28/04/2008

Sinfonias #27: Sinfonia Kullervo, de Jean Sibelius

O mínimo que se pode afirmar é que as opiniões sobre o compositor finlandês Jean Sibelius (1865-1957) não são consensuais, tendo sido, por exemplo, "o pior compositor do mundo" para o compositor, maestro e teórico René Leibowitz (1913-1972), um quase desconhecido hoje em dia..., e "o maior sinfonista desde Beethoven" para o seu biógrafo, Cecil Gray (1895-1951).

Atingiu a fama cedo, com a Sinfonia Kullervo, uma das suas primeiras obras, e que é assim como que uma mistura de sinfonia, poema sinfónico e cantata. Sibelius estudou em Viena entre 1890 e 1891, e foi lá que começou a esboçar a obra. Aquilo que era para ser uma simples abertura acabou por se tornar numa obra de maior fôlego, para soprano, barítono, coro masculino e orquestra, estruturada em 5 andamentos e com uma duração superior a 70 minutos.

O compositor inspirou-se na epopeia Kalelava, compilada por Elias Lönnrot (1802-1884), em particular nos capítulos 31 a 36. Kullervo é o nome da criança que sobrevive a 3 tentativas de assassinato por parte do seu tio, Untamo, que já antes tinha massacrado quase toda a sua família, com excepção de uma irmã de Kullervo. Com quem este acabou por ter uma relação, por desconhecer os laços familiares, que terminou com o suicídio dela, primeiro, e com o dele, depois, não sem que antes tivesse chacinado o tio e toda a restante tribo. Uma tragédia de dimensões inimagináveis!

A Sinfonia Kullervo foi estreada há 116 anos, no dia 28 de Abril de 1892, com o próprio compositor a dirigir a orquestra. Sibelius nunca mais permitiu que ela voltasse a ser interpretada, pelo que foi a primeira e última vez que foi ouvida em vida do compositor.


CD



Jean Sibelius
Kullervo, Op.7.
Lilli Paasikivi (meio-soprano), Raimo Laukka (barítono)
Helsinki University Chorus
Lahti Symphony Orchestra
Osmo Vänskä
BIS BIS-CD-1215
(2000)


SACD



Jean Sibelius
Kullervo, Op.7.
Monica Groop (meio-soprano), Peter Mattei (barítono)
Men of the London Symphony Chorus
London Symphony Orchestra
Colin Davis
LSO Live LSO0574
(2005)


Internet

Jean Sibelius
Sibelius / Helsinki.fi / Classical Music Pages / Virtual Finland / Naxos / Jean Sibelius Web Pages / Wikipedia / Classical Net / Karadar Classical Music

26/04/2008

Notícias #18



O Stellenbosch Festival de Música de Câmara Internacional é o único festival do seu tipo na África do Sul, incorporando música de câmara nas suas componentes prática e educativa. Em 2008 o festival celebra o seu 5º aniversário e a organização decidiu promover uma versão reduzida do evento com o objectivo de criar uma rede musical com outras cidades internacionais. A primeira extensão deste Festival vai decorrer na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, Portugal, nos dias 9, 10 e 11 de Maio.

Com a Direcção Artística assinada por Luis Magalhães, pianista português de renome internacional residente na África do Sul, o elenco internacional será constituído por alguns dos melhores intérpretes da actualidade, para trompa, cordas e piano: Benjamim Schmid (Áustria), Nina Schumann, Xandi Van Dyk, Suzanne Martens e Peter Martens (África do Sul), Eugene Osatchy (EUA), León Bosch (Inglaterra), Abel Pereira e Luís Magalhães (Portugal).

Com um formato de três dias, os músicos participantes no Festival protagonizarão três concertos, a solo ou em formação de orquestra de câmara. Estão também previstas acções educativas (master-classes), de formação (worhshops) e de lazer (conversas informais com músicos, melómanos e musicólogos – Conversas no ‘Café Concerto’). Os alunos que se inscreverem nas master-classes terão ainda a oportunidade de participar no concerto de encerramento caso sejam seleccionados para isso durante os dias do festival.

Criar um ambiente de interacção entre estudantes de música e instrumentistas de calibre internacional e servir de montra a jovens talentos são os principais objectivos deste festival.


MASTER CLASSES

DATA LIMITE PARA INSCRIÇÕES: 2 MAIO 2008

Professores

Piano:
Nina Schumann - África do Sul
Luis Magalhães - Portugal

Cordas:
Benjamim Schmid (violino) – Áustria
Suzanne Martens (violino) - África do Sul
Xandi van Dijk (viola) - África do Sul
Eugene Osadchy (violoncelo) - EUA
Peter Martens (violoncelo) – África do Sul
Leon Bosch (contrabaixo) – Ingelaterra

Trompa:
Abel Pereira - Portugal


Para obter mais informações consultar aqui.

24/04/2008

SACDs #19: Joseph Haydn, The Seasons

O barão Gottfried van Swieten (1733-1803) foi um diplomata de carreira no reino vienense dos Habsburgos, mas não foi por essas actividades que ele mais se distinguiu; na verdade, o seu gosto pelas artes musicais levou-o a promover as obras do barroco, principalmente as de Johann Sebastian Bach (1685-1750) e de Georg Friedrich Handel (1685-1759), junto de compositores tão importantes como Ludwig van Beethoven (1770-1827), Joseph Haydn (1732-1809) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Também se dedicou à composição, só que com pouco sucesso, sendo as suas obras quase totalmente desconhecidas (não me lembro de algum dia ter ouvido alguma).

Na sequência das suas actividades extra-curriculares, van Swieten fundou, na década de 1780, a Gesellschaft der Associierten, onde ele e outros nobres, igualmente amantes das coisas da música, encomendavam obras e organizavam regularmente concertos. Dessas encomendas resultaram, nomeadamente, dois oratórios de Haydn, A Criação (Die Schöpfung) e As Estações (Die Jahreszeiten), este último como resultado directo do enorme sucesso obtido pel'A Criação, cuja estreia teve lugar no dia 29 de Abril de 1798. O nosso barão, levado pela onda geral de entusiasmo, apressou-se a convencer Haydn a escrever novo oratório.

O libreto, ainda escolha do barão, basear-se-ia no poema The Seasons do escocês James Thomson (1700-1748), cuja tradução para o alemão, da autoria do igualmente poeta Barthold Brockes (1680-1747) terá sido revista e adaptada pelo próprio van Swieten. Haydn trabalhou cerca de 2 anos neste oratório que foi estreado, de novo com grande sucesso, a 24 de Abril de 1801, passam hoje 207 anos.




Joseph Haydn
The Seasons.
Marlis Petersen (soprano), Werner Güra (tenor),
Dietrich Henschel (barítono)
RIAS-Kammerchor
Freiburger Barockorchester
René Jacobs
Harmonia Mundi HMC801829.30
(2003)


Internet

Joseph Haydn
Classical Music Pages / Carolina Classical Connection / Classical Net / Wikipedia / Clássicos / Karadar Classical Music

22/04/2008

Pianistas #23: Arnaldo Cohen (1948-)

Os nossos amigos brasileiros estão muitíssimo bem servidos de pianistas, alguns dos quais são dos mais (re)conhecidos internacionalmente. Parece que a década de 1940, em particular, se revelou extremamente produtiva; já aqui falei do extraordinário pianista Nelson Freire, nascido em 1944, chegando hoje a vez de falar de um outro, Arnaldo Cohen, nascido em 1948. Já para não falar da nossa Maria João Pires, obviamente, que nasceu no mesmo ano de Nelson Freire e se mudou há não muito tempo de armas e bagagens para o Brasil...

Arnaldo Cohen começa logo por ser um caso incomum por ter finalizado com notas máximas os cursos de piano... e violino da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi, aliás, como violinista profissional que começou, numa altura em que ainda estudava engenharia. Após ter estudado com Jacques Klein, por sua vez um antigo aluno do já nosso conhecido William Kapell (1922-1953), virou-se definitivamente para o piano, e com tal sucesso que, em 1972, venceu o Concurso Internacional de Piano Ferruccio Busoni, um dos mais prestigiados a nível mundial.

Actualmente a viver nos Estados Unidos, após vinte e tal anos passados em Londres, já tocou com alguns dos mais reputados músicos, agrupamentos de câmara e orquestras, como a violinista Viktoria Mullova (1959-), os Quartetos Chilingirian, Lindsay e Orlando, e as Orquestras Filarmónicas de Cleveland e de Orlando.

Arnaldo Cohen nasceu há 60 anos, no dia 22 de Abril de 1948.


CDs



Franz Liszt
Danse Macabre (Saint-Saëns), S555. Nuages gris, S199. Unstern!
Sinistre, disastro, S208. Grande Fantasie on "Les Huguenots"
by Meyerbeer, S412. La lugrube gondola, S200 (2 versões).
Impromptu, S191, "Nocturne". Totentanz, S525.
Arnaldo Cohen (piano)
Naxos 8.553852
(1996)

Brasiliana
Three Centuries of Brazilian Music.
Arnaldo Cohen (piano)
BIS BIS-CD-1121
(2001)

Franz Liszt
Funérailles (No.7 of Harmonies poètiques et religieuses).
Rhapsodie espagnole. Vallée d'Obermann (No.6 of Années de
pèlerinage: I. Suisse). Piano Sonata in B minor.
Arnaldo Cohen (piano)
BIS BIS-CD-1253
(2003)


SACD



Franz Liszt
Totentanz, S525. Piano Concertos - No.1 in E flat major;
No.2 in A major.
Arnaldo Cohen (piano)
São Paulo Symphony Orchestra
John Neschling
BIS BIS-SACD-1530


Internet

Arnaldo Cohen
Home Page / Philadelphia Classical Music / Arts Management Group / Scottish International Piano Competition 2007 / Indiana University / Pró-Música / Wikipédia

20/04/2008

CDs #158: Myaskovsky, Symphonies Nos.15 & 27

O realismo socialista foi a designação eufemística dada pelas autoridades soviéticas à política que definia a produção artística e que, na prática, se traduzia na censura de tudo aquilo que não promovesse os ideais socialistas e não passasse uma mensagem optimista. Os critérios, como seria de esperar, dificilmente poderiam ser perfeitamente claros e objectivos e, quando aplicados à produção musical, só poderiam resultar em confusão e mal-entendidos. Já anteriormente (aqui, aqui, e aqui) foram referidos os casos de Sergei Prokofiev (1891-1953) e (aqui e aqui) de Aram Khachaturian (1903-1978). E se em relação a estes dois não é fácil compreender as razões que os levaram a serem perseguidos e humilhados pelo regime, então mais difícil se torna perceber quais as que terão estado na base da marcação cerrada efectuada a partir de certa altura a Nikolai Myaskovsky (1881-1950), igualmente compositor e amigo de Prokofiev.

Porque, por um lado, a música de Myaskovsky nunca foi vanguardista e, por outro, o compositor nunca escondeu a preocupação que tinha em não fugir dos ditames de Andrei Zhdanov (1896-1948) & companhia. Só não os conseguia entender, e cito o próprio (frase retirada do livrinho que acompanha este disco), "I don't know how this musical language should sound, nor do I know a recipe for finding out", adiantando depois "Neither the striving after folk-songs nor the intoning of our urban melodies in their pure form seem to me to be the exclusive building blocks for the creation of the musical style of Socialist Realism in instrumental music (...)". Pois a verdade é que, apesar de todas estas cautelas, Myaskovsky teve um fim de vida muito complicado, com as autoridades a proibirem algumas das suas obras, em 1948, e a nunca mais o deixarem em paz a partir daí. Ironia do destino, apenas foi reabilitado aquando da estreia de umas das sinfonias apresentadas neste disco, a 27ª, a 9 de Dezembro de 1950, 4 meses e 1 dia após a sua morte. E se já uns anos antes tinha recebido dois prémios Estaline, viria a receber postumamente um terceiro, graças a esta Sinfonia Nº27, como se nada de anormal se tivesse passado entretanto...

Nikolai Myaskovsky nasceu há 127 anos, no dia 20 de Abril de 1881.




Nikolai Myaskovsky
Symphony No.15 in D minor, Op.38.
Symphony No.27 in C minor, Op.85.
Russian Federation Academic Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov
Olympia OCD 741
(1991-3)


Internet

Nikolai Myaskovsky
The official site / The music of Nikolai Miaskovski / classicalsource.com / Wikipedia

18/04/2008

Maestros #33: Leopold Stokowski (1882-1977)

A lista de obras estreadas pelo norte-americano de origem inglesa Leopold Stokowski é, por si só, prova insofismável de que estamos perante um dos maestros mais importantes de todo o século XX. De Sergei Rachmaninov (1873-1943), por exemplo, foram da sua responsabilidade as estreias do Concerto para Piano e Orquestra Nº4, em 1927, da Rapsódia sobre um tema de Paganini, em 1934, e da Sinfonia Nº3, em 1936; de Dmitri Shostakovich (1906-1975), outro compositor de que por aqui já se falou várias vezes, estreou em solo americano as Sinfonias Nºs 1, 3, 6 e 11; foi também graças a ele que, em 1916, os norte-americanos puderam ouvir pela primeira vez ao vivo a Sinfonia Nº8 de Gustav Mahler (1860-1911). Não hesitou em correr riscos, estreando frequentemente obras de compositores menos mediáticos, como foi o caso de Amériques, de Edgar Varèse (1883-1965), descrita por um crítico como "(...) a primeira partitura absolutamente original para grande orquestra escrita nos Estados Unidos desde o início do século XX".

Os últimos anos têm visto várias e importantes editoras a vasculharem furiosamente os baús, numa onda revivalista de que não há memória. Como resultado disso, a lista de (boas) gravações de Stokowski aqui apresentada há 3 anos está completamente desactualizada, pelo que aproveito a oportunidade da passagem de mais um aniversário do seu nascimento, no caso o 126º, para mostrar alguns dos discos entretanto editados.


CDs





Nicolai Rimsky-Korsakov
Scheherazade, Op.35.
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Marche Slave, Op.31.
London Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
Cala CACD0536
(1964, 1972)

Ralph Vaughan Williams
Symphony No.6.
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Romeo and Juliet.
Wolfgang Amadeus Mozart
Symphony No.35, "Haffner", K385.
Thomas Jefferson Scott
From the Sacred Harp.
Jaromir Weinberger
Schwanda the Bagpiper - Polka and Fugue.
New York Philharmonic Orchestra
Leopold Stokowski
Cala CACD0537
(1949)

Ralph Vaughan Williams
Symphony No.9 in E minor.
Wallingford Riegger
New Dance, Op.18b.
Alan Hovhaness
Symphony No.2, "Mystery Mountain ", Op.132.
Paul Creston
Toccata, Op.68.
Stokowski Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
Cala CACD0539
(1958)

Dmitri Shostakovich
Symphony No.5 in D minor.
Ralph Vaughan Williams
Symphony No.8 in D minor.
London Symphony Orchestra
BBC Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
BBC Legends BBCL4165-2
(1964)

Camille Saint-Saëns
Samson et Dalila - highlights.
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Eugene Onegin - Let me perish, but first let me summon.
Licia Albanese (soprano), Risë Stevens (meio-soprano),
Jan Peerce (tenor), Robert Merrill (barítono)
Robert Shaw Chorale
NBC Symphony Orchestra
Stokowski Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
Cala CACD0540
(1954, 1951)

Percy Grainger
Country Gardens. Mock Morris. Early One Morning.
Shepherd's Hey.Irish Tune from County Derry.
Molly on the Shore. Handel in the Strand.
Jean Sibelius
The Tempest, Op.109 - Berceuse (arr. Stokowski).
Kuolema - Valse Triste, Op.44 No.1.
Ralph Vaughan Williams
Fantasia on a Theme by Thomas Tallis.
Sergei Rachmaninov
14 Songs, Op.34 - No.14, Vocalise.
Enrique Granados
Goyescas - Intermezzo.
Claude Debussy
Suite Bergamasque - 3rd movement, Clair de Lune.
Jacques Ibert
Escales.
Stokowski Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
Cala CACD0542

Jacob Avshalamov
The Taking of T'ung Kuan.
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Symphony No.5 in E minor, Op.64.
Bedrich Smetana
Má vlast - Tabor.
Detroit Symphony Orchestra, Leopold Stokowski
Mercury Orchestra, Rafael Kubelik
Music & Arts CD-1190
(1952)

Modest Mussorgsky
Night on Bare Mountain (orq. Stokowski). Khovantchina - Suite.
Nicolai Rimsky-Korsakov
Russian Easter Festival Overture, Op.36.
Rheinhold Glière
Red Poppy - Russian Sailors' Dance.
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Eugene Onegin - Polonaise.
Alexander Borodin
In the Steppes of Central Asia.
Prince Igor- Polovtsian Dances (arr. Stokowski)
Stokowski Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
Cala CACD0546
(1950, 1953)


SACDs



Igor Stravinsky
L'Histoire du Soldat.
Madeleine Milhaud, Jean Pierre Aumont, Martial Singher
Conjunto instrumental (Gerald Tarack, Charles Russo,
Theodore Weis, Julius Levine, Loren GLickman,
John Swallow, Raymond Desroches)
Leopold Stokowski
Vanguard Classics ATM-SC1559

Piotr Ilyich Tchaikovsky
Francesca da Rimini, Op.432. Serenade for Strings, Op.48.
London Symphony Orchestra
Leopold Stokowski
Pentatone PTC5186 122


Internet

Leopold Stokowski
Bach Cantatas Website / Penn Libraries / The Leopold Stokowski Site / Classical Net / Wikipedia

15/04/2008

Lugares #175

Lovelhe é uma pequena freguesia, com poucas centenas de habitantes, pertencente ao concelho de Vila Nova de Cerveira, distrito de Viana do Castelo. Ponto estratégico importante, junto ao rio Minho, lá foi construído um forte, cujas obras se iniciaram em 1642. Uma consequência directa, portanto, da Guerra da Restauração, e do desejo pátrio de manter os espanhóis longe da vista. A construção prolongou-se por 21 anos e, apesar de a sua localização ser geralmente considerada mais favorável do que a da fortaleza de Vila Nova de Cerveira, a verdade é que cerca de 1 século depois se encontrava sem qualquer guarnição e num estado geral pouco recomendável.

Em 1797 foi providenciada a sua reconstrução e guarnecimento, mesmo a tempo de o preparar para as invasões francesas, que teriam lugar uma década depois. Se bem se lembram, a dessas invasões fez-se pelo norte, através da travessia do rio Minho, e as tropas invasoras só não prosseguiram como previsto até ao Porto e depois até Lisboa pela resistência que encontraram, principalmente em Caminha e em Vila Nova de Cerveira, tendo mesmo sido forçados a dar meia-volta, reentrando posteriormente por Chaves.




No meio das trocas de mimos, contudo, os franceses lograram despejar um engenho explosivo no interior do Forte de São Francisco, que é esse o nome do forte de Lovelhe, destruindo-o parcialmente. Os portugueses, sempre preocupados com as gerações vindouras, nunca mais lhe tocaram, o que nos permite, 200 anos depois, ver in loco o estado em que os franceses o deixaram. Visionário, este povo luso, até quando vota o seu património ao mais completo abandono...


Internet

Lovelhe
IPPAR / Freguesias de Portugal / Wikipedia

12/04/2008

Concertos #65

É quase universalmente sabido (lembro-me de uma notabilíssima excepção...) que o compositor de origem polaca Frédéric Chopin (1810-1849) escreveu maioritariamente música para piano, abrangendo um sem-número de formas: além dos concertos para esse instrumento, compôs baladas, estudos, impromptus, mazurkas, nocturnos, polonaises, prelúdios, rondos, scherzos, sonatas e variações!

Chopin escreveu 3 sonatas para piano, a primeira na juventude, em 1828, e a última delas em 1844, numa altura algo complicada para o compositor: o badalado romance com a escritora George Sand (1804-1876) já tinha tido melhores dias, e a doença que o mataria 5 anos depois ia começando a dar sinais. Esta sonata foi editada no ano seguinte e dedicada à condessa Émilie de Perthuis, esposa do conde Perthuis, a quem Chopin tinha anteriormente dedicado as Mazurkas, Op.24.

Esta é uma das obras que a pianista Maria João Pires vai tocar amanhã na Casa da Música, naquilo que é a sua primeira aparição naquele espaço. O programa será totalmente dedicado a Chopin, abrindo com uma transcrição para violoncelo e piano do seu Estudo, Op.25 Nº7, da responsabilidade de Alexander Glazunov (1865-1936), e em que será acompanhada pelo violoncelista russo Pavel Gomziakov (1975-). Voltamos assim a assistir a um recital de Maria João Pires, um ano depois de a termos encontrado no Centro Cultural de Belém. Um dos pontos altos da programação deste ano da Casa da Música, pois claro!


Programa

Frédéric Chopin
Estudo, Op.25 Nº7 (transcr. Alexander Glazunov)
Nocturno em si maior, Op.9 Nº3.
Sonata para Piano Nº3 em si menor, Op.58.
Sonata para Violoncelo e Piano em sol menor, Op.65.
Maria João Pires (piano), Pavel Gomziakov (violoncelo)


Internet

Frédéric Chopin
Classical Music Pages / The Fryderyk Chopin Society in Warsaw / Vidas Lusófonas / Classical Net / The Unofficial Chopin Homepage / Wikipedia / Classical Music Archives / Naxos / Clássicos

11/04/2008

CDs #157: Balakirev, Symphony No.1, Russia, Tamara

O compositor russo Mily Balakirev (1837-1910) já passou várias vezes pelas páginas do desNorte, nomeadamente sempre que se referiu o Grupo dos Cinco, um grupo por ele formado a partir da segunda metade da década de 1850 com o objectivo de criar uma escola de composição distintamente russa. Além do próprio Balakirev, faziam parte desse grupo Alexander Borodin (1833-1887), César Cui (1835-1918), Modest Mussorgsky (1839-1881) e Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908).

O início da formação desse grupo coincidiu com a estreia de Balakirev como pianista, em 1858 em S. Petersburgo, tendo tocado, com grande sucesso, o Concerto para Piano Nº5 de Beethoven (1770-1827). Às carreiras de pianista e compositor Balakirev juntava a de professor, e ainda encontrava tempo para dar largas ao seu mau feitio... Que o diga o nosso já conhecido Anton Rubinstein (1829-1894), crítico assumido do movimento nacionalista russo e, portanto, alvo preferencial de Balakirev; Rubinstein, farto de aturar as picardias deste, chegou mesmo ao ponto de resignar ao posto de maestro na Sociedade Musical Russa, por forma a reatar a sua actividade de pianista itinerante e, assim, livrar-se do homem...

Como compositor, Balakirev não chegou a ter muito sucesso o que, em parte, é explicado pela instabilidade emocional de que sofria; não tinha as suas obras em grande consideração pelo que, além de levar imenso tempo a terminá-las, revia-as com alguma frequência. Como exemplo, refira-se o facto de ter iniciado a composição da Sinfonia Nº1 em 1864 e apenas a ter terminado em 1897 quando, finalmente, achou que ela estava em condições. A estreia teve lugar há 110 anos, no dia 11 de Abril de 1898, com o próprio autor a reger a orquestra, e é uma das obras que faz parte de um (excelente) disco lançado há pouco mais de 3 anos pela editora Regis Records, apesar da gravação ser de 1974.




Mily Balakirev
Symphony No.1 in C minor. Symphonic Poems - Russia; Tamara.
USSR State Symphony Orchestra
Evgeni Svetlanov
Regis RRC1131
(1974, 1978)


Internet

Mily Balakirev
Clássicos / Wikipedia / Naxos / Karadar Classical Music / Mili Balakirev

09/04/2008

Obras Orquestrais #16: Abertura O Rei Lear, de Hector Berlioz

Já por diversas vezes por aqui fomos referindo o Prix de Rome, uma vezes para referir os felizes vencedores, outras para falar dos não vencedores. No grupo destes últimos encontramos nomes bem sonantes, como os de Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Maurice Ravel (1875-1937). O que nos permite, logo à partida, questionar os critérios utilizados e, porque não?, o mérito do próprio prémio. Quando alguém como Ravel concorre por 4 vezes e nunca ganha e, entre os vencedores, encontramos nomes como Albert Androt (1781-1804) ou Guillaume Bouteiller (1877-?), não será ilegítimo de todo levantarmos algumas dúvidas quanto à justeza das decisões tomadas. Adiante.

Pois em 1830 coube a Hector Berlioz (1803-1869) vencer esse prémio, não sem que antes tivesse tido várias desilusões: uma primeira tentativa frustrada, em 1826; no ano seguinte, o mesmo resultado; em 1828, ano em que concorreu com Herminie, a coisa já correu melhor, e obteve um 2º prémio; um ano depois, apresentando-se com La Mort de Cléopâtre viu a vida a andar de novo para trás, nada tendo ganho; até que, em 1830, obteve o almejado Prémio de Roma, com a cantata La Dernière Nuit de Sardanapale. Do mal o menos, Berlioz lá acabou por ganhar o bendito prémio...

Berlioz, o mais representativo compositor francês da sua época e um dos expoentes do romantismo francês, deixou-nos uma obra extraordinária, nomeadamente as grandes peças orquestrais e vocais. Muitas delas baseadas em textos de Shakespeare (1564-1616) e de Goethe (1749-1832), dois autores que passou a admirar particularmente desde que, em 1827, teve a oportunidade de assistir a representações de várias peças de ambos.

Foi o caso da abertura O Rei Lear, composta por Berlioz em 1831, quando se encontrava em Nice, obviamente inspirado na tragédia homónima de Shakespeare. A obra espelha o desespero do velho, destronado e errante rei, apenas acompanhado de sua filha Cordélia. A estreia desta obra teve lugar há 174 anos, no dia 9 de Abril de 1834, com o maestro Narcisse Girard (1798-1860). O mesmo que, em Novembro desse mesmo ano, iria estrear a sinfonia Harold em Itália, que Berlioz compôs por solicitação de Niccolò Paganini (1782-1840).


CD



Hector Berlioz
Overtures from Le Carnaval Romain, King Lear, Waverley,
Les Francs-Juges and Le Corsaire. Overture and March from Les Troyens.
Royal Philharmonic Orchestra
Thomas Beecham
Sony Classical SMK89807
(1954)


Internet

Hector Berlioz
The Hector Berlioz Website
/ Classical Music Pages / Wikipedia / Hector Berlioz / Óperas

Prémio de Roma
Le concours du Prix de Rome / Wikipedia

08/04/2008

Notícias #17

Parece que o afastamento entre eleitos e eleitores preocupa a nossa classe política. Parece, também, haver gente empenhada em tentar alterar essa situação. As petições à Assembleia da República, dizem-nos, é uma das formas possíveis de participação cívica dos eleitores. Uns quantos milhares, poucos, de assinaturas, uma reunião com a Comissão da Assembleia da República responsável pela área a que o assunto da petição diga respeito e, havendo um parecer favorável dessa Comissão, a almejada discussão em plenário. Um processo aparentemente simples e eficaz.

Virgílio Marques, repetente na defesa de causas que deveriam ser de todos nós, teve a iniciativa de, em conjunto com outras pessoas, lançar uma petição em defesa do Salão Nobre do Conservatório Nacional, salão esse que se encontra actualmente num estado lastimável. Relata-nos Virgílio Marques no seu blogue Guilhermina Suggia que, obtidas as assinaturas suficientes, a petição foi aceite pela Comissão de Ética, Sociedade e Cultura. Na reunião entretanto agendada para o dia 14 de Março, e para a qual todas as forças políticas representadas na Assembleia foram convocadas, nenhum deputado apareceu. Nem um!

Donde só se pode concluir uma de duas coisas: ou os senhores deputados já resolveram entretanto o problema e as obras de recuperação do salão irão começar brevemente, ou estão-se completamente nas tintas para o assunto, e tanto lhes faz que o salão caia como não. O que fica evidente, em qualquer dos casos, é o desprezo com que tratam as petições de todos nós, os eleitores que os elegeram. Lamentável.

06/04/2008

Sinfonias #26: Sinfonia Nº1, de Witold Lutoslawski

Witold Lutoslawski (1913-1994) é geralmente apresentado como um dos grandes nomes da música polaca da 2ª metade do século XX, e se não o é em relação à primeira tal se deve em grande parte às autoridades nazis. A invasão da Polónia pelos alemães no início de Setembro de 1939, que marcou o início da II Grande Guerra, trouxe com ela, além de todos os outros males, a instalação de um regime censório, especialmente vigilante no que respeitava às artes em geral e às musicais em particular. Lutoslawski foi mobilizado logo no início da guerra e feito prisioneiro pouco depois, tendo logrado evadir-se e regressado a Varsóvia. Consta que tal foi feito a pé, numa passeata aí de uns 400 quilómetros...

A primeira obra orquestral de Lutoslawski, as Variações Sinfónicas, tinha sido composta em 1938 e estreada em Junho do ano seguinte, poucos meses antes do despoletar do conflito mundial. Por essa altura o compositor já tinha iniciado a composição da Sinfonia Nº1, processo entretanto interrompido e retomado mais tarde, já a guerra se aproximava do seu termo. Terminada em 1947, a sinfonia seria estreada no dia 6 de Abril de 1948, passam hoje 60 anos, naquilo que foi desde logo considerado como um notável acontecimento musical na Polónia do pós-guerra.

Só que um azar raramente vem só, e depois dos nazis foi a vez das autoridades soviéticas, que iriam ditar as leis naquele país até 1989, meterem o bedelho nos assuntos artísticos, sob o manto do malfadado Realismo Socialista. Esta sinfonia de Lutoslawski foi de imediato rotulada de formalista, por não-conforme, como tudo aquilo que soava a moderno. Depois de entrar para a lista negra rara ou dificilmente de lá se saía, pelo que se entrou num período em que as obras deste compositor poucas vezes seriam interpretadas, e só para os finais da década de 1950 é que a sua reputação começou a subir, dentro e fora da Polónia.


CD



Witold Lutoslawski
Symphony No.1. Silesian Triptych. Jeux vénetiens.
Chantefleurs et Chantefables. Postlodium I.
Olga Pasiecznik (soprano)
Polish National Radio Symphony Orchestra
Antoni Wit
Naxos 8.554283


Internet

Witold Lutoslawski
Polish Culture / Naxos / ChesterNovello / Classical Music Pages / Wikipedia / Classical Net / Karadar Classical Music

04/04/2008

CDs #156: Great Conductors of the 20th Century, Pierre Monteux

Se mais razões não houvesse, e, felizmente, elas não faltam, estas duas seriam mais do que suficientes para que o maestro de origem francesa Pierre Monteux (1875-1964) fosse um dos que eu mais admiro: foram da sua responsabilidade as estreias de algumas das obras mais significativas do século XX, como Daphnis et Chloé, de Maurice Ravel (1875-1937), Jeux, de Claude Debussy (1862-1918) e Pétrouchka, a Sagração da Primavera e Le Rossignol, de Igor Stravinsky (1882-1971); por outro lado, foi aquele maestro que, em 1961, contava já 86 anos de idade, assinou com a Orquestra Sinfónica de Londres um contrato válido por 25 anos, renovável por mais 25...

Não foi como maestro, mas sim como violista da Opéra-Comique de Paris, que Pierre Monteux participou na estreia, em 1902, de outra obra de Debussy, Pelléas et Melisande; 25 anos depois e seria sua a primeira interpretação desta obra no Concertgebouw de Amesterdão, nessa altura à frente da orquestra, obviamente. Monteux passou uma boa parte da vida nos Estados Unidos, tendo mesmo obtido cidadania americana em 1942; lá dirigiu todas as grandes orquestras, como a Sinfónica de Boston, a Sinfónica de São Francisco, a Sinfónica da NBC, a Filarmónica de Nova Iorque e a Sinfónica de Chicago. Ao todo, Monteux trabalhou com mais de 100 orquestras, um número de que poucos se poderão gabar...

Da sua inclusão na série Great Conductors of the 20th Century resultou um (duplo) disco com obras de Beethoven (1770-1827), Wagner (1813-1883), Hindemith (1895-1963), Debussy (1862-1918), Tchaikovsky (1840-1893) e La Marseillaise de Claude-Joseph Rouget de Lisle (1760-1836), todas gravadas nas décadas de 1950 e 1960. Um excelente disco que, contudo, não inclui as tais obras emblemáticas que estreou, nem dá especial realce ao facto de estarmos perante um dos que mais fez pela promoção da música francesa. Mas as interpretações das obras apresentadas são de um nível extraordinário, é bom que se diga!

Pierre Monteux nasceu há 133 anos, no dia 4 de Abril de 1875.




Great Conductors of the 20th Century
Pierre Monteux
Ludwig van Beethoven
Symphony No.2 in D major, Op.36.
Richard Wagner
Tristan und Isolde - Prelude to Act I; Isoldes Liebestod.
Claude Debussy
Nocturnes.
Peter Tchaikovsky
The Sleeping Beauty, Op.66.
Claude-Joseph Rouget de Lisle
La Marseillaise.
Women of the Berkshire Festival Chorus
Sinfonieorchester des Norddeutschen Rundfunks
Danish State Radio Symphony Orchestra
Boston Symphony Orchestra
London Symphony Orchestra
Pierre Monteux
EMI 5 75474-2


Internet

Pierre Monteux
Encyclopedia.com / Sony BMG Music Entertainment / Pierre Monteux Discography / Pierre Monteux / The Pierre Monteux School / Wikipedia

01/04/2008

SACDs #18: Rachmaninov, The Divine Liturgy of St. John Chrysostom

S. João Crisóstomo nasceu na Síria em 347 e foi patriarca de Constantinopla a partir de 398, tendo ficado conhecido, entre outras razões, pela sua eloquência e pelo discurso fácil. A Divina Liturgia que escreveu para a celebração da Eucaristia é ainda hoje a mais frequentemente utilizada pela Igreja Ortodoxa. Durante muito tempo as autoridades eclesiásticas não viram com bons olhos que alguém pegasse nos textos sagrados e criasse uma obra musical passível de ser interpretada fora dos serviços religiosos. Tal aconteceu, nomeadamente, em 1878, quando Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) nela se baseou para compor o seu opus 41. Tchaikovsky considerava esta liturgia "uma das mais exaltantes obras de arte" e a obra que escreveu, estreada em Moscovo em Dezembro de 1880, teve um sucesso assinalável... junto do público. Já o mesmo não se pode dizer da hierarquia da Igreja Ortodoxa, que de imediato condenou o facto da apresentação ter decorrido num concerto público!

Em 1910 foi a vez de outro compositor russo, Sergei Rachmaninov (1873-1943), meter mãos à obra, incentivado pela abertura à renovação que as autoridades eclesiásticas vinham mostrando desde os finais do século XIX, e em que a introdução da polifonia (sobreposição em simultâneo de 2 ou mais linhas melódicas) já não era vista como uma afronta desmedida. Não foi sol de grande duração, contudo, pois a Revolução Russa encarregar-se-ia de interromper este movimento. Rachmaninov, recém-chegado da sua primeira turné pelos Estados Unidos, escreveu a obra enquanto se encontrava em Ivanovka, local onde passava regularmente férias e onde iria compor, por exemplo, os Études-tableaux, em 1911, e a Sonata para Piano Nº2, em 1913. Tal como no caso de Tchaikovsky, a estreia, no dia 25 de Novembro de 1910, foi um grande sucesso, só que em vez de ver a obra condenada pelas autoridades religiosas viu-a sê-lo pelas autoridades soviéticas, e com tal vigor que não iria ser interpretada de novo durante várias décadas...

Sergei Rachmaninov nasceu há 135 anos, no dia 1 de Abril de 1873.




Sergei Rachmaninov
The Divine Liturgy of St. John Chrysostom, Op.31.
Flemish Radio Choir
Kaspars Putninsh
Glossa GCDSA 922203
(2006)


Internet

Sergei Rachmaninov
Classical Music Pages / Naxos / Classical Net / Wikipedia / GMN ClassicalPlus / lucidcafé / The Rachmaninov Lover's Home Page

St. John Chrysostom
The St. John Chrysostom Webpage / Catholic Encyclopedia / Orthodox Wiki / Wikipedia / The Society of Archbishop Justus