30/05/2008

Maestros #34: Gustav Leonhardt (1928-)

A ligação do maestro, cravista e organista Gustav Leonhardt ao compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) começou muito cedo, bem desde o início da sua carreira no mundo da música. Logo em 1950, ano em que terminou os estudos em Basileia, deu o seu primeiro recital em público, como cravista, interpretando obras do mestre do barroco. As primeiras gravações, nos anos de 1950, foram de obras para cravo de Bach , e mais tarde, já na década de 1970 meteu-se na aventura de gravar, juntamente com o maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt (1929-), a integral das cantatas sagradas do mesmo compositor, num projecto que durou duas décadas. Pelo meio ainda teve tempo de se estrear na sétima arte, fazendo o papel de... Johann Sebastian Bach no filme de 1968 "Chronik der Anna Magdalena Bach", de Danielle Huillet (1936-2006) e Jean-Marie Straub (1933-).

A ligação a Harnoncourt surge como natural e mesmo lógica, pois ambos estiveram envolvidos no início do movimento que pugnava pelas interpretações à moda da época (HIP, "Historically Informed Performances"), e que incluia a utilização de instrumentos semelhantes aos utilizados na altura em que as obras foram compostas. A solo ou com os agrupamentos que fundou (Leonhardt Baroque Ensemble, Leonhardt Consort), Gustav Leonhardt teve uma influência determinante na forma de interpretar os grandes compositores do barroco, como Louis Couperin (1626?-1661), Girolamo Frescobaldi (1583-1643) e Johann Jakob Froberger (1616-1667), para além do já referido patriarca da família Bach.

Gustav Leonhardt celebra hoje o seu 80º aniversário.


CDs



The Radiante Voice of Barbara Bonney.
Johann Sebastian Bach
Schweigt stille, plaudert nicht, BWV 211 "Coffee Cantata": Heute noch.
Barbara Bonney (soprano)
Orchestra of the Age of Enlightenment
Gustav Leonhardt
Includes works from Dowland, Purcell, Pergolesi,
Mozart, Donizetti, Schumann, Grieg, Sibelius, Strauss,
Alban Berg, Carl Orff, Andrew Lloyd Webber and Previn.
Decca 468 818-2

L'Orgue Bom Bedos de Sainte Croix de Bordeaux
Gustav Leonhardt (órgão)
Alpha Productions ALPHA017

Bach-Bull-Byrd-Gibbons-Hassler-Pachelbel-Ritter-Strogers
Gustav Leonhardt (cravo)
Alpha Productions ALPHA042


Internet

Gustav Leonhardt
Bach Cantatas Website / Sony Classical / Early Music World / Fundação Calouste Gulbenkian / Wikipedia

27/05/2008

Compositores #90: Luciano Berio (1925-2003)

Tanglewood é a base da Orquestra Sinfónica de Boston desde 1937, um ano depois do primeiro concerto dessa orquestra no Festival de Música de Berkshire. É também a base dos festivais anuais Tanglewood Music Festival e Tanglewood Jazz Festival, e do Boston University Tanglewood Institute (BUTI), com programas vários para jovens músicos. Ao longo dos anos por lá passaram muitos e importantes nomes, como estudantes, para dar aulas ou para interpretar as suas obras, e podemos referir Leonard Bernstein (1918-1990), Olivier Messiaen (1908-1992), Aaron Copland (1900-1990) e Alberto Ginastera (1916-1983). Do encontro destes dois últimos em Tanglewood, aliás, já aqui falei anteriormente.

Em 1951, depois de ter conhecido e casado com o meio-soprano Cathy Berberian (1925-1983), o compositor italiano Luciano Berio mudou-se para os Estados Unidos e, em Tanglewood, cruzou-se com o seu compatriota Luigi Dallapiccola (1904-1975), que lá dava aulas. Encontros com os pioneiros da música electrónica, Vladimir Ussachevsky (1911-1990) e Otto Luening (1900-1996), primeiro, e Bruno Maderna (1920-1973) e Karlheinz Stockhausen (1928-2007), da escola de Darmstadt, depois do regresso à Europa, foram a porta de entrada para a música avant-garde, de que Berio viria a ser uma das figuras de proa da segunda metade do século XX. Com Bruno Maderna criaria, em 1955, o primeiro estúdio de música electrónica em Itália.

Luciano Berio faleceu há 5 anos, no dia 27 de Maio de 2003.


CDs





Luciano Berio
Voci. Naturale.
Maria Bonferraro, Antonio Bulgaretta, Concetto Campisi,
Giuseppe Cangemi, Angelo Vitello (vozes), Vincenzo
Ferrara (gaita de foles), Kim Kashkashian (viola), Robyn
Schulkowsky, Pietro Vallone (percussão)
Vienna Radio Symphony Orchestra
Dennis Russell Davies
ECM New Series 461 808-2
(1999, 2000)

Luciano Berio
Notturno. Quartetto. Sincronie. Glosse.
Arditti Quartet
Naïve Montaigne MO782155

Luciano Berio
Sinfonia. Ekphrasis.
Ann de Renais, Wendy Nieper (sopranos), Judith Rees, Carol
Canning (meios-sopranos), Philip Sheffield, Michael Robinson (tenores),
Mark Williams (barítono), Patrick Ardagh Walter (baixo)
London Voices
Gothenburg Symphony Orchestra
Peter Eötvös
Deutsche Grammophon 477 5380
(2005)

Luciano Berio
Folk Songs.
Osvaldo Golijov
Ayre.
Dawn Upshaw (soprano), Tara Helen O'Connor (flauta), Gordon
Gottlieb, Eric Poland, Jamey Haddad (percussão), Ljova (viola),
Erik Friedlander (violoncelo), Bridget Kibbey (harpa), David
Krakauer, Todd Palmer (clarinetes)
Andalucian Dogs
Deutsche Grammophon 477 5414
(2004)

Luciano Berio
The Complete Sequenzas. Alternate Sequenzas.
Works for Solo Instruments.
Isabelle Ganz (voz), Paul Robison (flauta), Jacqueline
Leclair (oboé), Alain Billard, Carol Robinson (clarinetes),
Lucia Mense (recorder), Noriko Shimada (fagote), Ulrich
Krieger, Kelland Thomas (saxofones), William Forman, Brian
McWorther (trompetes), Susan Jolles (harpa), Aki Takahashi (piano),
Stuart Dempster (trombone), Garth Knox (viola), Irvine
Arditti (violino), Seth Josel (guitarra), Stefan Hussong (acordeão),
Rohan de Saram (violoncelo), Stefano Scodanibbio,
Michael Cameron (contrabaixos), Jane Chapman (cravo), Gary
Verkade (órgão)
Mode MODE 161-3

Luciano Berio
Cinque Variazioni. Sequenza IV. Rounds. Sonata per pianoforte.
Six Encores. Touch. Canzonetta.
Andrea Lucchesini, Valentia Pagni Lucchesini (pianos)
Avie AV2104
(2004)

Jacques Ibert
Trois Pièces Brèves.
Luciano Berio
Opus Number Zoo.
György Ligeti
Sechs Bagatellen.
Ferenc Farkas
Early Hungarian Dances.
Eurico Carrapatoso
Cinco Elegias.
Paul Hindemith
Kleine Kammermusik, Op.24.
Norman Hallan
Dance Suite.
Galliard Ensemble
Deux-Elles DXL1025
(2000)

Le Domaine musical, volume 1.
Karlheinz Stockhausen
Kontra-punkte. Zeitmasse. Klavierstück.
Luciano Berio
Serenata.
Pierre Boulez
Le Marteau sans maître. Structures. Sonatine pour flûte et
piano. Sonate No.2 pour piano.
Olivier Messiaen
Oiseaux exotiques. Cantéyodjaya.
Claude Debussy
Syrinx.
Edgard Varèse
Densité 21.5. Hyperprism. Octandre. Intégrales.
Maurizio Kagel
Sextuor à cordes.
Luigi Nono
Incontri.
Hans Werner Henze
Concerto per Il Marigny.
Henri Pousseur
Madrigal III. Mobile pour 2 pianos.
Soloists and Orchestra of Domaine Musical
Pierre Boulez
Accord 476 9209
(1956-1967)


SACD



Dedicated to Christian Lindberg
Luciano Berio
SOLO.
Iannis Xenakis
Troorkh.
Mark Anthony Turnage
Yet Another Set To.
Christian Lindberg (trombone)
Oslo Philharmonic Orchestra
Peter Rundel
BIS BIS-SACD-1638


Internet

Luciano Berio
The Living Composers Project / IRCAM / Karadar Classical Music / composition:today / P. Q. P. Bach / Classical Net / Guardian / The New York Times / Naxos / Wikipedia

25/05/2008

CDs #165: Holst, The Planets

O compositor inglês Gustav Holst (1874-1934) só se interessava por temas que lhe sugerissem música, isto revelado pelo próprio, e está visto que a astrologia foi um deles. Nascido em Chetelnham, Inglaterra, em Setembro de 1874, Holst teve no pai o primeiro professor de música, e cedo mostrou dotes para a composição. Nos primeiros tempos dedicou-se essencialmente à música vocal, e foi com uma obra vocal, A Christmas Carol, que, em 1888, ganhou um prémio num concurso para compositores amadores. As peças vocais continuaram a predominar na sua obra até ao início do primeiro conflito mundial, altura em que iniciou a escrita d'Os Planetas, uma obra (não puramente) orquestral, que o tornaria famoso.

Em 1914 começou então a escrita dessa obra, baseando-se, pelo menos em parte, no livro What Is A Horoscope, do astrólogo inglês Alan Leo (1860-1917). Talvez pelos tempos conturbados que se viviam, Holst começou por Marte, apresentado com um ritmo frenético, apropriado para o planeta que traz a guerra. Os sete planetas, dado não ter incluído a Terra e Plutão, não são apresentados na ordem correcta (Mercúrio - Vénus - Marte - Júpiter - Saturno - Úrano - Neptuno), e depois de Marte aparece-nos Vénus, o planeta que traz a paz, e em que somos invadidos por um ambiente calmo e sereno, em absoluto contraste com o anterior. Seguem-se Mercúrio, Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. A primeira apresentação pública da obra completa aconteceu a 15 de Novembro de 1920, com o maestro inglês Albert Coates (1882-1953) à frente da orquestra.

Gustav Holst faleceu há 74 anos, no dia 25 de Maio de 1934.




Gustav Holst
The Planets, Op.32.
Colin Matthews
Pluto, The Renewer.
Kaija Saariaho
Asteroid 4179: Toutatis.
Matthias Pintscher
towards Osiris.
Mark-Anthony Turnage
Ceres.
Brett Dean
Komarov's Fall.
Women's Voices of the Rundfunkchor Berlin
Berliner Philharmoniker
Simon Rattle
EMI Classics 3 69690-2
(2006)


Internet

Gustav Holst
The Gustav Holst Website / Holst Birthplace Museum / MusicWeb International / Naxos / Chester Novello / Classical Net / Wikipedia

22/05/2008

CDs #164: Horszowski, Bach, Mozart, Chopin, Debussy

Em 2007 a BBC lançou um disco com gravações efectuadas em 1983 e em 1984 pelo pianista de origem polaca Mieczyslaw Horszowski (1892-1993), que na altura já tinha mais de... 90 anos! Um caso notabilíssimo de longevidade, Horszowski, que casou pela primeira vez aos 89 anos e que deu o último recital quando já contava 99. Se nos lembrarmos de que aos 8 anos já dava recitais em público, então concluiremos de imediato que teve uma carreira de mais de 90 anos!

Tendo começado a aprender piano com a mãe, teve depois como professor um já nosso conhecido, Theodor Leschetizky (1830-1915), que foi igualmente professor de um outro pianista que já por aqui passou, Artur Schnabel (1882-1951). Tiveram ainda outras coisas em comum, diga-se: ambos se apresentaram em público pela primeira vez com 8 anos, e partilharam o gosto pela música de câmara, tendo os dois tocado, por exemplo, com o violinista Joseph Szigeti (1892-1973).

Nascido na Polónia, com o rebentar do 2º conflito mundial Horszowski mudou-se primeiro para o Brasil e depois, e de modo definitivo, para os Estados Unidos. Viria mesmo mais tarde a obter cidadania norte-americana. Em meados da primeira década do século XX já tinha estado em solo americano, e travado conhecimento com Pablo Casals (1876-1973) e Arturo Toscanini (1867-1957). Foi com este último e a sua Orquestra Sinfónica da NBC que Horszowski iria tocar amiúde na década de 1940. Só muito mais tarde, quando a vista já não ajudava, é que passou a tocar exclusivamente a solo.

Mieczyslaw Horszowski faleceu há 15 anos, no dia 22 de Maio de 1993.




Johann Sebastian Bach
Partita No.2 in C minor, BWV826.
Wolfgang Amadeus Mozart
Piano Sonata in B flat major, K570.
Frédéric Chopin
Nocturne in C sharp minor, Op.27 No.1.
Nocturne in D flat major, Op.27 No.2.
Mazurka in C major, Op.24 No.2.
Claude Debussy
Children's Corner.
Mieczyslaw Horszowski (piano)
BBC Legends BBCL4203-2
(1983, 1984)


Internet

Mieczyslaw Horszowski
Bach Cantatas Website / University of Maryland / Naxos / Wikipedia

19/05/2008

Lugares #176

A Gare do Oriente, em Lisboa, projectada pelo arquitecto e engenheiro civil espanhol Santiago Calatrava (1951-) para a Expo'98, foi estreada no dia 19 de Maio de 1998, passam hoje 10 anos. Este mesmo arquitecto foi o principal responsável pelo projecto da Cidade das Artes e das Ciências, para a edificación de una Valencia vanguardista que mira el futuro. Ainda segundo os nosso vizinhos, este projecto evidencia a atracção e a sedução que a água representa para Valência.

Pois não foi com as águas calmas do rio Turia, mas com as (um pouco) mais agitadas do mar Mediterrâneo que os valencianos nos surripiaram a America's Cup. E aqui está mais uma ligação entre as cidades de Valência e de Lisboa, pois era nesta última que alguns portugueses se propunham organizar a famosa competição...

Visitando hoje a zona ribeirinha, dificilmente alguém se aperceberá de que há não muito tempo tal prova lá teve lugar. Nisso os nossos colegas ibéricos não facilitam, e não desperdiçaram a experiência acumulada em Sevilha; a zona está na sua maioria votada ao abandono, sobrando apenas um edifício com aspecto de novo, Veles e Vents, e a loja da Alinghi, a equipa vencedora da última edição.



Pelo que se torna bem mais interessante e produtivo visitar a tal cidade de Calatrava, constituída pelo Hemisféric, onde é possível, por exemplo, assistir a filmes no sistema Imax, pelo Museo de las Ciencias Príncipe Felipe, pelo Palacio de las Artes Reina Sofia e pelo Oceanográfico. Entretanto, podemos ir fazendo figas para que na próxima edição da corrida dos barquinhos o vento prime pela ausência total; talvez então se lembrem de nós...


Internet

Valência
Ayuntamiento de Valencia / TurisValencia / Wikipedia / Ciudad de las Artes y las Ciencias

18/05/2008

Obras para Bailado #4: Parade, de Erik Satie

Há uns tempos atrás, neste texto, referi o estrondo que foi a estreia da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1882-1971), uma das várias obras resultantes da colaboração com o empresário e director artístico russo Sergei Diaghilev (1872-1929), o criador dos Ballets Russes, que faleceu no dia 19 de Agosto de 1929.


Sergei Diaghilev, Ballets Russes

Além de Stravinsky, Diaghilev trabalhou com muitos outros compositores, como Debussy, Poulenc, Prokofiev, Ravel, Strauss e Satie. Deste último, os Ballets Russes estrearam Parade91 anos, no dia 18 de Maio de 1917. Pois se a estreia da Sagração da Primavera, em Maio de 1913, foi aquilo que se sabe, a de Parade não lhe ficou atrás! Tendo o bailado como tema o público que fica à porta e não entra para ver o espectáculo, deu azo a um escândalo impensável, terminando mesmo com Erik Satie enfiado numa prisão durante 8 dias, por ter afirmado que o crítico Jean Poueigh "não passava de um cu, mas um cu sem música"...


Erik Satie, Pablo Picasso, Ernest Ansermet

A terminar, refira-se que na estreia o décor e o guarda-roupa estiveram a cargo de Pablo Picasso (1881-1973), e a direcção de orquestra foi assegurada por Ernest Ansermet
(1883-1969).


CDs



Erik Satie
3 Gymnopédies. Les Aventures de Mercure. Parade. Relâche.
Nancy Symphony Orchestra
Jérôme Kaltenbach
Naxos 8.554279

Erik Satie
Trois morceaux en forme de poire. Parade. La belle excentrique.
Désespoire agréable. Songe-creux.
Pascal Rogé, Jean-Philippe Collard (pianos), Chantal Juillet (violino)
Decca 455 401-2


Internet

http://michaelminn.net/andros/biographies/diaghilev_sergei.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Sergei_Diaghilev
http://www.af.lu.se/~fogwall/satie.html

16/05/2008

CDs #163: the Gulda Mozart tapes II

Só alguém com um apuradíssimo sentido de humor simularia a sua própria morte e, pouco tempo depois, organizaria uma requintada festa em sua honra para celebrar condignamente a sua... ressurreição! Pois foi precisamente isto que o pianista austríaco Friedrich Gulda (1930-2000) fez, corria o ano de sua graça de 1999. E foi por estas e por outras que lhe puseram a alcunha de "pianista terrorista". Almas despeitas, certamente!

Muitas destas almas tinham dificuldades em engolir os desvarios do pianista, não lhe perdoando as frequentes incursões noutras áreas, nomeadamente as suas aventuras jazzísticas. Que começaram nos inícios da década de 1950, após ser ter cruzado com Dizzy Gillespie (1917-1993), e que se prolongaram até ao fim da sua vida. Continuou, em paralelo, a interpretar música clássica, não se livrando, claro, dos olhares desconfiados dos mais puristas.

Foi relativamente tarde, quando já estava na casa dos 50, que Gulda se aventurou nas sonatas para piano de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Diz-nos o seu filho, o igualmente pianista Paul Gulda (1961-), nas notas que acompanham este disco (duplo), que apenas nessa altura o seu pai se sentiu em condições para abordar esse repertório, que iria tocar pela primeira vez em público em 1981. As gravações, a todos os títulos históricas, que deram agora origem a estes discos, foram efectuadas no ano seguinte em cassetes, pelo próprio pianista, para melhor poder avaliar do resultado dos ensaios. Daí a qualidade do som não ser por vezes a melhor, até porque somos informados de que a velocidade da fita das cassetes durante as gravações era tudo menos constante... O que os técnicos procuraram na medida do possível compensar ao efectuar a passagem para suporte digital, é bom que se refira. O resultado final foi um disco extraordinário, comprovando mais uma vez estarmos perante um grande pianista.

Friedrich Gulda nasceu há 78 anos, no dia 16 de Maio de 1930.




the GULDA MOZART tapes II
Sonata in A major, K331. Sonata in D major, K284.
Sonata in A minor, K310. Sonata in C minor, K457.
Sonata in B flat major, K570. Sonata in D major, K576.
Friedrich Gulda (piano)
Deutsche Grammophon 477 7152


Internet

Friedrich Gulda
Friedrich Gulda 1993-2000 / Bach Cantatas Website / komponisten.at / Wikipedia

14/05/2008

SACDs #21: Richard Strauss, Josephs Legende

A peixeirada em que se transformou a estreia do bailado A Sagração da Primavera, com música de Igor Stravinsky (1882-1971), em Maio de 1913, aqui referida, não fez o empresário russo Sergei Diaghilev (1872-1929) abrandar o ritmo de encomendas de novas obras para os espectáculos dos seus Ballets Russes. A prová-lo está o facto de não ter demorado muito a encomendar uma a Richard Strauss (1864-1949), o único compositor alemão, refira-se, a quem Diaghilev encomendou obras para os seus bailados.

Quem nos acompanha desde os primórdios do desNorte, lembrar-se-á porventura das histórias mitológicas que por aqui passaram, nomeadamente as que envolveram Teseu e Ariadne. A certa altura referimos o facto de Richard Strauss ter escrito uma ópera baseada nesta lenda, a partir de um libreto escrito pelo seu habitual colaborador, Hugo von Hofmannsthal (1874-1929). Pois seria de novo com base num texto de von Hofmannsthal que Strauss, dois anos depois, comporia Josephs Legende, como resultado da referida encomenda de Diaghilev.

Há todas as razões para acreditar que Strauss escreveu a obra tendo em mente que o papel principal no bailado seria destinado à grande estrela da companhia, Vaslav Nijinski (1890-1950). Só que, pouco antes da estreia, Nijinski deu-se por derretido por uma menina húngara de nome Pulszky Romola (1891-1978) e tomou-a de imediato como esposa, para notória irritação de Diaghilev, que o despediu na hora. A relativa pouca experiência de Léonide Massine (1896-1979), o bailarino que substituiu Nijinski, terá contribuído para o menor sucesso da estreia do bailado, no dia 14 de Maio de 1914, e não ajudou, certamente, à popularidade da música escrita por Strauss, ainda hoje, quase um século mais tarde, uma das suas obras menos conhecidas, para não dizer quase totalmente desconhecida.




Richard Strauss
Josephs Legende, Op.63.
Budapest Festival Orchestra
Iván Fischer
Channel Classics CCSA24507
(2007)


Internet

Richard Strauss
Richard Strauss online / Classical Music Pages / Classical Net / Wikipedia / Opera Glass

12/05/2008

SACDs #20: Shostakovich, Symphonies Nos.1 & 6

O ano de 2006 foi também o do centenário do nascimento do compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975), motivo pelo qual se falou dele por aqui variadíssimas vezes. No ano passado continuamos a trazê-lo para estas bandas, nomeadamente para abordar a sua Sinfonia Nº15, por sinal a última por ele composta. Um disco que contém as Sinfonias Nºs 1 e 6 deste compositor é o motivo de o convidar novamente para este canto, no dia em que passam 82 anos sobre a estreia da primeira delas.

É sabido que Shostakovich manteve uma relação ambígua com as autoridades soviéticas, que não o livrou, contudo, de ter levado algumas reprimendas, por algumas das suas obras não estarem lá muito de acordo com os cânones oficiais. Em 1948 foi acusado de perversidades formalistas, um pecado de dimensões dificilmente imagináveis pelo comum dos mortais; em meados da década de 1920, quando escreveu a sua primeira sinfonia, gozava da liberdade criativa exclusiva dos compositores (ainda) pouco conhecidos, tendo dela feito bom uso para escrever aquela que seria a sua obra de graduação no Conservatório. O enorme sucesso obtido na estreia chamou não só a atenção dos grandes intérpretes, como os maestros Leopold Stokowski (1882-1977) e Bruno Walter (1876-1962), como também, inevitavelmente, do censor Andrei Zhdanov (1896-1948) e respectiva companhia, que o passaram a seguir com dedicada atenção, de que resultou um primeiro puxar de orelhas em 1936 e as consequentes aventuras que rodearam as suas quarta e quinta sinfonias. Histórias para outra altura...




Dmitri Shostakovich
Symphony No.1 in F minor, Op.10.
Symphony No.6 in B minor, Op.54.
Russian National Orchestra
Vladimir Jurowski
Pentatone PTC 5186 068
(2004)


Internet

Dmitri Shostakovich
P. Q. P. Bach / Classical Music Pages / Classical Net / Wikipedia / BBC / Naxos

10/05/2008

CDs #162: Boult conducts Ireland

Na primeira metade do século XX não havia muitos maestros que rivalizassem em popularidade com Thomas Beecham (1879-1961). Adrian Boult (1889-1983) foi um dos poucos mas, ao contrário de Beecham, extrovertido e dado às artes do espectáculo, Boult cultivava a discrição, o que não o impediu de ter tido uma longa e bem sucedida carreira. Isto apesar de a terem procurado encurtar quando, em 1950, foi forçado a reformar-se da Orquestra Sinfónica da BBC por ter atingido a idade de 60 anos.

Essa orquestra, recorde-se, tinha sido fundada em 1930 pelo próprio Adrian Boult. Dois anos depois e Thomas Beecham fundaria a Orquestra Filarmónica de Londres, que no ano passado celebrou efusivamente o 75º aniversário. E foi esta, curiosamente, uma das várias orquestras que Boult dirigiu após 1950, por não se ter dado por convencido com a referida reforma compulsiva... Dessa colaboração resultaram várias gravações, e um disco lançado há pouco tempo, já no decorrer deste ano, contém algumas efectuadas em 1966 e em 1971, e em que Boult interpreta obras de um seu compatriota, o compositor inglês John Ireland (1879-1962). E se Boult foi para Londres após a famosa reforma, Ireland viveu nessa cidade cerca de 55 anos, e nela se inspirou para escrever algumas das obras constantes deste disco.

Uma delas, a Marcha Épica, foi composta em 1942 em resultado de uma encomenda da BBC, e foi a primeira obra a ser interpretada no concerto de abertura dos Concertos Promenade desse mesmo ano. Em plena 2ª Grande Guerra, portanto, e no segundo ano em que os Proms tiveram lugar no Royal Albert Hall, após a Luftwaffe ter bombardeado o Queen's Hall no dia 10 de Maio de 1941, passam hoje 67 anos.




John Ireland
Tritons, symphonic prelude. The Forgotten Rite, prelude.
Mai-Dun, symphonic rhapsody. A London Overture. Epic March.
Themes from Julius Caeser. Suite 'The Overlanders'.
London Philharmonic Orchestra
Adrian Boult
Lyrita SRCD.240


Internet

Adrian Boult
Bach Cantatas / Wikipedia / National Portrait Gallery

John Ireland
The John Ireland Charitable Trust / The John Ireland Trust / Guild Music / Naxos / Wikipedia / Karadar Classical Music

07/05/2008

CDs #161: Brahms, The String Sextets

No início da década de 1850, o compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897) fez uma turné pela Alemanha como pianista, acompanhado pelo violinista Eduard Reményi (1830-1898), de que resultaram dois encontros que se viriam a revelar cruciais, com o violinista Joseph Joachim (1831-1907) e com o casal Schumann. Robert Schumann (1810-1856) viria a ter uma admiração extrema pela música de Brahms, a que este corresponderia com uma paixão assolapada pela esposa, Clara Schumann (1819-1896)... Nunca passaria de um amor platónico, pensa-se, que durou até à morte de Clara, em 1896.

Por ventura numa tentativa de esquecer Clara, em 1859 ficou noivo do soprano Agathe von Siebold (1835-1909), uma mulher não especialmente bonita mas voluptuosa..., que conhecera no ano anterior. A estreia do Concerto para Piano Nº1, a 22 de Janeiro de 1859, não foi propriamente um grande sucesso e, no rescaldo, Brahms escreveu uma carta a Agathe, que resultou no fim imediato do noivado. Foi neste ambiente tumultuoso que compôs a sua primeira obra de música de câmara, o Sexteto de Cordas Nº1 (o Trio, Op.8, de 1854, foi rearranjado em 1891, versão que é a que habitualmente se executa), terminado em Setembro de 1860 e estreado no dia 20 de Outubro seguinte, num concerto promovido por Joseph Joachim. O Sexteto de Cordas Nº2 foi escrito cerca de 4 anos depois, quando Brahms soube que Agathe tinha trocado a Alemanha pela Irlanda, tendo-o terminado no início de 1865, pouco antes do falecimento da sua mãe. Ao contrário do primeiro, este segundo teve uma recepção muito fraca, e foi alvo de duras críticas. Histórias para outra altura...

Johannes Brahms nasceu há 175 anos, no dia 7 de Maio de 1833.




Johannes Brahms
String Sextet No.1 in B flat major, Op.18.
String Sextet No.2 in G major, Op.36.
The Nash Ensemble
Onyx Classics ONYX 4019
(2006)


Internet

Johannes Brahms
Johannes Brahms WebSource / Classical Music Pages / Classical Net / Naxos / Vidas Lusófonas / Wikipedia

05/05/2008

CDs #160: Debussy, Préludes

Em Agosto do ano passado falámos aqui do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) referindo, de passagem, os seus Prelúdios. Um prelúdio, tal como o nome o dá a entender, é uma peça instrumental introdutória de uma obra musical. Ou melhor, começou por assim ser, até que, já no século XIX, ganhou vida própria e tornou-se numa peça independente, graças a Frédéric Chopin (1810-1849).

Depois dele, vários outros compositores investiram no género, com especial destaque para Debussy. Com diferenças fundamentais, contudo. Os Prelúdios de Debussy são "cenas da sua vida emocional" e, por via disso e ao contrário dos de Chopin, ostentam títulos. Que, contudo, só aparecem no fim das partituras, como se o compositor nos quisesse esconder até ao limite as motivações de cada um dos 24 que compôs. Por outro lado, Debussy evoca momentos e procura criar uma determinada atmosfera, enquanto Chopin tinha procurado retratar estados de alma.

Os Prelúdios de Debussy dividem-se em dois grupos, de 12 cada. Os que pertencem ao primeiro livro foram compostos num curto espaço de tempo, entre Dezembro de 1909 e Fevereiro do ano seguinte. Quatro deles, os números 1, 2, 10 e 11 foram tocados em público pela primeira vez pelo próprio compositor no dia 5 de Maio de 1910, passam hoje 98 anos. Debussy levou bastante mais tempo a escrever os do segundo livro, deles se tendo ocupado entre 1910 e 1912. Mais difíceis de compor e também de menor aceitação pelo público que, historicamente, sempre manifestou preferência pelo primeiro. A terminar, uma pequena curiosidade: alguns dos prelúdios deste segundo livro foram estreados pelo pianista Ricardo Viñes (1875-1943), o mesmo que, poucos anos antes, tinha estreado a obra Gaspard de la nuit de Maurice Ravel (1875-1937).




Claude Debussy
Préludes.
Steven Osborne (piano)
Hyperion CDA67530
(2006)


Internet

Claude Debussy
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03/05/2008

Concertos #66

Por iniciativa do pianista, maestro e professor polaco Jerzy Zurawlew (1887-1980), entre os dias 23 e 30 de Janeiro de 1927 teve lugar a primeira edição do Concurso Internacional de Piano Frederick Chopin. A ideia era que este ocorresse de 5 em 5 anos, só que a II Grande Guerra veio atrapalhar as coisas, forçando um interregno entre 1942 e 1949; a edição V ocorreu em 1955, e desde essa altura nunca mais falhou. O primeiro vencedor foi o pianista russo Lev Oborin (1907-1974), e ao longo da sua história premiou alguns pianistas bem nossos conhecidos: Louis Kentner (1905-1987), 5º lugar em 1932; Vladimir Ashkenazy (1937-), 2º lugar em 1955; Maurizio Pollini (1942-), vencedor da edição de 1960; Martha Argerich (1941-), 1º lugar em 1965; Mitsuko Uchida (1948-), 2º lugar em 1970, com Emanuel Ax (1949-) a receber uma menção honrosa; e Krystian Zimerman (1956-), vencedor da edição de 1975.

Na 10ª edição, que teve lugar em Outubro de 1980, o primeiro prémio foi atribuído ao pianista vietnamita Dang Thai Son (1958-), tendo sido atribuídas 8 menções honrosas, duas das quais a Angela Hewitt (1958-) e a Ivo Pogorelich (1958-). Esta última causou uma celeuma desgraçada, não pela distinção em si, mas pelo facto de Pogorelich ter sido eliminado na terceira ronda do concurso; e se ele foi então posto a andar, já Martha Argerich, tomou a iniciativa de igualmente dar à sola, abandonando o júri em veemente sinal de protesto! Passámos desse modo a ter um pianista que ficou bem mais famoso pelo concurso que não ganhou do que por aqueles em que venceu...

É já no próximo dia 6 que vamos ter a oportunidade de assistir a um recital de Pogorelich na Casa da Música, num programa essencialmente romântico, mas que vai começar com um par de sonatas do clássico Ludwig van Beethoven (1770-1827). Grandes expectativas, naturalmente, naquele que poderá ser um dos grandes acontecimentos musicais do ano na cidade invicta. E são cada vez mais raros...


Programa

Ludwig van Beethoven
Sonatas para Piano - Op.78; Op.111.
Johannes Brahms
Intermezzo, Op.118 Nº2.
Sergei Rachmaninov
Sonata para Piano Nº2.
Ivo Pogorelich (piano)


Internet

Ivo Pogorelich
Biography, albums, concert review / Deutsche Grammophon / Fundação Calouste Gulbenkian / Bach Cantatas Website / Wikipedia / New York Times

01/05/2008

CDs #159: Dvorák, Suk

Entre 1892 e 1895 o compositor checo Antonín Dvorák (1841-1904) viveu nos Estados Unidos, desempenhando o cargo de director do Conservatório Nacional de Nova Iorque. A obra mais sonante desse seu período americano é, obviamente, a Sinfonia Nº9, "Do Novo Mundo". Foi sob o eco dos aplausos da estreia, a 16 de Dezembro de 1893, daquela que acabaria por ser a sua última sinfonia, que Dvorák iniciou a composição da Suite em lá maior, primeiro editada em 1894 numa versão para piano e só orquestrada um par de anos depois. A estreia teria lugar no dia 1 de Março de 1910, com a orquestra dirigida pelo maestro, igualmente checo, Karel Kovarovic (1862-1920).

Esta é a primeira obra que consta deste disco, sendo as outras duas de Josef Suk (1874-1935), um antigo aluno de Dvorák no Conservatório de Praga. A de maior fôlego, a Serenata para Orquestra de Cordas, Op.6, foi composta em 1892 em resposta a um desafio de Dvorák, que achava que já era tempo de Suk compôr algo "fresco e jovial". Na altura aquilo que Suk achava de mais fresco e jovial era Otilie, filha de Dvorák, com quem acabaria por casar 6 anos depois, mas lá se conseguiu desembaraçar e escrever uma peça extraordinária... O grande promotor desta obra foi Johannes Brahms (1833-1897), que já uns anos antes tinha ajudado à divulgação da música de Dvorák.

A outra obra de Suk presente neste disco, o Scherzo fantastique, composta em 1903, marcou o fim do chamado primeiro período criativo do compositor. No ano seguinte Dvorák faleceria e, apenas 14 meses depois, o mesmo se passaria com Otilie, o que marcaria profundamente Josef Suk e se viria a reflectir nas suas composições.

Antonín Dvorák faleceu há 104 anos, no dia 1 de Maio de 1904.




Antonín Dvorák
Suite in A major, B190.
Josef Suk
Serenade for String Orchestra in E flat major, Op.6.
Scherzo fantastique, Op.25.
Prague Philharmonia
Jakub Hrusa
Supraphon SU3882-2
(2006)


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Josef Suk
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