30/01/2009

Blogues #33

O nosso amigo O Polidor teve a gentileza de me passar mais uma corrente, esta desafiando-me a desfilar 6 das minhas particularidades. Dando um bocadinho a volta ao texto, vou apenas referir uma, que procuro manter invariavelmente, a capacidade de me surpreender, e através dela, chegar então às requeridas particularidades:

1.
Surpreende-me o facto de, desde que foi anunciada com pompa e circunstância a chegada do Aquecimento Global, gastar lenha como nunca para manter a casa quente.

2.
Fico surpreso comigo mesmo por, a cada nova notícia, sentir uma vontade crescente de votar no homem nas próximas eleições.

3.
É também para mim surpreendente que ainda vá mantendo este blogue vivo. Mais surpreendente ainda é que haja alguém com paciência para o ler.

4.
Acho a equipa de futebol do SLB surpreendente. Embora ela própria goste de surpreender, vencendo um jogo de quando em vez.

5.
É surpreendente a facilidade com que os portugueses dão cabo de Portugal. E se esses portugueses tiverem, por exemplo, os nomes de arquitectos consagrados, então maior surpresa será se não forem condecorados pelos feitos.

6.
Mas surpresa, surpresa, é sintonizar na Antena 2 de manhã e ouvir... música.


A taxa de sucesso da última vez que passei uma corrente foi surpreendentemente baixa, pelo que desta vez, para evitar surpresas, não a passo a ninguém...

28/01/2009

CDs #194: Rubinstein, Recorded 'Live' in the Netherlands in 1963

Sabe-se que o compositor do romântico Robert Schumann (1810-1856) sentia-se mais à-vontade a compor canções ou peças para piano do que propriamente do que obras sinfónicas ou concertantes. Schumann começou a estudar piano quando tinha 10 anos, e não seguiu a carreira de pianista por um problema que teve na mão direita. Perdeu-se um pianista mas ganhou-se decididamente um compositor que, entre outras coisas, nos deixou um conjunto importante de obras para piano.

Uma dessas obras, Carnaval, foi escrita por volta de 1834, numa altura em que o compositor estava noivo de Ernestine von Fricken. Carnaval é, na verdade, um conjunto de pequenas peças, 21 no total, sendo que nalgumas delas Schumann procurou retratar pessoas, desde amigos seus a outras individualidades suas contemporâneas. Foi ao pianista e compositor Franz Liszt (1811-1886) que coube tocá-la ao público na íntegra pela primeira vez, e, desde aí, tem sido intepretada e gravada por um conjunto notável de pianistas, de que destaco alguns: Myra Hess (1890-1965), Wilhelm Kempff (1895-1991), Evgeni Kissin (1971-), Sergio Fiorentino (1927-1998), Géza Anda (1921-1976) e Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995)

Outro dos pianistas que se destacou na interpretação desta obra foi Artur Rubinstein (1887-1982) - também conhecido por Arthur Rubinstein por via da sua naturalização norte-americana - conforme podemos comprovar neste disco. As gravações são de um recital que o pianista deu em Nijmegen, Holanda, no dia 20 de Abril de 1963, pelo que na altura já tinha 73 anos de idade. Rubinstein teve uma longa carreira, começando a tocar piano aos 2 anos e abandonando os palcos apenas em 1976, ou seja, 87 anos depois! A sua estreia em público teve lugar em Berlim, em 1900, mas depois do início da 1ª Grande Guerra nunca mais tocaria na Alemanha. Este recital em Nijmegen, curiosamente, teve como principal destinatário o público alemão, que foi transportado através da fronteira em diversos autocarros para a ele poder assistir...

Artur Rubinstein nasceu há 122 anos, no dia 28 de Janeiro de 1887.




Rubinstein
Recorded 'Live' in the Netherlands in 1963
Ludwig van Beethoven
Piano Sonata No.23 in F minor, "Appassionata", Op.57.
Johannes Brahms
Intermezzo No.2 in B flat minor, Op.117.
Robert Schumann
Carnaval, Op.9.
Frédéric Chopin
Ballade No.1 in G minor, Op.23. Étude in E minor, Op.25 No.5.
Franz Liszt
Hungarian Rhapsody in C sharp minor, S244 No.12.
Heitor Villa-Lobos
A prole do bebê - O polichinelo.
Artur Rubinstein (piano)
Medici Arts MM029-2


Internet

Robert Schumann
Classical Music Pages / Robert Schumann / mfiles / Classical Archives / Essentials of Music / BBC / Naxos / Answers.com / Victorian Station / Suite101.com / Wikipedia

Artur Rubinstein
The Arthur Rubinstein International Music Society / Classical Notes / Answers.com / Musician Biographies / The Classical Source / Wikipedia

26/01/2009

Sinfonias #34: Sinfonia Nº2, de Sergei Rachmaninov

Depois de ter estudado no de S. Petersburgo, Sergei Rachmaninov (1873-1943) prosseguiria os estudos no Conservatório de Moscovo, não tendo passado muito tempo até que o seu talento desse nas vistas, chegando mesmo a receber uma palmadinha nas costas de um já na altura (por volta de 1890) conceituado Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893). Esperar-se-ia assim uma entrada de rompante no mundo musical, e a medalha de ouro que o Conservatório lhe atribuiu em 1892 pela ópera Aleko só veio reforçar as expectativas.

O desastre da estreia da Sinfonia Nº1, em Março de 1897, contudo, lançou o compositor numa profunda depressão, que o levou a nada compor nos 3 anos seguintes. O regresso ficaria principalmente marcado pelo sucesso da estreia do Concerto para Piano Nº2, em Outubro de 1901. Uns anos depois, em 1906, já Rachmaninov tinha granjeado um enorme prestígio, não só como compositor mas também como pianista, lá ganhou coragem para iniciar a escrita da Sinfonia Nº2, embora receoso de que o desastre de há quase 10 anos atrás se voltasse a repetir. Ao ponto de, depois de a ter terminado (escreveu-a entre 1906 e 1907), ter manifestado o seu desencanto pelo resultado final, e confessado que "não tinha nascido para compor sinfonias". Em 1908, todavia, e depois de uns retoques na sinfonia, acabou ele mesmo por estreá-la, no dia 26 de Janeiro, com uma recepção entusiástica por parte do público presente. Como "um bem nunca vem só", esta obra valeu-lhe ainda um Prémio Glinka, criado em 1884 por Mitrofan Belyayev (1836-1904) e que, entre outros, já havia sido anteriormente atribuído a Tchaikovsky.


CD



Sergei Rachmaninov
Symphonies - No.1 in D minor, Op.13. No.2 in E minor, Op.27;
No.3 in A minor, Op.44.
Royal Concertgebouw Orchestra
Vladimir Ashlenazy
Decca 448 116-2


Internet

Sergei Rachmaninov
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23/01/2009

CDs #193: Arthur Nikisch conducts Beethoven

A última vez que por aqui falei do maestro húngaro Arthur Nikisch (1855-1922) foi a propósito de um disco em que brilhava um outro grande maestro, o inglês Adrian Boult (1889-1983). Uma feliz coincidência, dado o facto de Boult ter uma enorme admiração por Nikisch, além de por ele ter sido fortemente influenciado. Admiração que se estendia, diga-se, à economia de movimentos de Nikisch durante a direcção da orquestra, pouco mexendo os braços e muito menos abanando a cabeça... Um low-profile que, contudo, não o tornava menos eficaz na obtenção daquilo que pretendia; o próprio Boult chegaria a afirmar que tinha sido de Nikisch a mais arrebatadora interpretação que tinha ouvido da 1ª Sinfonia de Johannes Brahms (1833-1897).

Depois de ter mostrado dotes musicais desde muito novo, Nikisch começou por estudar violino e piano, e foi com este último instrumento que deu o primeiro recital público. Seria todavia como violinista que iniciaria a carreira no mundo da música, depois de ter estudado em Viena com Joseph Hellmesberger (1828-1893), tendo sido dirigido na década de 1870, entre outros, por Brahms, Anton Bruckner (1824-1896), Franz Liszt (1811-1886), Giuseppe Verdi (1813-1901) e Richard Wagner (1813-1883). Ainda antes do final dessa década iniciar-se-ia na direcção de orquestra, inicialmente como maestro assistente na Orquestra da Ópera de Leipzig e, apenas um ano depois, já como maestro principal.

Não deixa de ser admirável, pelo menos eu assim o considero, termos hoje em dia a oportunidade de ouvir gravações deste maestro, falecido em Janeiro de 1922. Dentre as façanhas que lhe são atribuídas consta a de ter sido um dos primeiros maestros a gravar uma sinfonia completa; e é essa gravação, efectuada em Novembro de 1913, da Sinfonia Nº5 de Ludwig van Beethoven (1770-1827), que consta do presente disco. Que fecha com uma obra, a Rapsódia Húngara Nº3, de um dos compositores em que mais se distinguiu, Liszt, gravada em Junho de 1913. Extraordinárias audições, se nos conseguirmos abstrair da (falta de) qualidade do som, normal para gravações efectuadas há 95 anos...

Arthur Nikisch morreu há 87 anos, no dia 23 de Janeiro de 1922.




Ludwig van Beethoven
Egmont Overture, Op.84. Symphony No.5 in C minor, Op.67.
Carl Maria von Weber
Der Freischütz - Overture. Oberon - Overture.
Wolfgang Amadeus Mozart
The Marriage of Figaro - Overture.
Franz Liszt
Hungarian Rhapsody No.1.
London Symphony Orchestra
Berlin Philharmonic Orchestra
Arthur Nikisch
Dutton CDBP9784


Internet

Arthur Nikisch
Classic Encyclopedia / Online Encyclopedia / BrasiliaVirtual / Wikipedia

19/01/2009

Maestros #43: Evgeny Mravinsky (1906-1988)

Na 2ª Guerra Mundial, Estaline (1879-1953) procurou proteger os mais altos representantes da cultura soviética, pondo-os a salvo em locais (mais) remotos. Sergei Prokofiev (1891-1953), se bem se lembram, foi amavelmente convidado a ir para o Cáucaso, decorria o ano de 1941. O maestro Evgeny Mravinsky e a sua orquestra, a Filarmónica de Leninegrado, por sua vez, foram deslocados para Novosibirsk, a maior cidade da Sibéria, onde permaneceram entre 1941 e 1944. Um bom sítio para manter as ideias frescas, com as temperaturas no Inverno a situarem-se entre os -20º e os -40º...

Mravinsky esteve à frente dessa orquestra cerca de meio século, desde 1938 até pouco antes da sua morte, ocorrida há 21 anos, no dia 19 de Janeiro de 1988. Com ele, a Orquestra Filarmónica de Leninegrado tornou-se numa das melhores, admirada em todo o mundo, apesar das poucas oportunidades que este, nomeadamente o Ocidental, teve para a ouvir: um par de turnés às Alemanhas (Ocidental e de Leste), Áustria e Suiça, uma outra turné efectuada em Inglaterra e França, e... foi tudo! Mais duas curiosidades: Mravinsky nunca se rendeu à lírica, e nunca dirigiu uma orquestra não-soviética!

Dirigiu, isso sim, muitas obras do compositor russo de quem por aqui se tem muito falado: Dmitri Shostakovich (1906-1975). Dirigiu e estreou, diga-se de passagem, tendo sido ele a estrear 6 das sinfonias do grande compositor: a , a , a , a , a 10ª e a 12ª.


CDs



Pyotr Ilyich Tchaikovsky
Symphonies Nos.4, 5 & 6, "Pathétique".
Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky
Deutsche Grammophon 477 591-2

Dmitri Shostakovich
Symphony No.10.
Richard Wagner
Prelude & Liebestod.
Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky
Warner Classics Elatus 2564-60660-2

Dmitri Shostakovich
Symphonies Nos.5 & 6.
Leningrad Philharmonic Orchestra
Evgeny Mravinsky
National Symphony Orchestra
Mstislav Rostropovich
Warner Classics Elatus 0927-46732-2


Internet

Evgeny Mravinsky
Wikipedia
/ Answers.com / The Voice of Russia

18/01/2009

Frases #7

Inspirada na realidade, e de uma ironia rebuscada (ou das coisas de que nos lembramos enquanto conduzimos um par de horas para assistir a um concerto):

Coloque o seu dinheiro na e acabe com ele no

16/01/2009

Concertos #71

O compositor francês Claude Debussy (1862-1918) compôs a obra orquestral La Mer no início do século XX, procurando com ela representar musicalmente não o mar, mas antes a sua influência no ser humano. Foi, assim, escrita logo a seguir à ópera Pelléas et Mélisande, que tinha sido estreada no dia 30 de Abril de 1902, sem grande aceitação por parte do público. No dia 15 de Outubro de 1905 teve então lugar a estreia de La Mer, e dificilmente poderia ter corrido pior. O tal público, que ainda procurava digerir a ópera, levou com esta obra apresentada por um maestro, Camille Chevillard (1859-1923), completamente desinspirado, e reagiu com hostilidade; a crítica resolveu juntar-se à festa, e reconheceu não ter encontrado mar algum onde quer que fosse... O que é certo é que na vez seguinte, em Janeiro de 1908, já foi o próprio Debussy a dirigir a orquestra e a coisa começou então a endireitar-se, ao ponto de La Mer se ter tornado numa das peças orquestrais mais famosas de sempre.

Esta será uma das obras que iremos ouvir amanhã, no Coliseu dos Recreios. As outras duas que fazem parte do programa, ambas de Igor Stravinsky (1882-1971), já por aqui passaram: O Canto do Rouxinol e O Pássaro de Fogo.

O concerto, da responsabilidade do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, contará com a Orquestra Sinfónica do Teatro Mariinsky dirigida por Valery Gergiev (1953-), o seu director geral e artístico, e actualmente maestro principal da Orquestra Sinfónica de Londres.


Programa

Igor Stravinsky
O Canto do Rouxinol. O Pássaro de Fogo.
Claude Debussy
La mer.
Orquestra Sinfónica do Teatro Mariinsky
Valery Gergiev


Internet

Claude Debussy
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Blogues #32

Envio os devidos parabéns ao JGA, pelo 4º aniversário do Ópera e Demais Interesses.

13/01/2009

Compositores #91: Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993)

Já tinha anteriormente afirmado, a propósito da programação da Casa da Música para 2009, que este ano teria tons (sons...) acentuadamente brasileiros. Reforçando tal facto, decidi convidar para aqui hoje o brasileiro Mozart Camargo Guarnieri, possivelmente um dos mais conhecidos e divulgados compositores do Brasil , a seguir a Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

Nascido no seio de uma família modesta, Camargo Guarnieri viu-se forçado, nos primeiros anos de vida em São Paulo, a conciliar os estudos musicais com a necessidade de ajudar o pai na barbearia. Devagar as coisas foram melhorando, e a 2ª metade da década de 1930 encontrou Camargo Guarnieri em Paris, para prosseguir os estudos com Charles Koechlin (1867-1950), por sua vez um antigo aluno de Gabriel Fauré (1845-1924).

Deu-se depois o regresso ao Brasil, a São Paulo, e não tardou muito até que Camargo Guarnieri se tornasse num dos elementos mais notados da vida musical daquela cidade, tendo, inclusivamente, sido co-fundador da Academia Brasileira de Música, fundada em Julho de 1945 precisamente por Villa-Lobos. Foi um compositor prolífico, com mais de 700 obras à sua conta, entre sinfonias, concertos para piano, obras para orquestra de câmara, música de câmara, sonatas e música vocal, além das óperas Pedro Malazarte e Um Homem Só.

Mozart Camargo Guarnieri faleceu há 16 anos, no dia 13 de Janeiro de 1993.


CDs




Mozart Camargo Guarnieri
Symphonies - No.2, "Uirapurú"; No.3. Abertura Concertante.
Sao Paulo Symphony Orchestra
John Neschling
BIS BIS-CD-1220

Mozart Camargo Guarnieri
Symphonies - No.5; No.6. Suíte Vila Rica.
Sao Paulo Symphony Chorus
Sao Paulo Symphony Orchestra
John Neschling
BIS BIS-CD-1320

Mozart Camargo Guarnieri
Piano Concertos - No.1; No.2; No.3.
Max Barros (piano)
Warsaw Philharmonic Orchestra
Thomas Conlin
Naxos 8.557666

Alberto Nepomuceno
Prece. Galhofeira.
Mozart Camargo Guarnieri
Dansa negra. Dansa brasileira.
Oscar Lorenzo Fernandez
Suites Brasileiras - No.1; No.2; No.3. Três Estudos em Forma de Sonatina.
Heitor Villa-Lobos
A Lenda do Cabloco. Valsa da Dor.
Fructuoso Vianna
Toada nº2, Jogos Pueris, Schumanianna. Prelúdios - No.3; No.4.
Serenata Espanhola. Berceuse do Sabiá. Seresta. Corta-Jaca.
Cristina Ortiz (piano)
Intrada INTRA016

Obrigado Brazil
Mozart Camargo Guarnieri
Dansa brasileira. Dansa negra.
+ obras de César Camargo Mariano, António Carlos Jobim, Heitor
Villa-Lobos, Jacob do Bandolim, Roberto Baden-Powell, Pixinquinha,
Sérgio Assad, Egberto Gismonti e Waldyr Azevedo.
Yo-Yo Ma (violoncelo), Cesar Camargo Mariano, Helio Alves, Kathrin
Stott (pianos), Rosa Passos, Odair Assad, Sergio Assad, Romero Lubambo,
Oscar Castro-Neves, Egberto Gismonti (guitarras), Cyro Baptista, José
da Silva, José de Faria (percussão), Nilson Matta (contrabaixo), Paulo
Braga (tambores), Paquito d'Rivera (clarinete)
Sony Classical SK89935
(2002)


Internet

Mozart Camargo Guarnieri
Algosobre / P. Q. P. Bach / Ponteio Publishing, Inc. / Wikipédia

10/01/2009

CDs #192: Verdi, Aida

A morte do soprano Margherita Carosio (1908-2005), há 4 anos, a 10 de Janeiro de 2005, passou quase despercebida, apesar de ter tido uma carreira com sucessos assinaláveis, nomeadamente na sua Itália natal. Ficará para sempre recordada, contudo, não por algum dos sucessos que obteve, mas pelo que lhe aconteceu no fatídico mês de Janeiro de 1949 quando, em Veneza, sofreu de uma indisposição que a levou a ser substituída por uma Maria Callas (1923-1977) em início de carreira, no papel de Elvira da ópera I puritani de Vincenzo Bellini (1801-1835). Não foi o fim da linha para Carosio, que pisaria os palcos por mais 10 anos, mas foi, seguramente, o trampolim para a carreira de Callas que, com apenas meia dúzia de dias de ensaios, atingiu o estrelato.

Em 1952, Maria Callas faria a sua estreia no Covent Garden de Londres. Na primeira metade da década de 1950 o já nosso bem conhecido maestro inglês John Barbirolli (1899-1970) dirigiria frequentemente óperas nessa mesma casa, pelo que a probabilidade de se cruzarem não era desprezável. Tal viria a acontecer em Junho de 1953, por ocasião da coroação da rainha Elisabete II (1926-), para 3 récitas da Aida, de Giuseppe Verdi (1813-1901). A importância do evento justificava cuidados particulares na escolha dos intérpretes, pelo que a Callas se juntaram, por exemplo, Kurt Baum (1900-1989), Giulietta Simionato (1910-), que está em vias de perfazer 99 anos, Michael Langdon (1920-1991) e Joan Sutherland (1926-).

A primeira récita teve então lugar no dia 4 de Junho e, pelos vistos, esteve longe de correr bem. Do maestro aos cantores, passando pela orquestra, ninguém se livrou de comentários mais ou menos corrosivos. A coisa terá melhorado na récita seguinte, e por alturas da terceira, a 10 de Junho de 1953, já todas as forças estavam em forma e em sintonia (esta última qualidade parece ter estado quase ausente na primeira...). O disco que a Testament editou em 2004 contém naturalmente esta última récita, constituindo mais um dos documentos históricos lançados por esta editora. Há, contudo, que ter os ouvidos preparados para a respectiva audição: a gravação, a que dificilmente se poderá chamar de ideal, não esconde a idade, e há alturas em que parece que as vozes vão desaparecer de vez, principalmente quando o coro intervém.




Giuseppe Verdi
Aida.
Maria Callas, Joan Sutherland (sopranos), Kurt Baum, Hector
Thomas (tenores), Giulietta Simionato (meio-soprano),
Jess Walters (barítono), Giulio Neri, Michael Langdon (baixos)
The Covent Garden Opera Chorus & Orchestra
John Barbirolli
Testament SBT2 1355


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Giuseppe Verdi
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06/01/2009

Quintetos com Piano #3: Quinteto para Piano e Cordas, Op.81, de Dvorák

A música de câmara teve um lugar importante no conjunto das obras do compositor checo Antonín Dvorák (1841-1904), facto que já tive a oportunidade de referir aqui mais do que uma vez (ver aqui e aqui). Seguindo cronologicamente as suas obras de câmara vemos as várias fases criativas por que Dvorák passou, desde as influências iniciais de Franz Liszt (1811-1886) e Richard Wagner (1813-1883) até ao período americano, passando pela utilização de melodias e danças checas, a característica mais saliente do seu período eslavo.

Uma das obras pertencente a esta fase eslava é o Quinteto para Piano e Cordas, Op.81 (B155), com a presença notada dos ritmos típicos da boémia, como a dumka (canto popular de origem ucraniana) e o furiant (dança popular checa), e foi composta entre Setembro e Outubro de 1887. Uns anos antes, em 1872, Dvorák tinha escrito um primeiro quinteto com piano na mesma tonalidade, lá, mas, desagradado com o resultado, encatrafiou a partitura numa gaveta; uns anos mais tarde, ao dar de nariz com ela, ainda a procurou corrigir, mas lá terá chegado à conclusão de que a coisa não tinha emenda e desistiu de vez. Foi então que decidiu partir do zero e, no curto espaço de 2 semanas, tinha o novo quinteto terminado e pronto a ser interpretado.

A estreia não tardou muito, e teria lugar no dia 6 de Janeiro de 1888, passam hoje 121 anos.


CDs




Antonín Dvorák
Piano Quintet in A, B155. String Quartet No.12 in F, 'American', B179.
Martin Roscoe (piano)
Schidlof Quartet
Linn Records CKD096

Antonín Dvorák
Violin Concerto in A minor, B108. Piano Quintet in A, B155.
Sarah Chang, Alexander Kerr (violinos), Wolfram Christ (viola),
Georg Faust (violoncelo), Leif Ove Andsnes (piano)
London Symphony Orchestra
Colin Davis
EMI Classics 5 57521-2
(2001, 2002)

Antonín Dvorák
String Quartet, Op.77, B49. Piano Quintet, Op.81, B155.
Laurène Durantel (contrabaixo), Kathryn Stott (piano)
Skampa Quartet
Supraphon SU3909-2
(2007)

Antonín Dvorák
Quintet for Piano and Strings in A, B155.
Jeremy Menuhin (piano)
Chilingirian Quartet
Chandos CHAN9173
(1990, 1992)

Janácek Quartet
the complete recordings on deutsche grammophon
Wolfgang Amadeus Mozart
String Quartet No.14 in G major, K387, "Spring".
Joseph Haydn
String Quartets - in C major, Op.33 No.3; in E flat major, Op.33 No.2;
in D minor, Op.76 No.2.
Felix Mendelssohn
Octet for Strings in E flat major, Op.20.
Ludwig van Beethoven
String Quartet No.8 in E minor, Op.59 No.2, "Razumovsky".
Johannes Brahms
Piano Quintet in F minor, Op.34.
Antonín Dvorák
Piano Quintet in A major, Op.81, B155. String Quartets - No.9 in D minor,
Op.34, B75; No.12 in F major, Op.96, B179; No.10 in E flat major, Op.51,
B92; No.14 in A flat major, Op.105, B193.
Bedrich Smetana
String Quartet No.1 in E minor, T116, "From My Life".
Leos Janácek
String Quartet No.2, "Intimate letters".
Eva Bernáthová (piano), Smetana String Quartet
Janácek String Quartet
Deutsche Grammophon 474 010-2


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Antonín Dvorák
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03/01/2009

Maestros #42: Lucien Cailliet (1897-1985)

O título deste texto não está completamente correcto, pois Lucien Cailliet foi muito mais do que "apenas" maestro: foi igualmente compositor, por exemplo, tendo escrito música para quase 50 filmes, e arranjador, com a adaptação para instrumentos de sopro de várias obras conhecidas, como o poema sinfónico Finlandia, de Jean Sibelius (1865-1957) e parte da ópera Lohengrin, de Richard Wagner (1813-1883). Foi também clarinetista e dedicou-se ainda à regência, tendo fundado a Cherry Hill Wind Symphony numa altura em que colaborava com a Orquestra de Filadélfia.

Francês de nascimento, a mudança de Cailliet para os Estados Unidos coincidiu com o final da 1ª Grande Guerra, em 1918, tendo a colaboração com a referida orquestra começado pouco depois. E foi esta a razão por que primeiro me cruzei com o nome de Lucien Cailliet, pois, se bem se lembram, desde 1912 que Leopold Stokowski (1882-1977) era o seu maestro principal. E se Stokowski é por bem demais conhecido, pelo menos por estas bandas, Cailliet continua a ser um perfeito desconhecido, quaisquer que sejam as bandas em consideração; excepto as bandas sinfónicas e as militares, pois claro, onde as suas adaptações são bastante populares.

Refira-se, por último, que a colaboração de Cailliet com Stokowski perduraria por bons anos, pois Cailliet acabaria mesmo por integrar a Orquestra de Filadélfia como clarinetista, em 1919, actividade que ainda mantinha na década de 1930. Década em que escreveu a sua versão dos Quadros de Uma Exposição de Modest Mussorgsky (1839-1881), juntando a sua a uma longa lista de versões desta obra.

Lucien Cailliet faleceu há 24 anos, no dia 3 de Janeiro de 1985.


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Lucien Cailliet
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