14/02/2005

Compositores #22: Haas, Klein, Krása, Schulhoff, Ullmann

Apesar da tragédia que se abateu sobre eles, os compositores checos vítimas do regime nazi não deixaram de compôr durante o internamento nos campos de concentração. As condições em que sobreviviam terão contribuido para que eles tivessem lá escrito algumas das suas obras mais significativas, a avaliar por aquilo que chegou aos nossos dias.

Pavel Haas (1899-1944) passou cerca de 3 anos detido em Terezin. Compôs os Estudos para Orquestra de Cordas em 1943 e as Quatro Canções para Poemas Chineses em 1944, ano da sua morte em Auschwitz.

Gideon Klein (1919-1945) compôs uma boa parte das suas obras após 1941, ano em que foi levado para o campo de Terezin: Quarteto de Cordas, Op.2 (1941); Duo para Violino e Violoncelo (1941); Fantasia e Fuga para Quarteto de Cordas (1942-3), Trio para Violino, Viola e Violoncelo (1944), entre outras.

Hans Krása (1899-1944) ensaiava a ópera para crianças Brundibar à altura da sua detenção, em 1941. A transposição para piano teve direito a mais de 50 interpretações em Terezin, o que de lhe deu ânimo para continuar a compôr: Trios; Abertura para Passacaglia e Fuga; Três Canções para Soprano, Clarinete, Viola e Violoncelo.

Erwin Schulhoff (1894-1942) foi inicialmente feito prisioneiro em Praga e posteriormente transferido para o campo de Wulzburg, onde morreria um ano depois. Compunha na altura a sua 7ª Sinfonia, de que só deixou esboços.

Viktor Ullmann (1898-1944) foi transportado para o campo de Terezin em Setembro de 1942, onde manteve intensa actividade artística, juntamente com Hans Krása e Gideon Klein, até à sua deportação para Auschwitz.


CDs



Krása
3 Songs. 5 Lieder, Op.4.
Haas
4 Songs on Chinese Poetry. Vyvolená, Op.8. 7 Folksongs on Texts by Celakovský, Op.18.
Schulhoff
Die Wolkenpumpe, Op.40.
P. Matuszek, R. Novotný, L. Peterková, J. Kubita, O. Roskovec, P. Duda, S. Zaal,
P. Holub, M. Kejmar Jr., H. Soukupová, L. Kanka, V. Koci, P. Jiríkovský, A. Kanka
Supraphon SU3334-2

Klein
Trio for Violin, Viola e Violoncelo. Duo. Kaddish.
Krása
Tanec. Passacaglia and Fugue.
Schulhoff
Duo for Violin and Cello. Sonata for Solo Violin.
Daniel Hope (violino), Philip Dukes (viola), Paul Watkins (violoncelo)
Nimbus NI5702

Schulhoff
Hot Music. 5 Jazz Etudes. Suite dansante en jazz. Sonata for Piano No.1, WV69.
Kathryn Stott, piano
BIS BIS-CD1249

Ullmann
Der Sturz des Antichrist.
U. Neuweiler, R. Decker, L. Gentile, L. Partanen, W. Oberholtzer, M. Jaffe
Bielefeld Opera Chorus
Bielefeld Philharmonic Orchestra
Rainer Koch
CPO CPO999 321-2

13/02/2005

Revolução liberal - 5

Todo o processo que levou à instauração do regime liberal foi conduzido, de certo modo, à revelia do rei D. João VI. A revolução começou sem o seu conhecimento, a Constituição confirmava o estatuto superior de que as cortes gozavam e estas, cientes do poder que detinham, condicionavam as actividades do rei. Daí não ser de estranhar o facto da rainha Carlota Joaquina se ter recusado a jurar a referida Constituição.

A iniciativa de procurar mudar este estado de coisas partiu da própria família real. Não de D. João VI, mas de seu filho D. Miguel, que com ele tinha regressado do Brasil, em 1821. No dia 27 de Maio de 1823 publicou, a partir de Vila Franca, para onde se havia dirigido com algumas tropas sob o seu comando, um manifesto onde expressava o desagrado pela situação do país, em geral, e pelo papel de mero figurante que tinha sido reservado ao rei, em particular.

D. Carlota Joaquina
D. Miguel I

D. Carlota Joaquina, por seu lado, também não tinha estado inactiva. Mesmo deportada para o palácio de Ramalhão, por andar entretida a conspirar para derrubar o rei, urdiu com D. Miguel o golpe de Maio de 1823, que veio a ficar conhecido por Vilafrancada.

O rei, após um período de hesitação, a que nos tempos que correm chamamos de tabu, lá acabou por se juntar à festa familiar e publicar o seu próprio manifesto. O resultado de tudo isto é o que se sabe: suspendeu-se a Constituição, as todas poderosas cortes foram dissolvidas e o governo impiedosamente demitido! Cento e oitenta e dois anos depois estivemos em vias de assistir a uma réplica histórica, mas alguém se esqueceu de colocar a Constituição em banho-maria...


continua

12/02/2005

CDs #22: Bohuslav Martinu (1890-1959), Sinfonias Nº3 & Nº4

No programa do primeiro concerto a que assisti este ano esteve a Sinfonia Nº6 do compositor checo Bohuslav Martinu, evento esse que referi aqui. Em disco tenho estado a ouvir as Sinfonias Nº3 e Nº4, numa interpretação 100% checa: compositor, orquestra, maestro e editora!

A Sinfonia Nº3, única das compostas por Martinu que não foi feita sob encomenda, foi escrita em plena 2ª guerra mundial, no ano de 1944. Estruturada em 3 andamentos, foi dedicada ao maestro Serge Koussevitzky (1874-1951), como reconhecimento pelo papel que este desempenhou na divulgação da música de Martinu nos Estados Unidos. A estreia teve lugar no dia 12 de Outubro de 1945.

A Sinfonia Nº4, já com os habituais 4 movimentos, foi composta entre Abril e Junho de 1945, sendo que o 4º andamento foi escrito na casa de campo que a família tinha no Massachusetts, e que lhes havia sido sugerida por Nadia Boulanger, de quem já falei aqui
. Teve a sua estreia a 30 de Novembro de 1945.



Sinfonia Nº3, H.299. Sinfonia Nº4, H.305.
Czech Philharmonic Orchestra
Jirí Belohlávek
Supraphon SU3631-2

11/02/2005

Concertos #8

O programa nocturno para amanhã ser-nos-á gentilmente fornecido pela Orquestra Nacional do Porto:



- Sinfonia Nº31, Paris, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
- Concerto para Clarinete, de Carl Maria von Weber (1786-1826)
- Concerto para Clarinete, de Anders Hillborg (1954-)
- Sinfonia Nº1, de Carl Nielsen (1865-1931)



O solista será o clarinetista Martin Fröst, a orquestra dirigida por Daniel Raiskin. Além de no programa aparecerem obras de 2 compositores nórdicos, algo não muito comum, há uma outra curiosidade: o Concerto para Clarinete de Anders Hillborg, composto em 1998, foi dedicado precisamente a Martin Fröst. Desconheço o músico, a obra e o compositor, pelo que curiosidade é coisa que não me falta! Foi essa mesma curiosidade que me levou ao site de Martin Fröst, e devo reconhecer que não fiquei especialmente impressionado com as fotografias tipo pop-star do artista...

Actualização

Po razões técnicas o concerto foi cancelado. Foi-se a música, ficou a prosa!

10/02/2005

Compositores #21: Frank Bridge (1879-1941)

A vida do compositor inglês Frank Bridge não foi assim tão fácil, apesar da felicidade de ter tido na patrona das artes Elizabeth Sprague Coolidge (1864-1953) alguém que o admirou e apoiou imenso. Em vida, a sua música nunca chegou a grandes audiências, embora tenha começado de forma auspiciosa com a suite orquestral The Sea, composta em 1911. Faleceu no dia 10 de Janeiro de 1941, passam hoje 64 anos.


Frank Bridge

Esse primeiro sucesso viria mesmo a marcá-lo definitivamente. O seu estilo evoluiu significativamente após a guerra, a música tornou-se mais ousada, utilizando o contraponto de uma forma vigorosa, mas o público teimava em associá-lo às primeiras composições, não dando demasiada importância ao novo Bridge.

O reconhecimento de Frank Bridge acabou por vir menos da sua faceta de compositor e mais pela de violista (tocou em vários quartetos de cordas no início da sua carreira) e de professor de música, em particular por ter tido como aluno Benjamin Britten (1913-1976).


CDs




The Sea, H100. Enter Spring, H174.
Richard Adeney (flauta), Peter Graeme (oboé)
East Anglian Choirs
New Philharmonia Orchestra
Benjamin Britten
BBC Legends BBCL8007-2

Moto perpetuo, H4. Berceuse, H8. Serenade, H23. Elegy, H47. Souvenir, H48.
Jean Rugby (meio-soprano), Louise Williams (viola), David Owen Norris (piano)
ASV CDDCA1064

Phantasy Trio, H79. Piano Trio No.2, H178. Miniatures - H88: Romance; Intermezzo.
Bernard Roberts Trio
Black Box BBM1028

Cello Sonata. Meditation. Spring Song. Serenade. Berceuse. Scherzo. Elégie.
Oyster Birkeland (violoncelo), Venjorn Anvik (piano)
Simax PSC1160

String Quartets - No.1, H70; No.2, H175.
Maggini Quartet
Naxos 8.557133

String Quartet No.4, H188.
Bochmann Quartet
Redcliffe Recordings RR020

String Quintet, H7. String Sextet, H107. Lament.
Raphael Ensemble
Hyperion CDA67426

Orchestral Works, volume 2.
Norse Legend, H60. Dance Rhapsody, H84. The Sea, H100. Dance Poem, H111.
BBC National Orchestra of Wales
Richard Hickox
Chandos CHAN10012

Orchestral Works, volume 5.
The Hag. Four Pieces - Valse Intermezzo, H17. Two Songs of Robert Bridges.
Roderick Williams (barítono)
BBC National Orchestra of Wales
Richard Hickox
Chandos CHAN10246


Internet

http://www.classical.net/music/comp.lst/acc/bridge.html
http://www.netreach.net/~druid/FrankBridge.html
http://www.impulse-music.co.uk/frankbridge.htm

09/02/2005

Compositores #20: Haas, Klein, Krása, Schulhoff, Ullmann

O regime nazi, na sua fúria persecutória, eliminou vários compositores de diversos países. Neste aspecto a Checoslováquia foi particularmente atingida. Sem constituir uma lista exaustiva, este texto é uma homenagem aos compositores checos vítimas da barbárie:

Pavel Haas



Nascido em Brno em 1889, a sua música chegou a ser utilizada pela propaganda nazi, num filme onde se via o próprio compositor a dirigir a orquestra, e onde se procuravam evidenciar as boas condições de vida propiciadas aos judeus. Morreu em Auschwitz, em Outubro de 1944.


Gideon Klein



Nascido em 1919, Gideon Klein estudou no Conservatório de Praga, cidade onde rapidamente sobressaiu no meio musical, dado o seu talento e os inúmeros concertos de piano que deu. Preso pelos nazis em 1941 chegou a estar em Auschwitz, de onde foi deportado para o campo de Furstengrube para trabalhar nas minas de carvão. Lá morreu, em Janeiro de 1945.


Hans Krása

Nascido em Praga em 1899, lá fez os seus estudos musicais, chegando a ter como professor Alexander Zemlinsky (já anteriormente referido aqui
). Chegou a passar por Paris e Berlim mas regressou sempre à sua cidade natal, até que em 1941 foi preso pelos nazis. Na altura ensaiava a ópera para crianças Brundibar, que acabou por ser interpretada mais de 50 vezes em Theresienstadt, para onde tinha sido deportado. Na noite de 16 de Outubro de 1944 foi enfiado num vagão de um comboio. Morreu em Auschwitz nesse mesmo mês.


Erwin Schulhoff



Tal como Krása nasceu em Praga, em 1894, e lá estudou no Conservatório. Por alturas da 1ª guerra mundial era já um compositor e pianista bem conhecido. Como pianista era especialmente apreciado na Alemanha, mas a partir de 1933 viu-se impedido de lá tocar. Preso em 1941, faleceu em Agosto de 1942 no campo de Wülzburg.


Viktor Ullmann



Nascido em 1898, Ullmann seguiu os estudos, incluindo os musicais, em Viena, onde foi aluno de Schoenberg (1874-1951). Depois de passagens pela Suiça e pela Alemanha mudou-se para Praga, corria o ano de 1933. Preso em Setembro de 1942, foi deportado para o campo de Terezin, onde encontrou os seus compatriotas Hans Krása e Gideon Klein. Em Outubro de 1944 foi levado para Auschwitz, onde foi assassinado pelos nazis.

08/02/2005

DVDs - 6: Gustav Mahler (1860-1911), Sinfonia Nº5

Recentemente tive a oportunidade de assistir a um concerto em que a Orquestra Nacional do Porto interpretou a Sinfonia Nº4 de Mahler, conforme na altura referi aqui.

Quando se trata de sinfonias há dois compositores que eu aprecio particularmente: Bruckner e Mahler. Não será então de estranhar que a infusão mahleriana me tenha feito regressar a um DVD magnífico, em que a
Orquestra Filarmónica de Berlim e o maestro Simon Rattle interpretam a Sinfonia Nº5 de Mahler.

O DVD inclui ainda Asyla, uma peça orquestral do compositor londrino Thomas Adès (1971-), anteriormente estreada por Simon Rattle, em 1997, quando ainda era o maestro principal da
Orquestra Sinfónica da Cidade de Birmingham.



Gustav Mahler
Symphony No.5.
Thomas Adès
Asyla.
Berlin Philharmonic Orchestra
Simon Rattle
EMI 4 90325-9

07/02/2005

Revolução liberal - 4

Naturalmente que, em conjunto com a da elaboração da constituição, outras decisões foram tomadas por corresponderem às ambições dos propulsores do movimento de 24 de Agosto de 1820, merecendo especial referência a (inevitável...) demissão dos oficiais ingleses e a extinção da Inquisição.

Nem tudo correria, todavia, de acordo com os desejos das Cortes de 1821, em especial naquilo que dizia respeito ao Brasil, onde elas pretendiam ter um papel mais interventivo. A coisa correu mesmo mal, a tal ponto que D. Pedro, filho do rei D. João VI e por este nomeado regente do Brasil, recusou-se num primeiro momento a regressar a Lisboa por ordens da Corte e, posteriormente, a declarar a independência daquele país.

Manuel Fernandes Tomás
D. Pedro IV

Perdido o Brasil, havia que salvaguardar a situação no rectângulo continental, consolidando o recém-instalado regime liberal. Tal não se viria a revelar tarefa fácil, dada a magnitude da oposição, em crescendo contínuo.

Os regimes absolutistas europeus também não auguravam nada de positivo para o futuro do nossos liberais. Já tinham, aliás, tratado da saúde ao regime liberal espanhol, executando os seus principais responsáveis e instalando Fernando VII no poder.


continua

06/02/2005

Lugares - 53

Ex-libris da cidade do Porto, a Torre dos Clérigos eleva orgulhosamente a arte barroca a 76 metros de altura. Concebida pelo italiano Nicolau Nasoni (1691-1773), a sua construção estendeu-se entre 1754 e 1763. Rezam os documentos que para atingir os varandins do último andar é necessário galgar 225 degraus. Estarão certamente correctos, eu é que ainda não arranjei forma de chegar a tal número... e já contei várias vezes!



Reclamando-se como a torre mais alta de Portugal, é obviamente um local privilegiado sobre as cidades que aconchegam o Douro nos seus metros finais. Foi o meu feito do ano! Mas com as vertigens a aumentar exponencialmente com a idade (e com a altura, naturalmente...), terá sido porventura um sósia meu a debruçar-se e a disparar a máquina...





Internet

http://www.portoturismo.pt/visitar_porto/que_visitar/igreja_torre_clerigos.asp
http://www.euromint.net/portugues/turismopo.asp?tema=96&pag=1&lang=3&casa=2
http://www.vidaslusofonas.pt/nicolau_nasoni.htm

05/02/2005

Neste dia, em

1753: Estreou a ópera Solimano, de Johann Adolf Hasse
1866: Estreou a opereta Barbe-Bleue, de Jacques Offenbach
1868: Nasceu Lodewijk Mortelmans, compositor belga
1887: Estreou a ópera Otello, de Giuseppe Verdi
1909: Nasceu Grazyna Bacewicz, compositora e violinista polaca
1958: Estreou a Sinfonia Nº2, de Michael Tippett
1962: Morreu Jacques Ibert, compositor francês