26/12/2007

CDs #146: Lennox Berkeley, Symphonies 1 & 2

Nunca é tarde para corrigir omissões passadas, e por isso aqui vai: em Outubro de 2004 listei aqui alguns dos alunos de Nadia Boulanger (1887-1979), a eminente compositora, maestrina e professora, onde apareciam alguns nomes sonantes e outros que nem por isso; ausentes estiveram vários, pois claro, e um deles foi o nosso convidado de hoje, o compositor inglês Lennox Berkeley (1903-1989). Tendo nós uma acentuada tendência para esquecermos os nossos melhores, não admira que aqui e ali também nos vamos esquecendo dos melhores dos outros, pelo que a minha falha não será demasiado grave, por seguir a tendência geral...

Segundo o livreco que acompanha o CD, Lennox foi apresentado em 1926 a Nadia Boulanger pelo maestro inglês Anthony Bernard (1891-1963); segundo outras fontes foi Maurice Ravel (1875-1937) quem, após dar uma vista de olhos nalgumas composições do jovem Berkeley, o aconselhou a ter aulas com aquela professora. Estas versões não parecem incompatíveis de todo, pelo que me permito concluir que foi Ravel quem fez a sugestão e Bernard quem tratou das apresentações! Berkeley ficaria por Paris até 1932.

Berkeley sentia-se em casa em França, por ventura mais em casa do que no seu país natal, e tal reflectiu-se igualmente na sua música, que nunca esteve perto de representar as tradições inglesas, ao contrário da dos seus compatriotas Edward Elgar (1857-1934) e Vaughan Williams (1872-1958), por exemplo. Será essa umas das razões para nunca ter atingido em Inglaterra o grau de reconhecimento de outros compositores seus contemporâneos, como William Walton (1902-1983) e Michael Tippett (1905-1998)

Neste disco temos 2 das 4 sinfonias que compôs: a Sinfonia Nº1, terminada em 1941 e estreada a 8 de Julho de 1843; e a Sinfonia Nº2, composta na década de 1950, estreada a 24 de Fevereiro de 1959, e revista duas décadas depois, versão esta que é a que consta do disco.




Lennox Berkeley
Symphony No.1, Op.16. Symphony No.2, Op.51 (rev. 1976).
London Philharmonic Orchestra
Norman del Mar, Nicholas Braithwaite
Lyrita SRCD249
(1975, 1978)


Internet

Lennox Berkeley
The Lennox Berkeley Society / MusicWeb International / Chester Novello / Wikipedia / Naxos

25/12/2007

Notícias #15

Há já uns bons anos a minha entidade patronal decidiu passar a pagar os salários através da Nova Rede, que é como quem diz do Millenium BCP, banco onde todos tivemos então que abrir conta bancária. Uns tempos depois, quiçá com remorsos de nunca me ter rendido aos encantos da poupança, deixei-me convencer por um panfleto que anunciava um novo produto, sugestivamente intitulado de Rendimento Ouro. Imbuído dos argumentos que me impingiram, acabei por convencer o resto da família, e lá alinhámos na coisa. Assinámos então o contrato, de que fazia parte uma data de cláusulas, todas impostas pelo banco, e que determinavam, nomeadamente,

» Que os aderentes gozariam de benefícios fiscais, ao nível do IRS;
» Que as entregas poderiam ser mensais ou anuais, à escolha do freguês, e cujo valor poderia ser alterado a qualquer momento, bastando que o cliente informasse o banco da modificação pretendida;
» Que haveria uma rentabilidade mínima garantida da aplicação, a que acresceria uma variável em função do desempenho de alguns fundos de investimento;
» E que a duração mínima do contrato seria de 8 anos, sob pena de se terem que devolver os benefícios fiscais entretanto recebidos.


Tudo funcionou razoavelmente bem até que, passados cerca de 4 anos, recebi uma carta do banco, em que a Nova Rede informava os aderentes de que, com as "alterações das condições do mercado", a poupança Rendimento Ouro se mostrava "claramente desajustada" pelo que, em sua substituição, apareceria o Rendimento Platina. Humildemente, o banco reconhecia que "não poderia obviamente terminar os contratos existentes", para de seguida afirmar que os aderentes "naturalmente entenderiam que não seria mais possível a partir dessa data alterar as condições vigentes da poupança Rendimento Ouro". Quem o pretendesse fazer teria inevitavelmente que migrar para o Rendimento Platina. Que era quase uma cópia do anterior, diga-se, com uma única diferença: a rentabilidade mínima garantida era substancialmente inferior...

No dia seguinte fui a uma das agências e solicitei a alteração da prestação mensal, o que me foi recusado, em linha com o afirmado na missiva que nos tinha sido enviada. Depois de ter dito o que devia e não devia ao coitado do cavalheiro que teve o azar de me atender nesse dia, dado o banco estar a violar de uma forma flagrante tudo aquilo que constava do contrato assinado entre as partes, acabei com o diabo da poupança logo ali naquele momento. Perdi uns contos largos pois, tal como previsto, tive que devolver todos os benefícios fiscais entretanto recebidos, mas ninguém me tirou o prazer de, num espaço de poucos minutos, acabar com a poupança e com a conta naquele banco, além de sonoramente os ter mandado pastar, a todos eles.

Por isso não posso deixar de sorrir quando, em face dos últimos acontecimentos, vêm alguns em defesa da dama ofendida, porque de um banco fundado por alguém da Opus Dei e católico do mais fervoroso, só se podem esperar virtudes e acções caritativas. Pois não fossem as acções que em má hora adquiri desse maldito banco, e a minha costela venenosa, aquela que faz figas para que se queimem todos nas vigarices que entretanto foram cozinhando, já teria contagiado todas as outras. E não haveria quadra natalícia que amenizasse tais sentimentos tão pouco cristãos...

22/12/2007

SACDs #14: Messiah, Handel

"Messiah was allowed by the greatest Judges to be the finest Composition of Music that ever was heard". Foi desta forma inflamada que o Dublin Journal reagiu à estreia da oratória Messias de Georg Friedrich Händel (1685-1759), no dia 13 de Abril de 1742. Foi um sucesso que veio mesmo a calhar pois, na altura, as óperas de Handel já não atingiam a popularidade de outros tempos, tendo constado que o compositor admitira mesmo a hipótese de sair de Inglaterra. As décadas de 1730 e 1740 viram então um Handel virado para as oratórias, género em que se sentia como peixe na água, e pelo qual o público britânico tinha grande apreço.

Depois dessa estreia a obra foi alvo de várias revisões, nomeadamente em 1743, aquando da apresentação no Covent Garden de Londres, e em 1745, quando foi apresentada no Foundling Hospital, também em Londres. Mesma a versão apresentada na estreia em Dublin não correspondeu exactamente à original, pois Handel introduziu algumas alterações e adaptou-a às características vocais de Susannah Cibber (1714-1766), que fazia o seu regresso aos palcos após um interregno mais ou menos forçado. Susannah, irmã do compositor Thomas Arne (1710-1778), de quem já aqui falámos há uns anos, e casada com o actor e escritor Theophilus Cibber (1703-1758), tinha assiduamente trocado intimidades com o ricalhaço William Sloper (1709-1789), hóspede do casal, de que resultaram uma escandaleira monumental, vários processos em tribunal e uma retirada estratégica dos palcos. E Susannah só participou na estreia desta oratória porque ela ocorreu em Dublin, suficientemente longe de Londres para a senhora se sentir a salvo... Como ela era mais actriz do que propriamente cantora, Handel viu-se então na necessidade de efectuar algumas modificações à partitura original.

Neste CD a versão apresentada é precisamente a de Dublin. É ainda esta a obra, embora não saibamos se nesta versão, que iremos hoje ouvir na Casa da Música, no Porto, naquela que será a nossa última deslocação musical de 2007. Já saiu entretanto a programação da dita cuja para 2008, de que falaremos noutra ocasião. Motivos não faltarão...




George Frideric Handel
Messiah (Dublin version, 1742).
Susan Hamilton (soprano), Annie Gill, Clare Wilkinson (contraltos),
Nicholas Mulroy (tenor), Matthew Brook (baixo)
Dunedin Consort & Players
John Butt
Linn Records CKD 285
(2006)


Internet

Georg Friedrich Handel
gfhandel.org / Classical Music Pages / Handel House Museum / haendel.it / Wikipedia / Georg Friedrich Handel

19/12/2007

Maestros #32: Fritz Reiner (1888-1963)

Uma das facetas mais admiradas em Fritz Reiner foi a de construtor de orquestras, numa tradução livre do inglês "builder of orchestras", estabelecida primeiramente com a Orquestra Sinfónica de Pittsburgh, que dirigiu entre 1938 e 1948, e definitivamente consolidada com o período que passou à frente da Orquestra Sinfónica de Chicago, entre 1953 e 1962. Que lhe valeu uma reputação lendária, verdade seja dita, apesar da (ou alicerçada na?!) relação difícil que sempre manteve com os músicos. "Maestro exigente e despótico", "hostil e impaciente durante os ensaios", "capaz de despedir qualquer músico que cometesse um erro durante um concerto", são alguns das descrições que encontramos nas várias biografias do maestro, húngaro de nascimento e norte-americano por naturalização.

Reiner conheceu pessoalmente Richard Strauss
(1864-1949), e foi um dos grandes promotores deste compositor. Foi da sua responsabilidade, nomeadamente, a estreia em território alemão da ópera Die Frau ohne Schatten, em 1919. Não passaria muito tempo até que atravessasse o Atlântico, incentivado pelo anti-semitismo crescente. Era judeu... Nada que esmorecesse a admiração por Strauss, contudo, e ficaram memoráveis as interpretações das óperas Salome e Elektra, aquando da sua passagem pelo Met de Nova Iorque, entre 1948 e 1953.

Fritz Reiner nasceu há 119 anos, no dia 19 de Dezembro de 1888.


CDs





Fritz Reiner
Works by Bartók, Beethoven, Brahms, Falla, Mendelssohn,
Mozart, Ravel, Strauss and Wagner.
Chicago Symphony Chorus
RCA Victor Symphony Orchestra
Philadelphia Orchestra
NBC Symphony Orchestra
Fritz Reiner
EMI 5 62866-2

Richard Strauss
Elektra. Der Rösenkavalier - Acts I & III excerpts.
Astrid Varnay, Elisabeth Hömgen, Walburga Wegner,
Paul Schöffler, Set Svanholm
Metropolitan Opera Chorus
Metropolitan Opera Orchestra
Fritz Reiner
Guild GHCD 2285/86
(1953)

Richard Strauss
Also sprach Zarathustra, Op.30. Ein Heldenleben, Op.40.
Chicago Symphony Orchestra
Fritz Reiner
RCA Living Stereo 82876 61389-2
(1957, 1962)

Richard Strauss
Don Quixote, Op.35. Don Juan, Op.20.
Antonio Janigro (violoncelo), Milton Preves (viola),
John Weicher (violino)
Chicago Symphony Orchestra
Fritz Reiner
RCA Victor Living Stereo 09026 68170-2
(1954, 1959)

Modest Mussorgsky
Pictures at an Exhibition. A Night on Bald Mountain.
Chicago Symphony Orchestra
Fritz Reiner
RCA Living Stereo 61394-2

Johannes Brahms
Piano Concerto No.1 in D minor, Op.15.
Artur Rubinstein (piano)
Chicago Symphony Orchestra
Fritz Reiner
RCA Red Seal 82876 66378-2
(1954)

Gioacchino Rossini
Overtures.
Chicago Symphony Orchestra
Fritz Reiner
RCA Classic Library 82876 65844-2


Internet

Fritz Reiner
Wikipedia
/ Classical Notes

Richard Strauss
Wikipedia / Richard-Strauss.com / Richard Strauss online

17/12/2007

CDs #145: Leonid Kogan, Paganini, Lalo

Além de violinista virtuoso, a quem, por exemplo, Tchaikovsky (1840-1893), destinou inicialmente o seu Concerto para Violino, o húngaro Leopold Auer (1845-1930) foi um reputado professor, contando entre os seus alunos alguns dos mais notáveis instrumentistas, como Mischa Elman (1891-1967) e Jascha Heifetz (1901-1987), anteriores convidados deste canto virtual. Philip Yampolsky e Abram Yampolsky, além de partilharem o mesmo apelido apesar da inexistência de qualquer relação familiar entre eles, foram ambos igualmente alunos de Auer , e tiveram pelo menos uma outra coisa em comum: foram os dois professores de violino de Leonid Kogan (1924-1982), o solista de serviço no disco aqui hoje trazido.

Kogan, que começou a estudar violino aos 5 anos, tinha uma admiração especial por dois violinistas já bem nossos conhecidos: um deles era Joseph Szigeti (1892-1973), e o outro o já aqui hoje referido Jascha Heifetz. E já que estamos com a mão na massa, diga-se que a sua relação com músicos já nossos bem conhecidos não ficou por aqui, como atesta o trio que, em 1949, formou com o pianista Emil Gilels (1916-1985) e o violoncelista Mstislav Rostropovich (1927-2007), não esquecendo, obviamente, o facto de ter sido professor de umas das mais extraordinárias violinistas do nosso tempo, e que já tive a honra de assistir ao vivo nos bons velhos tempos da Casa da Música: Viktoria Mullova (1959-).

Neste disco Kogan toca o 1º Concerto para Violino, que Niccolò Paganini (1782-1842) compôs entre 1814 e 1816, e a Sinfonia espanhola de Edouard Lalo (1823-1892), escrita em 1873 e dedicada ao grande violinista espanhol Pablo de Sarasate (1844-1908), que a estreou no dia 7 de Fevereiro de 1875.

Leonid Kogan faleceu há 25 anos, no dia 17 de Dezembro de 1982.




Niccolò Paganini
Violin Concerto No.1 in D, Op.6.
Edouard Lalo
Symphonie espagnole, Op.21.
Leonid Kogan (violino)
Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire
Charles Bruck
Testament SBT1226
(1955)


Internet

Leonid Kogan
A Tribute / Wikipedia / Legendary Violinists / The Flying Inkpot

16/12/2007

Sinfonias #24: Sinfonia Nº9 "Do Novo Mundo", Op.95, de Dvorák

Em 1892 o compositor checo Antonin Dvorák (1841-1904) mudou-se para os Estados Unidos, mais precisamente para Nova Iorque, onde permaneceu até Maio de 1894. Regressaria em Novembro desse ano, e lá viria a permanecer até Maio de 1895.


Antonin Dvorák

A primeira obra que lá compôs foi, simultaneamente, a que mais popularidade viria a atingir, sendo ainda hoje uma das mais tocadas e gravadas do repertório clássico. Apropriadamente designada por "Do Novo Mundo", a Sinfonia Nº9, Op.95 de Dvorák teve a sua estreia no dia 15 de Dezembro de 1893. Na altura a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque foi dirigida pelo maestro húngaro Anton Seidl (1850-1898).

Escrita entre Janeiro e Maio de 1893, pouco tempo depois, portanto, de ter chegado aos Estados Unidos, esta sinfonia exibe já influências americanas, reconhecidas pelo próprio compositor quando afirmou: "Escrevi simplesmente temas meus, dando-lhes certas particularidades da música dos Negros e dos Peles-Vermelhas (...)".

Para tentar fugir à maldição da 9ª sinfonia, que já havia sido fatal para Beethoven (1770-1827), Schubert (1797-1828), Bruckner (1824-1896) e Mahler (1860-1911), Dvorák baralhou a sequência de uma boa parte das suas sinfonias, e chamou a esta. Em vão, não viveu o suficiente para compôr a décima...


CDs





Hallé Orchestra
Hamilton Harty
Hallé Tradition CD HLT8000

Berlin State Opera Orchestra
Erich Kleiber
Naxos 8.110907

All American Youth Orchestra
Leopold Stokowski
Music & Arts CD841

Concertgebouw Orchestra
Willem Mengelberg
Teldec 8573-83025-2

Vienna Philharmonic Orchestra
Herbert von Karajan
Deutsche Grammophon 439 009-2

Israel Philharmonic Orchestra
Leonard Bernstein
Deutsche Grammophon 427 346-2

Berlin Philharmonic Orchestra
Claudio Abbado
Deutsche Grammophon 457 651-2

Royal Concertgebouw Orchestra
Nikolaus Harnoncourt
Teldec 3984-25254-2

Budapest Festival Orchestra
Iván Fischer
Philips 464 640-2

London Symphony Orchestra
Colin Davis
LSO LSO0001


Internet

Antonín Dvorák
Classical Net
/ Classical Music Pages / Wikipedia / Naxos

14/12/2007

Lugares #172

Estava para começar isto com uma frase do tipo "Qualquer rei que se preze teve..." mas tal poderia não ser considerado politicamente correcto, pelo que segue a versão censurada: D. João I (1357-1433), o de Boa Memória, fez jus ao cognome, e não se esqueceu, tal como vários dos seus antecessores, de ter a sua dose de filhos bastardos. Um desses filhos ilegítimos, ou legítimos apenas pelo lado do pai..., foi D. Afonso, 1º Duque de Bragança e 8º Conde de Barcelos, condição em que ordenou a construção dos Paços dos Condes de Barcelos, algures na primeira metade do século XV.

Da sua versão original, de castelo apalaçado, já pouco resta hoje; as paredes, poucas, que sobraram, nomeadamente de uma sala e de outros dois compartimentos, são já de uma versão posterior, que o alterou significativamente. Nada mais resistiu à passagem dos tempos, ou das diversas gerações de portugueses, como queiram. Sabe-se que nos inícios do século XVII já não disfarçava as ruínas e depois, século após século, as várias alas foram sucessivamente ruindo. As que não ruiram naturalmente receberam generosa ajuda externa para que a gravidade actuasse, pois não faltava quem tivesse em mente óptimas utilizações para tão vistosas pedras. Para termos uma ideia de como era quando nasceu temos que nos socorrer de um desenho de Duarte d'Armas, exibido no topo deste texto.



Continua, apesar de tudo, a ser um dos edifícios mais interessantes de Barcelos, essencial de visitar antes que alguém se lembre de mandar o resto abaixo. É que, em país de factos consumados, não há classificação do IPPAR que garanta o sossego das nossas almas!


Internet

Paço dos Condes de Barcelos
Câmara Municipal de Barcelos / IPPAR / Wikipédia / lifecooler

12/12/2007

Questionários #2

O Nuno Guerreiro desafia-me a listar os meus 5 filmes. Tarefa ingrata, esta, em que basta mudar ligeiramente o critério para que a lista inicial deixe de fazer qualquer sentido. Adiante.

Há bastantes anos atrás nós, eu e um grupo de amigos, todos ainda estudantes, tínhamos o hábito, saudavelmente mantido durante bastante tempo, de ver um filme por semana, sempre ao Sábado à noite. Havia na altura, no Porto, um punhado de salas de cinema que exibiam regularmente bons filmes, e estou-me a lembrar, por exemplo, da Sala Bebé, do Passos Manuel, do Trindade, do Nun'Álvares, do Pedro Cem. Desse tempo, e já lá vão mais de duas décadas, ficaram-me na memória alguns filmes, por uma razão ou por outra. São filmes que considero que de alguma forma me marcaram, e de que menciono então 5:

Stranger Than Paradise, de Jim Jarmusch
Full Metal Jacket, de Stanley Kubrick
À Nos Amours, de Maurice Pialat
Il Decameron, de Pier Paolo Pasolini
Die Ehe der Maria Braun, de Rainer Werner Fassbinder

Tarefa concluída, passo o desafio para: o Almocreve das Petas, o Carlos Araújo Alves, o Virgílio Marques, o José Pimentel Teixeira e o João Galamba de Almeida.

11/12/2007

Blogues #20

A generosidade inexcedível do nosso amigo P. Q. P Bach leva-o, por vezes, a ver virtudes num reino onde elas dificilmente florescem, como é obviamente o caso dos recentes encómios que dirigiu a este blogue. Embaraçado, agradeço-lhe a simpatia.

P. Q. P. Bach é, além do mais, um excelente blogue. O seu autor sabe de música, sabe o que é boa música, escreve muito bem e, como se tal não bastasse, ainda disponibiliza o "download" de todos os discos e/ou obras de que fala. É, por isso, visita diária. Obrigatória.

09/12/2007

Concertos #62

Georg Friedrich Handel (1685-1759) nasceu na Alemanha, passou uma temporada em Itália, em 1706, para absorver as inovações operáticas que por lá floresciam, e viveu uma boa parte (a maior parte...) da sua vida em Inglaterra. Entre 1723 e 1759, Handel habitou no número 25 da Brooke Street, em Londres, onde entretanto foi criado o Handel House Museum, que tivemos a oportunidade de visitar no passado mês de Julho. E que deu direito a uma animada discussão sobre Handel e um dos seus contemporâneos, Thomas Arne (1710-1778), com a senhora, simpatiquíssima, que foi a nossa guia na ocasião.

Depois da referida passagem por Itália, Handel compôs várias obras em estilo italiano, como óperas e cantatas. É o caso das cantatas que vamos poder ouvir já amanhã, na Casa da Música:

Dolc' è pur d'amor l'affanno, HWV109 (cantata italiana escrita em Londres por volta de 1718)
Mi palpita il cor, HWV132c (cantata italiana escrita em Londres na década de 1710)
Nel dolce tempo, HWV135b (cantata italiana escrita em Londres na década de 1710)
Vedendo amor, HWV175 (cantata italiana escrita em Roma nos finais da década de 1700)

As interpretações estarão a cargo do grande contratenor alemão Andreas Scholl (1967-), desta vez acompanhado pela Accademia Bizantina. Ou um extraordinário oásis no meio do deserto, cujas areias lá se irão estendendo por 2008 adentro...


Internet

Georg Friedrich Handel
gfhandel.org / Handel House Museum / The Foundling Museum / Classical Music Pages / Wikipedia / Haendel.it

07/12/2007

CDs #144: brain, Beethoven, Mozart, Brahms

A música de câmara teve um peso considerável na criação musical do compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897), pertencendo a esse género perto de um quinto das obras que compôs (24 em 122), apesar de se lhe ter rendido algo tardiamente; na verdade, contam-se pelos dedos de uma mão as que escreveu nos primeiros 30 anos de vida, e quando se aventurou nos Quartetos de Cordas já tinha entrado na casa dos 40. Talvez intimidado pelo peso da música de câmara de Ludwig van Beethoven (1770-1827), pensa-se, mas ainda assim foi a tempo de conceber um notável conjunto de obras.

Uma delas, uma das poucas pertencentes ao período prematuro, foi iniciada no Verão de 1864, quase se podendo dizer que nasceu de geração espontânea, tendo o próprio compositor revelado como tal sucedeu (*): "Caminhava uma manhã quando, no momento em que cheguei à Floresta Negra, o Sol pôs-se a brilhar por entre os troncos das árvores; a ideia do Trio veio-me imediatamente ao espírito, com o seu primeiro tema". Eu acho isto admirável, devo confessar; tenho fortes suspeitas de que se me pusesse a espiar o Sol por entre troncos de árvores dificilmente me viria alguma ideia útil à pinha... Mas claro, é por isso que só alguns são génios; os outros escrevem em blogues...

Voltando ao nosso assunto, daquele passeio de Brahms resultou então o Trio para Piano, Violino e Trompa, Op.40. A escolha singular dos instrumentos dá-nos uma primeira indicação de que se trata de um certo olhar para o passado: são exactamente os três instrumentos que começou por aprender a tocar, a que acresce o facto de o pai de Brahms, trompista profissional, ter sido quem ensinou o filho a tocar trompa. Por outro lado, a mãe de Brahms tinha falecido recentemente, e é revelador que, no Adagio deste trio, o compositor cite a canção popular "Dort in den Weiden steht ein Haus", que tinha aprendido precisamente com ela.

A estreia desta obra aconteceu há 142 anos, no dia 7 de Dezembro de 1865.

E a grande vedeta deste disco é obviamente o trompista inglês Dennis Brain (1921-1957), que já aqui teve honras de convidado principal.

(*) Guia da Música de Câmara, de François-René Tranchefort




Ludwig van Beethoven
Quintet for Piano, Oboe, Clarinet, Horn and Bassoon in E flat major, Op.16.
Paul Dukas
Villanelle.
Marin Marais
La Basque.
Wolfgang Amadeus Mozart
Quintet for Horn, Violin, 2 Violas and Violoncello in E flat major, K407.
Johannes Brahms
Trio for Piano, Violin and Horn in E flat major, Op.40.
Dennis Brain (trompa), Max Salpeter (violino)
Wilfrid Parry, Cyril Preedy (pianos)
Dennis Brain Wind Ensemble
English String Quartet
BBC Legends BBCL 4048-2


Internet

Johannes Brahms
The Johannes Brahms WebSource / Classical Music Pages / Wikipedia / Vidas Lusófonas / Karadar Classical Music / Naxos / Essentials of Music

04/12/2007

Lugares #171

De Carlos Relvas (1838-1894), aqui apresentado pela primeira vez neste blogue, já dissemos ter sido um proeminente fotógrafo, inventor, cavaleiro tauromáquico, desportista e lavrador, além de um dedicado amante das artes. Não dissemos, mas dizemos agora, que foi igualmente um fervoroso monárquico, ao contrário do seu filho José Relvas (1858-1929), um republicano convicto que foi quem, em Outubro de 1910, anunciou da varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa, a queda do regime monárquico.

Do pai, José Relvas herdou seguramente o gosto pelas artes, como o comprova o notável espólio que ainda hoje se pode apreciar na casa que construiu em Alpiarça, a Casa dos Patudos. Tinha em particular um fraquinho pelas artes musicais, ao ponto de alguém ter chegado a afirmar que "nessa casa amam-se todas as artes mas só uma se cultiva: a Música". Tocava violino, chegou a formar um quinteto de música de câmara e privou com músicos de craveira internacional, como Pablo Casals (1876-1973) e a nossa Guilhermina Suggia (1885-1950). Aquando da visita que efectuámos à Casa dos Patudos no mês passado afiançaram-nos mesmo que José Relvas chegou a tocar com Guilhermina Suggia, provavelmente (assumimos nós) num dos inúmeros serões culturais que organizou em sua casa.




Notável: começámos pelo pai, de quem admirámos o pioneirismo na arte fotográfica e, dois anos depois, descobrimos o filho, empresário de sucesso, grande amante das artes em geral e das musicais em particular, músico amador e... conhecido da grande violoncelista Guilhermina Suggia! A nossa satisfação requeria uma comemoração condigna, objectivo que facilmente atingimos aqui. Grande dia!


Internet

José Relvas
O Portal da História / Câmara Municipal de Alpiarça / Wikipédia / Indústrias Culturais / Casa Museu dos Patudos

02/12/2007

Sinfonias #23: Sinfonia Turangalîla, de Olivier Messiaen

Na segunda metade dos anos 40 do século há pouco terminado, o compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992) escreveu uma obra que desde logo dividiu as opiniões. Uns, acharam-na uma das mais importantes do século, outros, uma mera manifestação do mais puro mau gosto. Recebeu o nome de Sinfonia Turangalîla e a sua primeira interpretação aconteceu no dia 2 de Dezembro de 1949, passam hoje 58 anos.


Olivier Messiaen

Do lado das interpretações também não se pode falar propriamente em unanimidade. Apesar das abundantes anotações do autor e da indicação quanto à duração "correcta", 75 minutos, há gravações para todos os gostos: desde a de Hans Rosbaud (1895-1962), que a despachou em menos de 70 minutos, até à de Simon Rattle (1955-), para quem 80 não chegaram...

A obra é para piano, ondas martenot e orquestra. As ondas martenot são um instrumento inventado em 1928 por Maurice Martenot (1898-1980). O primeiro disco da lista que se segue é assim duplamente histórico: ao piano temos Yvonne Loriod, esposa do compositor, e nas ondas martenot Ginette Martenot, irmã do inventor do instrumento.


CDs



Yvonne Loriod, piano
Ginette Martenot, ondas martenot
South West German Radio Symphony Orchestra
Hans Rosbaud
Wergo WER6401-2

Yvonne Loriod, piano
Jeanne Loriod, ondas martenot
ORTF National Orchestra
Maurice Le Roux
Accord 20479-2

Michel Béroff, piano
Jeanne Loriod, ondas martenot
London Symphony Orchestra
André Previn
EMI 5 69752-2

Jean-Yves Thibaudet, piano
Takashi Harada, ondas martenot
Royal Concertgebouw Orchestra
Riccardo Chailly
Decca 436 626-2

François Weigel, piano
Thomas Bloch, ondas martenot
Polish National Radio Symphony Orchestra
Antoni Wit
Naxos 8.554478/9


Internet

http://www.oliviermessiaen.co.uk/

http://www.france.diplomatie.fr/culture/galerie_composit/messiaen.html

http://brahms.ircam.fr/textes/c00000066/n00003521/