29/03/2008

Compositores #89: Charles-Valentin Alkan (1813-1888)

Se a obra do francês Charles-Valentin Alkan não é ainda mais desconhecida actualmente, tal deve-se em grande parte ao esforço de um compositor e pianista que já por aqui passou amiúde: Ferruccio Busoni (1866-1924). Busoni esteve bem acompanhado nessa tarefa por Egon Petri (1881-1962), um antigo aluno seu, e pelo compositor Kaikhosru Sorabji (1892-1988), que chegou a dar o nome de Quasi Alkan a um dos movimentos de uma obra sua.

O próprio Alkan fez por que a sua vida e obra fossem pouco conhecidas, ao desaparecer de circulação frequentemente, refugiando-se em... Paris, passando largos períodos sem dar sinal de vida. Aluno brilhantíssimo do Conservatório de Paris, revelou desde muito jovem possuir uma técnica pianística absolutamente invulgar, tendo privado com outros grandes nomes da música e do piano, como Franz Liszt (1811-1886) e Frédéric Chopin (1810-1849). As suas composições para piano, que estão em maioria no conjunto da sua obra (deixou-nos um catálogo com um total de 76 números de opus), são tecnicamente muito difíceis, exigindo grande virtuosismo ao intérprete, tendo Busoni afirmado estar-se perante "a maior obra para piano depois da de Liszt".

Em 1838, com 25 anos apenas, Alkan deu início aos seus desaparecimentos. Durante os 35 anos seguintes raramente apareceu a tocar em público; será mais correcto até dizer que raramente apareceu em público... Apenas a partir de 1873 passou a tocar em público de uma forma mais ou menos regular; em muito poucas ocasiões, contudo, interpretou a sua própria música.

Charles-Valentin Alkan faleceu há 120 anos, no dia 29 de Março de 1888.


CDs





Charles-Valentin Alkan
Grande Sonata "Les Quatres Ages", Op.33. Sonatine, Op.61.
Barcarolle, Op.65 No.6. Le Festin d'Esope, Op.39 No.12.
Marc-André Hamelin (piano)
Hyperion CDA66794
(1994)

Charles-Valentin Alkan
Symphonie, Op.39 Nos.1-4. Salut, cendre du pauvre!, Op.45.
Alleluia, Op.25. Super flumina Babylonis, Op.52.
Souvenirs: Trois Morceaux dans le genre pathétique, Op.15.
Marc-André Hamelin (piano)
Hyperion CDA67218
(2000)

Charles-Valentin Alkan
Concerto for Solo Piano, Op.39 Nos.8-10.
Troisième recueil de chants - Book 3, Op.65.
Marc-André Hamelin (piano)
Hyperion CDA67569
(2006)

Charles-Valentin Alkan
Concerto for Solo Piano.
Marc-André Hamelin (piano)
Music & Arts CD-724

Charles-Valentin Alkan
Grande Sonate, "Les Quatres Âges", Op.33.
4 Études (12 Études dans tous les tons mineurs, Op.39).
La Chanson de la folle au bord de la mer (Préludes, Op.31).
Allegro barbaro (12 Études dans tous les tons majeurs, Op.35).
Sonatine, Op.61. Trois Études de bravoure, Op.16.
Trois Grands Études pour les deux mains séparées et réunies, Op.76.
Ronald Smith (piano)
EMI Double Forte 5 75649-2
(1971, 1973, 1977, 1987)

Charles-Valentin Alkan
48 Esquisses, Op.63.
Steven Osborne (piano)
Hyperion CDA67377
(2002)

Charles-Valentin Alkan
Organ Works, Volume 1.
Benedictus, Op.54. Douze Études pour les pieds seulement.
Onze Grandes Préludes et une Transcription du Messie de Handel, Op.66.
Kevin Bowyer (órgão)
Toccata Classics TOCC0030
(2005)

Charles-Valentin Alkan
12 Études dans les tons mineurs, Op.39. Nocturne.
Jack Gibbons (piano)
ASV CDDCS227


Internet

Charles-Valentin Alkan
The Alkan Society / Karadar Classical Music / Naxos / Hyperion / Wikipedia / Classical Net

26/03/2008

SACDs #17: Beethoven, Piano Sonatas

O ano de 1802 foi especialmente difícil para Ludwig van Beethoven, que chegou mesmo a escrever um documento, destinado aos seus irmãos, em que, entre outras coisas, os informava da sua intenção de se suicidar. Esse documento, escrito em Outubro desse ano, ficou conhecido como o Testamento de Heiligenstadt, pelo facto de na altura o compositor se encontrar na localidade com aquele nome, não muito distante de Viena. Foi, apesar de tudo, uma época bastante produtiva, em que compôs a Sinfonia Nº2, começou a esboçar a Sinfonia Nº3, e escreveu ainda um oratório, Christus am Ölberge, e uma ópera, Fidelio.

Não muito tempo depois, em 1804, Beethoven iniciou a composição da Sonata Nº23 para Piano, que só lá para 1838 ganharia o título por que hoje é universalmente conhecida, Appassionata, atribuído pelo editor Cranz, de Hamburgo, aquando da publicação de uma versão para quatro mãos. Terminada em 1805 ou 1806, foi publicada em Fevereiro de 1807 e dedicada ao conde Franz von Brunswick, irmão de Thereza, por quem Beethoven teve uma paixoneta. A Appassionata é uma das grandes sonatas para piano que pertencem ao chamado período médio do compositor, em conjunto com a Sonata Nº21, Waldstein, e a Sonata Nº26, Les Adieux.

É também uma das 3 sonatas que constam deste excelente disco da pianista canadiana Angela Hewitt que, nas palavras da própria, procurou apresentar uma sonata popular, precisamente a Appassionata, em conjunto com uma menos conhecida, no caso a nº4, e uma favorita dos estudantes de piano, a nº7. As gravações foram efectuadas em Itália em Setembro de 2005, um mês e pouco antes do recital que deu na Casa da Música, a que tive a felicidade de assistir.

Foi num dia 26 de Março, de 1778, que Beethoven se apresentou pela primeira vez em público, com apenas 7 anos de idade. Foi também num dia 26 de Março, mas de 1827, que Beethoven faleceu, passam hoje 181 anos.




Ludwig van Beethoven
Piano Sonata No.7 in D major, Op.10 No.3.
Piano Sonata No.4 in E flat major, Op.7.
Piano Sonata No.23 in F minor, "Appassionata", Op.57.
Angela Hewitt (piano)
Hyperion SACDA67518
(2005)


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Ludwig van Beethoven
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24/03/2008

Concertos para Piano #9: Concerto para Piano, Op.33, de Dvorák

Não é por acaso que o Concerto para Piano que Antonín Dvorák (1841-1904) escreveu no Verão de 1876 não figura habitualmente na lista das obras de referência do compositor checo. A viola foi o instrumento que aprendeu a tocar enquanto jovem e, como compositor, Dvorák sempre se sentiu mais à-vontade a escrever para cordas do que propriamente para teclas. Dvorák meteu-se nesta empreitada por solicitação do pianista, igualmente checo, Karel ze Sladkovskych que, tanto quanto possível, procurava interpretar obras de compatriotas seus. Não resultou deste pedido o primeiro esforço de Dvorák em escrever uma obra concertante mas quase, pois, antes disso, apenas se tinha aventurado a rabiscar um concerto para violoncelo e orquestra, que foi rapidamente esquecido. Só em 1894 viria o compositor a iniciar a escrita do Concerto para Violoncelo e Orquestra, Op.104, um dos mais importantes algumas vez compostos para esse instrumento.

Depois da estreia do concerto para piano, ocorrida há 130 anos, no dia 24 de Março de 1878, ele foi basicamente ignorado, o que se explicará pelas fragilidades das partes escritas para o piano. Na tentativa de remediar a coisa, várias pessoas houve que modificaram a obra original e publicaram edições alternativas, a mais conhecida das quais se deve ao pianista e professor Vilém Kurz (1872-1945), que lhe ampliou os efeitos virtuosísticos. Mas nem assim se conseguiu aumentar a popularidade deste concerto...


CDs



Antonín Dvorák
Piano Concerto in G minor, Op.33. The Golden Spinning Wheel, Op.109.
Pierre-Laurent Aimard (piano)
Royal Concertgebouw Orchestra
Nikolaus Harnoncourt
Teldec 8573 87630-2
(2001)

Antonín Dvorák
Violin Concerto in A minor, Op.53. Piano Concerto in G minor, Op.33.
James Ehnes (violino), Rustem Hayroudinoff (piano)
BBC Philharmonic Orchestra
Gianandrea Noseda
Chandos CHAN10309
(2004)

Antonín Dvorák
Cello Concerto in B minor, Op.104. Piano Concerto in G minor, Op.33.
Mstislav Rostropovich (violoncelo), Frantisek Maxian (piano)
Czech Philharmonic Orchestra
Vaclav Talich
Supraphon SU3825-2


Internet

Antonín Dvorák
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21/03/2008

SACDs #16: Franz Schubert, Symphonie No.8, "Gross"

Entre 1813 e 1818 o compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828) compôs 6 sinfonias; após esse período apenas escreveu mais uma sinfonia completa, tendo-nos deixado pelo meio esboços de mais algumas. Schubert datou de Março de 1828 o manuscrito dessa última sinfonia completa, mas há evidências recentes de que a terá composto entre 1825 e 1826. Como resultado de tudo isto, aquela que nós conhecemos como a Sinfonia Nº9 de Franz Schubert já foi apelidada de 7, 8 e 10; os nossos amigos germânicos, por exemplo, acham que ela é a Sinfonia Nº8, e é assim que ela aparece designada no disco que aqui trago hoje, por originário daquelas bandas. Por isso, apesar do título do disco, as sonoridades lá contidas dizem respeito à Sinfonia Nº9, e é dela de que se aqui hoje falará!

Apesar de ser hoje um dos compositores mais conhecidos, Schubert raramente saboreou o sucesso; apenas no ano da sua morte se pode dizer que ele sentiu algum reconhecimento, quando algumas das suas obras foram interpretadas no Musikverein de Viena, e tiveram uma recepção entusiástica. Fora isso, dificilmente se poderá encontrar um outro momento em que Schubert, na sua curta vida, tenha visto uma obra sua ser entusiasticamente recebida. Esta Sinfonia Nº9 é disso um exemplo significativo: ainda Schubert era vivo, a Gesellschaft der Musikfreunde, os tais do Musikverein..., recusaram-se a tocá-la por, aparentemente, estar além das suas possibilidades. O manuscrito foi mais tarde, em 1838, encontrado por Robert Schumann (1810-1856) em casa de Ferdinand Schubert (1794-1859), irmão de Franz, mas não conseguiu estreá-la, perante as recusas das orquestras de Viena e de Paris. A estreia aconteceria apenas em 1839, no dia 21 de Março, na cidade de Leipzig e com o nosso já conhecido Felix Mendelssohn (1809-1847) a dirigir a orquestra. E, mesmo nessa altura, Mendelssohn viu-se forçado a apresentá-la numa versão abreviada, curta de muitas das repetições, quando é hoje opinião (quase) unânime de que ela só faz sentido se a sua integridade, todas as repetições incluídas, for respeitada.




Franz Schubert
Symphonie No.8, "Grosse", C-Dur.
Bamberger Symphoniker
Jonathan Nott
Tudor 7144
(2007)


Internet

Franz Schubert
Classical Music Pages / The Schubert Institute (UK) / Wikipedia / Classical Net / Naxos

19/03/2008

Compositores #88: Max Reger (1873-1916)

Criar um estilo musical resultante da fusão de influências tão díspares como as de Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Richard Wagner (1813-1883) parece uma quase impossibilidade, mas foi (mais ou menos) isso que conseguiu o nosso convidado de hoje, o compositor alemão Max Reger. Da admiração pelo primeiro resultou uma paixão assolapada pelo contraponto, do segundo admirou principalmente a harmonia. Reger visitou Bayreuth em 1888, tendo ficado vivamente impressionado com as óperas de Wagner, influência que se viria a revelar decisiva em toda a sua obra. Curiosamente, Reger abarcou todos os géneros musicais excepto... a ópera!

Compositor prolífico, compôs imensas obras para órgão (apenas ultrapassadas em número pelas que escreveu para piano e para conjuntos de câmara). Não fosse ser hoje quase totalmente ignorado e poderíamos afirmar, sem risco de levantarmos grandes polémicas, estarmos perante o mais importante conjunto de peças para órgão de um compositor alemão depois de Bach. Se calhar isto até é verdade, só que poucos as interpretam... No que às outras obras diz respeito, o cenário é ainda mais desanimador. É significativo, aliás, que nas páginas da Max Reger Foundation of America (ligação no final deste texto), se afirme que, à excepção das peças para órgão, praticamente ninguém nos Estados Unidos interprete as orquestrais, vocais, corais, para piano e de câmara deste compositor.

Max Reger nasceu há 135 anos, no dia 19 de Março de 1873.


CDs




Max Reger
Suite im alten Stil, Op.93. Serenade in G, Op.95.
Bamberg Symphony Orchestra
Horst Stein
Koch Schwann 3-1566-2
(1993)

Max Reger
Improvisations, Op.18. Humoresques, Op.20.
Traume am Kamin, Op.143. In der Nacht.
Markus Pawlik (piano)
Naxos 8.553331

Max Reger
String Quartet in E flat major, Op.109.
Clarinet Quintet in A major, Op.146.
Karl Leister (clarinete)
Vogler Quartet
Nimbus NI5644
(1999)

Max Reger
Organ masterworks.
Fantasy for Organ, Op.52/2. Sonata in D minor, Op.60.
Symphonic Fantasy and Fugue, Op.57.
Franz Hauk (órgão)
Guild GMCD7192
(1996)

Max Reger
Psalm 100, Op.106. Variations and Fugue on a Theme by Mozart, Op.132.
Russian State Symphonic Cappella
Russian State Symphony Orchestra
Valéry Polyansky
Chandos CHAN9917

Max Reger
Chorale Fantasia on "How Brightly Shines the Morning Star".
Organ Pieces, Op.59. Introduction and Passacaglia in F minor, Op.63.
Josef Still (órgão)
Naxos 8.555905

Max Reger
Works for Orchestra.
Karl Suske, Heinz Schunk, Walter Hartwich,
Manfred Scherzer, Günter Siering (violinos)
Amadeus Webersinke (piano)
Annelies Burmeister (alto)
Staatskapelle Berlin, Otmar Suitner
Gewandhausorchester Leipzig, Franz Konwitschny
Staatskapelle Dresden, Heinz Bongartz, Herbert Blomstedt
Dresdner Philharmonie, Heinz Bongartz, Günther Herbig
Rundfunk-Sinfonie-Orchester Leipzig, Heinz Bongartz
Rundfunk-Sinfonie-Orchester Berlin, Heinz Rögner
Berlin Classics 0183992BC
(1963, 1965, 1969, 1970, 1973, 1974, 1984)


Internet

Max Reger
The Max Reger Foundation of America / Classical Music Pages / Naxos / Guild / Wikipedia / Classical Net / Bach Cantatas Website / Classical Music Archives

17/03/2008

Blogues #24

1. Embora atrasado, envio os parabéns ao valkirio, pela passagem do 1º aniversário.



2. Alice Valente Alves, autora do blogue ALI_SE, convida-nos para a inauguração da sua exposição CORPOtraçoCORPO, a ter lugar já na próxima Quarta-feira pelas 18 horas, na Galeria AMIArte (Rua da Lomba, 153, Porto). As obras estarão em exposição até 19 de Abril.

16/03/2008

Meios-Sopranos #3: Teresa Berganza (1935-)

O primeiro Festival d'Aix-en-Provence teve lugar em Julho de 1948; dele constaram cerca de uma dezena de concertos e uma récita, da ópera Così fan tutte, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). No ano seguinte, com o sucesso obtido com Don Giovanni, igualmente de Mozart, começou-se a estabelecer a reputação lírica do festival, mantida até aos dias de hoje. Mozart manter-se-ia uma figura central do festival, apesar das várias mudanças de rumo que lhe foram impostas ao longo dos anos.

O meio-soprano Teresa Berganza teve a sua estreia operática em 1957, e logo no Festival d'Aix-en-Provence. Na ocasião como Dorabella, em Così fan tutte, precisamente a primeira ópera apresentada nesse festival. Já agora, refira-se que esta ópera não gozou do mesmo sucesso continuado de muitas outras do mesmo compositor; estreada, com bastante sucesso, em Janeiro de 1790, apenas na 2ª metade do século XX granjearia apreço generalizado. O libreto, da autoria de Lorenzo da Ponte (1749-1838), com as suas trocas de casais em versão século XVIII, foi por muitos considerado ostensivamente imoral. Faltava, na altura, um Bloco de Esquerda para defender tais tropelias...

Mozart continuaria central na carreira da espanhola Teresa Berganza. Em 1958, no ano seguinte ao da sua estreia, foi a vez de fazer o papel de Cherubino, em Le Nozze di Figaro, com tal sucesso que o repetiu anos a fio (14 anos depois ainda o fazia em Salzburgo, e não consta que tenha havido muitos incómodos pela insistência...). Só houve um outro compositor em que Berganza brilhou com igual intensidade: Rossini. Assunto para outra altura, há que preservar o stock de temas...

Teresa Berganza nasceu há 73 anos, no dia 16 de Março de 1935.


CDs



Brava Berganza! a birthday tribute.
Deutsche Grammophon 477 5489

Manuel de Falla
El sombrero de tres picos. El amor brujo.
Interlude and Dance from La vida breve.
Teresa Berganza, Marina de Gabarain (meios-sopranos)
Suisse Romande Orchestra
Ernest Ansermet
Decca 466 991-2
(1955, 1961)

Georges Bizet
Carmen.
Teresa Berganza, Alicia Nafe, Shirley Minty (meios-sopranos),
Plácido Domingo, Geoffrey Pogson (tenores), Sherrill Milnes,
Stuart Harling, Gordon Sandison (barítonos), Ileana Cotrubas,
Yvonne Kenny (sopranos), Robert Lloyd, Richard Amner (baixos)
The Ambrosian Singers
London Symphony Orchestra
Claudio Abbado
Deutsche Grammophon 477 5342
(1977)


Internet

Teresa Berganza
Official Website / Wikipedia / Teresa Berganza / El Mundo

13/03/2008

Pianistas #22: Gerald Moore (1899-1987)

Em condições para nós hoje dificilmente imagináveis, a pianista inglesa Myra Hess (1890-1965) manteve os seus recitais da hora de almoço durante o decorrer da 2ª Guerra Mundial, história já contada aqui e aqui. Foi um exemplo extraordinário de cooperação entre as artes, com a pictórica a ser substituída pela musical: os quadros tinham sido retirados da National Gallery como medida de precaução, entraram Myra Hess e os músicos por ela convidados.

Um deles foi o pianista, igualmente inglês, Gerald Moore, que lá foi falar da arte de acompanhar. "Arte de acompanhar?!", interrogar-se-ão alguns. É que Gerald Moore elevou essa arte a um patamar jamais atingido anteriormente, ao ponto de se poder afirmar que trocou a lógica do sistema: cantor(a) que fosse por ele acompanhado(a), ou já era consagrado(a) ou para lá certamente caminhava! E tocou com grandes cantores, como Janet Baker (1933-), Victoria de los Angeles (1923-2005), Dietrich Fischer-Dieskau (1925-), Hans Hotter (1909-2003) e Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006), ajudando a divulgar algumas das canções (lieder) menos conhecidas de Franz Schubert (1797-1828), Richard Strauss (1864-1949) e Hugo Wolf (1860-1903). Quase tudo músicos e compositores que já por aqui passaram.

Gerald Moore deixou os palcos há 40 anos, em 1967, mais de 40 depois de se ter estreado, e faleceu há 21, no dia 13 de Março de 1987.


CDs





Franz Schubert
Die schöne Müllerin. Nacht und Träume. Ständchen.
Du bist die Ruh'. Erlkönig.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono),
Jorg Demus, Gerald Moore (pianos)
Deutsche Grammophon 463 502-2

Franz Schubert
Lieder.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), Gerald Moore (piano)
EMI Encore 5 74754-2

Franz Schubert
Lieder - Die schöne Müllerin; Winterreise; Schwanengesang.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), Gerald Moore (piano)
Deutsche Grammophon 477 5765

Franz Schubert
Winterreise, D911.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), Gerald Moore (piano)
INA Mémoire Vive IMV058

Hand Hotter
Wolf Lieder Recital.
Hans Hotter (baixo-barítono), Gerald Moore (piano)
Testament SBT1197

Elisabeth Schwarzkopf
The unpublished EMI Recordings 1955-1984.
Elisabeth Schwarzkopf (soprano), Gerald Moore,
Walter Gieseking (pianos)
Testament SBT1206

The Fabulous Victoria de Los Angeles
A Lifetime Achievement.
Victoria de los Angeles (soprano), Gerald Moore (piano)
French Radio National Chorus
Lamoureux Concert Orchestra
French Radio National Orchestra
Jean-Pierre Jacquillat, Thomas Beecham
Testament SBT1246

The Very Best of Janet Baker.
Janet Baker (meio-soprano), Gerald Moore, Geoffrey Parsons,
Daniel Barenboim, André Previn (pianos)
John Alldis Choir
Ambrosian Singers
Academy of St Martin in the Fields
English Chamber Orchestra
National Philharmonic Orchestra of London
Hallé Orchestra
London Symphony Orchestra
Neville Marriner, Fruhbeck de Burgos, Adrian Boult,
John Barbirolli, André Previn, Philip Ledger
EMI 5 75069-2

de los angeles
Berlioz - Scarlatti - Handel - Schubert - Schumann -
Stravinsky - Ravel - Duparc - Brahms
Victoria de los Angeles (soprano), Gerald Moore (piano)
BBC Symphony Orchestra
Rusolf Schwarz
BBC Legends BBCL4101-2

Dietrich Fischer-Dieskau
An die Musik.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), Daniel Barenboim,
Jorg Demus, Gerald Moore, Sviatoslav Richter, Wolfgang
Sawallisch, Karl Engel, Hermann Tottcher (pianos)
Berlin Philharmonic Orchestra
Karl Böhm, Ferenc Fricsay
Deutsche Grammophon 477 5556

Dietrich Fischer-Dieskau
Die Salzburger Liederabende 1956-1965.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), Gerald Moore,
Erik Werba (pianos), Irmgard Seefried (soprano)
Orfeo d'Or C339 050T


Internet

Gerald Moore
allmusic / Wikipedia / Answers.com

11/03/2008

DVDs #16: I Capuleti e i Montecchi, Vincenzo Bellini

Vincenzo Bellini (1801-1835) não teve muito tempo para escrever a ópera I Capuleti e i Montecchi, depois do seu colega de profissão Nicola Vaccai (1790-1848) não ter dado conta do recado. A direcção do Teatro La Fenice, de Veneza, virou-se então para Bellini, a quem encomendou uma ópera para a época de Carnaval que se avizinhava. Contou para tal com a preciosa ajuda do libretista, igualmente italiano, Felice Romani (1788-1865) que, para o efeito, pegou num libreto que tinha escrito 5 anos antes para a ópera Giuletta e Romeo de... Nicola Vaccai e deu-lhe umas voltas.

Romani baseou-se num libreto de Giuseppe Maria Foppa (1760-1845) que, por sua vez, tinha-se baseado na 33ª das 50 pequenas histórias Il Novellino escritas por Masuccio Salernitano (1410-1475), que contava a história de Mariotto e Giannozza. Ou de Giuletta e Romeo, como posteriormente o escritor Luigi da Porto (1485-1529) lhes chamou quando, por volta de 1530, escreveu a sua novela, provavelmente inspirada na de Salernitano. E terão sido todas estas e, principalmente, The Tragical History of Romeus and Juliet, do poeta inglês Arthur Brooke, que serviram de inspiração a William Shakespeare (1564-1616).

Bellini tinha já obtido vários sucessos operáticos, nomeadamente com as ópera Il Pirata, de 1827, e La straniera, de 1829. Sucesso esse que Zaira, também escrita em 1829, esteve longe de registar. Fiasco será, porventura, a classificação mais acertada... Pelo que se compreende a felicidade do compositor pela forma como I Capuleti e i Montecchi foi recebida na estreia, a 11 de Março de 1830. Atente-se neste extracto de uma carta que escreveu na altura, extracto este que vem no livrinho que acompanha o DVD: "Mio caro Lamperi, a quest'ora saprai il felice incontro che ha avuto la mia opera I Capuleti ed i Montecchi, andata in scena il giorno 11 di questo mese. Per darti un'idea del piacere che ha destato ti dico che dalla prima reppresentazione alla quarta, che è stata domenica, il fanatismo à arrivato se non al di là, simile a quello del Pirata e della Straniera in Milano (...)".

Espantoso sucesso atendendo a que, dado o aperto de tempo, Bellini utilizou em 8 dos seus 10 números músicas inicialmente compostas para outras óperas, E é ainda uma das poucas óperas do bel canto que se vai mantendo no repertório...




Vincenzo Bellini
I Capuleti e i Montecchi.
Patrizia Ciofi, Clara Polito (sopranos), Danilo Formaggia,
Nicola Amodio (tenores), Federico Sacchi (baixo)
Bratislava Chamber Chorus
Orchestra Internazionale d'Italia
Luciano Acocella
(2005)


Internet

Vincenzo Bellini
OperaGlass
/ Wikipedia / Vincenzo Bellini / Classical Net

Felice Romani
Wikipedia / Opera Italiana

10/03/2008

Blogues #23

Pelo vistos o José Pimentel Teixeira lançou um certo desafio, que foi aceite pelo destinatário. Disto resultou o Ma-blog, um portal do bloguismo relacionado com Moçambique. Naturalmente que um dos blogues lá referenciados é o Ma-Schamba, ou a lista nunca estaria completa.

08/03/2008

SACDs #15: Strauss, Don Quixote, Don Juan

Os poemas sinfónicos, formalmente introduzidos por Franz Liszt (1811-1886), são composições orquestrais inspiradas em temas não musicais, e geralmente compostas de um andamento só. Geralmente mas nem sempre, está bom de ver, e Richard Strauss (1864-1949), no seu poema sinfónico Don Quixote, dá-nos, após a introdução e o tema, 10 variações sobre este, cada uma delas descrevendo uma aventura distinta do herói de Miguel de Cervantes (1547-1616).

Strauss tinha anteriormente escrito 5 poemas sinfónicos, e na altura em que meteu mãos à obra neste, em 1897, era já um compositor consagrado. De um deles, Also sprach Zarathustra, falámos aqui em Março de 2006, onde referimos a controvérsia que envolveu a obra. Don Quixote, embora a outro nível, também não se livrou de algumas peripécias. Se a estreia, em Munique, a 8 de Março de 1898, passam hoje 110 anos, correu normalmente, já a parisiense, em 1900, não foi exactamente assim: o poema de Strauss revela o ambiente burlesco do original de Cervantes, e parte do público dos Concertos Lamoureux de Paris, por alguém descrito como "quanto menos músico é, mais se põe a cavalo do bom gosto musical", pensou que estava a ser gozada e desatou a vaiar a obra no final...

Neste disco temos ainda Don Juan, um poema sinfónico escrito por Strauss em 1888. Em ambas as obras a Orquestra Sinfónica de Chicago é dirigida pelo maestro de origem húngara Fritz Reiner (1888-1963), que conheceu pessoalmente Richard Strauss, de quem estreou várias obras e foi um dos grandes promotores. Grande disco...




Richard Strauss
Don Quixote, Op.35. Don Juan, Op.20.
Chicago Symphony Orchestra
Fritz Reiner
RCA Red Seal 88697046042
(1954, 1959)


Internet

Richard Strauss
Richard Strauss Online / Classical Music Pages / Classical Net / The Richard Strauss Page / Wikipedia / mfiles

Fritz Reiner
Classical Notes / Chicago Symphony Orchestra / Wikipedia