22/11/2008

Obras Orquestrais #18: Bolero, de Maurice Ravel

Nos anos 80 do século passado deu-se o boom das rádios piratas, com especial incidência nos meios universitários. A Universidade do Porto (dessa vez) não quis deixar passar a oportunidade e, com a boa vontade de alguns e a carolice de muitos, lá nasceu a RUP, Rádio Universitária do Porto, que transmitia em frequência modulada (F. M.) em 99,4MHz. Na altura este vosso escriba, em conjunto com um amigo, entregou à administração lá do sítio uma proposta, má, para um programa que, por razões que ainda hoje não consigo descortinar, foi aprovada. O que de imediato nos colocou perante um problema sério, pois as nossas discotecas, curtas como o dinheiro na carteira, só davam para encher meia dúzia de programas. Depois de bater a muitas portas e receber outras tantas negas, o dono da distribuidora Andante foi de uma gentileza extrema e, sem nos conhecer de lado nenhum, prontificou-se a emprestar-nos semanalmente discos, que deveríamos devolver após cada emissão. O primeiro que nos calhou em sorte continha várias obras orquestrais do compositor francês Maurice Ravel (1875-1937), mas só nos foi cedido depois de termos solenemente garantido que não passaríamos... o Bolero!

A obra resultou de uma encomenda, da bailarina russa Ida Rubinstein (1885-1960), se bem que não tenha sido a primeira escolha do autor; na verdade, depois de Ida lhe ter dito que queria uma peça com alma espanhola, Ravel pensou inicialmente em orquestrar algumas partes de Iberia, do compositor espanhol Isaac Albéniz (1860-1909). Não tendo obtido os necessários direitos para tal, não teve outro remédio senão compor algo de novo, optando por desenvolver uma obra orquestral completa a partir de uma única linha melódica. Ravel nunca esperou muito desta peça, única no conjunto da sua obra e distante daquilo que o público estava habituado a ouvir: "Estou particularmente desejoso de que não haja menosprezo em relação ao meu Bolero". Ansiedade que se compreende bem, se atendermos ao facto do próprio compositor ter descrito o Bolero como sendo "um trecho de dezassete minutos consistindo unicamente num tecido orquestral sem música"...

Inesperadamente a estreia, no dia 22 de Novembro de 1928, passam hoje 80 anos, foi um enorme sucesso, que incluiu uma audiência aos berros pedindo um encore... Não devemos esquecer, claro está, aquela espectadora que gritou doido! a plenos pulmões, o que, segundo o compositor, só vinha provar que pelo menos ela "tinha entendido a obra"! Aqui nós também a procuramos entender mas, dados a assumir os compromissos, nunca chegámos a passar no nosso programa (?) de rádio os 17 minutos mais famosos e insistentemente ouvidos da história da música...


CDs



Maurice Ravel
Boléro. Concerto for Piano Left-Hand and Orchestra. Pavane
pour une infante défunte. Rapsodie espagnole. La valse.
Claire Chevallier (piano)
Anima Eterna
Jos van Immerseel
Zig Zag Territories ZZT060901

Maurice Ravel
Bolero. Alborada del gracioso. Rapsodie Espagnole.
La valse. Ma Mere I'Oye.
Montreal Symphony Orchestra
Charles Dutoit
Decca 410 010-2


Internet

Maurice Ravel
Maurice Ravel frontispice / Classical Music Pages / Karadar Classical Music / Naxos / BBC / 8notes.com / suite101.com / Answers.com / Wikipedia

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