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23/03/2014

Sinfonias #48: Sinfonia Nº3, de Mieczysław Weinberg

O compositor polaco Mieczysław Weinberg (1919-1996) foi mais um daqueles que o tempo se encarregou de colocar na prateleira dos esquecidos, a tal ponto que hoje raramente as suas obras são interpretadas em público. Nascido em 1919 em Varsóvia, de ascendência judaica, não teve tempo para usufruir no seu país dos estudos efectuados no Conservatório daquela cidade: terminou-os em 1939, e rapidamente teve que se pôr a andar, no caso para a União Soviética, que os tempos adivinhavam-se difíceis. A restante família (pais e irmã) ficariam para trás e não sobreviviriam à brutalidade nazi.

A mudança para a União Soviética não significou, contudo, o fim dos problemas para Weinberg, que viria a ser mais uma das vítimas da política cultural de Andrei Zhdanov (1896-1948); só em 1953, com a morte de Josef Stalin (1879-1953) é que finalmente se viu livre de sarilhos. Apesar de todos estes percalços deixou-nos uma obra vasta, de cerca de centena e meia de peças, das quais apenas as duas primeiras (uma pequena peça para piano solo e um quarteto de cordas) foram escritas na Polónia.

O género sinfónico foi um dos que mais o ocupou, tendo composto 20 sinfonias entre 1942 (Op.10) e 1988 (Op.150), além de 4 "Sinfonias de Câmara". A composição da Sinfonia Nº3 foi iniciada em Março de 1949 e foi com ela que os problemas com Zhdanov & Companhia começaram; ele bem que lá enfiou melodias populares locais, conforme era o desejo das autoridades, mas não as conseguiu impressionar por aí além, tendo tido que adiar a estreia por "ter descoberto alguns erros na partitura"... Estreia essa que acabaria por ter lugar no dia 23 de Março de 1960, passam hoje 54 anos.


SACD


Mieczysław Weinberg
The Golden Key, Op.55 - Suite No.4. Symphony No.3, Op.45.
Gothenburg Symphony Orchestra
Thord Svedlund
Chandos CHSA5089
(2009, 2010)


Internet



Mieczysław Weinberg


04/11/2009

CDs #214: Shostakovich, Symphony No.8

Em 1941 o compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) escreveu a Sinfonia Nº7, "Leninegrado", a primeira da trilogia das sinfonias de guerra. Estreada a 5 de Março de 1942, obteve grande sucesso, quer junto do público quer junto das autoridades, que viram nela uma ode aos bravos que defenderam Leninegrado dos invasores nazis. Não é líquido que essa seja a leitura mais correcta, tendo Shostakovich chegado a afirmar o seguinte (1): "The Seventh Symphony became my most popular work. It saddens me, however, that people don't always understand what it's about (...)".

A recepção calorosa a esta sinfonia, aliada ao facto de as autoridades andarem envolvidas no esforço de guerra, fez com que o ambiente se apresentasse um pouco desanuviado para o nosso compositor, deixando de ser, pelo menos temporariamente, o alvo dos vigilantes de serviço, Andrei Zhdanov (1896-1948) & Companhia. No Verão de 1943 iniciou a escrita da Sinfonia Nº8, a segunda da referida trilogia sobre a guerra, e que se previa que estivesse em linha com a anterior. Chegou-se-lhe mesmo a certa altura a atribuir o nome de "Estalinegrado", que, contudo, nunca viria a ostentar. Apesar do tema da guerra estar de novo bem presente durante toda a obra, reconhecido pelo próprio autor ao afirmar que "quis recriar o clima interior do ser humano ensurdecido pelo gigantesco martelo da guerra" (2), o sentimento que a atravessa, de dor e destruição, apanhou de surpresa a audiência aquando da estreia, a 4 de Novembro de 1943, passam hoje 66 anos.

E se o público não a entendeu, já as autoridades não lhe acharam graça nenhuma, e daí até à proibição da execução pública da obra foi um pequeno passo; não estavam assim tão distraídas... A Sinfonia Nº8 só viria a ser interpretada de novo após Estaline (1878-1953) ter esticado o pernil, em Março de 1953.

(1) Testimony, The Memories of Dmitri Shostakovich, by Solomon Volkov
(2) Guia da Música Sinfónica, de François-René Tranchefort





Dmitri Shostakovich
Symphony No.8 in C minor, Op.65.
London Symphony Orchestra
André Previn
EMI Classics 5 09024-2
(1973)


Internet



Dmitri Shostakovich
P. Q. P. Bach / Classical Music Pages / Dmitri Dmitriyevich Shostakovich / Naxos / Classical Music Archives / BBC / Wikipedia / The DSCH Journal

30/09/2009

Compositores #99: Valentin Silvestrov (1937-)

A história da música do século XX nunca estará completa se não considerarmos a influência do realismo socialista, com os seus ditames para uma produção artística politicamente correcta. Foram já vários os casos que aqui trouxe de compositores que foram fortemente por ele condicionados, e não foram tão poucos como isso aqueles que viram as suas vidas infernizadas. Para Andrei Zhdanov (1896-1948), o cabecilha dos polícias das artes, e companhia, os nomes das vítimas pouco diziam, pelo que até Sergei Prokofiev (1891-1953) passou as passas do Algarve.

Não consta que as autoridades soviéticas dispusessem na altura de tão sofisticados meios de vigilância como aqueles que alegadamente são hoje em dia plantados em Portugal nalguns palácios mais ou menos famosos. Também não consta, por outro lado, que as vítimas viessem a público expressar as suas suspeitas em relação às alegadas vigilâncias. Por duas razões, penso eu: por um lado, porque as vigilâncias não eram alegadas, mas sim às claras e conhecidas publicamente, "para servir de exemplo"; por outro lado, se não contribuiriam para um mau relacionamento das instituições, poriam em risco, inevitavelmente, o normal funcionamento das articulações... Mesmo assim não escapava compositor algum, o que prova a inutilidade das ditas cujas.

O ucraniano Valentin Silvestrov foi outro dos perseguidos por delito artístico, por razões que rapidamente perceberemos se lermos alguma biografia sua. Atentemos por exemplo na que vem no Dictionnaire de la Musique, de Marc Vignal, que começa logo por nos apresentar Silvestrov como possuindo, desde muito jovem, "um espírito aberto às correntes estéticas e às técnicas musicais do Ocidente (...)". Estava mesmo a pedir chatices, pois claro, e teve-as em doses generosas, de que mais tarde ficaremos a saber mais caso eu um dia volte a este compositor...

Valentin Silvestrov celebra hoje o seu 72º aniversário.


CDs





Valentin Silvestrov
Metamusik. Postludium.
Alexei Lubimov (piano)
Vienna Radio Symphony Orchestra
Dennis Russell Davies
ECM New Series 472 081-2
(2001)

Valentin Silvestrov
String Quartet No.1. Hymn 2001. Three Postludes - No.1, 'DSCH';
No.2; No.3. Cello Sonata.
Maacha Deubner (soprano), Silke Avenhaus, Valentin Silvestrov (pianos),
Simon Fordham (violino), Anja Lechner (violoncelo)
Rosamunde Quartet
ECM New Series 461 898-2

Valentin Silvestrov
Requiem for Larissa.
National Choir of Ukraine, 'Dumka'
National Symphony Orchestra of Ukraine
Vladimir Sirenko
ECM New Series 472 112-2
(2001)

Valentin Silvestrov
Piano Sonata No.1. Three Postludes. The Messenger 1996. Nostalghia.
Two Pieces - Benedictus; Sanctus. Two Pieces - Chopin Moments.
Jenny Lin (piano)
Hänssler Classic CD98 229
(2006)

Valentin Silvestrov
Bagatellen. Der Bote. Zwei Dialogue mit Nachwort. Elegie.
Stille Musik. Abschiedsserenade.
Valentin Silvestrov, Alexei Lubimov (pianos)
Munich Chamber Orchestra
Christoph Poppen
ECM New Series 476 6178
(2006)

Valentin Silvestrov
Drama. Post scriptum. Epitaph.
Jenny Lin (piano), Cornelius Dufallo (violino),
Yves Dharamraj (violoncelo)
Koch International Classics
KICCD7740

Valentin Silvestrov
Dedication. Post scriptum.
Gidon Kremer (violino), Vadim Sacharov (piano)
Munich Philharmonic Orchestra
Roman Kofman
Teldec 4509-99206-2

Valentin Silvestrov
Symphony No.5. Postludium.
Alexei Lubimov (piano)
Deutsches Symphony Orchestra
David Robertson
Sony Classical SK66825
(1996)

Valentin Silvestrov
Symphony No.2. Meditatsiya. Serenade.
Oleg Hudiyakov (flauta), Ivan Sokolov (piano), Dunayev, Smirnov (percussão)
Musica Viva Chamber Orchestra
Alexander Rudin
Olympia OCD477


Internet



Valentin Silvestrov
Schott Music / The Living Composers Project / Classical Archives / Wikipedia

23/03/2009

Sinfonias #35: Sinfonia Nº3, de Reinhold Glière

Já por aqui passaram vários dos compositores que foram vítimas do realismo socialista, a política para as artes implementada pelas autoridades soviéticas, que teve em Andrei Zhdanov (1896-1948) o seu principal executor: Sergei Prokofiev (1891-1953), Aram Khachaturian (1903-1978) e Nikolai Myaskovsky (1881-1950). Houve também, obviamente, compositores que passaram mais ou menos incólumes por tal situação e, nessa lista, teremos que incluir Reinhold Glière (1875-1956).

A parte mais significativa da obra de Glière foi escrita durante a primeira metade do século XX, só que não soava muito diferente das obras que os seus compatriotas tinham escrito no século anterior; é que Glière, além de fortemente influenciado pelo romantismo russo, era avesso a grandes experimentações sonoras, nunca tendo composto uma obra que soasse a moderna. Se aliarmos este facto ao de jamais as suas composições terem revelado influências externas, então vemos que estavam reunidas todas as condições para não ser chateado pelas autoridades.

Da sua vasta obra merecem especial destaque as sinfonias que escreveu, no total de 3; destas, a mais conhecida é indubitavelmente a última, uma sinfonia programática inspirada na vida do lendário e mítico herói Ilya Muromets que, incapaz de andar desde muito jovem, foi miraculosamente curado quando tinha 33 anos, tendo, nessa mesma altura, recebido poderes sobre-humanos, que usou profusamente na libertação de várias cidades.

A Sinfonia Nº3 de Reinhold Glière foi estreada há 97 anos, no dia 23 de Março de 1912.


CD



Reinhold Glière
Symphony No.3, "Il'ya Mouromets", Op.42.
London Symphony Orchestra
Leon Botstein
Telarc CD80609


Internet

Reinhold Glière
Reinhold Glière / Sikorski / Reinhold M. Glière / Naxos / Glière: Biography / Classical Archives / Wikipedia

12/05/2008

SACDs #20: Shostakovich, Symphonies Nos.1 & 6

O ano de 2006 foi também o do centenário do nascimento do compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975), motivo pelo qual se falou dele por aqui variadíssimas vezes. No ano passado continuamos a trazê-lo para estas bandas, nomeadamente para abordar a sua Sinfonia Nº15, por sinal a última por ele composta. Um disco que contém as Sinfonias Nºs 1 e 6 deste compositor é o motivo de o convidar novamente para este canto, no dia em que passam 82 anos sobre a estreia da primeira delas.

É sabido que Shostakovich manteve uma relação ambígua com as autoridades soviéticas, que não o livrou, contudo, de ter levado algumas reprimendas, por algumas das suas obras não estarem lá muito de acordo com os cânones oficiais. Em 1948 foi acusado de perversidades formalistas, um pecado de dimensões dificilmente imagináveis pelo comum dos mortais; em meados da década de 1920, quando escreveu a sua primeira sinfonia, gozava da liberdade criativa exclusiva dos compositores (ainda) pouco conhecidos, tendo dela feito bom uso para escrever aquela que seria a sua obra de graduação no Conservatório. O enorme sucesso obtido na estreia chamou não só a atenção dos grandes intérpretes, como os maestros Leopold Stokowski (1882-1977) e Bruno Walter (1876-1962), como também, inevitavelmente, do censor Andrei Zhdanov (1896-1948) e respectiva companhia, que o passaram a seguir com dedicada atenção, de que resultou um primeiro puxar de orelhas em 1936 e as consequentes aventuras que rodearam as suas quarta e quinta sinfonias. Histórias para outra altura...




Dmitri Shostakovich
Symphony No.1 in F minor, Op.10.
Symphony No.6 in B minor, Op.54.
Russian National Orchestra
Vladimir Jurowski
Pentatone PTC 5186 068
(2004)


Internet

Dmitri Shostakovich
P. Q. P. Bach / Classical Music Pages / Classical Net / Wikipedia / BBC / Naxos

20/04/2008

CDs #158: Myaskovsky, Symphonies Nos.15 & 27

O realismo socialista foi a designação eufemística dada pelas autoridades soviéticas à política que definia a produção artística e que, na prática, se traduzia na censura de tudo aquilo que não promovesse os ideais socialistas e não passasse uma mensagem optimista. Os critérios, como seria de esperar, dificilmente poderiam ser perfeitamente claros e objectivos e, quando aplicados à produção musical, só poderiam resultar em confusão e mal-entendidos. Já anteriormente (aqui, aqui, e aqui) foram referidos os casos de Sergei Prokofiev (1891-1953) e (aqui e aqui) de Aram Khachaturian (1903-1978). E se em relação a estes dois não é fácil compreender as razões que os levaram a serem perseguidos e humilhados pelo regime, então mais difícil se torna perceber quais as que terão estado na base da marcação cerrada efectuada a partir de certa altura a Nikolai Myaskovsky (1881-1950), igualmente compositor e amigo de Prokofiev.

Porque, por um lado, a música de Myaskovsky nunca foi vanguardista e, por outro, o compositor nunca escondeu a preocupação que tinha em não fugir dos ditames de Andrei Zhdanov (1896-1948) & companhia. Só não os conseguia entender, e cito o próprio (frase retirada do livrinho que acompanha este disco), "I don't know how this musical language should sound, nor do I know a recipe for finding out", adiantando depois "Neither the striving after folk-songs nor the intoning of our urban melodies in their pure form seem to me to be the exclusive building blocks for the creation of the musical style of Socialist Realism in instrumental music (...)". Pois a verdade é que, apesar de todas estas cautelas, Myaskovsky teve um fim de vida muito complicado, com as autoridades a proibirem algumas das suas obras, em 1948, e a nunca mais o deixarem em paz a partir daí. Ironia do destino, apenas foi reabilitado aquando da estreia de umas das sinfonias apresentadas neste disco, a 27ª, a 9 de Dezembro de 1950, 4 meses e 1 dia após a sua morte. E se já uns anos antes tinha recebido dois prémios Estaline, viria a receber postumamente um terceiro, graças a esta Sinfonia Nº27, como se nada de anormal se tivesse passado entretanto...

Nikolai Myaskovsky nasceu há 127 anos, no dia 20 de Abril de 1881.




Nikolai Myaskovsky
Symphony No.15 in D minor, Op.38.
Symphony No.27 in C minor, Op.85.
Russian Federation Academic Symphony Orchestra
Evgeny Svetlanov
Olympia OCD 741
(1991-3)


Internet

Nikolai Myaskovsky
The official site / The music of Nikolai Miaskovski / classicalsource.com / Wikipedia

12/07/2007

Concertos para Piano #7: Concerto para Piano, de Aram Khachaturian

A vida por vezes dá muitas voltas, até de 360º..., e aquilo que hoje parece absolutamente seguro amanhã poderá não o ser tanto; que o diga o compositor soviético Aram Khachaturian (1903-1978), durante muito tempo um dos favoritos do regime lá do sítio e, a partir de certa altura, uma das vítimas de eleição do já nosso conhecido Andrei Zhdanov (1896-1948). Esteve bem acompanhado, Khachaturian, por compositores tão conhecidos como Sergei Prokofiev (1891-1953) e Dmitri Shostakovich (1906-1975), igualmente sujeitos aos princípios rígidos do realismo socialista.

O caso de Khachaturian, porém, não deixa de ser curioso: é que dificilmente se encontrarão nas suas obras os ingredientes modernistas que tantas comichões provocavam aos zeladores culturais do regime. Daí muitos admitirem que as perseguições terão vindo mais pelas suas actividades no seio do Sindicato dos Compositores Soviéticos e menos pela música propriamente dita, que raramente fugiu aos ditames de Zhdanov & Companhia. Claro que o resultado final foi o mesmo: um decreto emitido por Zhdanov e a consequente proibição de algumas das suas obras.

Estes acontecimentos, marcantes na vida do compositor, aconteceram em 1948. Bem antes disso, em 1936, ainda Khachaturian não tinha terminado a pós-graduação no Conservatório de Moscovo, escreveu aquela que viria a ser uma das suas obras mais significativas: o Concerto para Piano, estreado pelo seu dedicatário, o pianista Lev Oborin (1907-1974) no dia 12 de Julho de 1937, passam hoje 70 anos. Oborin, refira-se, foi o primeiro vencedor do Concurso Internacional de Piano Frédéric Chopin, em Janeiro de 1927.


CDs



Aram Khachaturian
Piano Concerto. Gayaneh Suite. The Valencian Widow Suite.
Dora Serviarian-Kuhn (piano)
Armenian Philharmonic Orchestra
Loris Tjeknavorian
ASV CDDCA964
(1991, 1992, 1995)

Ludwig van Beethoven
Piano Concerto No.2 in B flat, Op.19.
Aram Khachaturian
Piano Concerto in D flat.
Dmitri Shostakovich
Preludes, Op.34 - No.5 in D; No.10 in C sharp minor; No.24 in D minor.
William Kapell (piano)
NCB Symphony Orchestra, Vladimir Golschmann
Boston Symphony Orchestra, Serge Koussevitzky
Dutton Laboratories CDBP9701


Internet

Aram Khachaturian
Virtual Museum of the great Armenian composer Aram Khachaturian / Classical Net / Wikipedia / Aram Khachaturian is 100 / Aram Khachaturian / Boosey & Hawkes

23/02/2007

Concertos #51

Para os russos, a 2ª metade da década de 1910 revelou-se fértil em acontecimentos; além de todos os directamente relacionados com a 2ª Grande Guerra, tiveram ainda que lidar com os internos, nomeadamente com a Revolução de Outubro (de 1917), a subida do partido bolchevique ao poder e o consequente estabelecimento da União Soviética. Este ambiente não impediu, contudo, que Sergei Prokofiev (1891-1953) continuasse a compôr regularmente, e datam desta altura, por exemplo, algumas obras instrumentais (sonatas para violino) e orquestrais (um concerto para violino, outro para piano e uma sinfonia). Prokofiev, contudo, já tinha anteriormente cheirado o Ocidente e, em 1914, chegou a encontrar-se em Londres com Sergei Diaghilev (1872-1929), espicaçado pelo sucesso dos Ballets Russes e pela relação privilegiada do empresário com o compositor Igor Stravinsky (1882-1971).

Em Maio de 1918, Prokofiev zarpou de novo, rumo aos Estados Unidos, com uma breve passagem pelo Japão. Não encontrou o sucesso que esperava, contudo, e, em 1922, voltou para o velho continente. Iria depois efectuar algumas turnés pelo seu país natal (1927, 1929 e 1932)e , entre 1933 e 1936, visitou Moscovo com alguma frequência. O regresso definitivo dar-se-ia apenas em 1936 e, ao contrário do que eventualmente esperaria, não encontrou umas autoridades vergadas ao seu prestígio internacional, entretanto granjeado. Pelo contrário, sofreu, como os outros, os ditames do realismo socialista, e sujeitou-se ao crivo de Andrei Zhdanov (1896-1948).

A maioria das obras que compôs a partir daí resultaram de encomendas locais; uma delas veio do Teatro Central das Crianças, que queria uma sinfonia "destinada a cultivar os gostos musicais das crianças". Daqui nasceu Pedro e o Lobo, para narrador e orquestra, que Prokofiev escreveu em apenas 4 dias. Texto incluído, obviamente, que havia que dar alguma coisa ao narrador para narrar... Prokofiev aproveitou para exibir aos mais (e também aos menos) pequenos alguns dos instrumentos da orquestra, associando-os aos protagonistas: o herói Pedrinho é representado pelas cordas, o pássaro pela flauta, o pato pelo oboé, o gato pelo clarinete, o avô pelo fagote e o lobo pelas trompas. Para saberem como acaba a história só têm que fazer como nós, e aparecer amanhã pelas 21:00 na Casa da Música
, no Porto.


Programa

Nuno Malo
Suite de The Celestine Prophecy.
Bernard Herrmann
Suites de: The Man Who Knew Too Much; Psycho; Marnie.
Sergei Prokofiev
Pedro e o Lobo. (*)
Orquestra Nacional do Porto
Mark Stephenson

(*) Inclui projecção do filme Pedro e o Lobo de Suzie Templeton


Internet

Sergei Prokofiev
The Prokofiev Page
/ Wikipedia / Classical Music Pages / Sergei Prokofiev / ballet met / Peter and the Wolf - a musical story by Sergei Prokofiev

21/07/2006

Sonatas para Violino e Piano #1: Sonata Nº1, Op.80, de Sergei Prokofiev

O regime comunista da União Soviética, zeloso na defesa da correcção da produção cultural, provocou a debandada de muitos criadores, entre os quais o compositor Sergei Prokofiev (1891-1953). Ausente entre 1918 e 1933, optou por regressar, convencido de que o sucesso e o prestígio obtidos além fronteiras garantir-lhe-iam alguma benevolência no tratamento. Enganou-se redondamente, e o censor de serviço, o bem conhecido Andrei Zhdanov (1896-1948), fez questão de o demonstrar repetidamente.

Em 1938 fez a sua última viagem aos Estados Unidos, um dos países onde tinha passado parte do exílio (tinha residido também em França e na Alemanha). É dessa altura que datam os primeiros esboços daquela que viria a ser a sua 1ª Sonata para Violino e Piano que, contudo, apenas viria a ser finalizada em 1946. A estreia teria lugar em Outubro desse mesmo ano, em Moscovo, com o violinista David Oistrakh
(1908-1974), o dedicatário da obra, e o pianista Lev Oborin (1907-1974). A estreia nos Estados Unidos aconteceria em Janeiro de 1948, e com um violinista que já por aqui passou várias vezes: Joseph Szigeti (1892-1973).

Refira-se que foi desta obra que David Oistrakh interpretou algumas passagens no funeral do compositor, que faleceu no dia 5 de Março de 1953, exactamente no mesmo dia em que morreu Joseph Stalin (1878-1953). No disco abaixo referido o violino é tocado por Isaac Stern
(1920-2001), de quem hoje se assinalam os 86 anos passados sobre o seu nascimento.


CD



Isaac Stern
Ludwig van Beethoven
Sonate pour Violon et Piano Nº2 en la majeur, Op.12 Nº2.
Johann Sebastian Bach
Sonate pour Violon Seul en sol mineur, BWV1001.
Niccolo Paganini
La Campanella (arr. Fritz Kreisler).
Sergei Prokofiev
Sonate pour Violon et Piano en fa mineur, Op.80.
Henri Vieuxtemps
Concerto pour Violon Nº4 en ré mineur, Op.31.
Joseph Haydn
Adagio du Concerto pour Violon en ut majeur, Hob.VIIa:1.
Joseph Suk
Burlesque, Op.17 Nº4.
Fritz Kreisler
Siciliano et Rigaudon dans le style de Francoeur.
Issac Stern (violino), Alexander Zakin (piano)
INA Mémoire Vive IMV054
(1953)


Internet

Sergei Prokofiev
The Prokofiev Page
/ Wikipedia / Classical Music Pages / Sergei Prokofiev

Isaac Stern
IsaacStern.com / Wikipedia / BBC News

01/05/2006

Compositores #62: Aram Khachaturian (1903-1978)

Com a Revolução de Outubro chegou o realismo socialista que decretava, nomeadamente, que toda a obra artística era pertença da comunidade e deveria, necessariamente, promover os ideais socialistas e comunistas. Como política estatal, oficialmente introduzida por Estaline (1879-1953) em 1932, durou cerca de 60 anos, até aos inícios da década de 90, já bem dentro da perestroika.

Andrei Zhdanov (1896-1948) foi um dos que mais se destacou no suporte e na implementação dessa política, sendo da sua responsabilidade, até perto do final dos anos 50, a definição da produção cultural da União Soviética. Num texto aqui publicado há cerca de 2 meses referi uma das vítimas de tal política, Sergei Prokofiev (1891-1953); hoje trago aqui outra, o igualmente compositor Aram Khachaturian, que viu várias das suas obras acusadas de formalistas, epíteto suficientemente grave para que as autoridades as banissem. O que até não deixa de ser curioso, visto Khachaturian ter sido um dos compositores preferidos do regime. Apreço insuficiente, contudo, para o livrar da censura pública das autoridades, pela utilização de uma linguagem modernista, obviamente anti-povo e, portanto, politicamente incorrecta.

Autor do bailado Gayaneh, datado de 1942, de que foi extraída a conhecidíssima Dança do Sabre, Khachaturian obteria o reconhecimento internacional com o Concerto para Piano, de 1936, e com o Concerto para Violino, de 1940, dedicado a David Oistrakh (1908-1974), que a estreou em Novembro desse ano.

Aram Khachaturian faleceu há 28 anos, no dia 1 de Maio de 1978.


CDs




Aram Khachaturian
Violin Concerto in D minor.
Sergei Prokofiev
Violin Concerto No.1 in D, Op.19.
Alexander Glazunov
Violin Concerto in A minor, Op.82.
Julia Fischer (violino)
Russian National Orchestra
Yakov Kreizberg
Pentatone PTC5186 059

Aram Khachaturian
Concerto for Violin in D minor.
Jean Sibelius
Concerto for Violin in D minor, Op.47.
Sergey Khachatryan (violino)
Sinfonia Varsovia
Emmanuel Krivine
Naïve V4959

Aram Khachaturian
Concerto for Piano and Orchestra. Dance Suite.
Five Pieces for Wind Band - Waltz. Polka.
Dora Serviarian-Kuhn
Armenian Philharmonic Orchestra
Loris Tjeknavorian
ASV CDDCA964

Aram Khachaturian
Symphony No.2. Gayaneh - Suite.
Royal Scottish National Orchestra
Neeme Järvi
Chandos CHAN8945

William Kapell Plays Khachaturian
Aram Khachaturian
Piano Concerto in D flat.
Ludwig van Beethoven
Piano Concerto No.2 in B flat, Op.19.
Dmitri Shostakovich
Preludes, Op.34 - No.5 in D; No.10 in C sharp minor; No.24 in D minor.
William Kapell (piano)
NBC Symphony Orchestra
Boston Symphony Orchestra
Vladimir Golschmann, Serge Koussevitzky
Dutton Laboratories CDBP9701

Aram Khachaturian
Concerto-Rhapsody for Cello and Orchestra.
Dmitri Shostakovich
Cello Concerto No.2, Op.126.
Pyotr Ilyich Tchaikovsky
Variations on a Rococo Theme, Op.33.
Mstislav Rostropovich (violoncelo)
BBC Symphony Orchestra
London Symphony Orchestra
Colin Davis, George Hurst
BBC Legends BBCL4073-2

Great Pianists - Moiseiwitsch
Sergei Rachmaninov
Preludes.
Nikolai Medtner
Piano Sonata in G minor.
Dmitri Kabalevsky
Piano Sonata No.3 in F, Op.46.
Aram Khachaturian
Toccata in B flat minor. Gayaneh - Sabre Dance.
Benno Moiseiwitsch, Nikolai Medtner (pianos)
Naxos Historical 8.110675


Internet

Andrei Zhdanov
Wikipedia
/ Spartacus

Aram Khachaturian
Embassy of the Republic of Armenia / Boosey & Hawkes / Aram Khachaturian / Wikipedia

05/03/2006

Obras Orquestrais #7: Suite de Guerra e Paz, de Prokofiev

Andrei Zhdanov (1896-1948) esteve sempre suficientemente perto de José Estaline (1879-1953) para progredir solidamente na hierarquia do Partido Comunista, tendo chegado a governador de Leninegrado. Não é esta faceta, contudo, que aqui mais nos interessa hoje, mas sim a de definidor da política cultural soviética ou, dito de uma forma mais prosaica, a de censor do regime.

Uma das sua vítimas foi o compositor russo Sergei Prokofiev (1891-1953), depois do regresso a casa após uma ausência de 15 anos, entre 1918 e 1933. Ao contrário de Igor Stravinsky (1882-1971) e Sergei Rachmaninov (1873-1943), Prokofiev decidiu-se pelo regresso à União Soviética, convencido de que o reconhecimento internacional como compositor seria garantia de um tratamento de excepção por partes das autoridades. Enganou-se redondamente, tendo sido por várias vezes humilhado e as suas obras alvo do crivo de Zhdanov. E se o fim da 1ª Guerra Mundial o tinha visto desandar para outras paragens, a 2ª Grande Guerra apanhou-o em casa, atado pelas malhas que o regime lhe coseu.

É desta época que data o início do projecto da ópera Guerra e Paz, baseada na obra homónima de Tolstoi (1828-1910). Projecto grandioso, em que o compositor depositava grandes esperanças e procurava seguir os ditames dos governantes: obra para "o povo", destinada a promover a cultura e a história russas, importante nos tempos de guerra que se atravessavam. Enganou-se de novo, tendo a obra sido de imediato rejeitada pelo nosso conhecido censor que, por "não ser suficientemente heróica" não lhe via utilidade. O Congresso dos Compositores de Moscovo, reunido em 1948, resolveu não lhe ficar atrás, e aplicou à ópera o carimbo da praxe, apelidando-a de "formal". O resultado de tudo isto foi que Prokofiev nunca chegou a assistir a nenhuma récita da ópera completa, apesar de nela ter estado envolvido cerca de 12 anos, até poucas semanas antes de falecer.

E é assim que, no dia em que passam 53 anos sobre a morte de Prokofiev, trazemos aqui, não a ópera Guerra e Paz, mas a Suite Sinfónica que dela extraiu o inglês Christopher Palmer (1946-1995), um entusiasta da música deste compositor, tendo inclusivamente colaborado na edição do livro Sergei Prokofiev: Soviet Diary 1927 and Other Writings.


CD



Sergei Prokofiev
War and Peace: Symphonic Suite (arr. C. Palmer).
Summer Night: Suite from "The Duenna", Op.123.
Russian Overture, Op.72.
Philharmonia Orchestra
Neeme Järvi
Chandos CHAN 9096
(1991)


Internet

Sergei Prokofiev
The Prokofiev Page
/ Classical Music Pages / The Sergei Prokofiev Website

Andrei Zhdanov
Spartacus.schoolnet.co.uk
/ Wikipedia

Christopher Palmer
In Memoriam