30/11/2008

CDs #189: Beethoven, Symphony No.9, Furtwängler

Há dois maestros a quem sempre associei uma áurea de mistério: o italiano Arturo Toscanini (1867-1957) e o alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954). Ligados pela música mas separados pela política, pois Toscanini não perdoou a relação ambígua que Furtwängler manteve com o regime nazi. Só para dar uma ideia da tortuosidade de Furtwängler, relembro aquela famosa carta (1) que escreveu ao ministro da propaganda nazi, Joseph Goebbels (1897-1945) em Abril de 1933, mostrando a sua preocupação pela imposição de quotas máximas de músicos de origem judaica, e no quanto isso poderia prejudicar a qualidade da orquestra; na mesma missiva mostrava compreensão em relação a perseguições noutras áreas, havendo boas razões para tal, desde que não incluísse a musical...

Pergunto-me então se estes factos não terão repercussões na forma como avaliamos a sua obra, mas esta é uma pergunta condenada a ficar sem resposta. Naquilo que à música diz respeito, houve dois compositores em particular a que Furtwängler ficará para sempre ligado: Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Johannes Brahms (1833-1897). Furtwängler atribuía uma especial importância à Sinfonia Nº9 de Beethoven e, a partir de certa altura, apenas a interpretava "em ocasiões especiais".

A gravação que trago aqui hoje é ainda um pouco mais especial, pois foi efectuada em Agosto de 1954 durante o Festival de Lucerna, e foi a última vez que o maestro a interpretou, pois faleceria cerca de 3 meses depois. Tem ainda a vantagem sobre outras suas gravações desta sinfonia pelo facto de ter sido gravada ao vivo, meio em que se sentia bem mais à-vontade. Além de contar no elenco com uma das minhas deusas, o soprano Elisabeth Schwarzkopf (1915-2006)...

Wilhelm Furtwängler faleceu há 54 anos, no dia 30 de Novembro de 1954.




Ludwig van Beethoven
Symphony No.9 in D, Op.125, "Choral".
Elisabeth Schwarzkopf (soprano), Elsa Cavelti (contralto),
Ernst Häfliger (tenor), Otto Edelmann (barítono)
Lucerne Festival Choir
Philharmonia Orchestra
Wilhelm Furtwängler
Music & Arts CD-790


Internet

Wilhelm Furtwängler
Bach Cantatas Website / The Wilhelm Furtwängler Society of America / Société Wilhelm Furtwängler / Naxos / Classical Notes / Wikipedia


(1) La Symphonie des Chefs, de Robert Parienté

28/11/2008

Maestros #41: Richard Hickox (1948-2008)

Esta semana fomos surpreendidos com a notícia do falecimento, no passado Domingo, do maestro inglês Richard Hickox, vítima de ataque cardíaco quando se encontrava em Cardiff, País de Gales, a preparar uma nova produção da ópera de um acto Riders to the Sea, do compositor Ralph Vaughan Williams (1872-1958).

Um dos maiores sucessos discográficos de Hickox foi precisamente com uma obra de Vaughan Williams, quando, em Dezembro de 2000, gravou a Sinfonia Nº2, "Sinfonia Londres", desse compositor. Em 2001 este disco seria mesmo considerado o melhor do ano pela Gramophone. Hickox notabilizou-se pelas interpretações dos seus compatriotas, e é assim normal que, apesar de nunca dele ter aqui falado especificamente, o seu nome ter normalmente aparecido quando para aqui se convidaram compositores ingleses, como foram os casos de Michael Tippett (1905-1998) e de William Alwyn (1905-1985).

Se não for antes, voltarei certamente a falar de Richard Hickox em Março do próximo ano, na altura em que celebraria o seu 61º aniversário.


Internet

Richard Hickox
RTP / Correio da Manhã / Diário Digital / intermusica / Guardian / Yahoo! News / Telegraph / The Independent / The New York Times / Bach Cantatas Website / BBC / Wikipedia

26/11/2008

CDs #188: The Art of Earl Wild

O norte-americano Earl Wild (1915-) exibiu desde muito novo um talento para tocar piano fora do comum, e aos 12 anos estudava já com Selmar Janson, que nos é invariavelmente apresentado como um reputadíssimo e famoso professor de piano. Curiosamente, se procurarmos informação sua na internet a única coisa que nos aparece à frente é a biografia de Earl Wild... Adiante. Um outro professor que teve foi Egon Petri (1881-1962) que, por sua vez, tinha sido estudante de Ferruccio Busoni (1866-1924), um já nosso velho conhecido.

Particularmente à-vontade no repertório romântico, Wild especializou-se ainda em transcrições, algumas realizadas por ele mesmo, outras de compositores mais ou menos consagrados. Cabe aqui referir uma outra faceta deste pianista, a de promotor de obras de compositores menos conhecidos. O disco (duplo) que nos traz aqui hoje é um excelente exemplo de tudo o que se acaba de afirmar, pois oferece-nos obras de compositores pouco divulgados, como Henri Herz (1803-1888) e Sigismond Thalberg (1812-1871), e um conjunto apetecível de transcrições, efectuadas nomeadamente por Herz, Leopold Godowsky (1870-1938) e Thalberg.

Earl Wild comemora hoje o seu 93º aniversário.




The Art of Earl Wild
Henri Herz
Variations on "Non più mesta", from Rossini's "La Cenerentola".
Leopold Godowsky
Symphonic Metamorphosis on Themes from Johann Strauss' "Künstlerleben".
Anton Rubinstein
Etude, Op.23 No.2, "Staccato".
Sigismond Thalberg
"Don Pasquale" Fantasy, Op.67, from Donizetti's "Don Pasquale".
Johann Nepomuk Hummel
Rondo in E flat major, Op.11.
Ignacy Jan Paderewski
Theme with Variations, Op.16 No.3.
Johannes Brahms
Variations on a Theme by Paganini, Op.35. Four Ballads, Op.10.
Franz Liszt
Paganini Etude No.2 in E flat major.
Earl Wild (piano)
Vanguard Classics ATM-CD-1657


Internet

Earl Wild
Earl Wild Official Web Site / Bach Cantatas Website / Shumei Arts / Sony Classical / Wikipedia / The New York Times / Audiofon Records

22/11/2008

Obras Orquestrais #18: Bolero, de Maurice Ravel

Nos anos 80 do século passado deu-se o boom das rádios piratas, com especial incidência nos meios universitários. A Universidade do Porto (dessa vez) não quis deixar passar a oportunidade e, com a boa vontade de alguns e a carolice de muitos, lá nasceu a RUP, Rádio Universitária do Porto, que transmitia em frequência modulada (F. M.) em 99,4MHz. Na altura este vosso escriba, em conjunto com um amigo, entregou à administração lá do sítio uma proposta, má, para um programa que, por razões que ainda hoje não consigo descortinar, foi aprovada. O que de imediato nos colocou perante um problema sério, pois as nossas discotecas, curtas como o dinheiro na carteira, só davam para encher meia dúzia de programas. Depois de bater a muitas portas e receber outras tantas negas, o dono da distribuidora Andante foi de uma gentileza extrema e, sem nos conhecer de lado nenhum, prontificou-se a emprestar-nos semanalmente discos, que deveríamos devolver após cada emissão. O primeiro que nos calhou em sorte continha várias obras orquestrais do compositor francês Maurice Ravel (1875-1937), mas só nos foi cedido depois de termos solenemente garantido que não passaríamos... o Bolero!

A obra resultou de uma encomenda, da bailarina russa Ida Rubinstein (1885-1960), se bem que não tenha sido a primeira escolha do autor; na verdade, depois de Ida lhe ter dito que queria uma peça com alma espanhola, Ravel pensou inicialmente em orquestrar algumas partes de Iberia, do compositor espanhol Isaac Albéniz (1860-1909). Não tendo obtido os necessários direitos para tal, não teve outro remédio senão compor algo de novo, optando por desenvolver uma obra orquestral completa a partir de uma única linha melódica. Ravel nunca esperou muito desta peça, única no conjunto da sua obra e distante daquilo que o público estava habituado a ouvir: "Estou particularmente desejoso de que não haja menosprezo em relação ao meu Bolero". Ansiedade que se compreende bem, se atendermos ao facto do próprio compositor ter descrito o Bolero como sendo "um trecho de dezassete minutos consistindo unicamente num tecido orquestral sem música"...

Inesperadamente a estreia, no dia 22 de Novembro de 1928, passam hoje 80 anos, foi um enorme sucesso, que incluiu uma audiência aos berros pedindo um encore... Não devemos esquecer, claro está, aquela espectadora que gritou doido! a plenos pulmões, o que, segundo o compositor, só vinha provar que pelo menos ela "tinha entendido a obra"! Aqui nós também a procuramos entender mas, dados a assumir os compromissos, nunca chegámos a passar no nosso programa (?) de rádio os 17 minutos mais famosos e insistentemente ouvidos da história da música...


CDs



Maurice Ravel
Boléro. Concerto for Piano Left-Hand and Orchestra. Pavane
pour une infante défunte. Rapsodie espagnole. La valse.
Claire Chevallier (piano)
Anima Eterna
Jos van Immerseel
Zig Zag Territories ZZT060901

Maurice Ravel
Bolero. Alborada del gracioso. Rapsodie Espagnole.
La valse. Ma Mere I'Oye.
Montreal Symphony Orchestra
Charles Dutoit
Decca 410 010-2


Internet

Maurice Ravel
Maurice Ravel frontispice / Classical Music Pages / Karadar Classical Music / Naxos / BBC / 8notes.com / suite101.com / Answers.com / Wikipedia

19/11/2008

Sinfonias #32: Sinfonia Nº4, de Franz Schubert

Da primeira que por aqui falámos do compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828), referimos o facto de ele ter escrito para cima de 600 canções, apesar de ter falecido com 31 anos apenas. Indubitavelmente que Schubert deu ao lieder um estatuto de que nunca antes tinha gozado, o que teve como contrapartida o facto de, enquanto vivo, ser quase exclusivamente conhecido como um compositor de canções, deixando os outros géneros a que se dedicou com igual brilho injustamente esquecidos.

Um desses géneros foi o sinfónico, tendo escrito 9 sinfonias, embora deixando algumas delas inacabadas; isto, claro, se esquecermos aquilo que viria a ser eventualmente a 10ª, mas da qual apenas deixou alguns esboços pianísticos, por ter falecido entretanto. Uma vez que morreu ainda jovem, é natural que tenha composto as primeiras sinfonias quando era muito novo; a Sinfonia Nº4, "Trágica", foi escrita em 1816, ainda não tinha o compositor 20 anos, mas foi apenas estreada no dia 19 de Novembro de 1849, exactamente 21 anos após a sua morte. Nela não se reconhecem ainda distintamente os sons do romântico, mas antes as influências clássicas vienenses, de Haydn (1732-1809), Mozart (1756-1791) e Beethoven (1770-1827). Ao contrário de outros casos, foi o próprio compositor que deu o nome à sinfonia, apesar do tom geral da mesma não ser tão trágico quanto isso...


CDs



Franz Schubert
Symphonies Nos.1-6, 8 & 9.
Staatskapelle Dresden
Colin Davis
RCA Red Seal 82876 60392-2

Franz Schubert
The 10 Symphonies.
Academy of St Martin in the Fields
Neville Marriner
Philips 470 886-2

Felix Mendelssohn
Die schone Melusine, Op.32.
Franz Schubert
Symphony No.4 in C minor, "Tragic", D417.
Berlin Philharmonic Orchestra
Nikolaus Harnoncourt
Teldec 4509-94543-2


Internet

Franz Schubert
Classical Net / Classical Music Pages / Naxos / Wikipedia / Carolina Classical Connection

18/11/2008

Notícias #22

Entretanto o site da Casa da Música lá recuperou a saúde e está de novo disponível, pelo que finalmente me decidi a dar uma espreitadela à programação para o próximo ano. Depois de sucessivos desapontamentos nos anos anteriores, as esperanças não eram muito elevadas, mas diria que, à primeira vista, pareceu-me notar melhorias em algumas áreas:

» Em vez de sair às prestações, a programação saiu logo para o ano inteiro;
» O caderno com a programação, de que se pode fazer o download (ficheiro em formato pdf), está bem organizado, detalhado qb e com uma apresentação agradável;
» Apesar de a programação, na minha opinião, continuar a favorecer demasiadamente os pianistas, há uma maior atenção aos outros instrumentistas, com excelentes intérpretes entre os convidados, como Hákan Hardenberger (trompetista) e António Meneses (violoncelista); pouco, mas melhor do que nada;
» A lista de pianistas que vão por lá passar é deveras impressionante, incluindo nomes como Sequeira Costa, Maria João Pires, Boris Berezovski, Lise de la Salle, Marc-André Hamelin, Andreas Staier, Murray Perahia, Piotr Anderszewski, Grigori Sokolov ou Nelson Freire;
» De realçar ainda, obviamente, o regresso do barítono Matthias Goerne.

Há, todavia, alguns pontos negativos que importa realçar:

» A música de câmara continua a ser largamente ignorada;
» Com honrosas excepções (Ensemble InterContemporain, Academy of Ancient Music, Akademie für Alte Musik Berlin, e pouco mais), os grupos e as orquestras estrangeiras não têm lugar nesta casa;
» Alguns dos preços praticados roçam o absurdo. A que propósito é que desta vez, para os concertos da Orquestra Nacional do Porto, por exemplo, não há descontos para jovens? É assim que pretendem incentivar os pais a levarem os filhos aos concertos?! Cobrando 20 euros por um bilhete para o meu filho de 7 anos poder assistir ao recital de Maria João Pires?!

17/11/2008

Notícias #21

Pelo menos desde a passada Sexta que quem tenta aceder ao site da Casa da Música leva com isto:



Compreende-se, investiram tanto no caderno de duzentas e tal páginas que saiu há uns tempos com o Público que se esqueceram de tudo o resto.

15/11/2008

Sinfonias #31: Sinfonia Nº4, de Beethoven

Apesar de atormentado pela crescente surdez que, entre outras coisas, fez aumentar a sua faceta anti-social, a primeira década do século XIX revelou-se extremamente produtiva para o compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827); entre 1800 e 1808 compôs, nomeadamente, as primeiras 6 sinfonias, 11 sonatas para piano, várias peças de câmara, 2 concertos para piano, 1 concerto para violino, 1 missa e a ópera Fidelio (que reveria em 1814).

No Verão de 1806, e num curto espaço de tempo, escreveu a Sinfonia Nº4, sob encomenda do conde Franz von Oppersdorf, que foi igualmente o dedicatário. A sinfonia que a antecedeu, "Sinfonia Heróica", não tinha registado grande sucesso na estreia pública, em Abril de 1805, chegando a ser apelidada de "interminável", para o que terão certamente contribuído as durações dos primeiros andamentos (a do a rondar os 15 minutos, não lhe ficando a do muito atrás...). O ambiente mais colorido e vivaz da Sinfonia Nº4 dever-se-á muito possivelmente ao facto do compositor estar na altura novamente caído de amores, na caso por Thérèse von Brunsvik (1775-1861), sua aluna e futura dedicatária da Sonata para Piano Nº24, composta em 1809 e apropriadamente intitulada de "A Thérèse".

Depois de uma primeira audição privada, em Março de 1807, em casa do príncipe Lobkowitz, a sinfonia foi estreada em público no dia 15 de Novembro desse ano, passam hoje 201 anos. Teve uma recepção bem mais calorosa que a anterior, se bem que só após a terceira audição se possa falar em êxito estrondoso.


CDs





Ludwig van Beethoven
Symphonies - No.3 in E flat, "Eroica", Op.55; No.4 in B flat, Op.60.
Zürich Tonhalle Orchestra
David Zinman
Arte Nova Classics 74321 59214-2
(1998)

Ludwig van Beethoven
Symphonies - No.4 in B flat, Op.60 and No.5 in C minor, Op.67.
Coriolan Overture, Op.62.
Swedish Chamber Orchestra
Thomas Dausgaard
Simax PSC1180

Ludwig van Beethoven
Symphonies - No.4 in B flat, Op.60; No.5 in C minor, Op.67.
Egmont Overture, Op.84.
Philharmonia Orchestra
Otto Klemperer
Testament SBT1407

Ludwig van Beethoven
Complete Symphonies.
Janice Watson (soprano), Catherine Wyn-Rogers (meio-soprano),
Stuart Skelton (tenor), Detlef Roth (baixo)
Edinburgh Festival Chorus
Scottish Chamber Orchestra
Philharmonia Orchestra
Charles Mackerras
Hyperion CDS44301-5

Ludwig van Beethoven
Complete Symphonies and Selected Overtures.
Jarmila Novotna (soprano), Kerstin Thorborg (meio-soprano),
Jan Peerce (tenor), Nicola Moscona (baixo)
Westminster Cathedral Choir
NBC Symphony Orchestra
Arturo Toscanini
Music & Arts CD-1203(5)
(1939)

Ludwig van Beethoven
Prometheus Overture, Op.43. Symphony No.4 in B major, Op.60.
Wolfgang Amadeus Mozart
Flute Concerto No.1, KV313.
Eduard Scherbachev (flauta)
Moscow Philharmonic Symphony Orchestra
Kyrill Kondrashin
Melodya MELCD10 01007
(1964, 1965, 1967)

Ludwig van Beethoven
Symphony No.4 in B flat, Op.60. Symphony No.8 in F major, Op.93.
Vienna Philharmonic Orchestra
Wilhelm Furtwängler
Nuova Era 013.6310
(1953, 1954)

Ludwig van Beethoven
Symphonies. Overtures.
Anna-Kristiina Kaappola (soprano), M. Beate Kielland (meio-soprano),
Markus Schäfer (tenor), Thomas Bauer (barítono)
Anima Eterna
Jos van Immerseel
Zig Zag Territories ZZT080402-6
(2008)

Ludwig van Beethoven
Die Symphonien.
Berlin Philharmonic Orchestra
Claudio Abbado
Deutsche Grammophon 477 5864


SACD



Ludwig van Beethoven
Symphonies - No.4 in B flat, Op.60 and No.5 in C minor, Op.67.
Minnesota Orchestra
Osmo Vänskä
BIS BIS-SACD1416
(2004)


Internet

Ludwig van Beethoven
Ludwig van Beethoven / Classical Music Pages / Mad about Beethoven / Classical Music Archives / Ludwig van Beethoven website / Essentials of Music / All About Beethoven / Ludwig van Beethoven / Beethoven: The Immortal / Ludwig van Beethoven / Biography.com / Naxos / Wikipedia

12/11/2008

CDs #187: Giordano, Andrea Chénier

O período pós Giuseppe Verdi (1813-1901) ficou marcado em Itália pelo aparecimento do movimento verista, com a escolha para os temas das óperas a recair sobre acontecimentos do dia-a-dia, com os amores, ciúmes, paixões assolapadas e vinganças a dominarem a acção. Desta escola, se de escola se pode falar, destacaram-se compositores como Pietro Mascagni (1863-1945), Ruggero Leoncavallo (1857-1919), Francesco Cilea (1866-1950), Giacomo Puccini (1858-1924) e Umberto Giordano (1867-1948).

Giordano esbarrou com o verismo logo no início da sua carreira quando, em 1889, na altura ainda aluno do Conservatório de Nápoles, se apresentou no Concurso Sonzogno com a ópera de um acto Marina. Ficou num honroso 6º lugar, entre mais de 70 concorrentes, tendo ganho a ópera Cavalleria Rusticana de Mascagni, que se tornaria numa das mais famosas do verismo. Um bocado para azar do próprio Mascagni, diga-se, que viu o sucesso desta ópera ofuscar em absoluto todas as suas outras, que foram basicamente votadas à ignorância!

O mesmo, em certa medida, viria a acontecer com Giordano, de quem se fala quase exclusivamente a propósito da ópera Andrea Chénier, havendo ainda uma outra, Fedora, que vai tendo honras de interpretações esporádicas. Esta última contou na estreia com um jovem Enrico Caruso (1873-1921), de imediato lançado para o estrelato, o que deu origem à expressão "Fedora fez Caruso, e Caruso fez Fedora". Andrea Chénier, estreada a 28 de Março de 1886, com um sucesso extraordinário, conta a história do poeta francês André Chénier (1762-1794), que viveu a revolução francesa e acabou guilhotinado em Julho de 1794.

Umberto Giordano faleceu há 60 anos, no dia 12 de Novembro de 1948.




Umberto Giordano
Andrea Chénier.
Franco Corelli, Fritz Sperlbauer, Renato Ercolani (tenores),
Ettore Bastianini, Edmond Hurshell, Kostas Paskalis (barítonos),
Renata Tebaldi, Hilde Konetzni (sopranos), Margareta Sjöstedt,
Elisabeth Höngen (meios-sopranos), Ludwig Welter, Franz
Bierbach, Alois Pernerstorfer, Endre Koréh (baixos),
Harald Pröglhöf (baixo-barítono)
Vienna State Opera Chorus
Vienna State Opera Orchestra
Lovro von Matacic
Orfeo C682 062I
(1960)


Internet

Umberto Giordano
Karadar Classical Music / Naxos / Opera Glass / Classical Net / Wikipedia

09/11/2008

Concertos para Piano #10: Concerto para Piano Nº2, de Johannes Brahms

A importância do alemão Johannes Brahms (1833-1897) no mundo da música está patente, entre outras coisas, na sua inclusão nos famosos "3 Bs": Bach (1685-1750), Beethoven (1770-1827) e Brahms. O seu nome aparece também amiúde ligado ao de Beethoven pelo facto de Brahms ter sido o mais clássico dos românticos, tendo o já nosso bem conhecido Hans von Bülow (1830-1894) chegado a apelidar a 1ª Sinfonia de Brahms de "10ª Sinfonia de Beethoven".

Tais comparações, contudo, acabaram por atrapalhar de sobremaneira Brahms que, com apenas 20 anos e entusiasmado com os elogios de Robert Schumann (1810-1856), lançou-se na escrita do seu 1º Concerto para Piano; não passou muito tempo até que a euforia fosse substituída pela dúvida, inseguro como estava de que a obra não desmerecesse as do seu ilustre antecessor. Como resultado disso o concerto, iniciado em 1854, apenas seria dado por concluído em finais de 1858...

2 décadas mais tarde voltaria Brahms a compor um outro concerto para piano; era para ter sido um pouco antes, mas acabou por escrever primeiro o Concerto para Violino (único que compôs para este instrumento), e só mais tarde, em 1878, iniciaria então a escrita do Concerto para Piano Nº2. Brahms terminou-o em Julho de 1881 e a estreia, a 9 de Novembro desse ano e com o autor ao piano, foi um êxito enorme.


CDs





Johannes Brahms
Piano Concerto No.1 in D minor, Op.15.
Piano Concerto No.2 in B flat major, Op.83.
Rudolf Buchbinder (piano)
Royal Concertgebouw Orchestra
Nikolaus Harnoncourt
Teldec 8573-80212-2
(1998, 1999)

Johannes Brahms
Piano Concerto No.2 in B flat major, Op.83.
Franz Schubert
Drei Klavierstücke, D946.
Claudio Arrau (piano)
Royal Scottish National Orchestra
Alexander Gibson
BBC Legends BBCL4125-2
(1959, 1063)

Johannes Brahms
Piano Concertos - No.1 in D minor, Op.15; No.2 in B flat major, Op.83.
Tragic Overture, Op.81. Academic Festival Overture, Op.80.
Variations on a Theme by Haydn.
Daniel Barenboim (piano)
Vienna Philharmonic Orchestra
John Barbirolli
EMI Classics 4 76939-2

Johannes Brahms
Piano Concerto No.1 in D minor, Op.15.
Piano Concerto No.2 in B flat major, Op.83.
Nelson Freire (piano)
Gewandhausorchester Leipzig
Riccardo Chailly
Decca 475 7637
(2005, 2006)

Johannes Brahms
Piano Concerto No. 2 in B flat major, Op. 83.
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Piano Concerto No.1 in B flat minor, Op.23.
Artur Rubinstein (piano)
London Symphony Orchestra
Albert Coates, John Barbirolli
Naxos Historical 8.111271
(1929, 1932)

Ludwig van Beethoven
Piano Concerto No.1 in C, Op.15. Piano Sonatas - No.12 in A flat,
'Funeral March', Op.26; No.22 in F, Op.54; No.23 in F minor, Op.57.
Johannes Brahms
Piano Concerto No. 2 in B flat major, Op. 83.
Sviatoslav Richter (piano)
Boston Symphony Orchestra, Charles Münch
Chicago Symphony Orchestra, Erich Leinsdorf
RCA Red Seal 74321 84605-2

The Art of Julius Katchen, Vol.3
Johannes Brahms
Piano Concerto No.1 in D minor, Op.15.
Piano Concerto No.2 in B flat major, Op.83.
Robert Schumann
Piano Concerto. Fantasie in C.
Julius Katchen (piano)
London Symphony Orchestra
Pierre Monteux, János Ferencsik
Israel Philharmonic Orchestra
István Kertész
Decca 460 828-2

Artur Rubinstein Live in Warsaw
Frédéric Chopin
Piano Concerto No. 2 in F minor, Op.21.
Johannes Brahms
Piano Concerto No. 2 in B flat major, Op.83.
Artur Rubinstein
Warsaw Philharmonic Orchestra
Witold Rowicki
Altara ALT1021
(1960)


Internet

Johannes Brahms
Johannes Brahms WebSource / P. Q. P. Bach / Vidas Lusófonas / Classical Music Pages / Naxos / Essentials of Music / Island of Freedom / Johannes Brahms Society of Hamburg / Classical Music Archives / Karadar Classical Music / Wikipedia

06/11/2008

Óperas #17: Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea

Adrienne Lecouvreur (1692-1730) foi uma popular actriz francesa, especialmente notada pela forma natural como representava, e cuja morte, eventualmente antecipada por questões passionais, continua ainda envolvida em mistério. Popularidade qb, tradégia e mistério, estavam lá todos os ingredientes para uma ópera verista (ver este texto), e Francesco Cilea (1866-1950) não perdeu a oportunidade. Sobre a vida da senhora já Eugène Scribe (1791-1861) e Ernest Legouvé (1807-1903) tinham escrito uma peça de teatro, estreada em Paris em 1849, e foi nela que o libreto para a ópera Adriana Lecouvreur se baseou.

Esta ópera acabaria mesmo por ser a de maior sucesso do compositor, e a única obra por que Cilea ainda é hoje conhecido. Cigna, a primeira ópera que escreveu, teve algum, não demasiado, sucesso. A que se seguiu, La Tilda, estreada em 1892, foi um acabado falhanço. Cinco anos passados e Cilea estreou L'Arlesiana, baseada na peça de Daudet para a qual Bizet escreveu a música de cena (ver este texto
de Junho de 2005); aqui os resultados já foram melhores, para eles tendo igualmente contribuído a participação do tenor Enrico Caruso (1873-1921). Mais 5 anos em cima e, a 6 de Novembro de 1902, acontece então a estreia de Adriana Lecouvreur, com Angelica Pandolfini (1871-1959) no papel principal e de novo Caruso, aqui como conde da Saxónia.

Cilea escreveria ainda mais duas óperas: Gloria, estreada em 1907 por Arturo Toscanini (1867-1957), só sobreviveu a duas récitas, e Il matrimonio selvaggio não chegou sequer a ser estreada. O suficiente para Cilea ter desistido quase completamente da composição, dedicando-se, nos 43 anos que ainda viveu, ao ensino, nos Conservatórios de Palermo e de Nápoles.


CDs



Francesco Cilea
Adriana Lecouvreur.
Carla Gavazzi, Giacinto Prandelli, Miti Truccato Pace,
Saturno Meletti, Plinio Clabassi, Aldo Bertocci, Pasquale
Lombardo, Tommaso Soley, Loretta di Lelio, Jone Farolfi
Coro di Milano della RAI
Orchestra Lirica
Alfredo Simonetto
Warner Fonit Cetra 8573 87480-2
(1951)

Francesco Cilea
Adriana Lecouvreur.
Renata Scotto, Plácido Domingo, Sherril Mines,
Elena Obraztsova
Ambrosian Opera Chorus
Philharmonia Orchestra
James Levine
Sony M2K79310

Francesco Cilea
Adriana Lecouvreur.
Angelo Mercuriali, Dora Carral, Fernanda Cadoni,
Giovanni Foiani, Giulio Fioravanti, Franco Ricciardi,
Silvio Maionica, Renata Tebaldi, Mario del Monaco
Santa Cecilia Academy Chorus and Orchestra
Franco Capuana
Decca 430 256-2
(1961)


Internet

Adrienne Lecouvreur
Wikipedia
/ Maurice of Saxony and Adrienne Lecouvreur / The Columbia Encyclopedia

Francesco Cilea
Opera Italiana / Wikipedia / Karadar Classical Music / Francesco Cilea

03/11/2008

Blogues #30

Luís Maia, autor do blogue Com Blogues de Ver atribuiu amavelmente ao desNorte o prémio "Brilhante Weblog", distinção que agradeço. Cabe-me agora indicar 7 blogues da minha preferência para receber igual nomeação, tarefa algo dificultada pelo facto de a maioria dos meus preferidos já ter aparecido em anteriores listas de premiados, mas aqui vai: A Baixa do Porto, A Origem das Espécies, Bicho Carpinteiro, Crítico, Da Literatura, Lisboa S. O. S., P. Q. P. Bach.

Aproveito esta excelente oportunidade para dar os parabéns ao blogue O Jumento, desta vez pela passagem do 5º aniversário. Um blogue (ainda mais) em destaque nos últimos tempos, mas está visto que estamos perante um animal duro de roer. Votos de longa vida e coices certeiros.

02/11/2008

CDs #186: Dimitri Mitropoulos

O maestro de origem grega Dimitri Mitropoulos (1896-1960) revelou-se um extraordinário intérprete do período romântico e da Segunda Escola de Viena, liderada por Arnold Schoenberg (1874-1951), Alban Berg (1885-1935) e Anton Webern (1883-1945); curiosamente, da grande tradição sinfónica austro-alemã apenas mostrou interesse por Gustav Mahler (1860-1911). Mitropoulos foi um dos grandes responsáveis pela apresentação das sinfonias de Mahler ao público norte-americano, tendo sido o primeiro a estrear várias delas em território americano. Uma ligação que durou até à morte do maestro, pois foi durante um ensaio da Sinfonia Nº3 de Mahler que Mitropoulos faleceu, em Novembro de 1960.

Ferruccio Busoni (1866-1924), de quem já falei aqui e aqui foi, além de pianista e compositor, igualmente professor, tendo contado com Mitropoulos entre os seus alunos. E foi precisamente Busoni quem aconselhou o grego a abandonar a composição e a dedicar-se em exclusivo à regência; nunca saberemos se se perdeu um grande compositor, embora haja fundadas razões para se pensar que não..., mas ganhou-se seguramente um excelente maestro, dotado de uma memória prodigiosa que o levou a dispensar em absoluto as partituras.

Neste disco duplo, da série "Great Conductors of the 20th Century", estão representados os compositores mais importantes na carreira do maestro, com a excepção dos da referida 2ª Escola de Viena: Gustav Mahler, Hector Berlioz (1803-1869), Claude Debussy (1862-1918) e Richard Strauss (1864-1949). Grandes audições...

Dimitri Mitropoulos faleceu em Milão 48 anos, no dia 2 de Novembro de 1960.




Great Conductors of the 20th Century
Dimitri Mitropoulos
Gustav Mahler
Symphony No.6 in A minor, "Tragic".
Hector Berlioz
Roméo et Juliette, Op.17.
Claude Debussy (1862-1918)
La Mer.
Richard Strauss
Salome: Tanz der sieben Schleier.
WDR Sinfonieorchester Köln
New York Philharmonic Orchestra
Dimitri Mitropoulos
EMI Classics / IMG Artists 5 75471-2
(1950, 1952, 1956, 1959)


Internet

Dimitri Mitropoulos
Sony BMG / classicalrecording.org / Naxos / Wikipedia