28/09/2008

CDs #182: Bach Cantatas, Gardiner

Frustrado com a insensibilidade musical de Friederica Henrietta de Anhalt-Bernburg, o compositor Johann Sebastian Bach (1685-1750) achou que já bastava da corte de Cöthen e, em Maio de 1723, iniciou formalmente as suas actividades em Leipzig. Se em Cöthen, onde esteve entre 1717 e 1723, não tinha a obrigação de escrever cantatas religiosas, motivo pelo qual a maioria das que compôs foram seculares, já o mesmo não se iria passar em Leipzig. Aqui, a começar pelo primeiro Domingo após a Trindade, foi encarregue de apresentar uma nova todos os Domingos. Tanto quanto se sabe, Bach fazia questão de interpretar cantatas da sua própria autoria, tendo sido raras as excepções a esta regra, pelo que trabalho foi coisa que não lhe faltou no primeiro ano...

As cantatas que abrem o primeiro dos discos aqui hoje trazidos (é um CD duplo) foram escritas para o décimo nono Domingo após a Trindade. O que, se não me enganei nas contas, este ano corresponde ao dia 28 de Setembro:

> A Páscoa este ano calhou a 23 de Março.
> O Pentecostes teve lugar 50 dias depois, ou seja, a 12 de Maio (2ª Feira).
> A festa da Trindade realizou-se no Domingo seguinte, 18 de Maio.
> Dezanove Domingos depois e chegamos ao dia de hoje, 28 de Setembro.

As gravações resultaram dos vários concertos dados pelo Monteverdi Choir e pelos The English Baroque Soloists, dirigidos por John Eliot Gardiner (1943-), que em 2000, assinalando os 250 anos da morte do compositor alemão, interpretaram todas as suas cantatas religiosas. Foi aquilo que designaram por Bach Cantata Pilgrimage, que teve início no dia 25 de Dezembro de 1999.




Johann Sebastian Bach
Ich elender Mensch, wer wird mich erlösen, BWV48.
Wo soll ich fliehen hin, BWV5.
Es reiBet euch ein schrecklich Ende, BWV90.
Ich will den Kreuzstab gerne tragen, BWV56.
Gott der Herr ist Sonn und Schild, BWV79.
Nun danket alle Gott, BWV192.
Ein feste Burg ist under Gott, BWV80.
Joanne Lunn (soprano), William Towers (alto),
James Gilchrist (tenor), Peter Harvey (baixo)
The Monteverdi Choir
The English Baroque Soloists
John Eliot Gardiner
Soli Deo Gloria SDG 110
(2000)


Internet

Johann Sebastian Bach
J. S. Bach Home Page / Bach Cantatas Website / Classical Music Pages / P. Q. P. Bach / Wikipedia

26/09/2008

CDs #181: Schubert, Leon Fleisher

Quando aqui falei pela primeira vez do pianista norte-americano Leon Fleisher (1928-), em Julho de 2005, referi, como era (quase) inevitável, o problema que, a partir de 1965, lhe afectou a mão direita, e que o obrigou durante mais de 3 décadas a tocar apenas repertório para a esquerda. Um tratamento alternativo permitiu-lhe recuperar os movimentos da mão perdida e, em 2004, voltou a lançar um disco com obras para piano a duas mãos, apropriadamente intitulado de "Two Hands".

Aqui este vosso escriba apenas conhecia as duas últimas fases deste pianista, a "fase esquerdista" e a última, a "nova fase", aquela em que voltou a poder utilizar normalmente as duas mãos para tocar piano. Mas não conhecia a fase inicial, pré-1965, aquela que o lançou para o estrelato, e que levou o maestro norte-americano de origem francesa Pierre Monteux (1875-1964) a afirmar estarmos perante "a maior descoberta pianística do século".

Não será certamente coincidência que uma das obras que aparecem em "Two Hands" seja a Sonata para Piano, D960, de Franz Schubert (1797-1828). É que esta é assumidamente uma das obras preferidas deste pianista, e foi a primeira que gravou, em 1956, para a Columbia Records. Esta sonata, já aqui trazida pelas mãos de Alfred Brendel (1931-), foi terminada por Schubert 180 anos, no dia 26 de Setembro de 1828, e foi ainda a última obra de envergadura que compôs, pois faleceria menos de 2 meses depois.

Já este ano a United Archives reeditou esta primeira gravação de Fleisher, a que rapidamente deitei a mão, ou não fosse, além de histórica, a minha oportunidade de finalmente ouvir este pianista ainda em início de carreira (na altura tinha 28 anos). Grandes audições, e um dos meus discos do ano...




Franz Schubert
Piano Sonata in B flat major, D960. Ländler, D790.
Leon Fleisher (piano)
United Arhives UAR021


Internet

Leon Fleisher
The Kennedy Center / american composers orchestra / Bach Cantatas Website / Internet Cello Society / Sony BMG / The New York Times / My White House Dilemma, by Leon Fleisher (The Washington Post) / Wikipedia

22/09/2008

CDs #180: Mindru Katz, Henryk Szeryng, A Legendary Collaboration

A editora Cembal d'amour especializou-se na edição de gravações raras, e tem feito um trabalho muito meritório. Um dos discos lançados no ano passado oferece-nos sonatas para piano e violino de Johannes Brahms (1833-1897) e César Franck (1822-1890), com as honras da casa a cargo do pianista Mindru Katz (1925-1978) e do já nosso bem conhecido violinista Henryk Szeryng (1918-1988).

Mindru Katz, nascido em Bucareste em Junho de 1925, é um nome quase complemente desconhecido hoje em dia, apesar de ter sido um extraordinário pianista e de ter tocado com alguns dos mais conceituados maestros, como John Barbirolli (1899-1970), Sergiu Celibidachi (1912-1996), Antal Doráti (1906-1988) e Joseph Krips (1902-1974). Os destinos de Katz e Szeryng cruzaram-se pela primeira vez nos inícios da década de 1970 e logo Szeryng, vivamente impressionado com as interpretações de Katz, mostrou interesse em que, logo que possível, tocassem juntos. A oportunidade surgiu não muito tempo depois, em Junho de 1973, e, nessa ocasião, interpretaram então as sonatas de Brahms e de Franck. Alguém, a quem ficaremos para sempre agradecidos, teve o bom senso de gravar a sessão, que no ano passado foi então transferida para CD.

Aos poucos vamos tendo acesso a registos que nos vão mostrando o percurso de Szeryng após ter reatado a sua carreira de violinista. Esta, interrompida durante a II Grande Guerra, durante a qual teve a oportunidade de safar muitos compatriotas polacos ao providenciar-lhes refúgio no México, foi apenas retomada em meados da década de 1950, graças aos esforços do pianista Artur Rubinstein (1887-1982). Em Dezembro de 2006 tivemos aqui um primeiro exemplo, com o concerto que deu com o pianista Gary Graffman (1928-) em Dezembro de 1971. Quase 2 anos depois e temos de novo Szeryng, na tal sessão com Katz. Veremos o que o futuro nos trará...

Henryk Szeryng nasceu há 90 anos, no dia 22 de Setembro de 1918.




Johannes Brahms
Sonata for Piano and Violin in D minor, Op.108.
César Franck
Sonata for Piano and Violin in A major.
Henryk Szeryng (violino), Mindru Katz (piano)
Cembal d'amour CD 105
(1973)


Internet

Mindru Katz
Cembal d'amour / ArkivMusic / Bach Cantatas Website / Classical Net / Wikipedia

Henryk Szeryng
Decca Classics / Answers.com / Legendary Violinists / Wikipedia / Henryk Szeryng

19/09/2008

CDs #179: sanderling, bruckner, shostakovich, mahler

É de certa forma curioso que o maestro alemão Kurt Sanderling (1912-) tenha, em 1936, trocado a Alemanha nazi pela União Soviética de José Estaline (1878-1953), que a governou com mão de ferro a partir de 1924 e até à sua morte, e com as consequências que se conhecem. As artes não escaparam ao seu jugo, e tiveram que seguir rigorosamente os princípios ditados pelo Realismo Socialista. Vários compositores sofreram na pele as perseguições de Andrei Zhdanov (1896-1953) e amigos, contando-se, entre eles, Sergei Prokofiev (1891-1953) e Dmitri Shostakovich (1906-1975).

O tal ano em que Sanderling se mudou para a União Soviética, 1936, marcou precisamente o início dos problemas de Shostakovich com as autoridades, que acabaram mesmo por retirar de cena a sua ópera Lédi Makbet Mtsenskogo uyezda. Sanderling viria a privar com o compositor na Sibéria, numa altura em que este se encontrava ocupado com a 8ª Sinfonia, que iria ser estreada no dia 4 de Novembro de 1943, com Evgeny Mravinsky (1903-1988) a dirigir a orquestra. Curiosamente, no livro Testimony, The Memoirs of Dmitri Shostakovich, não é feita qualquer referência a Sanderling.

A obra de Shostakovich presente neste disco duplo é o ciclo de canções "Da poesia popular judaica", escrito em 1948, nos últimos anos do estalinismo, portanto, e estreado no dia 15 de Janeiro de 1955. Inclui ainda excelentes interpretações da Sinfonia Nº3 de Anton Bruckner (1824-1896) e de um ciclo de canções, Lieder eines fahrenden Gesellen, de Gustav Mahler (1860-1911).

Kurt Sanderling celebra hoje o seu 96º aniversário.




Anton Bruckner
Symphony No.3 in D minor (1889 version).
Gustav Mahler
Lieder eines fahrenden Gesellen.
Dmitri Shostakovich
From Jewish Folk Poetry.
Hermann Prey (barítono), Maria Croonen (soprano),
Annelies Burmeister (alto), Peter Schreier (tenor)
Gewandhausorchester Leipzig
Rundfunk-Sinfonie-Orchester Berlin
Berliner Sinfonie-Orchester
Kurt Sanderling
Berlin Classics 0184152BC
(1961, 1965, 1968)


Internet

Kurt Sanderling
Kurt Sanderling / Music under Soviet rule: Sanderling interview / Folha Online / La Scena Musicale / Wikipedia

17/09/2008

Sopranos #15: Hilde Gueden (1914-1988)

É discutível, no mínimo, atribuir o sucesso e a popularidade do soprano austríaco Hilde Gueden exclusivamente à sua bela estampa, esquecendo as evidentes qualidades vocais. Aliás, não sendo normalmente os sopranos ligeiros os mais apreciados, o sucesso internacional obtido por Gueden só a abona, não sendo fácil de o explicar se se tratasse de uma cantora lírica incapaz de suster uma nota.

Aquando da sua estreia operática, em 1939 em Zurique, já se chamava Hilde Gueden, depois de ter nascido Hulda Geiringer e, pelo meio, ter dado pelo nome de Hulda Gerin... Em 1942, sem ter mudado de nome outra vez..., é convidada por Clemens Krauss (1893-1954) para a Ópera de Estado de Munique; não seria uma estada duradoura, contudo, pois a senhora era de ascendência judaica e a Alemanha, na altura, não era certamente o poiso mais indicado para a sua saúde... Baseado seguramente em algo mais do que apenas na beleza de Gueden, o convite seguinte seria formulado pelo grande maestro italiano Tullio Serafin (1878-1968), tendo então permanecido em Itália (Roma e Florença) até ao final da 2ª Grande Guerra. Seguir-se-iam o regresso a Munique e os triunfos um pouco por todo o lado: Festival de Salzburgo, Teatro alla Scala, Covent Garden, Ópera de Paris, Glyndebourne, Teatro La Fenice, Met de Nova Iorque.

Hilde Gueden faleceu há 20 anos, no dia 17 de Setembro de 1988.



CDs



Johann Strauss II
Die Fledermaus.
Hilde Gueden, Wilma Lipp (sopranos), Julius Patzak, Anton Dermota,
August Jaresch (tenores), Alfred Poell, Kurt Preger (barítonos),
Sieglinde Wagner (meio-soprano)
Vienna State Opera Chorus
Vienna Philharmonic Orchestra
Clemens Krauss
Naxos Historical 8.110180/1
(1953)

Richard Strauss
Der Rosenkavalier, Op.59.
Maria Reining, Lisa della Casa, Hilde Gueden, Judith
Hellwig (sopranos), Kurt Boehme, Alfred Poell (barítonos),
Laszlo Szemere, Karl Terkal (tenores), Sieglinde Wagner (contralto)
Vienna State Opera Chorus
Vienna Philharmonic Orchestra
Clemens Krauss
Guild GHCD2293-95
(1953)

Igor Stravinsky
The Rake's Progress.
Hilde Gueden (soprano), Eugene Conley, Paulo Franke (tenores),
Mack Harrell (barítono), Blanche Thebom, Martha Lipton (meios-sopranos),
Norman Scott, Lawrence Davidson (baixos)
Metropolitan Opera Chorus
Metropolitan Opera Orchestra
Igor Stravinsky
Naxos Historical 8.111266/7
(1953)


Internet

Hilde Gueden
Subito - Cantabile / Naxos / Hilde Güden / Wikipedia

15/09/2008

CDs #178: Christian Poltéra plays Frank Martin

Dando um novo significado à palavra autodidacta, o suíço Frank Martin (1890-1974) já compunha canções aos nove anos, sem ter tido qualquer formação musical, e a que de mais significativa teve foi pouco tempo depois, quando ouviu ao vivo a Paixão Segundo S. Mateus de Johann Sebastian Bach (1685-1750)... Mais tarde viria a ter aulas de composição e piano com Joseph Lauder (1864-1952), numa altura em que estudava Matemática e Física na Universidade de Genebra, a sua cidade natal.

Em 1926, depois de quase uma década a passear-se por Zurique, Roma e Paris, voltou a assentar arraiais em Genebra, e as suas composições chamaram a atenção de um maestro que já por aqui passou, Ernest Ansermet (1883-1969). Ansermet iria mesmo ser responsável por algumas estreias de obras de Martin. Só a partir da década de 1940, contudo, é que as obras de Martin começaram a ser mais notadas, primeiro com a oratória profana Le vin herbé, de 1942, e depois, e principalmente, com a Petite symphonie concertante, estreada em Zurique em 1946 por um outro maestro já nosso bem conhecido, Paul Sacher (1906-1999).

Foi ainda Sacher quem iria estrear, em 1967, o Concerto para Violoncelo e Orquestra, que, aliás, lhe foi dedicado por Frank Martin. Que o tinha começado a escrever no início da década de 1960, e parado logo após os primeiros acordes, vítima de uma entupidela inultrapassável! Só 5 anos depois, quando pegou de novo na partitura, teve a inspiração necessária para ultrapassar tal bloqueio, resultando então este concerto. Em sintonia com o trajecto musical de Martin, influenciado por Arnold Schoenberg (1874-1951) mas sem nunca ter abandonado a tonalidade, este Concerto para Violoncelo começa e acaba de uma forma claramente tonal, o problema é o que se passa entretanto lá pelo meio...

Frank Martin nasceu há 118 anos, no dia 15 de Setembro de 1890.




Frank Martin
Concerto for Cello and Orchestra. Ballade for Cello and Piano.
8 Preludes for Piano.
Christian Poltéra (violoncelo), Kathryn Stott (piano)
Malmö Symphony Orchestra
Tuomas Ollila-Hannikainen
BIS BIS-CD-1637
(2007)


Internet

Frank Martin
Frank Martin site / Classical Net / Naxos / Karadar Classical Music / Wikipedia

14/09/2008

Notícias #20

Numa iniciativa da Agência INOVA, irá decorrer o Fórum Cultura e Criatividade 2008 entre os dias 19 e 23 de Novembro na Exponor (Porto), e que incluirá na sua agenda:

:: Debates sob o tema "Gestão Pública e Gestão Privada" (dia 19)
:: Debates sob o tema "Agenda Cultural para Europa" (dia 20)
:: TEMPUS (Salão Internacional dos Museus e do Património)
:: CONCEPTA (Feira Internacional de Arte, Cultura e Criatividade)

No dia 23 terá ainda lugar um encontro informal de Bloggers de Cultura e Criatividade, sobre o qual Dário Viegas, da Agência INOVA, nos diz o seguinte:

"Assumindo os Blogues, cada vez mais, um papel preponderante na difusão e mesmo na criação de informação, posicionam-se como ferramentas importantes no processo de transmissão e partilha cultural.
É neste contexto, de serviço público e social, que prevemos a participação dos Bloggers no FCC08.
O Encontro Nacional de Bloggers resume o principal conceito do FCC08, na medida em se constitui como um encontro transversal às áreas culturais, reunindo-as e criando sinergias conjuntas que promovem a divulgação e o desenvolvimento cultural".

09/09/2008

Quartetos de Cordas #6: Quarteto de Cordas Nº15, de Beethoven

No que à música de câmara diz respeito, a obra de Ludwig van Beethoven (1770-1827) divide-se em 4 grupos principais: os quartetos de cordas, as sonatas para violino e piano, as sonatas para violoncelo e piano, e os trios para piano e cordas.

Ao contrário do que sucedeu com a maioria dos outros géneros a que igualmente se dedicou, Beethoven não compôs quartetos de cordas de uma forma continuada. Podem-se mesmo identificar 3 períodos distintos: um inicial, entre 1798 e 1800, em que escreveu os Quartetos Op.18 e onde, apesar de ainda se notarem as óbvias influências de Joseph Haydn (1732-1809) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), já se percebe a fuga ao modelo clássico; um segundo período, a que pertencem os Quartetos Opp.59, 74 & 95, onde o compositor se afastou decisivamente do modelo tradicional, enfrentando por isso um menor entusiasmo; e um terceiro e último período, a que pertencem os Quartetos Opp.127, 130, 131, 132, 133 & 135, que representaram um avanço significativo no género, utilizando estruturas mais complexas e exigindo bem mais dos músicos.

O Quarteto de Cordas Nº15, Op.132, pertence assim a este último período; esboçado em 1823 e terminado 2 anos depois, teve a sua estreia, em Viena, no dia 9 de Setembro de 1825. Ao contrário do que sucedeu com vários outros quartetos deste período, registou um êxito assinalável nessa estreia, o que levou a que o concerto se repetisse 2 dias depois. Foi dedicado ao príncipe Nikolai Borisovich Galitzine (1794-1866), pertencente a uma das mais relevantes famílias aristocráticas da Rússia.


CDs




Ludwig van Beethoven
String Quartets - No.15 in A minor, Op.132; No.16 in F, Op.135.
Cleveland Quartet
Telarc CD80247

Ludwig van Beethoven
String Quartet No.15 in A minor, Op.132.
String Quintet in C minor, Op.104.
Louise Williams (viola)
The Lindsays
ASV CDDCA1118

Ludwig van Beethoven
The Complete String Quartets.
Vermeer Quartet
Warner Classics 2564 61399-2

Ludwig van Beethoven
The Late String Quartets - Opp.95, 130-133 & 135.
Takács Quartet
Decca 470 849-2

Ludwig van Beethoven
String Quartets - No.12, Op.127; No.15, Op.132.
Hagen Quartet
Deutsche Grammophon 477 5705


Internet

Ludwig van Beethoven
Classical Music Pages
/ Wikipedia / Ludwig van Beethoven: Le site / Ludwig van Beethoven / Ludwig van Beethoven

05/09/2008

Pianistas #24: Joyce Hatto (1928-2006)

Há coisas que não lembrariam ao diabo mas que saem naturalmente da pinha de muitos humanos, e com consequências por vezes desastrosas, como foi obviamente o caso da que deu origem à embrulhada em que se viu metido o nome da pianista inglesa Joyce Hatto (1928-2006). E só nela não se viu directamente embrulhada a própria Joyce Hatto porque a história apenas foi descoberta após a sua morte, ocorrida em Junho de 2006. Se não o tivesse sido, a senhora ainda hoje seria venerada como tendo sido uma extraordinária pianista, uma das maiores da sua geração.

A carreira de Hatto tinha começado nos inícios da década de 1950, e estendeu-se por cerca de 25 anos, tendo deixado de vez os palcos em 1976, aparentemente por problemas de saúde. Por muitos e bons anos ninguém voltaria a ouvir falar da senhora. Até que, já no século XXI, a editora Concert Artist, pertencente a William Barrington-Coupe, marido da pianista, começou a editar discos que rapidamente ganharam um estatuto de quase culto, dada a qualidade das interpretações da pianista e o facto de ser uma quase desconhecida até então. Daí até à celebridade de Hatto foi um pequeno passo.

Só que um belo dia, Brian Ventura, que tinha encomendado uma resma desses discos, enfiou um deles no computador, com os 12 Estudos Transcendentais de Franz Liszt (1811-1886), e o iTunes identificou o pianista como sendo o húngaro Lászlo Simon (BIS-CD-369), e não Joyce Hatto. Desconfiado, Ventura contactou a revista Gramophone e deu conta da sua descoberta ao editor Jed Distler que, após várias audições das "versões" de Simon e Hatto não descortinou grandes diferenças, o que só lhe aumentou o desconforto. Para tirar a coisa a limpo, Distler entrou por sua vez em contacto com Andrew Rose, especialista em áudio da editora Pristine Classical, que, após uma cuidada análise, concluiu tratar-se da mesma gravação, efectuada por László Simon em 1986 e repescada para o disco de Hatto...

A notícia começou-se a espalhar e o processo não mais parou, vindo-se a demonstrar que as várias dezenas de gravações editadas por Barrington-Coupe tinham sido na verdade efectuadas por outros pianistas (mais de 90 pianistas diferentes...), ilegalmente copiadas, manipuladas e atribuídas a Joyce Hatto. Após muitas negas, o artista lá acabaria por admitir a aldrabice, uma das mais fantásticas da história da música! O que, devo admitir, também me deixou um bocado perplexo, para não dizer incomodado, pois algumas destas gravações, que fizeram de Hatto famosa, foram na verdade efectuadas por pianistas de que raramente ouvimos falar e que nunca receberam tais encómios...

Joyce Hatto nasceu há 80 anos, no dia 5 de Setembro de 1928.


Internet

Joyce Hatto
Pristine Classical / Telegraph / Gramophone / QuestionCopyright.org / Guardian / The Independent / BBC / International Herald Tribune / FarhanMalik.com / Andrys Basten / stereophile / Bach Cantatas Website / MusicWeb International / Wikipedia

02/09/2008

Lugares #180

A década de 1660 foi particularmente negra para Londres: em 1665 a peste, que desde a idade média ameaçava a cidade, disseminou-se rapidamente, provocando mais de 68.000 vítimas mortais; ainda os seus efeitos se faziam sentir e, no ano seguinte, um incêndio devastou a cidade, deixando intacta apenas 1/5 da área dentro das muralhas. Começou numa padaria em Pudding Lane, no dia 2 de Setembro de 1666, passam hoje 342 anos, e, ajudado pelo vento, só ao fim de 3 dias se extinguiu. As casas, maioritariamente feitas de madeira, foram rápida e facilmente consumidas; quando o fogo acabou havia menos 13.200 em Londres...

Entre 1671 e 1677 os londrinos construiram um monumento, a que apropriadamente deram o nome de... O Monumento, para assinalar tão nefasto acontecimento. Construiram-no não muito longe do ponto onde o fogo começou; aliás, a altura do monumento, 62 metros, corresponde exactamente à distância a que se encontra do local onde se situava a malfadada padaria. Não muito longe mas também não tão perto quanto isso, pelo que os que se quiserem afoitar a visitá-lo terão que subir 311 degraus antes de atingir o seu topo! Por esta altura os estimados leitores já saberão o quão intrépida esta família é, e que se recusaria a desfalecer perante tal desafio, apesar de gigantesco! Sobrevivemos à subida pois claro e, como recompensa, ao regressar ao "rés-do-chão" recebemos 4 magníficos diplomas, um para cada herói, que desde então exibimos orgulhosamente. E para os mais cépticos, lá está escrito a dado passo, em cada um dos 4 documentos: "They drew up plans for a column containing a cantilevered stone staircase of 311 steps leading to a viewing platform". Incontestável proeza!



Refira-se, a terminar, que o projecto esteve a cargo de Christopher Wren (1632-1723), um extraordinário homem de que aqui se voltará a falar um dia.


Internet

Londres
Britannia / The Great Fire of London / Luminarium: Encyclopedia Project / Channel 4 / Wikipedia

Monument
City of London / London Travel / Wikipedia