29/08/2009

DVDs #20: Celibidache conducts Berlioz Symphonie fantastique

Depois de uma passagem por Hamburgo, o maestro alemão Otto Klemperer (1885-1973) mudou-se para Berlim. Estávamos na década de 1920 e, por essa altura, o russo Leo Borchard (1899-1945) também se mudou para essa cidade, vindo de Moscovo e fugido das consequências da Revolução Russa de 1917. Os seus destinos lá se cruzaram, e Klemperer acabou por convidar Borchard para seu assistente na Krolloper de Berlim.

Durante a 2ª Guerra Mundial, Borchard esteve mais envolvido com a resistência do que propriamente com actividades musicais; após a rendição da Alemanha regressou à regência, e os finais de Maio de 1945 encontraram-no a dirigir a Orquestra Filarmónica de Berlim, o que se repetiu várias vezes nas semanas seguintes. No dia 23 de Agosto, quando regressava de um jantar na parte oriental de Berlim, o cavalheiro inglês que conduzia a viatura onde seguia Borchard não obedeceu à ordem de paragem das tropas americanas; estas, escaldadas como estavam de uma escaramuça com as forças soviéticas no dia anterior, tinham instruções para parar todos os carros que tentassem atravessar esse check point pelo que, perante a desobediência, não hesitaram em disparar, matando de imediato Borchard, única vítima mortal desse infeliz acontecimento.

Faltando pouco mais de 1 semana para o concerto seguinte, havia que encontrar uma solução para o problema assim criado, e o escolhido acabaria por ser o maestro romeno Sergiu Celibidache (1912-1996), que tinha acabado de ganhar o concurso de direcção de orquestra promovido pela Orquestra Sinfónica da Rádio de Berlim. Uma escolha surpreendente, portanto, pois Celibidache não possuía qualquer experiência de direcção, e quando estamos a falar de uma orquestra com o prestígio da Filarmónica de Berlim.

A estreia de Sergiu Celibidache como regente profissional teve lugar no dia 29 de Agosto de 1945, passam hoje 64 anos.




Hector Berlioz
Symphonie fantastique, H48.
Orchestra Sinfonica di Torino della RAI
Sergiu Celibidache
Opus Arte OA0977D
(1969)


Internet



Sergiu Celibidache
Sergiu Celibidache Stiftung / Association Celibidache / Sergiu Celibidache / Bach Cantatas Website / Deutsche Grammophon / Answers.com / Classical Archives / The New York Times / Wikipedia

25/08/2009

Maestros #46: Leo Blech (1871-1958)

Apesar de o alemão Leo Blech ser geralmente apresentado como compositor e maestro, devo admitir que não conheço qualquer obra da sua autoria, nomeadamente as óperas. O seu nome também não consta da maioria dos (poucos) livros que tenho sobre música, pelo que não me sinto muito incomodado por esta ignorância; atrever-me-ia mesmo a dizer que, só pelo facto de já ter ouvido falar no homem, estou num grupo não tão pouco restrito quanto isso...

A vida musical de Blech andou quase sempre ligada à ópera, principalmente como regente, em cidades como Berlim, Praga, Viena e Estocolmo. Esta última só aparece na lista porque o maestro era de origem judaica e as autoridades nazis, rigorosas nos seus princípios, só descansaram quando o correram de Berlim; começou por ir para Riga, capital da Letónia, em 1937, para alguns anos depois, no início da década de 1940, mudar-se então para Estocolmo, tendo regressado a Berlim apenas em 1949.

As suas interpretações de Richard Wagner (1813-1883) foram (e ainda são) especialmente apreciadas, o que, como já deverão saber por esta altura, é razão suficiente para que por estes lados o consideremos um dos grandes.

Leo Blech faleceu há 51 anos, no dia 25 de Agosto de 1958.


CDs



Frida Leider: A Vocal Portrait.
Árias de óperas e canções de Ludwig van Beethoven, Christoph Willibald
Gluck, Wolfgang Amadeus Mozart, Franz Schubert, Robert Schumann, Richard
Strauss, Giuseppe Verdi, Richard Wagner e Carl Maria von Weber.
Frida Leider (soprano), Elfriede Marherr-Wagner (meio-soprano), Lauritz
Melchior (tenor), Michael Raucheisen (piano)
Berlin State Opera Orchestra
London Symphony Orchestra
John Barbirolli, Leo Blech, Albert Coates
Naxos Historical 8.110744-45

Richard Wagner
Götterdämmerung (end of Act 1, Act 2). Die Walküre (excerpts).
Siegfried (excerpts).
Frida Leider, Maria Nezadal, Elfried Maherr-Wagner (sopranos), Lauritz
Melchior, Rudolf Laubenthal (tenores), Herbert Janssen (bar), Kerstin
Thorborg (meio-soprano), Eduard Habich (baixo)
Royal Opera House Chorus
Royal Opera House Orchestra
Berlin State Opera Orchestra
Thomas Beecham, Leo Blech
Guild GHCD2311/12
(1936)


Internet



Leo Blech
Classical Archives / Answers.com / AllExperts / Leo Blech / Wikipedia

21/08/2009

Lugares #191

Supõe-se que a fundação do Mosteiro de Lorvão datará do século VI; mesmo que tal não corresponda à realidade, há documentos dos finais do século IX que provam a sua existência, que é o mesmo que dizer que estamos perante um dos mais antigos mosteiros da Europa.



A sua importância parece ser reconhecida pelas autoridades, conforme podemos constatar no site do IPPAR: "(...) Apesar de disperso por vários proprietários e outras tantas funcionalidades, o Mosteiro de Lorvão merece a atenção do IPPAR numa lógica de intervenção por ciclos, resgatando e posteriormente valorizando este conjunto (...)".

Um dos tesouros do mosteiro é, ou melhor, era, o órgão de tubos, o único da Península Ibérica com duas fachadas. Mandado restaurar ao organeiro António Simões, de Coimbra, consta que este descobriu que lhe faltavam mais peças dos que as inicialmente previstas, pelo que deu o orçamento inicial por inválido e apresentou um novo, rapidamente recusado pelo contratante. Acabou tudo em tribunal, como é normal nestas situações mas, apesar de uma sentença definitiva favorável ao IPPAR, o órgão continua ausente e por arranjar. Só para que tenham uma noção de como as coisas funcionam neste país, tomem nota do ano em que era suposto ter-se iniciado o restauro deste órgão: 1992 (mil novecentos e noventa e dois, não leram mal...).



Há uma petição a decorrer para tentar sensibilizar os responsáveis para esta situação, que pode ser assinada no local ou, para quem não puder visitar o mosteiro, acedida a partir deste endereço: http://www.peticao.com.pt/orgao-de-tubos-mosteiro-de-lorvao. Dizem que enquanto há vida há esperança...


Internet



Mosteiro de Lorvão

18/08/2009

Compositores #97: Antonio Salieri (1750-1825)

Desde que um certo tipo se lembrou de acusar um certo compositor de ter provocado a morte de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) num conhecido filme de 1984, nunca mais ninguém olhou da mesma maneira para Antonio Salieri. Um italiano que brilhou com grande intensidade em Viena, não só pelas obras que escreveu, nomeadamente as óperas, como também pelos alunos que teve, como Ludwig van Beethoven (1770-1827), Franz Schubert (1797-1828) e Franz Liszt (1811-1886). Mesmo assim, do mal o menos: tivesse nascido uns dias antes (nasceu a 18 de Agosto de 1750) e Salieri ainda poderia vir a ser acusado da morte de Johann Sebastian Bach (faleceu a 28 de Julho de 1750)...

Verdade seja dita que, como compositor, Salieri não chegou aos calcanhares dos seus mais dotados contemporâneos, mas tal não justifica que a sua obra seja completamente ignorada. Até uma certa altura da sua vida, Salieri foi um compositor respeitado, autor de algumas obras que obtiveram um sucesso assinalável, com natural destaque para a ópera Tarare, de 1787; a partir dessa data pôs de lado a inovação e limitou-se a utilizar a mesma receita, pelo que não tardou a que passasse a ser visto como um compositor conservador, fora de moda. Perante a sucessão de insucessos, a partir de 1804 deixou de escrever óperas, dedicando-se apenas, no que à composição diz respeito, à música sagrada e instrumental. De resto, as actividades de docente e de director musical da corte chegavam-lhe para preencher o tempo esplendidamente.

Antonio Salieri nasceu há 259 anos, no dia 18 de Agosto de 1750.


CDs



The Salieri Album.
Cecilia Bartoli (meio-soprano)
Orchestra of the Age of Enlightenment
Adám Fischer
Decca 475 100-2

Arie di Bravura.
Wolfgang Amadeus Mozart
Basta, vincesti… Ah, non lasciarmi, K486a/295a. Die Zauberflöte - O
zittre nicht; Der Hölle Rache.
Antonio Salieri
Semiramide - Sento l'amica speme. Cublai, gran kan de'Tartari - Fra i
barbari sospetti; D'un insultante orgoglio. La finta scema - Se spiegar…
Vincenzo Righini
Il natal d'Apollo - Ove son? Qual'aure io spiro; Ombra dolente.
Diana Damrau (soprano)
Le Cercle de l'Harmonie
Jérémie Rhorer
Virgin Classics 3 95250-2
(2006)


Internet



Antonio Salieri
Antonio Salieri / Classical Music Pages / suite101.com / Naxos / Antonio Salieri: Truth or Fiction / Karadar Classical Music / everything2.com / answers.com / Classical Archives / Classics Online / Wikipedia

15/08/2009

Lugares #190

Sempre que assisto a uma prova de ciclismo interesso-me muito mais pelos retardatários do que propriamente por aqueles que lutam pelas vitórias; identifico-me mais com eles, por experiência própria, embora a um nível puramente amador, de andar na segunda metade do pelotão (eufemismo para cauda do pelotão...), sem grandes preocupações em relação aos aceleras lá da frente.

A etapa de anteontem da Volta a Portugal em Bicicleta terminou aqui perto, em São João da Madeira, pelo que não perdemos a oportunidade para lá dar um pulo. E de tirar umas fotografias, onde os heróis são os tais dos lugares secundários.





"Last but not the least", que é como quem diz "Don't let it bring you down"...

12/08/2009

Compositores #96: John Cage (1912-1992)

A única coisa que o compositor e pianista norte-americano David Tudor (1926-1996) fez durante 4 minutos e 33 segundos num recital que deu em Nova Iorque em Agosto de 1952 foi fechar e abrir a tampa do teclado do piano 3 vezes; não tocou uma única nota, mas naquele dia fez história, pois estreou a obra em 3 andamentos 4'33" do seu compatriota John Cage.

Correndo o risco de me apelidarem de careta, admito que ainda hoje, e após inúmeras audições, tenho dificuldades em apreciar devidamente esta peça; tem tudo a ver com os sons e a forma como os ouvimos, e com o silêncio, elemento fulcral em qualquer obra e único nesta em particular. O facto de durante 4 minutos e 33 segundos não se produzir qualquer som musical permite-nos ouvir outros sons, o que fará de cada audição uma experiência única e irrepetível. Demasiado para um tradicionalista como este vosso escriba, que continua a preferir experiências repetíveis, pelo que da próxima vez que John Cage regressar a estas páginas será seguramente acompanhado de sons mais audíveis.

Além do mais, ainda tenho outro problema: é que sempre que esta obra aparece num disco, nunca sei com toda a certeza se os músicos a interpretaram na realidade, ou se os produtores se limitaram a criar a posteriori um hiato com o tempo devidamente cronometrado...

John Cage faleceu há 17 anos, no dia 12 de Agosto de 1992.


Internet



John Cage
New Albion Records / John Cage database / Classical Music Pages / Vidas Lusófonas / John Cage / James Pritchett: Writings on John Cage (and others) / Mode Records / Answers.com / Naxos / The Sounds of Silence / Wikipedia

08/08/2009

Obras Orquestrais #20: Abertura 1812, de Tchaikovsky

A Abertura 1812 não será uma das obras mais profundas de Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893), mas é seguramente uma das mais conhecidas. É uma obra programática, que nos descreve a invasão e retirada da Rússia das forças de Napoleão Bonaparte (1769-1821), fazendo para o efeito uso descarado dos hinos russo e francês.

A referida invasão teve lugar em Setembro de 1812, daí o nome da obra, e as tropas francesas, apesar da enorme superioridade, quer em número de soldados quer em equipamento, acabaram por sair derrotadas, tendo iniciado pouco mais de 1 mês depois uma retirada simultaneamente caótica e desastrosa.

A encomenda para a Abertura 1812 partiu de uma já nosso velho conhecido, Nikolai Rubinstein (1835-1881), para ser tocada na inauguração da Catedral de Cristo Salvador, mandada construir em Moscovo pelo czar Alexandre I (1777-1825) para celebrar precisamente a derrota de Napoleão.

A Abertura 1812 foi estreada há 127 anos, no dia 8 de Agosto de 1882.


CDs



Piotr Ilyich Tchaikovsky
1812 Overture, Op.49. Marche slave, Op.31. Romeo and Juliet Overture.
Francesca da Rimini, Op.32. Eugene Onegin - Tatyana's Letter Scene.
Eilene Hannan (soprano)
Royal Liverpool Philharmonic Orchestra
London Philharmonic Orchestra
Sian Edwards
Classics for Pleasure 5 75567-2

Piotr Ilyich Tchaikovsky
Capriccio italien, Op.45. Marche slave, Op.31. 1812, Op.49. String
Quartet No.1 Op.11 - Andante cantabile (arr. Serebrier). Fate, Op.77.
Bamberg Symphony Orchestra
José Serebrier
BIS BIS-CD1283

Piotr Ilyich Tchaikovsky
Francesca da Rimini. Romeo and Juliet. 1812. Eugene Onegin - Waltz;
Polonaise.
Santa Cecilia Academy Chorus
Santa Cecilia Academy Orchestra
Antonio Pappano
EMI Classics 3 70065-2
(2005)


SACD



Piotr Ilyich Tchaikovsky
Ouverture solennelle '1812', Op.49. 'Romeo and Juliet' Fantasy-Overture.
Jean Sibelius
Karelia Suite, Op.11. Valse Triste. 'Pohjola's Daughter' Symphony
Fantasy, Op.49.
Boston Symphony Orchestra
Colin Davis
Pentatone PTC5186 164
(1979)


Internet



Piotr Ilyich Tchaikovsky
Tchaikovsky Research / Classical Archives / Classical Net / Naxos / Essentials of Music / Island of Freedom / Karadar Classical Music / Answers.com / Wikipedia

01/08/2009

Pianistas #30: John Ogdon (1937-1989)

Parece que alguém se esqueceu de pagar o respectivo alojamento pelo que, actualmente, o site do Concurso Internacional Tchaikovsky encontra-se em baixo. Já por aqui falei diversas vezes desta competição, ou não fosse uma das mais importantes, e, numa delas, cheguei a referir que o vencedor da competição de piano em 1962 foi o russo Vladimir Ashkenazy (1937-).

Do que me esqueci de referir na altura, por que também tenho direito a esquecer-me de algumas coisas, foi do facto de Ashkenazy não ter vencido sozinho essa competição, pois partilhou o 1º prémio com o pianista inglês John Ogdon.

Lembram-se do Concerto para Piano de Ferruccio Busoni (1866-1924), de dimensões absolutamente invulgares e descrito pelo seu próprio autor como "concerto arranha-céus"? Pois foi com esta obra que Ogdon se estreou em palco, em Londres em 1958, quando tinha apenas 21 anos. À frente da orquestra esteve o já nosso bem conhecido maestro Henry Wood (1869-1944), o tal dos Concertos Promenade.

John Ogdon faleceu há 20 anos, no dia 1 de Agosto de 1989.


CDs



John Ogdon Plays a Liszt Recital
Années de pèlerinage, deuxième année, Italie, S161- No.7.
Liebesträume, S541 - No.1 in A flat, 'Hohe Liebe'.
Trauer-Vorspiel, S206 No.1 & No.2. Réminiscences de Simon
Boccanegra, S438. Two Concert Studies, S145. Études d'exécution
transcendants d'après Paganini, S140 - No.2 & No.3. Harmonies
poétiques et religieuses, S173 - No.7. Mephisto Waltz No.1, S514,
'Der Tanz in der Dorfschenke'.
John Ogdon (piano)
Testament SBT1133
(1961, 1963, 1966, 1968)

Franz Liszt
Piano Concertos - No.1 in E flat, S124; No.2 in A, S125. Mephisto
Waltz No.1, S514. Transcendental Study, S139 No.1.
John Ogdon (piano)
Bournemouth Symphony Orchestra, Constantin Silvestri
BBC Symphony Orchestra, Colin Davis
BBC Legends BBCL4089-2
(1967, 1969, 1970, 1971)

Sergei Rachmaninov
Etudes-tableaux - Op.33; Op.39.
Ferruccio Busoni
Variations and Fugue on Chopin's C minor Prelude, K213. Turandots
Frauengemach (Intermezzo), K249 No.4. Sonatina No.6, K284.
John Ogdon (piano)
Testament SBT1295
(1961, 1974)


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John Ogdon
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