo: ora dava apenas indicações vagas aos intérpretes, dando-lhes ampla liberdade quanto à melhor forma de tocar a peça; ora não lhes dava qualquer pista quanto à duração das notas; ora fazia o inverso, dizendo-lhes quais as respectivas durações, mas sem referir quais as notas que deveriam ser tocadas...

Este período de liberdades criativas coincidiu no essencial com a década de 1950, e após o primeiro encontro que teve com outro grande nome da música contemporânea norte-americana: John Cage (1912-1992). Em Nova Iorque, pois claro, cidade onde Feldman nasceu, viveu a maior parte do tempo e viria a falecer. A década de 1970 viu Feldman regressar à notação convencional a que se seguiria, na década seguinte, a fase das obras monumentais, com durações que não lembrariam ao diabo. Os seus biógrafos dizem-nos que, por essa altura, Feldman "procurava compor uma música que fosse pura e tranquila"; do seu interesse pela "utilização do tempo e da proporção" resultaram, nomeadamente, obras como o Quarteto de Cordas Nº1, com 100 minutos, a composição For Philip Guston, com uma duração de aproxidamente 4 horas, e o Quarteto de Cordas Nº2, uma coisa para durar aí umas 6 horas, qual discurso de Fidel Castro nos seus tempos áureos!

Morton Feldman faleceu há 20 anos, no dia 3 de Setembro de 1987.


CDs




Morton Feldman
Feldman Edition, Volume 2. First Recordings: 1950s.
Intersection 1. Five Nature Pieces. Two Intermissions.
Extensions - 1; 3; 4. Piece for Violin and Piano.
Morton Feldman (electronics), Philipp Vandré (piano)
The Turfan Ensemble
Philipp Vandré
Mode Records Mode 66

Morton Feldman
Feldman Edition, Volume 3. Complete Music for Violin and Piano.
Extensions 1. For John Cage. Piece for Violin and Piano.
Projection 4. Spring of Chosroes. Vertical Thoughts 2.
Mark Sabat (violino), Stephen Clarke (piano)
Mode Records Mode 82/83

Morton Feldman
Feldman Edition, Volume 4.
Indeterminate Music. The Straits of Magellan. Durations.
Two Pieces for Six Instruments. Projections.
The Turfan Ensemble
Philipp Vandré, Thaddeus Watson
Mode Records Mode 103

Morton Feldman
Feldman Edition, Volume 5. Voices and Instruments.
Journey to the End of Night. Four Songs to E. E. Cummings.
Intervals. The O'Hara Songs. Four Instruments.
Between Categories. Three Clarinets, Cello and Piano.
Claron McFadden (soprano), Charles van Tassel (baixo-barítono),
James Fulkerson (trombone)
The Barton Workshop
James Fulkerson
Mode Records Mode 107

Morton Feldman
Something Wild: Music for Film.
Ensemble Recherche
Kairos KAI0012292


Internet

Morton Feldman
New Albion Artists / Wikipedia / Morton Feldman Page / Epitonic / Edition Peters

01/09/2007

Trompistas #1: Dennis Brain (1921-1957)

O primeiro instrumento que se poderia eventualmente apelidar de trompa data da pré-história, e até ingressar nas orquestras sinfónicas desempenhou as mais variadas funções, como nos campos de batalha e em episódios de caça, para citar duas (verdade seja dita, assim de repente também não me lembro de mais nenhuma...). Apesar da sua vetusta idade, a trompa está longe de ser um dos instrumentos musicais mais populares, e não há muitos casos de trompistas que tenham conseguido sair do anonimato das orquestras e ficado célebres internacionalmente.

Pois de entre os trompistas há um nome que sobressai inevitavelmente: o do inglês Dennis Brain, sem dúvida o mais notável de todos, apesar de ter falecido muito jovem, com pouco mais de 36 anos. É que Brain começou logo por tratar de resolver um problema de base, que todos os trompistas tinham que enfrentar: a escassez de repertório para o instrumento. Para tal tratou, por um lado, de repor os quatro concertos que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) escreveu para esse instrumento (K412, K417, K447 e K495), e os dois de Richard Strauss (1864-1949), e, por outro, de encomendar novas obras a alguns dos mais conceituados compositores seus contemporâneos, como foram os casos de Benjamin Britten (1913-1976), Malcolm Arnold (1921-2006) e Paul Hindemith (1895-1963).

Além de ter sido o trompista principal em várias orquestras, como a de Filadélfia, dirigida pelo já nosso bem conhecido Leopold Stokowski (1882-1977), a Orquestra Filarmónica Real e a Orquestra Filarmonia, Dennis Brain encontrou ainda tempo para fundar um quinteto de sopros, em 1946. E foi precisamente no regresso de um concerto com o seu quinteto, no Festival de Edimburgo, que teve o acidente de viação que lhe causou a morte. Foi no dia 1 de Setembro de 1957, passa hoje meio século.


CDs



brain
Ludwing van Beethoven
Horn Quintet in E flat, Op.16.
Wolfgang Amadeus Mozart
Horn Quintet, K407.
Johannes Brahms
Horn Trio in E flat, Op.40.
Paul Dukas
Villanelle, for horn and piano.
Marin Marais
Le Basque (arranjo para trompa e piano).
Dennis Brain (trompa), Max Salpeter (violino),
Wilfrid Parry, Cyril Preedy (pianos)
English String Quartet
Dennis Brain Wind Ensemble
BBC Legends BBCL4048-2

Benjamin Britten
Serenade, Op.31. Folksongs.
William Walton
Façade.
Peter Pears (tenor / narrador), Edith Sitwell (narradora),
Dennis Brain (trompa), Benjamin Britten (piano)
Boyd Neel String Orchestra, Benjamin Britten
English Opera Group Ensemble, Anthony Collins
Decca 468 801-2

Wolfgang Amadeus Mozart
The Four Horn Concertos.
Quintet for Piano and Wind Instruments, K452.
Dennis Brain (trompa), Walter Gieseking (piano)
Philharmonia Wind Ensemble
Philharmonia Orchestra
Herbert von Karajan
Naxos 8.111070
(1953, 1955)

Richard Strauss
Horn Concertos Nos.1 & 2.
Paul Hindemith
Horn Concerto. Konzertmusik for Brass and Strings, Op.50.
Dennis Brain (trompa)
Philharmonia Orchestra
Wolfgang Sawallisch, Paul Hindemith
EMI GROC 5 67783-2
(1956)


Internet

Dennis Brain
International Horn Society / Wikipedia / The Legacy of Dennis Brain / National Portrait Gallery