Iannis Xenakis (1922-2001) cedo começou a utilizar nas suas composições os vastos conhecimentos matemáticos que possuía, baseando muitas das suas obras em programas informáticos e equações matemáticas por ele desenvolvidos. Não será, portanto, de admirar, que vários distintos nomes da música o tenham rejeitado como aluno, numa altura em que ele já vivia em Paris: Nadia Boulanger (1887-1979), primeiro, Arthur Honegger (1892-1955) e Olivier Messiaen (1908-1992), depois. Este último, sabedor do curriculum do candidato a aluno, depois de salientar a idade de Xenakis (na altura com quase 30 anos) e a sorte que este tinha em ser grego, arquitecto e ter estudado matemática, aconselhou-o a tirar o melhor partido de tudo isso nas suas obras musicais e... despachou-o...
Xenakis deixou-nos um significativo conjunto de obras instrumentais, de música de câmara, orquestrais e "avant-garde". Lichens, de 1983, é uma obra orquestral para 96 músicos, com uma duração aproximada de 16 minutos, e que foi estreada pela Orquestra Filarmónica de Liège, dirigida por Pierre Bartholomée (1937-), no dia 16 de Abril de 1984, passam hoje 33 anos.
As obras do compositor francês Vincent d'Indy (1851-1931) sofrem desde há muito de uma indiferença quase generalizada, pelo que dificilmente alguém adivinharia estarmos em presença de uma das figuras mais relevantes da cena musical parisiense dos finais do século XIX. Há boas razões para isso, naturalmente, a começar pela forma obstinada como sempre recusou quaisquer modernices, dedicando-se a compor música eminentemente conservadora, num estilo classicista que foi tendo cada vez menos adeptos.
Dedicou-se também à docência, área onde, porventura, terá deixado uma marca mais duradoura, notada, por exemplo, na lista de alunos que passaram pelas suas aulas, como Isaac Albéniz (1860-1909), Arthur Honegger (1892-1955), Darius Milhaud (1892-1974), Albert Roussel (1869-1937) e Erik Satie (1866-1925).
Vincent d'Indy compôs três sinfonias, sendo que apenas a segunda e a terceira tiveram direito a receber números de opus; composta entre 1902 e 1903 , a 2ª sinfonia foi estreada no dia 28 de Fevereiro de 1904, passam hoje 112 anos.
CDs
Vincent d'Indy Symphony No.2 in B flat, Op.57. Souvenirs, Op.52.
Monte Carlo Philharmonic Orchestra
James DePreist
Koch International 37280-2
Voltamos à Noruega, depois da incursão que lá fizemos há algum tempo a propósito de um concerto a que assistimos na Casa da Música, com o violoncelista Truls Mørk (1961-) e o pianista Håvard Gimse (1966-). Fazê-mo-lo para assinalar a pssagem de mais um aniversário do nascimento do compositor Geirr Tveitt, um dos mais marcantes do seu país, principalmente durante a primeira metade do século XX, mas também um dos mais polémicos.
Ao contrário de vários outros que por aqui já passaram, Tveitt não começou tão cedo quanto isso a dedicar-se à música, e já tinha 20 anos quando foi para Leipzig para estudar composição e piano. Passaria depois algum tempo em Paris, nos anos 30, onde teve como professores alguns já nossos velhos conhecidos: Nadia Boulanger (1887-1979), pois claro, e ainda Arthur Honegger (1892-1955) e Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Não demoraria muito para que Tveitt fosse o principal rosto da música contemporânea norueguesa, além de ter uma bem sucedida carreira como pianista. Deu sempre uma relevância particular ao tom nacionalista, fazendo uso frequente das inúmeras melodias populares norueguesas que foi recolhendo ao longo da vida.
O cenário mudou após o final da 2ª Grande Guerra, e a música de Tveitt saiu de moda, havendo uma desconfiança generalizada em relação a tudo o que transpirasse a nacionalismo. A sua ligação ao filósofo Hans S. Jacobsen também não ajudou muito: Jacobsen, e por tabela Tveitt, refutava em absoluto o cristianismo, mas foi a sua posterior adesão à Assembleia Nacional, um partido de ideologia pró-nazi, que fez com que o caldo se entornasse. Tanto quanto se sabe Tveitt, apesar de alinhado por tais ideais, nunca foi membro da referida Assembleia Nacional; para os seus compatriotas, contudo, isso era apenas um pequeno detalhe, e daí até o votarem ao ostracismo foi um pequeno passo.
Geirr Tveitt nasceu há 101 anos, no dia 19 de Outubro de 1908.
CDs
Geirr Tveitt A Hundred Hardanger Tunes, Op.151 - Suite No.1; Suite No.4, "Wedding Suite". Royal Scottish National Orchestra Bjarte Engeset Naxos 8.555078
Geirr Tveitt A Hundred Hardanger Tunes, Op.151 - Suite No.2, "Fifteen Mountain Songs"; Suite No.5, "Troll-tunes". Royal Scottish National Orchestra Bjarte Engeset Naxos 8.555770
Geirr Tveitt Piano Concerto No.4, "Aurora Borealis", Op.130. Variations on a Folksong from Hardanger. Håvard Gimse, Gunilla Süssmann (pianos) Royal Scottish National Orchestra Bjarte Engeset Naxos 8.555761
Nos finais da década de 1850 o pianista e compositor russo Mily Balakirev (1837-1910) fundou o Grupo dos Cinco, ambicionando criar uma escola de composição tipicamente russa. Em plena 1ª Guerra Mundial, a organização de um concerto no estúdio do pintor Émile Lejeune (1885-1964) deu origem, a partir de uma ideia de Erik Satie (1866-1925), a Les Nouveaux Jeunes, um grupo formado pelos mais relevantes compositores franceses da altura. Satie abandonaria o grupo cerca de um ano depois e, com os compositores que sobraram, em Janeiro de 1920 dar-se-ia o arranque oficial de Les Six, nome atribuído pelo compositor e crítico musical Henri Collet (1885-1951), que assim estabeleceu um óbvio paralelo com o referido Grupo dos Cinco.
Do grupo Les Six faziam parte Georges Auric (1899-1983), Louis Durey (1888-1979), Darius Milhaud (1892-1974), Francis Poulenc (1899-1963), Germaine Tailleferre (1892-1983) e Arthur Honegger (1892-1955). Este último, de ascendência suíça, passou por ser um dos mais importantes do grupo, apesar de, conforme reconhecido pelo próprio, não ter fortes laços musicais com os restantes membros, e da sua ligação aos movimentos de reacção aos ideais impressionistas e wagnerianos, que estiveram na origem da criação do grupo, serem meramente superficiais. Honegger tinha origens germânicas, além de ter vivido e estudado algum tempo em Zurique, e quando chegou a Paris para estudar no Conservatório, em 1911, era um entusiasta da música de Richard Wagner (1813-1883), pelo que se compreenderão as suas reticências...
Naquela altura Honegger vivia em Le Havre, que fica a perto de 200Km de Paris, e deslocava-se à capital de comboio. Daqui terá nascido o seu fascínio por locomotivas, que serviu de inspiração para uma das suas mais conhecidas e bem sucedidas obras, Pacific 231 (2 pequenas rodas laterais à frente, 3 grandes rodas centrais e 1 roda atrás), composta em 1923 e estreada no dia 8 de Maio de 1924 pelo maestro Serge Koussevitzky (1874-1951).
Arthur Honegger nasceu há 117 anos, no dia 10 de Março de 1892.
CDs
Arthur Honegger Symphonies - No.2; No.3, "Liturgique". Pacific 231. Oslo Philharmonic Orchestra Mariss Jansons EMI 5 55122-2
Arthur Honegger Symphonies - No.2; No.3, "Liturgique". Berlin Philharmonic Orchestra Herbert von Karajan Deutsche Grammophon 423 242-2
Arthur Honegger Sonatina, H80. Bohuslav Martinu Duo No.1, H157. Johann Sebastian Bach Die Kunst der Fuge, BWV1080 - Canon alla ottava; Canon alla duodecima in contrapuncto all quinta. Matthias Pintscher Study I for 'Treatise on the Veil'. Maurice Ravel Sonata for Violin and Violoncello. Frank Peter Zimmermann (violino), Heinrich Schiff (violoncelo) ECM New Series 476 3150
SACD
Francis Poulenc Gloria. Arthur Honegger Symphony No.3, H186, 'Liturgique'. Luba Orgonásová (sop) Netherlands Radio Choir Royal Concertgebouw Orchestra Mariss Jansons RCO Live RCO06003
O maestro alsaciano Charles Münch (1891-1968) deu particular destaque à divulgação da música francesa, tendo, por exemplo, estreado obras de Francis Poulenc (1899-1963), Jacques Ibert (1890-1962) e Arthur Honegger (1892-1955) que, apesar de suíço, viveu a maior do tempo em Paris.
Charles Münch
Charles Münch esteve à frente da Orquestra Sinfónica de Boston entre 1949 e 1962, tendo introduzido ao público americano inúmeras obras de compositores franceses, patrocinando simultaneamente compositores seus contemporâneos. O SACD que aqui se traz hoje contém gravações, efectuadas na 2ª metade dos anos 50, de 3 compositores franceses: Camille Saint-Saëns (1835-1921), Claude Debussy (1862-1918) e Jacques Ibert.
Saint-Saëns, Debussy, Ibert
A interpretação da Sinfonia Nº3 de Saint-Saëns é fenomenal, tendo sido possível na altura ultrapassar as dificuldades técnicas associadas à sua gravação, relacionadas com a audição do órgão e o seu balanço com os restantes instrumentos da orquestra. Grandes audições!
SACD
Camille Saint-Saëns Symphony No.3 in C minor, "Organ". Claude Debussy La Mer. Jacques Ibert Escales (Ports of Call). Berj Zamkochian (órgão) Boston Symphony Orchestra Charles Münch RCA Red Seal 82876-61387-2
Poderia ter tido uma vida pacata, nalguma ilha paradisíaca. Poderia mesmo ter comprado a ilha, e até as outras mais próximas, não há nada pior do que má vizinhança. Mas o suíço Paul Sacher, accionista maioritário da farmacêutica Roche e presença obrigatória na lista dos mais abonados da revista Forbes, preferiu dedicar-se às artes em geral, como patrono, e à música em particular, como maestro. Faleceu no dia 26 de Maio de 1999.
Paul Sacher
E não se pense que a regência de orquestras foi um mero capricho de alguém sem talento para tal. Entre obras por ele encomendadas ou estreadas contam-se perto de 250, entre as quais algumas de Richard Strauss (Metamorphosen), Bela Bartók (Percussion and Celesta, Music for Strings), Paul Hindemith (Symphonie "Die Harmonie der Welt", Marsch für Orchester über den alten "Schweizerton") e Arthur Honegger (Sinfonia Nº2).
Em 1926Paul Sacher fundou a Orquestra de Câmara de Basileia, em 1933 a Schola Cantorum Basiliensis, em 1954 a Musikakademie der Stadt Basel e em 1973 a Fundação Paul Sacher.
CDs
Homage to Clara Haskill and Dinu Lipatti Clara Haskill, Dinu Lipatti (pianos) South West German Radio Symphony Orchestra Bavarian Radio Symphony Orchestra Paul Sacher, Eugen Jochum Tahra TAH366/7
Bach, Bartók, Liszt Dinu Lipatti (piano) Royal Concertgebouw Orchestra, Amsterdam Suisse Romande Orchestra South West German Radio Symphony Orchestra Ernest Ansermet, Eduard van Beinum, Paul Sacher EMI 5 67572-2
Henri Dutilleux Métaboles. Mystère de l'instant. Symphony No.1. Symphony No.2, "Le double". G. Cachemaille, M. Bourgue, B. Balet, D. Geringas, B. Cazauran, G. Joy, H. Dutilleux, H. Dreyfus Collegium Musicum Sine Nomine Quartet French National Orchestra Orchestre de Paris Daniel Barenboim, Mstislav Rostropovich, Paul Sacher Erato 0630-14068-2