24/01/2010

CDs #220: William Walton, Façade, Henry V Music

A poetisa inglesa Edith Sitwell (1887-1964), de ascendência aristocrática, além de ter uma figura que não a ajudava muito, desengonçada do alto do seu 1,83m, ainda a piorava espetando um turbante fora da moda na extremidade superior, tornando-a num alvo preferido dos seus (numerosos) detractores. Além disso a senhora, excêntrica por natureza, depois de uma infância infeliz marcada por uma relação difícil com os pais, achou por bem entreter-se a escandalizar a classe média inglesa. Foi obviamente atacada de todas as formas e feitios, o que deu origem a frequentes e azedas trocas de palavras, pois não gostava de deixar ninguém sem resposta.

Começou muito jovem a escrever poemas, tendo publicado o primeiro em 1913. Alguns anos depois, em 1918, publicou os primeiros poemas da série Façade. Segundo o livro que acompanha o disco, o título Façade vem do facto de um certo pintor ter afirmado que Edith Sitwell "até podia ser muito esperta, mas não passava de uma fachada!". Não sei se terá apreciado o mimo, mas, pelo menos, sempre ganhou um título para os poemas...

Edith Sitwell tinha 2 irmãos, os escritores Osbert Sitwell (1892-1969) e Sacheverell Sitwell (1897-1988) que, a partir de 1919, partilharam uma casa em Chelsea com o compositor William Walton (1902-1983). Quando Osbert e Sacheverell se lembraram de musicar os poemas da irmã viraram-se, naturalmente, para Walton que, apesar de achar a tarefa nada fácil, lá se conseguiu desenrascar, após muitos ensaios com a própria autora. A primeira apresentação, privada, teve lugar há 88 anos, no dia 24 de Janeiro de 1922.

A própria Sitwell gravou por duas vezes Façade, a segunda das quais, que é a que consta deste disco, em 1954, acompanhada pelo já nosso bem conhecido tenor Peter Pears (1910-1986). Este é, aliás, um disco extraordinário pois, além das participações já referidas, conta ainda com o actor Laurence Olivier (1907-1989), o próprio William Walton a dirigir a Orquestra Filarmonia, e ainda o grande maestro Malcolm Sargent (1895-1967) à frente da Orquestra Sinfónica de Londres. Mas que disco...




William Walton
Façade. Scenes from Henry V. Orb and Sceptre Coronation March.
Edith Sitwell, Laurence Olivier, Peter Pears (narradores)
Philharmonia Chorus
English Opera Group Ensemble, Anthony Collins
Philharmonia Orchestra, William Walton
London Symphony Orchestra, Malcolm Sargent
alto ALC 1026
(1944, 1954)


Internet



Edith Sitwell
Edith Sitwell: A Nearly Forgotten Poetess / The Literary Encyclopedia / PoemHunter.com / The Poetry Archive / CatholicAuthors.com / Wikipedia

William Walton
William Walton.net / CultureKiosque / Naxos / Bach Cantatas Website / Karadar Classical Music / suite101.com / 8notes.com / Wikipedia

14/01/2010

CDs #219: Albert Schweitzer, Johann Sebastian Bach

Um daqueles discos que levaria para uma ilha deserta, não só pela excelência da interpretação como também por toda a carga simbólica que lhe está associada. Albert Schweitzer (1875-1965) foi um homem de interesses vários, começando por estudar teologia, fazendo pouco tempo depois por um doutoramento em filosofia, após o que se licenciou em medicina e ainda encontrou tempo para efectuar estudos musicais... E não foi um músico qualquer, se é que a expressão é adequada: extraordinário organista, desenvolveu um conhecimento aprofundadíssimo sobre a obra do seu compositor de eleição, Johann Sebastian Bach (1685-1750), sobre o qual escreveu dois livros; dedicou-se ainda ao estudo da construção de órgãos, área em que rapidamente se tornou num dos mais reputados peritos.

Em 1905, Albert Schweitzer edita o seu primeiro livro sobre Bach, J. S. Bach: Le Musicien-Poète e, nesse mesmo ano inicia os estudos de medicina, com o objectivo de ir para África; em 1913 foi para Lambaréne, África Equatorial (actualmente Gabão), onde fundou um hospital, entre muitas outras actividades que acabaram por lhe valer o Prémio Nobel da Paz em 1952. Uma das formas que encontrou de arranjar fundos para as suas actividades humanitárias foi a de dar regularmente recitais, pelo que não deixou de tocar pelo facto de passar grandes períodos de tempo em Lambaréne. A partir de 1948, em particular, Albert Schweitzer passou a viajar mais frequentemente para a Europa e, a par dos referidos recitais, efectuou ainda algumas gravações.

Este disco triplo da Andromeda contém algumas dessas gravações, efectuadas em França em 1951 e 1952. Um disco precioso, mais uma vez resultado de gravações efectuadas na década de 1950, para mim uma década vintage no que às gravações da grande música diz respeito.

Albert Schweitzer nasceu há 135 anos, no dia 14 de Janeiro de 1875.




Albert Schweitzer
Johann Sebastian Bach
The complete American Columbia Recordings
published for the first time in one box.
Albert Schweitzer (órgão)
Andromeda ANDRCD 5123


Internet



Albert Schweitzer
Wikipedia / Nobelprize.org / The Albert Schweitzer Page / Association Internationale Albert Schweitzer / Lucidcafé: Library / Albert Schweitzer / Medical Research Unit, Albert Schweitzer Hospital, Lambaréné, Gabon

08/01/2010

Violoncelistas #10: Pierre Fournier (1906-1986)

O primeiro violoncelista a ter honras de destaque nestas páginas foi o francês Pierre Fournier, já lá vão mais de 4 anos e meio. Na altura, e como é mais ou menos habitual nos textos que aqui vou espetando, deixei uma pequena lista de discos de referência, daqueles que evidenciam o nível artístico do intérprete. A (mais ou menos) recente moda de ir ao baú buscar gravações antigas e de as colocar à venda a preços módicos faz com que novos discos históricos vão aparecendo a bom ritmo. Uma óptima notícia, pois claro, mas com um pequeno senão: qualquer lista actualizada fica rapidamente obsoleta...

Fournier não tem sido excepção a essa regra, e nos últimos anos temos sido brindados com a edição de alguns discos de audição essencial. Primeira razão para a ele ter voltado neste momento. Entretanto alguma alma caridosa lembrou-se de inventar o YouTube, e outras almas não menos caridosas deram-se ao trabalho de lá colocar milhões de vídeos. A maior parte deles é puro lixo, mas muitos são documentos estimáveis, alguns dos quais incluem gravações de interpretações de Pierre Fournier. Segunda razão para este regresso. Penso que havia uma terceira razão, não me lembro agora qual, mas farão a delicadeza de aceitar que as duas apresentadas são de peso...

Pierre Fournier faleceu há 24 anos, no dia 8 de Janeiro de 1986.


CDs




Pierre Fournier: Aristocrat of the Cello
Pierre Fournier (violoncelo), Rudolf Firkusny, Jean Fonda,
Lamar Crowson (pianos)
Berlin Philharmonic Orchestra
George Szell, Alfred Wallenstein
Deutsche Grammophon 477 5939

Luigi Boccherini
Cello Concerto No.9 in B flat major, G482.
Robert Schumann
Cello Concerto in A minor, Op.129.
Edward Elgar
Cello Concerto in E minor, Op.85.
Pierre Fournier (violoncelo)
NDR Symphony Orchestra
Cologne Radio Symphony Orchestra
Georg Solti, Hans Rosbaud
Archipel ARPCD0410
(1955-58)

Ludwig van Beethoven
Complete Works for Cello and Piano.
Pierre Fournier (violoncelo), Friedrich Gulda (piano)
Deutsche Grammophon 477 6266
(1959)

Munch Conducts Romantic Favourites
Robert Schumann
Cello Concerto in A minor, Op.129. Symphony No.4 in D minor, Op.120.
Richard Strauss
Tod und Verklärung. Don Juan, Op.20. Orchestral Songs.
Ein Heldenleben, Op.40. Divertimento (after Couperin), Op.86.
Johannes Brahms
Concerto for Violin, Cello and Orchestra, Op.102. Symphony No.2, Op.73.
Academic Festival Overture, Op.80. Piano Concerto No.1.
Antonín Dvorák
Symphony No.9 in E minor, 'From the New World', Op.95.
Pierre Fournier, Samuel Mayes (violoncelos), Zino Francescatti,
Richard Burgin (violinos), Rudolph Serkin (piano), Irmgard
Seefried (soprano)
Boston Symphony Orchestra
Charles Munch
West Hill Radio Archive WHRA6017
(1951, 1953, 1954, 1955, 1956, 1957)


Internet



Pierre Fournier
Internet Cello Society / Pierre Fournier Award / Wikipedia

04/01/2010

SACDs #25: Josef Suk, Asrael

A música checa, apesar de não tão reconhecida como a alemã ou a austríaca, por exemplo, tem revelado extraordinários compositores ao longo dos tempos, nomeadamente desde o século XVII. Os seus expoentes foram, naturalmente, Antonín Dvorák (1841-1904) e Bedrich Smetana (1824-1884), mas, depois deles, já nos brindou com compositores como Leos Janácek (1854-1928), Vítezslav Novák (1870-1949), que ainda não passou por estas páginas, e Bohuslav Martinu (1890-1959).

Outro nome incontornável é o de Josef Suk (1874-1935) que, não sendo tão aventureiro como Janácek, acabou, de alguma forma, por representar uma certa extensão da obra de Dvorák. Os dois, aliás, estiveram intimamente ligados, ou não tivesse Suk sido aluno de Dvorák no Conservatório de Praga e, em 1898, casado com a filha deste, Otilie. Tiveram ainda em comum a sorte de ter um consagrado Johannes Brahms (1833-1897) a ajudar ao início das suas carreiras, promovendo as suas primeiras obras; no caso de Suk tal sucedeu com o seu opus 6, a Serenade for Strings.

O falecimento de Dvorák, em Maio de 1904, levou Suk a iniciar a escrita daquela que viria a ser a sua obra mais emblemática, a Sinfonia Asrael. A morte de Otilie, pouco mais de um ano depois, marcou mais um momento trágico, que o levou a rever a obra e a torná-la ainda mais sombria. Por altura do falecimento da esposa, Suk encontrava-se a trabalho no 4º andamento desta sinfonia; acabou por largar aquilo que dele já tinha composto, e escreveu um novo de raiz, que é geralmente considerado como sendo um retrato de Otilie, que nos é apresentada pelo violino. Foi também por esta altura que Suk adicionou o sub-título à obra, Asrael (ou Azrael), que é o Anjo da Morte, aquele que vigia os moribundos e tira as almas dos corpos. Esta sinfonia foi estreada no dia 3 de Fevereiro de 1907.

Josef Suk nasceu há 136 anos, no dia 4 de Janeiro de 1874.




Josef Suk
Asrael, Op.27.
Helsinki Philharmonic Orchestra
Vladimir Ashkenazy
Ondine ODE 1132-6
(2008)


Internet



Josef Suk
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