30/12/2008

Notícias #23

desInformação

desGraças

Contumaz. É esta a posição favorita de Azevedo em relação a qualquer julgamento que lhe diga respeito. O que tem toda a lógica, pois é exactamente "com Tomás" que ele tem especiais afinidades, partilhando, por exemplo, um irresistível fascínio por buracos. Só que, surpreendentemente, é Azevedo que demonstra maior criatividade, além de ganhar nos "SEs": é ele próprio que inventa os seus buracos, para depois neles SE meter... (A propósito, já viram a quantidade de erros de inglês que a página de abertura do site do arquitecto tem?! Até ganhou palavras acentuadas, uma coisa extraordinária! Escusado será dizer que não tive coragem para ir além daí...)

Depois de tudo o que se passou, o Millenium BCP, num tão surpreendente quanto inesperado exercício de humor negro, diz que nos quer levar para um futuro mais brilhante e seguro a bordo do... Titanic. Agora, só espero pela próxima conferência de imprensa da nova administração do BPP, com a bandeira nacional ao alto e um quadro a retratar a Dona Branca a compor a parede do fundo.

desRespeito

Se fosse uma outra confissão religiosa, não a oficial, a instalar volumosos sinos nos telhados dos templos e a fazê-los soar ruidosamente todos os dias, Sábados e Domingos incluídos, entre as 6 da manhã e a meia-noite, será que tal seria encarado com igual bonomia por toda a gente? E se, além disso, lá instalassem também uns altifalantes para divulgar as suas celebrações por toda a comunidade, será que se manteria a mesma indiferença generalizada?!

desPorto

Novas tácticas futebolísticas, recentemente desenvolvidas:

Táctica defensiva "Pedro Henriques": se o avançado adversário cair perto da baliza, chutar a bola repetidamente contra ele, o desvio de trajectória está desde logo garantido e alguma lhe há-de bater num dos braços (e existem logo dois), assinalando de imediato o árbitro o respectivo livre contra a equipa atacante, por óbvia mão na bola.

Táctiva ofensiva "Pedro Henriques": se o defesa cair dentro da grande área e as hipóteses de rematar à baliza com sucesso forem reduzidas, chutar a bola repetidamente contra ele, o desvio da trajectória está desde logo garantido e alguma lhe há-de bater num dos braços, assinalando de imediato o árbitro a respectiva grande penalidade a favor da equipa atacante, por óbvia mão na bola. Tem ainda a vantagem de poder sacar mais um cartãozito para a equipa adversária.

desNorte

No que a nós e à música ao vivo diz respeito, 2009 ficará no essencial marcado por: Orquestra Sinfónica do Teatro Mariinsky + Valery Gergiev, Matthias Goerne, Thomas Hampson, Hákan Hardenberger, António Meneses e Nelson Freire. Nada mau, e com um interessante perfume brasileiro. E, demonstrado como está que este é um dos poucos assuntos que conseguimos tratar aqui com um mínimo de seriedade, a ele continuaremos a dedicar a maior parte dos textos. Um descanso para a maioria, seguramente.

desPedidas

Votos de um Excelente Ano para todos.

29/12/2008

Lugares #183

Uma das nossas deambulações dos últimos dias levou-nos aqui:



É sempre reconfortante vermos que, apesar das dificuldades nalgumas áreas, sempre se vai tendo imaginação suficiente para ir mantendo e mesmo criando novos eventos.

E se a Câmara de Santa Maria da Feira apareceu por uma vez nas primeiras páginas dos jornais pelos enormes atrasos que regista nos pagamentos aos fornecedores, sendo, neste aspecto, umas das 5 piores de Portugal, muito mais ganhou em tempo de antena com a Terra dos Sonhos. Ficamos orgulhosos, pois claro, e sem grandes crises de consciência, pois somos informados de que o problema que a tornou breve e tristemente célebre está a ser resolvido.

24/12/2008

Óperas #18: Aida, de Giuseppe Verdi

Aos pachás do Egipto os turcos davam o título de quediva, que era mais ou menos equivalente ao de vice-rei. Um dos presenteados foi Ismail Pasha, que viveu entre 1830 e 1895 e foi quediva do Egipto entre 1863 e 1879. Pois o nosso amigo Pasha, para a inauguração do Teatro Italiano do Cairo, decidiu encomendar uma ópera a Giuseppe Verdi (1813-1901). Estávamos na segunda metade da década de 1860, e Verdi, já com 23 óperas no curriculum, pensava mais em retirar-se para a sua quinta do que em meter-se em mais uma aventura lírica. Tiveram que se chegar à frente, claro, e com o envolvimento dos libretistas Camille du Locle (1832-1903), que já anteriormente havia colaborado com Verdi no libreto de Don Carlos, e Antonio Ghislanzoni (1824-1893), lá conseguiram convencer o compositor, daí tendo resultado a ópera Aida.

O teatro seria inaugurado em Novembro de 1869, mas a ópera apenas teria a sua estreia no dia 24 de Dezembro de 1871, passam hoje 137 anos. É que entretanto rebentou a guerra franco-prussiana, que apenas terminaria em Maio de 1871, e os cenários que tinham sido construídos ficaram retidos em Paris. A estreia foi um sucesso monumental, sem que, contudo, tivesse valido de muito ao nosso quediva, que algum tempo depois foi destituído pelos otomanos por gestão incompetente... No dia 8 de Fevereiro de 1872 teve lugar a estreia em palcos europeus, honra que coube ao Teatro alla Scala, e de novo com um tremendo sucesso, numa noite em que Verdi teve que subir 32 vezes ao palco para agradecer os aplausos do público. Antes de qualquer outra sala europeia, curiosamente, Aida atravessou depois o Atlântico e foi apresentada em Nova Iorque, com a primeira récita a acontecer a 26 de Novembro de 1873. E só em 1880 chegaria a Paris, por contas antigas que Verdi tinha para ajustar com essa cidade. Histórias para outra ocasião...


CDs



Giuseppe Verdi
Aida.
Anna Tomowa-Sintow, Marianne Seibel (sopranos), Brigitte
Fassbaender (meio-soprano), Plácido Domingo, Norbert
Orth (tenores), Siegmund Nimsgern (barítono), Robert
Lloyd, Nikolaus Hillebrand (baixos)
Bavarian State Opera Chorus
Bavarian State Opera Orchestra
Riccardo Muti
Orfeo d'Or C583 022I
(1979)

Giuseppe Verdi
Aida.
Renata Tebaldi (soprano), Mario del Monaco, Piero de
Palma (tenores), Ebe Stignani (meio-soprano), Aldo
Protti (barítono), Fernando Corena, Dario Caselli (baixos)
Accademia di Santa Cecilia Chorus
Accademia di Santa Cecilia Orchestra
Alberto Erede
Pearl GEMS0191
(1952)

Giuseppe Verdi
Aida.
Maria Callas, Joan Sutherland (sopranos), Giulietta
Simionato (meio-soprano), Kurt Baum, Hector Thomas (tenores),
Jess Walters (barítono), Giulio Neri, Michael Longdon (baixos)
Royal Opera House Chorus
Royal Opera House Orchestra
John Barbirolli
Testament SBT21355
(1953)


DVDs



Giuseppe Verdi
Aida.
Adina Aaron, Micaela Patriarca (sopranos), Kate Aldrich (meio-soprano),
Scott Piper, Stefano Pisani (tenores), Giuseppe Garra (barítono),
Enrico Giuseppe Iori, Paolo Pecchioli (baixos)
Arturo Toscanini Foundation Chorus
Arturo Toscanini Foundation Orchestra
Massimiliano Stefanelli
TDK DV-AIDDB
(2001)

Giuseppe Verdi
Aida.
Leyla Gencer, Adalina Grigolato (sopranos), Fiorenza Cossotto (meio-soprano),
Carlo Bergonzi, Ottorino Begali (tenores), Anselmo Colzani (barítono),
Bonaldo Giaotti, Franco Pugliese (baixos)
Verona Arena Chorus
Verona Arena Orchestra
Franco Capuana
Hardy Classic Video HCD4010
(1966)

Giuseppe Verdi
Aida.
Nina Stemme, Christiane Kohl (sopranos), Salvatore Licitra, Miroslav
Christoff (tenores), Luciana d'Intino (meio-soprano), Juan Pons (barítono),
Matti Salminen, Günther Groissböck (baixos)
Zürich Opera House Chorus
Zürich Opera House Orchestra
Adám Fischer
Bel Air Classiques BAC022
(2006)

Giuseppe Verdi
Aida.
Gabriella Tucci (soprano), Giulietta Simionato (meio-soprano),
Mario del Monaco, Athos Cesarini (tenores), Aldo Protti (barítono),
Silvano Pagliuca, Paolo Washington (baixos)
NHK Italian Opera Chorus
Tokyo Radio Chorus
NHK Symphony Orchestra
Franco Capuana
Video Artists International VAIDVD4420
(1961)


Internet

Giuseppe Verdi
Official Site / Classical Music Pages / Opera Glass / Aida / Essentials of Music / Classical Net / Wikipedia

21/12/2008

Quartetos de Cordas #7: Quarteto de Cordas Nº2, de Arnold Schoenberg

O desenvolvimento da música atonal por parte da 2ª Escola de Viena, encabeçada pelo compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951) e os seus alunos Alban Berg (1885-1935) e Anton Webern (1883-1945), deu-se na primeira metade do século XX, principalmente a partir do início da década de 1920, após a publicação da Suite para Piano de Schoenberg.

Schoenberg escreveu 4 quartetos de cordas, se esquecermos, naturalmente, aqueles que compôs na juventude (e de que só um sobreviveu a partitura). Os Quartetos de Cordas Nºs 3 e 4, conforme já aqui referi, resultaram de encomendas de Elizabeth Sprague Coolidge (1864-1953) e foram compostos em 1927 e 1936, respectivamente, pertencendo portanto ao período atonal do compositor.

O Quarteto de Cordas Nº2 pertence ainda então ao período pré-atonal, e foi escrito entre 1907 e 1908. A estreia, no dia 21 de Dezembro de 1908, passam hoje 100 anos, foi um caos, com o público apanhado desprevenido pelas ostensivas liberdades dissonantes, e a reagir em conformidade. Relata quem lá esteve que "as elegantes senhoras enfiavam os sensíveis dedos nos delicados ouvidinhos, e os cavalheiros, na maioria idosos, soltavam lágrimas de comoção"...

Essa estreia contou com o Quarteto Rosé, formado em 1882 pelo violinista Arnold Rosé (1863-1946), e com o soprano Marie Gutheil-Schoder (1874-1935), para cantar os versos do poeta alemão Stefan George (1868-1933) nos e 4º andamentos do quarteto. Refira-se, a terminar, que esta obra marcou a transição entre as fases tonal e atonal de Arnold Schoenberg, que só bastantes anos mais tarde escreveria de novo uma obra tonal.


CD



Arnold Schoenberg
Complete String Quartets.
Alban Berg
Lyric Suite - String Quartet. String Quartet, Op.3.
Anton Webern
String Quartet, Op.5 - 5 movements.
Juilliard Quartet
United Archives UAR023
(1950-1952)


Internet

Arnold Schoenberg
Arnold Schoenberg Center / Classical Music Pages / G. Schirmer Inc. / Naxos / suite101.com / P. Q. P. Bach / Answers.com / Classical Music Archives / Arnold Schoenberg & The Second Vienna School / Wikipedia

18/12/2008

Pianistas #25: Alfred Brendel (1931-)

Aquando da celebração do 66º aniversário da pianista argentina Martha Argerich (1941-), referi não só a sua vitória no Concurso Internacional de Piano Ferruccio Busoni, em 1957, como também o facto de na primeira edição do concurso, em 1949, o pianista austríaco Alfred Brendel (1931-) ter arrecadado um dos prémios, ao ficar em 4º lugar. Dos que ficaram à frente de Brendel nunca mais ninguém ouviu falar, pelo que não será de todo ilegítimo concluir que as vitórias nesses concursos não são assim tão importantes, mas enfim...



Brendel tinha dado o seu primeiro recital no ano anterior, na cidade austríaca de Graz, e o reconhecimento obtido naquele concurso só veio aumentar a determinação em seguir a carreira pianística. Hoje, 60 anos passados sobre a referida estreia, Brendel dará o seu último concerto, em Viena. Tive a felicidade de poder assistir a dois recitais deste extraordinário pianista, ambos na Casa da Música, o primeiro em Abril de 2005 e o outro em Junho do ano seguinte. E só não assisti a um terceiro por ingenuidade minha...

17/12/2008

Violinistas #10: Leonid Kogan (1924-1982)

Em 1909 o violinista e professor Leopold Auer (1845-1930) assistiu em Vilnius, Lituânia, a um recital do miúdo Jascha Heifetz (1901-1987) e, impressionado com a exibição, convidou-o de imediato para seu aluno. 25 anos depois, em 1934, foi a vez do jovem Leonid Kogan (1924-1982) ser arrebatado pelo virtuosismo de Heifetz, não tendo perdido um único dos vários concertos que o grande violinista deu nessa altura em Moscovo. Desta vez ninguém passou a ser aluno de ninguém em resultado da exposição a Heifetz, mas tal contribuiu seguramente para reforçar a vontade de Kogan em seguir a carreira de violinista. Desde os 6 anos que estudava violino e, à data dos tais concertos de Heifetz, era aluno de Philip Yampolsky que, por sua vez, tinha sido aluno de... Leopold Auer!

As ligações de Kogan a outros conceituados violinistas não ficaram por aqui: em 1951 competiu no Concurso Rainha Elisabete, em Bruxelas, tendo obtido o 1º prémio, com David Oistrakh (1908-1974) no júri; outro dos que o influenciou decisivamente foi o já nosso bem conhecido Joseph Szigeti (1892-1973), tendo Kogan chegado a afirmar, depois de ter assistido a um concerto de Szigeti, que "iria procurar seguir as suas pisadas".

A minha relação com Kogan, apesar de não tão conhecida (!), data de há bastantes anos, e foi iniciada com a compra de um LP em 2ª mão na Feira da Vandoma; nele Kogan interpreta o Concerto para Violino, Op.35, e a Valsa-Scherzo, Op.34, de Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893), com a Orquestra Sinfónica da Rádio do Estado Soviético dirigida por Vasili Nebolsin (Op.35) e Alexander Gauk (Op.34), numa gravação que datará provavelmente do início da década de 1960. Na contra-capa do disco temos uma apresentação do compositor e uma descrição detalhada das obras, em particular do concerto para violino. Sobre os intérpretes, nem uma palavra. Outros tempos...

Leonid Kogan faleceu há 26 anos, no dia 17 de Dezembro de 1982.


CDs



Johannes Brahms
The Violin Sonatas (Complete).
Leonid Kogan (violino), Andrei Mytnik (piano)
Archipel ARPCD0355
(1956, 1959)

Piano Trios by Haydn, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky,
Shostakovich,
Schumann, Saint-Saëns, Borodin.
Piano Quartet by Fauré.
Piano Trio by Brahms.
Emil Gilels (piano), Leonid Kogan, Dimitry Tziganov (violinos),
Mstislav Rostropovich, Sergei Shirinsky (violoncelos), Rudolf
Barshai (viola), Yakov Shapiro (trompa)
Doremi DHR7921/5
(1950, 1951, 1952, 1953, 1956, 1958, 1959)

Niccolò Paganini
Violin Concerto No.1 in D, Op.6.
Edouard Lalo
Symphonie espagnole, Op.21.
Leonid Kogan (violino)
Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire
Charles Bruck
Testament SBT1226
(1955)


Internet

Leonid Kogan
A Tribute / Andromeda / Legendary Violinists / Wikipedia

14/12/2008

Sinfonias #33: Sinfonia Nº6, de Franz Schubert

Ludwig van Beethoven (1770-1827) compôs a 1ª sinfonia no virar do século XVIII para o século XIX, e o próprio estreou-a no dia 2 de Abril de 1800, em Viena, com uma recepção mais ou menos calorosa por parte do público e algum desprezo por uma boa parte da crítica. Tal não impediu, todavia, que uns anos mais tarde o compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828) a tomasse como modelo para a sua Sinfonia Nº6; escreveu-a na mesma tonalidade, dó maior, e, algo nunca visto em alguma das suas sinfonias anteriores, intitulou o 3º andamento de scherzo (como é o caso das Sinfonias Nº2 e Nº3 de Beethoven).

Schubert tinha composto 4 sinfonias num curto espaço de cerca de 4 anos, entre 1813 e 1816, e em Outubro de 1817 meteu de novo mãos à obra, tendo terminado a Sinfonia Nº6 pouco tempo depois, em Fevereiro do ano seguinte. Schubert tinha passado um período a viver com o pai, dando aulas de dia e compondo furiosamente à noite, de que resultaram, além das referidas sinfonias, mais de uma centena de canções e várias obras de música de câmara. Em 1818 abandonou o posto de professor para se dedicar por inteiro às coisas da música, actividade que conseguiu muito mais facilmente conciliar com a vida boémia que tanto apreciava...

A Sinfonia Nº6 de Franz Schubert foi estreada em público há 180 anos, no dia 14 de Dezembro de 1828, menos de 1 mês depois da morte do compositor.


CDs



Franz Schubert
Symphonies Nos.1-6, 8 & 9.
Staatskapelle Dresden
Colin Davis
RCA Red Seal 82876 60392-2

Franz Schubert
Symphonies Nos.3, 5 & 6.
Royal Philharmonic Orchestra
Thomas Beecham
EMI Classics 7 69750-2


Internet

Franz Schubert
The Schubert Institute (UK) / Classical Music Pages / Naxos / Classical Music Archives / Karadar Classical Music / ThinkQuest: Library / suite101.com / Wikipedia

10/12/2008

CDs #191: Olivier Messiaen, Organ Works

A primeira vez que por aqui falei do compositor e organista francês Olivier Messiaen (1908-1992) foi há 3 anos, em Dezembro de 2005, a propósito da obra Éclaires sur l'Au-delà..., escrita para as celebrações do 150º aniversário da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque. Voltei a trazê-lo aqui em Dezembro de 2007, para assinalar a passagem de mais um ano sobre a estreia de uma das suas obras mais emblemáticas, a Sinfonia Turangalîla.

Messiaen entrou para o Conservatório de Paris quando tinha 11 anos, para estudar órgão e improvisação com Marcel Dupré (1886-1971) e composição com Paul Dukas (1865-1935). Em 1930, com apenas 23 anos, Messiaen passou a ser o organista principal da Igreja da Trindade, em Paris, posto que manteve até 1992, ano da sua morte. Isto apesar de, em paralelo, ter mantido uma cada vez mais bem sucedida carreira de compositor e professor, marcada, por exemplo, pela suas colaborações nos cursos de Verão de Darmstadt, entre 1950 e 1953. Extremamente devoto ao catolicismo, quase toda a sua extensa obra para órgão apoia-se nos Antigo e Novo Testamentos, com duas raras excepções, as (Reprises par interversions) e (Soixante-quatre durées) peças do Livre d'orgue, a obra que abre o disco duplo que aqui trago hoje.

Esta passa por ser uma das mais elaboradas obras de Messiaen para este instrumento, escrita em 1951 e estreada pelo próprio no dia 23 de Abril de 1953, em Estugarda. É igualmente uma excelente montra das facetas mais marcantes da obra deste compositor, com a presença dos ritmos hindus, a influência impressionista de Claude Debussy (1862-1918), e a inclusão, na 4ª peça, do canto dos pássaros, ou não fosse Messiaen um igualmente empenhado ornitólogo. Esta peça, refira-se, levanta algumas dúvidas quanto à data exacta da composição do Livre d'orgue, oficialmente referida como 1951, porque, segundo o próprio compositor, baseou-se no canto dos pássaros dos jardins de Gardépée, perto de Cognac, que sabe-se que Messiaen visitou pela primeira vez apenas em Abril de 1952...

Celebra-se hoje o centenário do nascimento de Olivier Messiaen, ocorrido a 10 de Dezembro de 1908.




Olivier Messiaen
Organ Works.
Livre d'orgue. Méditations sur le mystère de la Sainte Trinité.
Michael Bonaventure (órgão)
Delphian DCD34016
(2005, 2007)


Internet

Olivier Messiaen
Messiaen 2008 / The Olivier Messiaen Page / Boston University Messiaen Project / IRCAM / Classical Music Pages / BBC / Wikipedia / Essentials of Music / Naxos / The Musical Times / The New York Times

05/12/2008

Concertos #70

O Grupo dos Cinco, composto pelos compositores russos Mily Balakirev (1837-1910), Alexander Borodin (1837-1887), César Cui (1835-1918), Modest Mussorgsky (1839-1881) e Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908), e que tinha como objectivo a criação de uma escola de composição típica e distintamente russa, formou-se em 1858 e desfez-se 15 anos depois, em 1873. Este ano ficou igualmente marcado pelo falecimento do arquitecto e pintor Viktor Hartmann (1834-1873), amigo dos membros daquele grupo, e de Mussorgsky em particular. No ano seguinte realizou-se em memória de Hartmann uma exposição onde se apresentaram algumas das suas maquetas e desenhos, e foi ao visitá-la que Mussorgsky ganhou a inspiração para a suite para piano Quadros de Uma Exposição, a obra por que ainda hoje é mais conhecido, se bem que tal se deva em boa medida à orquestração de Maurice Ravel (1875-1937), efectuada em 1922.

Foi esta versão orquestrada que tivemos a oportunidade de ouvir em Maio de 2006, com Mikhail Pletnev (1957-) a dirigir a Orquestra Nacional Russa. Amanhã, e ainda na Casa da Música, ouvi-la-emos na versão original para piano, com o extraordinário pianista norueguês Leif Ove Andsnes (1970-), por quem o nosso amigo P. Q. P. Bach tem uma admiração de que não faz segredo... Andsnes já tinha visitado estas páginas de passagem, a propósito de um excelente disco com os 2 primeiros concertos para piano de Sergei Rachmaninov (1873-1943).

A primeira parte do recital de amanhã será preenchida com 2 sonatas de Ludwig van Beethoven (1770-1827), e as Seis Pequenas Peças para Piano, Op.19, de Arnold Schoenberg (1874-1951), compostas entre Fevereiro e Junho de 1911.


Programa

Ludwig van Beethoven
Sonatas para Piano - Nº13; Nº14.
Arnold Schoenberg
Seis Obras, Op.19.
Modest Mussorgsky
Quadros de Uma Exposição.
Leif Ove Andsnes (piano)


Internet

Modest Mussorgsky
Classical Music Pages / Naxos / Classical Music Archives / 8notes.com / Answers.com / Wikipedia

02/12/2008

CDs #190: Brahms, Violin Sonatas 1-3

Dada a dificuldade em obter um emprego estável na sua cidade natal, Hamburgo, em 1862 o compositor Johannes Brahms (1833-1897) decidiu mudar-se para Viena, onde havia mais perspectivas de encontrar um posto adequado. E a verdade é que foi lá recebido calorosamente, entre outros pelo temido crítico musical Eduard Hanslick (1825-1904). Aquele mesmo que, poucos anos depois, iria andar às turras com Richard Wagner (1813-1883)... Por coincidência, ou talvez não, a produção de música de câmara de Brahms apenas começou a ganhar relevo a partir de 1862, portanto após a mudança para a capital austríaca.

As Sonatas para Violino apareceriam bastante mais tarde, com a primeira a ser composta em 1879, tinha já o compositor 46 anos. A estreia teve lugar no dia 20 de Novembro desse ano, com Brahms ao piano e o violino a cargo de Josef Hellmesberger (1828-1893). O seu grande promotor, contudo, viria a ser um já nosso bem conhecido, o pianista (e maestro) Hans von Bülow (1830-1894). Passariam vários anos até que Brahms concluísse outra sonata para violino, o que viria a acontecer no Verão de 1886. A estreia pública, a 2 de Dezembro desse ano, passam hoje 122 anos, encontrou os mesmos intérpretes: Brahms e Hellmesberger. Nesse mesmo ano o compositor iniciou a escrita daquela que viria a ser a sua e última sonata para violino, e viria a concluí-la no Verão de 1888, tendo-a dedicado ao amigo Hans von Bülow.

Este disco apresenta-nos as 3 sonatas para violino de Johannes Brahms, com a interpretações a cargo do violinista Renaud Capuçon (1976-) e do pianista Nicholas Angelich (1970-). Refira-se que Renaud Capuçon tem estado particularmente activo, nomeadamente em várias gravações, algumas delas com o seu irmão, o violoncelista Gautier Capuçon (1981-), e que no passado tocou e gravou com a nossa Maria João Pires (1944-). Um homem da casa.




Johannes Brahms
Violin Sonata No.1 in G major, Op.78.
Violin Sonata No.2 in A major, Op.100.
Violin Sonata No.3 in C minor, Op.108.
Renaud Capuçon (vn), Thomas Angelich (piano)
Virgin Classics 5 45731-2
(2005)


Internet

Johannes Brahms
Johannes Brahms WebSource / Johannes Brahms Gesellschaft Hamburg / Classical Music Pages / Wikipedia / Vidas Lusófonas / Naxos / Classical Net / Essentials of Music / Classical Music Archives / UOL Educação / Biblioteca Brasileira do Violão / Island of Freedom

30/11/2008

CDs #189: Beethoven, Symphony No.9, Furtwängler

Há dois maestros a quem sempre associei uma áurea de mistério: o italiano Arturo Toscanini (1867-1957) e o alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954). Ligados pela música mas separados pela política, pois Toscanini não perdoou a relação ambígua que Furtwängler manteve com o regime nazi. Só para dar uma ideia da tortuosidade de Furtwängler, relembro aquela famosa carta (1) que escreveu ao ministro da propaganda nazi, Joseph Goebbels (1897-1945) em Abril de 1933, mostrando a sua preocupação pela imposição de quotas máximas de músicos de origem judaica, e no quanto isso poderia prejudicar a qualidade da orquestra; na mesma missiva mostrava compreensão em relação a perseguições noutras áreas, havendo boas razões para tal, desde que não incluísse a musical...

Pergunto-me então se estes factos não terão repercussões na forma como avaliamos a sua obra, mas esta é uma pergunta condenada a ficar sem resposta. Naquilo que à música diz respeito, houve dois compositores em particular a que Furtwängler ficará para sempre ligado: Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Johannes Brahms (1833-1897). Furtwängler atribuía uma especial importância à Sinfonia Nº9 de Beethoven e, a partir de certa altura, apenas a interpretava "em ocasiões especiais".

A gravação que trago aqui hoje é ainda um pouco mais especial, pois foi efectuada em Agosto de 1954 durante o Festival de Lucerna, e foi a última vez que o maestro a interpretou, pois faleceria cerca de 3 meses depois. Tem ainda a vantagem sobre outras suas gravações desta sinfonia pelo facto de ter sido gravada ao vivo, meio em que se sentia bem mais à-vontade. Além de contar no elenco com uma das minhas deusas, o soprano Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006)...

Wilhelm Furtwängler faleceu há 54 anos, no dia 30 de Novembro de 1954.




Ludwig van Beethoven
Symphony No.9 in D, Op.125, "Choral".
Elisabeth Schwarzkopf (soprano), Elsa Cavelti (contralto),
Ernst Häfliger (tenor), Otto Edelmann (barítono)
Lucerne Festival Choir
Philharmonia Orchestra
Wilhelm Furtwängler
Music & Arts CD-790


Internet

Wilhelm Furtwängler
Bach Cantatas Website / The Wilhelm Furtwängler Society of America / Société Wilhelm Furtwängler / Naxos / Classical Notes / Wikipedia


(1) La Symphonie des Chefs, de Robert Parienté

28/11/2008

Maestros #41: Richard Hickox (1948-2008)

Esta semana fomos surpreendidos com a notícia do falecimento, no passado Domingo, do maestro inglês Richard Hickox, vítima de ataque cardíaco quando se encontrava em Cardiff, País de Gales, a preparar uma nova produção da ópera de um acto Riders to the Sea, do compositor Ralph Vaughan Williams (1872-1958).

Um dos maiores sucessos discográficos de Hickox foi precisamente com uma obra de Vaughan Williams, quando, em Dezembro de 2000, gravou a Sinfonia Nº2, "Sinfonia Londres", desse compositor. Em 2001 este disco seria mesmo considerado o melhor do ano pela Gramophone. Hickox notabilizou-se pelas interpretações dos seus compatriotas, e é assim normal que, apesar de nunca dele ter aqui falado especificamente, o seu nome ter normalmente aparecido quando para aqui se convidaram compositores ingleses, como foram os casos de Michael Tippett (1905-1998) e de William Alwyn (1905-1985).

Se não for antes, voltarei certamente a falar de Richard Hickox em Março do próximo ano, na altura em que celebraria o seu 61º aniversário.


Internet

Richard Hickox
RTP / Correio da Manhã / Diário Digital / intermusica / Guardian / Yahoo! News / Telegraph / The Independent / The New York Times / Bach Cantatas Website / BBC / Wikipedia

26/11/2008

CDs #188: The Art of Earl Wild

O norte-americano Earl Wild (1915-) exibiu desde muito novo um talento para tocar piano fora do comum, e aos 12 anos estudava já com Selmar Janson, que nos é invariavelmente apresentado como um reputadíssimo e famoso professor de piano. Curiosamente, se procurarmos informação sua na internet a única coisa que nos aparece à frente é a biografia de Earl Wild... Adiante. Um outro professor que teve foi Egon Petri (1881-1962) que, por sua vez, tinha sido estudante de Ferruccio Busoni (1866-1924), um já nosso velho conhecido.

Particularmente à-vontade no repertório romântico, Wild especializou-se ainda em transcrições, algumas realizadas por ele mesmo, outras de compositores mais ou menos consagrados. Cabe aqui referir uma outra faceta deste pianista, a de promotor de obras de compositores menos conhecidos. O disco (duplo) que nos traz aqui hoje é um excelente exemplo de tudo o que se acaba de afirmar, pois oferece-nos obras de compositores pouco divulgados, como Henri Herz (1803-1888) e Sigismond Thalberg (1812-1871), e um conjunto apetecível de transcrições, efectuadas nomeadamente por Herz, Leopold Godowsky (1870-1938) e Thalberg.

Earl Wild comemora hoje o seu 93º aniversário.




The Art of Earl Wild
Henri Herz
Variations on "Non più mesta", from Rossini's "La Cenerentola".
Leopold Godowsky
Symphonic Metamorphosis on Themes from Johann Strauss' "Künstlerleben".
Anton Rubinstein
Etude, Op.23 No.2, "Staccato".
Sigismond Thalberg
"Don Pasquale" Fantasy, Op.67, from Donizetti's "Don Pasquale".
Johann Nepomuk Hummel
Rondo in E flat major, Op.11.
Ignacy Jan Paderewski
Theme with Variations, Op.16 No.3.
Johannes Brahms
Variations on a Theme by Paganini, Op.35. Four Ballads, Op.10.
Franz Liszt
Paganini Etude No.2 in E flat major.
Earl Wild (piano)
Vanguard Classics ATM-CD-1657


Internet

Earl Wild
Earl Wild Official Web Site / Bach Cantatas Website / Shumei Arts / Sony Classical / Wikipedia / The New York Times / Audiofon Records

22/11/2008

Obras Orquestrais #18: Bolero, de Maurice Ravel

Nos anos 80 do século passado deu-se o boom das rádios piratas, com especial incidência nos meios universitários. A Universidade do Porto (dessa vez) não quis deixar passar a oportunidade e, com a boa vontade de alguns e a carolice de muitos, lá nasceu a RUP, Rádio Universitária do Porto, que transmitia em frequência modulada (F. M.) em 99,4MHz. Na altura este vosso escriba, em conjunto com um amigo, entregou à administração lá do sítio uma proposta, má, para um programa que, por razões que ainda hoje não consigo descortinar, foi aprovada. O que de imediato nos colocou perante um problema sério, pois as nossas discotecas, curtas como o dinheiro na carteira, só davam para encher meia dúzia de programas. Depois de bater a muitas portas e receber outras tantas negas, o dono da distribuidora Andante foi de uma gentileza extrema e, sem nos conhecer de lado nenhum, prontificou-se a emprestar-nos semanalmente discos, que deveríamos devolver após cada emissão. O primeiro que nos calhou em sorte continha várias obras orquestrais do compositor francês Maurice Ravel (1875-1937), mas só nos foi cedido depois de termos solenemente garantido que não passaríamos... o Bolero!

A obra resultou de uma encomenda, da bailarina russa Ida Rubinstein (1885-1960), se bem que não tenha sido a primeira escolha do autor; na verdade, depois de Ida lhe ter dito que queria uma peça com alma espanhola, Ravel pensou inicialmente em orquestrar algumas partes de Iberia, do compositor espanhol Isaac Albéniz (1860-1909). Não tendo obtido os necessários direitos para tal, não teve outro remédio senão compor algo de novo, optando por desenvolver uma obra orquestral completa a partir de uma única linha melódica. Ravel nunca esperou muito desta peça, única no conjunto da sua obra e distante daquilo que o público estava habituado a ouvir: "Estou particularmente desejoso de que não haja menosprezo em relação ao meu Bolero". Ansiedade que se compreende bem, se atendermos ao facto do próprio compositor ter descrito o Bolero como sendo "um trecho de dezassete minutos consistindo unicamente num tecido orquestral sem música"...

Inesperadamente a estreia, no dia 22 de Novembro de 1928, passam hoje 80 anos, foi um enorme sucesso, que incluiu uma audiência aos berros pedindo um encore... Não devemos esquecer, claro está, aquela espectadora que gritou doido! a plenos pulmões, o que, segundo o compositor, só vinha provar que pelo menos ela "tinha entendido a obra"! Aqui nós também a procuramos entender mas, dados a assumir os compromissos, nunca chegámos a passar no nosso programa (?) de rádio os 17 minutos mais famosos e insistentemente ouvidos da história da música...


CDs



Maurice Ravel
Boléro. Concerto for Piano Left-Hand and Orchestra. Pavane
pour une infante défunte. Rapsodie espagnole. La valse.
Claire Chevallier (piano)
Anima Eterna
Jos van Immerseel
Zig Zag Territories ZZT060901

Maurice Ravel
Bolero. Alborada del gracioso. Rapsodie Espagnole.
La valse. Ma Mere I'Oye.
Montreal Symphony Orchestra
Charles Dutoit
Decca 410 010-2


Internet

Maurice Ravel
Maurice Ravel frontispice / Classical Music Pages / Karadar Classical Music / Naxos / BBC / 8notes.com / suite101.com / Answers.com / Wikipedia

19/11/2008

Sinfonias #32: Sinfonia Nº4, de Franz Schubert

Da primeira que por aqui falámos do compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828), referimos o facto de ele ter escrito para cima de 600 canções, apesar de ter falecido com 31 anos apenas. Indubitavelmente que Schubert deu ao lieder um estatuto de que nunca antes tinha gozado, o que teve como contrapartida o facto de, enquanto vivo, ser quase exclusivamente conhecido como um compositor de canções, deixando os outros géneros a que se dedicou com igual brilho injustamente esquecidos.

Um desses géneros foi o sinfónico, tendo escrito 9 sinfonias, embora deixando algumas delas inacabadas; isto, claro, se esquecermos aquilo que viria a ser eventualmente a 10ª, mas da qual apenas deixou alguns esboços pianísticos, por ter falecido entretanto. Uma vez que morreu ainda jovem, é natural que tenha composto as primeiras sinfonias quando era muito novo; a Sinfonia Nº4, "Trágica", foi escrita em 1816, ainda não tinha o compositor 20 anos, mas foi apenas estreada no dia 19 de Novembro de 1849, exactamente 21 anos após a sua morte. Nela não se reconhecem ainda distintamente os sons do romântico, mas antes as influências clássicas vienenses, de Haydn (1732-1809), Mozart (1756-1791) e Beethoven (1770-1827). Ao contrário de outros casos, foi o próprio compositor que deu o nome à sinfonia, apesar do tom geral da mesma não ser tão trágico quanto isso...


CDs



Franz Schubert
Symphonies Nos.1-6, 8 & 9.
Staatskapelle Dresden
Colin Davis
RCA Red Seal 82876 60392-2

Franz Schubert
The 10 Symphonies.
Academy of St Martin in the Fields
Neville Marriner
Philips 470 886-2

Felix Mendelssohn
Die schone Melusine, Op.32.
Franz Schubert
Symphony No.4 in C minor, "Tragic", D417.
Berlin Philharmonic Orchestra
Nikolaus Harnoncourt
Teldec 4509-94543-2


Internet

Franz Schubert
Classical Net / Classical Music Pages / Naxos / Wikipedia / Carolina Classical Connection

18/11/2008

Notícias #22

Entretanto o site da Casa da Música lá recuperou a saúde e está de novo disponível, pelo que finalmente me decidi a dar uma espreitadela à programação para o próximo ano. Depois de sucessivos desapontamentos nos anos anteriores, as esperanças não eram muito elevadas, mas diria que, à primeira vista, pareceu-me notar melhorias em algumas áreas:

» Em vez de sair às prestações, a programação saiu logo para o ano inteiro;
» O caderno com a programação, de que se pode fazer o download (ficheiro em formato pdf), está bem organizado, detalhado qb e com uma apresentação agradável;
» Apesar de a programação, na minha opinião, continuar a favorecer demasiadamente os pianistas, há uma maior atenção aos outros instrumentistas, com excelentes intérpretes entre os convidados, como Hákan Hardenberger (trompetista) e António Meneses (violoncelista); pouco, mas melhor do que nada;
» A lista de pianistas que vão por lá passar é deveras impressionante, incluindo nomes como Sequeira Costa, Maria João Pires, Boris Berezovski, Lise de la Salle, Marc-André Hamelin, Andreas Staier, Murray Perahia, Piotr Anderszewski, Grigori Sokolov ou Nelson Freire;
» De realçar ainda, obviamente, o regresso do barítono Matthias Goerne.

Há, todavia, alguns pontos negativos que importa realçar:

» A música de câmara continua a ser largamente ignorada;
» Com honrosas excepções (Ensemble InterContemporain, Academy of Ancient Music, Akademie für Alte Musik Berlin, e pouco mais), os grupos e as orquestras estrangeiras não têm lugar nesta casa;
» Alguns dos preços praticados roçam o absurdo. A que propósito é que desta vez, para os concertos da Orquestra Nacional do Porto, por exemplo, não há descontos para jovens? É assim que pretendem incentivar os pais a levarem os filhos aos concertos?! Cobrando 20 euros por um bilhete para o meu filho de 7 anos poder assistir ao recital de Maria João Pires?!