O 34º aniversário do nascimento do pianista russo Evgeny Kissin é um pretexto válido como outro qualquer para sobre ele alinhavar umas palavras.

Evgeny Kissin
O termo precocidade assenta-lhe que nem uma luva, se nos lembrarmos que Kissin começou a tocar piano aos 2 anos e 2 meses, segundo diz o próprio, altura em que finalmente conseguiu chegar ao teclado...
Depois de ter passado pela Escola de Música Gnessin, de Moscovo, para onde entrou aos 6 anos, e onde começou a ter aulas com Anna Pavlovna, que ainda hoje o acompanha, ganhou reconhecimento internacional com apenas 13 anos, ao interpretar os Concertos para Piano de Chopin, com a Orquestra Filarmónica de Moscovo dirigida por Dmitri Kitaenko. A estreia na Europa Ocidental aconteceu em 1987 e nos Estados Unidos em 1990. Em 1997 foi o primeiro pianista a dar um recital de piano a solo nos conhecidíssimos Concertos Promenade. Tem uma memória de elefante, é sabido que parte para as turnés sem levar consigo qualquer partitura, está tudo na cabecinha...
É hoje em dia um dos músicos mais idolatrados do planeta, comparado frequentemente com outros monstros do piano, como Vladimir Horowitz, Arturo Benedetti Michelangeli, Maurizio Pollini ou Sviatoslav Richter. Não é, todavia, um dos meus pianistas preferidos, mesmo naqueles compositores onde penso que ele se sai melhor: Brahms, Chopin e Schumann. Talvez seja da minha tendência anti-estrelato, ou, pelo contrário, do estatuto de estrela de Kissin, que o leva por vezes a forçar a nota nalgumas interpretações. Não é o caso, na minha opinião, das abaixo listadas. Boas audições!
CDs

Beethoven
Piano Sonata No.14 in C sharp minor, 'Moonlight', Op.27 No.2.
Brahms
Variations on a Theme by Paganini, Op.37.
Evgeny Kissin (piano)
RCA Victor Living Stereo 09026 68910-2
Brahms
Piano Sonata No.3 in F minor, Op.5. Hungarian Dances Nos.1, 2, 3, 6 & 7.
Evgeny Kissin (piano)
RCA Red Seal 09026 63886-2
Chopin
Fantasie in F minor, Op.49. Polonaise in F minor, Op.44.
Nocturnes - Op.27 Nos.1 & 2; Op.32. Scherzo No.2 in B flat minor, Op.31.
Evgeny Kissin (piano)
RCA Victor Red Seal 09026 60445-2
Schumann
Piano Sonata in F sharp minor, Op.11. Carnaval, Op.9.
Evgeny Kissin (piano)
RCA Red Seal 09026 63885-2
Internet
As raízes de Eça de Queiroz (1845-1900) encontram-se no norte, onde passou os primeiros anos de vida. Nasceu na Póvoa de Varzim, foi baptizado em Vila do Conde e estudou no Colégio da Lapa, no Porto, antes de se mudar para Coimbra, em 1861, para aí estudar Direito.

Eça de Queiroz
A vida levou-o depois para outras paragens, mas o norte continuou nos seus horizontes. Recordamos por exemplo, a Casa da Torre da Lagariça, em Resende, inspiração para A Ilustre Casa de Ramires, romance escrito por Eça em 1894 e apenas publicado postumamente.
Foi também no norte que Eça de Queiroz se casou no dia 10 de Fevereiro de 1886 com Emília de Castro Pamplona, filha dos condes de Resende. A cerimónia teve lugar no Solar de Santo Ovídio, no Porto, propriedade dos condes, localizado onde hoje fica a Praça da República. Em 1895 a quinta, solar incluído, foi totalmente destruída para que se abrisse a Rua Álvares Cabral, essencial para facilitar o acesso ao centro da cidade e os consequentes entupimentos de trânsito...


Nessa altura os condes de Resende mudaram-se definitivamente para Canelas, Vila Nova de Gaia, onde possuíam uma casa da época medieval, construída no século XVI. Foi, aliás, nesse solar que Eça conheceu aquela que viria a ser sua esposa. Numa carta que escreveu em 1885 a Manuel de Castro, 5º conde de Resende e irmão de Emília de Castro Pamplona, Eça afirmou mesmo que "A minha afeição por tua irmã não foi improvisada o ano passado, na Granja na Casa Nova. Data de uma ocasião mais antiga de quando eu te fui ver a Canelas".

Em 1984 a Câmara Municipal de Gaia adquiriu o solar, onde funciona, desde 1987, a Casa Municipal de Cultura.
Internet
http://www.feq.pt/
http://www.vngaia.online.pt/cultura/cultura.html
http://solarcondesderesende.planetaclix.pt/
A inglesa Kathleen Ferrier estava destinada a ser pianista, instrumento que desde muito cedo a sua mãe a convenceu a estudar. Não se deu mal de todo, verdade seja dita, pois, apesar de ter como profissão... telefonista, terminou o curso de piano, habilitação suficiente para mudar de carreira. Vocação confirmada posteriormente no Festival Carlisle de 1937, onde foi inicialmente admitida como pianista e mais tarde, desafiada pelo marido, entrou igualmente para a competição de canto. Ferrier venceu ambas as competições e o marido perdeu a aposta. Perdeu também o casamento, diga-se de passagem, que, rezam as crónicas, foi um perfeito desastre, salvando-se apenas o feliz episódio ora relatado.

Kathleen Ferrier
O que se passou a seguir está directamente relacionado com duas pessoas de quem por aqui já se falou anteriormente. A primeira, o maestro Malcolm Sargent que, em 1937, convenceu Ferrier a ter lições de canto e, por consequência, a deixar as teclas para outros. A segunda, Myra Hess, em cujos concertos por ela organizados à hora de almoço na National Gallery durante os anos da guerra, Ferrier deu o seu primeiro recital em Londres, em 1942.
Ao longo da sua carreira apenas interpretaria dois papéis operáticos: o de Lucretia, na ópera The Rape of Lucretia, de Benjamin Britten (1913-1976), um papel destinado a, e feito à medida de, Ferrier, e o de Orfeo, na ópera Orfeo ed Euridice, de Christoph Gluck (1714-1787). Ferrier teve apenas a oportunidade de interpretar Orfeo duas vezes, em 1953, por ter falecido no dia 8 de Outubro desse ano, vítima de cancro.
Foi extraordinária nos oratórios e nas canções (lieder), mas o seu nome terá sempre uma ligação especial a Mahler e, em particular, a Das Lied von der Erde. O convite para cantar A Canção da Terra partiu do maestro Bruno Walter, o mesmo que, em 1911, estreou a obra, na cidade de Munique.
CDs

Bruno WalterLudwig van BeethovenSymphony No.6 in F, "Pastoral", Op.68.Johannes Brahms
Symphony No.2, Op.73.Joseph HaydnSymphony No.92.Wolfgang Amadeus MozartLe nozze di Figaro: Overture.Richard WagnerDie Meistersinger von Nürnberg: Prelude to Act I.Gustav MahlerKindertotenlieder: "Nun will die Sonn' so hell aufgeh'n".
Symphony No.5: Adagietto.Johann Strauss (1825-1899)Die Fledermaus: Overture.Kathleen Ferrier, Lotte Lehmann, Ella Flesch,
Lauritz Melchior, Alfred Jerger, Emanuel List
Wiener Philharmoniker
New York Philharmonic
Brittish Symphony Orchestra
Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire
Bruno Walter
EMI The Great Conductors 5 75133-2
John BarbirolliAlan RawsthorneStreet Corner Overture.Ralph Vaughan WilliamsSymphony No.8 in D minor.Arnold BaxOboe Quintet (arr. Barbirolli).Frederick DeliusOn Hearing the First Cuckoo in Spring.Edward ElgarLand of Hope and Glory.Kathleen Ferrier, Evelyn Rothwell
Royal Military School of Music Band, Knellar Hall
Hallé Choir and Orchestra
John Barbirolli
BBC Legends BBCL4100-2
Johannes BrahmsAlto Rhapsody, Op.53.Gustav MahlerDas Lied von der Erde.Kathleen Ferrier, Richard Lewis
Oslo Philharmonic Chorus and Orchestra
Erik Tuxen
Hallé Orchestra
John Barbirolli
APR APR5579
Johann Sebastian BachSt Matthew Passion, BWV244.Irmgard Seefried, Kathleen Ferrier, Walter Ludwig,
Paul Schöffler, Otto Edelmann
Vienna Singverein
Vienna Boy's Choir
Vienna Symphony Orchestra
Herbert von Karajan
Andante AND1170
Internet
http://www.ferrierawards.org.uk/index.asp
http://www.bach-cantatas.com/Bio/Ferrier-Kathleen.htm
http://www.bbc.co.uk/music/profiles/ferrier.shtml
http://www.cantabile-subito.de/Contraltos/Ferrier__Kathleen/hauptteil_ferrier__kathleen.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Kathleen_Ferrier
Entre 1708 e 1717 o compositor alemão Johann Sebastian Bach trabalhou como organista e músico de câmara na corte de Weimar. Foi um período extremamente produtivo, em que Bach não só compôs inúmeras obras como produziu 7 filhos...

Johann Sebastian Bach
Em 1717, Bach mudou-se para a corte de Cöthen, num processo algo conturbado, que lhe valeu mesmo uma estadia grátis de um mês, numa das prisões lá do sítio. Bach permaneceria em Cöthen até 1723, e lá comporia algumas das suas mais importantes obras: os Concertos Brandeburgueses, as Suítes Inglesas e as Suítes Francesas, os primeiros 24 prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado, bem como diversas composições para violoncelo solo e violino solo.

Viktoria Mullova
Para este último instrumento Bach escreveu 3 Sonatas e 3 Partitas, por volta do ano de 1720 (desconhece-se a data exacta da sua composição, admitindo-se mesmo que as tenha começado a escrever ainda durante a sua estadia em Weimar). Na altura Bach apresentava as peças alternando sonatas com partitas, mas no recital de hoje a violinista russa Viktoria Mullova interpretará apenas as partitas. Esta apresentação na Casa da Música acontece no âmbito do Festival À Volta do Barroco, a decorrer entre os dias 6 e 23 de Outubro. E outros grandes nomes por lá passarão, mas isso ficará para outras alturas...

Notas finais
1
Ao contrário do que se afirmava no programa, Viktoria Mullova não interpretou apenas as partitas para violino solo de Bach. Tocou, isso sim, uma sonata (BWV1003) e uma partita (BWV1004).
2
Foi dos momentos musicais mais sublimes a que tive o prazer de assistir. Com a vantagem de ter terminado com a Chaconne da Partita BWV1004...
Internet
http://www.jsbach.org/
http://www.baroquemusic.org/bqxjsbach.html
http://www.let.rug.nl/Linguistics/diversen/bach/weimar2.html
http://www.let.rug.nl/Linguistics/diversen/bach/koethen1.html
http://w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/bachjs.html
http://www.viktoriamullova.com/
http://www.klassikakzente.de/artist_bio.jsp?objectId=12603
No início do século XX o compositor inglês John Foulds (1880-1939) escreveu vários Music-Poems, obras estruturadas em versos. No dia 6 de Outubro de 1910 terminou a Música-Poema Nº5, a que deu o nome de Mirage, e que constituiu a sua obra orquestral mais ambiciosa até essa data.

John Foulds
Todavia, e tal como aconteceu a muitas suas outras obras, Mirage nunca foi tocada em público em vida do compositor. Uma boa parte das obras acabou mesmo por se perder, não sendo de espantar que Foulds seja ainda hoje um compositor praticamente desconhecido. Mas porque a história da música, tal como a das outras artes, se faz também dos menos conhecidos, não hesitamos em publicitar um excelente disco com obras de John Foulds editado recentemente (lançamento de 2004) pela Warner Classics, deixando ainda a garantia do regresso a este compositor logo que a oportunidade surja.

John Foulds
Three Mantras from Avatara, Op.61b.
Lyra Celtica - Concerto for Voice & Orchestra, Op.50.
Apotheosis (Elegy), Op.18.
Mirage, Op.20.
Susan Bickley (meio-soprano), Daniel Hope (violino)
City of Birmingham Symphony Youth Chorus
City of Birmingham Symphony Orchestra
Sakari Oramo
Warner Classics 2564 61525-2
Internet
http://www.bluntinstrument.org.uk/foulds/
http://www.calowclassics.net/foulds.html
Durante mais de 3 séculos os judeus dispuseram de apenas um local em Praga onde sepultar os seus mortos, o Antigo Cemitério Judeu. O resultado disso é ter cerca de 12.000 lápides num pequeno espaço, a mais antiga datando de 1439 (a de Avigdor Karo) e a mais nova de 1787 (a de Moisés Beck), estimando-se, contudo, que cerca de 100.000 judeus ali tenham sido sepultados.

Mordechai Maisel (1528-1601) e o Rabino Löw foram dois dos mais conhecidos judeus ali sepultados. O primeiro, que chegou a ser presidente da Câmara Judaica de Praga, é geralmente descrito como um proeminente filantropo. É absolutamente verdade, já que se deve a Maisel a construção da Câmara Municipal Judia e da Sinagoga Alta, assim como da Sinagoga de Maise, a sua sinagoga privada. O curioso é que uma boa parte dos proventos de Maisel resultavam da sua intensa actividade de... agiota, contando-se mesmo o imperador entre os seus clientes habituais!
O rabino Löw ficará para sempre ligado à criação do lendário Golem, uma figura de barro dotada de poderes fantásticos, que ajudou o rabino nas suas lutas contra os anti-semitas.

Diz a lenda que, com o tempo, o Golem deixou de obedecer às ordens do rabino Löw e, à tarefa de defender os judeus, adicionou umas pequenas variantes, que incluiram aterrorizar e matar, a ponto do rabino se ter visto obrigado a destruí-lo.
Internet
http://www.jewishmuseum.cz/en/acemetery.htm
http://www.porges.net/JewishPrague.html
http://www.scrapbookpages.com/CzechRepublic/Prague/Josefov/Cemetery02.html
http://www.ced.appstate.edu/projects/fifthd/legend.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Golem
Enquanto por cá nos vamos entretendo a esquecer os mortos e a crucificar os vivos, vilipendiando-os de formas inacreditáveis, outros, porventura mais avisados e, certamente, mais ajuízados, recordam e homenageiam os seus maiores, que o futuro existe (apenas?) para quem respeita o seu passado.
Quem, como nós recentemente, tiver a oportunidade de vaguear por Praga, não pode deixar de ficar impressionado com o orgulho com que por lá preservam e exibem a sua história, dando o devido realce aos seus principais intervenientes. O Museu Nacional de Praga, que encima orgulhosamente a Praça Venceslau, é disso um exemplo magnífico. De entre as largas dezenas de estátuas que preenchem vários dos seus espaços, destaco duas, de dois autênticos heróis nacionais checos: as dos compositores Bedrich Smetana (1824-1884) e Antonín Dvorák (1841-1904).


De Dvorák já por aqui falámos mais do que uma vez: a propósito do centenário da sua morte, assinalado no ano passado neste postal e, mais recentemente, para chamar a atenção de um disco contendo o seu Concerto para Violoncelo, com a orquestra dirigida pelo saudoso Carlo Maria Giulini (1914-2005). Houve ainda um outro postal, publicado em finais de Julho, nessa altura para falar do Quarteto de Cordas Nº10. Desta vez o móbil é o aniversário da estreia da Sinfonia Nº1, ocorrida em Brno no dia 4 de Outubro de 1936.

Antonín Dvorák
Ao contrário do que se poderia pensar, a Sinfonia Nº1 de Dvorák foi a última das suas 9 sinfonias a ser estreada! Foi mesmo a única a ser estreada no século XX. E porquê? É que foi com essa obra que Dvorák se apresentou num concurso na Alemanha e, não só foi recusada, como ainda não lhe devolveram sequer a partitura! Esta seria encontrada apenas em 1925, quando se julgava perdida para todo o sempre, até pelo facto do próprio autor ter afirmado que tinha procedido à sua destruição.
Uma última curiosidade: até 1917, quando finalmente Otakar Sourek colocou ordem na casa, reinou a confusão quanto à numeração das sinfonias de Dvorák. A 9ª aparecia como 5ª, por exemplo, e as 4 primeiras nem na lista apareciam. O famoso síndroma da 9ª sinfonia...
CDs

Antonín Dvorák
Symphony No.1 in C minor, B9. Legends, Op.59 Nos.1-5.
Slovak Philharmonic Orchestra
Stephen Gunzenhauser
Naxos 8.550266
Antonín Dvorák
Symphonies - No.1 in C minor, B9; No.2 in B flat, B12; No.3 in E flat, B34.
Staatskapelle Berlin
Otmar Suitner
Berlin Classics 0092 822BC
Internet
http://membres.lycos.fr/magnier/composit/smetana.html
http://members.tripod.com/~Nash_K/main.html
http://www.classicalarchives.com/bios/codm/dvorak.html
http://w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/dvorak.html
http://www.fuguemasters.com/dvorak.html
Carl Nielsen (1865-1931), falecido passam hoje 74 anos, foi um dos maiores, senão mesmo o maior, compositor dinamarquês da sua geração.

Carl Nielsen
As suas composições, nomeadamente as 6 sinfonias que escreveu, apenas começaram a ser conhecidas fora do seu país natal após a 2ª Grande Guerra, apesar da intensa actividade de regência desenvolvida por Nielsen nas principais cidades da Europa, como Berlim, Paris e Londres (na altura ainda não havia a Casa da Música, pelo que o Porto não estava no roteiro clássico...).

Oslo String Quartet
Além das referidas sinfonias, Nielsen compôs ainda (duas) óperas, canções e música de câmara, onde se incluem 5 quartetos de cordas. O aqui hoje trazido, escrito entre 1897 e 1898, foi estreado em Maio de 1899. Pouco tempo depois perdeu-se o manuscrito da obra, o que obrigou à sua reconstrução, feita de memória e a tempo de um concerto que teve lugar em Dezembro de 1900...

Carl Nielsen
String Quartet in E flat major, Op.14.
String Quartet in F major, Op.44.
Oslo String Quartet
Naxos 8.553907
(1997)
Internet
http://members.aol.com/dmlovelock/nielsen_fog.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Nielsen
http://www.denmark.org/mermaid_May97/nielsen.html
D. Maria II não tinha ficado demasiadamente convencida com a história da manifestação-quase-revolução que, em Setembro de 1836, a forçou a repor a Constituição de 1822. Na altura o conde de Linhares foi chamado a exercer a presidência do gabinete, de que faziam ainda parte Passos Manuel, Sá da Bandeira, Vasconcelos Correia e Vieira de Castro.

D. Maria II, Passos Manuel, Sá da Bandeira
As cortes da Europa também não tinham delirado com o evento, que viam como uma séria ameaça à rainha e, por tabela, à estabilidade da monarquia deste pequeno reino. Isto dos membros das realezas terem o hábito de casarem entre si para evitarem derivas na linhagem terá contribuído, quiçá, para o fortalecimento dos laços e da disponibilidade para se entreajudarem. Claro que, com tantos casamentos consanguíneos, alguma coisa algum dia tinha que correr mal, sendo inúmeros os casos de derivas mais ou menos dramáticas (e não estou a falar daquele português de bigode e com muitos nomes...).
E foi assim que, em Novembro de 1836, os ingleses enviaram uma esquadra para proteger D. Maria II, tendo tido o cuidado de avisar das suas intenções Sá da Bandeira, ministro dos Negócios Estrangeiros. Empolgada pelo suporte, a rainha pirou-se do Palácio Real das Necessidades para o Palácio de Belém, e de lá procedeu à demissão do gabinete, para gáudio dos cartistas, que não viam a hora de se livrarem de tal governo e da malfadada Constituição!
Passos Manuel é que não quis ficar como mero figurante vítima deste golpe de Estado, e tratou de sondar a Guarda Nacional. O resultado é aquele que se conhece: a Guarda Nacional nomeou uma junta para desfazer o golpe, junta essa que Sá da Bandeira aceitou comandar, formaram-se forças populares e dirigiram-se todos para Belém. Com os ingleses nada se passou, que de diplomacia Sá da Bandeira sabia, pelo que a rainha acabou recambiada para as Necessidades, com direito a Guarda (Nacional) de Honra no trajecto, e os demitidos do dia 4 foram readmitidos no dia 5 e com poderes reforçados, cabendo então a presidência a Sá da Bandeira.
Internet
http://www.arqnet.pt/dicionario/passosms.html
http://www.arqnet.pt/dicionario/sabandeira1m.html
http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/maria2.html
http://www.centroatl.pt/top100eca/glosa2.html
O escritor francês Alphonse Daudet (1840-1897) escreveu poemas, peças de teatro, romances (seguindo a escola naturalista), colaborou em diversos jornais. L'Arlésienne, uma das peças que escreveu, teve a sua estreia teatral em 1872, com pouco sucesso junto do público.

Alphonse Daudet
Já para Georges Bizet (1838-1875), as coisas não foram bem assim, já que a música que compôs para essa peça teve uma boa aceitação geral, representando, aliás, um dos primeiros sucessos do compositor (conforme já referido neste texto de 3 de Junho). A estreia da música incidental de Bizet para a peça l'Arlésienne aconteceu no dia 1 de Outubro de 1872, há 133 anos.

Georges Bizet
Refira-se, já agora, que a peça de Daudet deu ainda origem a uma ópera de Francesco Cilea (1866-1950), L'Arlesiana, que teve a sua estreia em Milão no dia 27 de Novembro de 1897.

Georges Bizet
L'Arlésienne (Incidental Music, original version).
Richard Strauss
Le Bourgeois Gentilhomme, Op.60.
Kammerorchester Basel
Christopher Hogwood
Arte Nova Classics 82876 61103-2
Internet
http://www.kirjasto.sci.fi/daudet.htm
http://www.alalettre.com/daudet-intro.htm