Não será grande exagero afirmar que Franz Liszt (1811-1886) criou a moderna técnica do piano. Há muitos anos, aliás, um insuspeito Camille Saint-Saëns (1835-1921) chegou mesmo a dizer:
"A l'encontre de Beethoven méprisant les fatalités de la physiologie et imposant aux doigts contrariés et surmenés sa volonté tyrannique, Liszt les prend et les exerce dans leur nature, de manière à obtenir, sans les violenter, le maximum d'effet qu'ils sont susceptibles de produire".
Curiosa, esta comparação efectuada por Saint-Saëns, se nos lembrarmos que foi Liszt quem andou por meio mundo a exibir os dotes de virtuoso do piano para arranjar dinheiro para erguer um monumento a Beethoven em Bona...
A música de Liszt influenciou compositores como Bartók, Busoni, Debussy, Schoenberg e Wagner, para referir apenas alguns (dos mais relevantes). Naturalmente que as peças para piano, largamente maioritárias na sua obra, têm um destaque particular. E um fraquinho particular tenho eu pela Sonata em si menor, já anteriormente referida por estas bandas a propósito de um outro disco. Extraordinário é o facto desta obra fundamental do repertório pianístico, terminada em Fevereiro de 1853, tenho sido estreada apenas em Julho... de 1857, por Hans von Bülow (1830-1894). O mesmo que estreou o Concerto para Piano Nº2 de Tchaikovsky (1840-1893) e que, já morto, inspirou Gustav Mahler (1860-1911) a terminar a Sinfonia Nº2...
Em 1980 o pianista chileno Claudio Arrau (1903-1991), nascido passam hoje 103 anos, recebeu a medalha Hans von Bülow, atribuída pela Orquestra Filarmónica de Berlim. Virtuoso do piano, especialmente brilhante em Beethoven, salientou-se igualmente no repertório romântico e, em particular, na música de Liszt. Que enche por completo o (extraordinário) disco aqui hoje trazido, gravado entre 1969 e 1970, e reeditado pela Philips em 2001 inserido na colecção 50 Great Recordings. Grandes gravações, grandes audições!!!

Franz Liszt
Sonata in B minor. Bénédiction de Dieu dans la solitude.
Zwei Konzertetüden. Vallée d'Obermann (from Années de pèlerinage).
Claudio Arrau (piano)
Philips 464 713-2
Internet
Franz Liszt: The Franz Liszt Site / Classical Music Pages / Franz Joseph Liszt
Claudio Arrau: Princeton.edu / Site officiel / Grandes Biografías de la Historia de Chile
Entre o Outono de 1774 e o início de 1775, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) escreveu uma série de 6 sonatas para piano, com os números Köchel K279 a K284, escritas quando o compositor se encontrava em Salzburgo e, posteriormente, em Munique. Em Setembro de 1777, Mozart meteu-se à estrada a caminho de Paris. Pelo caminho teve várias paragens, as mais significativas em Augsburgo, curta, e em Mannheim, mais prolongada. Nesta viagem até à capital francesa, onde chegou nos finais de Março de 1778, Mozart compôs uma nova série de 3 sonatas, de K309 a K311. Será com esta última, composta em Mannheim em Novembro de 1777, que abrirá o recital desta tarde do pianista americano, polaco de nascimento, Emanuel Ax (1949-), na Casa da Música.
A completar o programa teremos a Sonata Op.2 Nº2 de Ludwig van Beethoven (1770-1827) e as Quatro Baladas de Frédéric Chopin (1810-1849), o que nos possibilitará uma viagem que começa no período clássico, não esquece o compositor que esteve na transição para o romântico, e termina com um dos expoentes do romântico.
Quando, em Julho do ano passado, aqui falámos do violinista Isaac Stern (1920-2001), referimos os dois trios que formou, sendo que do segundo faziam parte, além do próprio Isaac Stern, o violoncelista Yo-Yo Ma (1955-) e o nosso convidado de hoje, Emanuel Ax. E se a Stern se deve a não demolição do Carnegie Hall, também Emanuel Ax por lá tem tocado com grande frequência. Fê-lo, por exemplo, em 2004 com a Dresden Staatskapelle dirigida por Myung-Whun Chung e com um conjunto de concertos dedicados à música de Claude Debussy (1862-1918), e no ano passado com uma série de recitais. Como as probabilidades de assistirmos a um recital de Emanuel Ax no Carnegie Hall são ínfimas, só nos resta esperar que o homem cá venha... Para os eventuais interessados, informamos que Emanuel Ax regressará ao Carnegie Hall nos próximos dias 6 e 7 de Abril.
Programa
Wolfgang Amadeus Mozart
Sonata em ré maior, K311.
Ludwig van Beethoven
Sonata Op.2 Nº2 em lá maior.
Frédéric Chopin
Quatro Baladas.
Emanuel Ax (piano)
Internet
Emanuel Ax
EmanuelAx.com / Calouste Gulbenkian Foundation / Wikipedia
À semelhança do que acontece com o relógio astronómico da Praça da Cidade Velha, em Praga, de que aqui certamente falarei um dia, a maior atracção da praça mais emblemática de Munique, a Marienplatz, é um relógio, habitante da Neues Rathaus, ou Nova Câmara Municipal.
No mês passado, tendo ido a Munique, uma cidade para mim totalmente desconhecida, não perdi a oportunidade de por lá vaguear um pouco e, devidamente aconselhado, iniciei a passeata pela referida praça.
Desconheço se, à altura da sua inauguração, em 1909, ao relógio eram impostos os mesmos horários rigorosos de hoje, em que as 32 estatuetas de cobre que possui apenas dançam às 11 horas da manhã, a que, entre Maio e Outubro, se adicionam mais dois bailaricos, um ao meio-dia e o outro às 5 da tarde. Atendendo ao facto de apenas ter passado uma fria tarde de Janeiro em Munique...
Resta acrescentar, para as mentes mais curiosas, que os bonecos bailarinos dividem-se por dois andares, assinalando dois acontecimentos distintos: os do 1º andar representam o torneio levado a efeito aquando do casamento de Guilherme V, Duque da Bavária (1548-1626); os do rés-do-chão celebram efusivamente o fim da peste, que dizimou a cidade entre 1515 e 1517.
Internet
Munich / City Panoramas / Places of general interest
Para os seus bailados, o russo Sergei Diaghilev (1872-1929) encomendou obras a diversos compositores, nomeadamente a Maurice Ravel (1875-1937) e a Igor Stravinsky (1882-1971). A colaboração com este último passou mesmo por ser a mais celebrada, pelo conjunto notável de obras a que deu origem.
Colaboração essa que começou desde muito cedo, pouco tempo após Diaghilev ter assistido às estreias do Scherzo fantastique e do Feu d'artifice, no Inverno de 1908, e que seria apenas interrompida em 1929, com a morte do empresário. Das primeiras encomendas de Diaghilev nasceram três obras fundamentais do repertório do século XX: O Pássaro de Fogo (1910), Petrushka (1911) e a Sagração da Primavera (1913).
Em 1914, Stravinsky terminou a sua primeira ópera, O Rouxinol, estreada em Paris a 26 de Maio desse ano. Stravinsky tinha começado a trabalhar nela em 1908, mas as sucessivas encomendas de Diaghilev levaram ao abandono do projecto. Apenas retomado em 1913, por encomenda do Teatro Livre de Moscovo que, todavia, quando a obra ficou pronta, em Março de 1914, já tinha fechado as portas...
Mais tarde, Stravinsky aproveitou partes dos 2º e 3º actos e criou um poema sinfónico, estreado no dia 6 de Dezembro de 1919 em Genebra, com o maestro Ernest Ansermet (1883-1969) à frente da orquestra. A história não acabaria aqui, pois não havia muita coisa que o nosso amigo Diaghilev pudesse fazer com um poema sinfónico... pelo que ninguém se admirará do facto de Stravinsky ter ainda criado uma versão para bailado, estreada há exactamente 86 anos na Ópera de Paris. A dirigir a orquestra? Ernest Ansermet...
CDs

Igor Stravinsky
Petrushka. Le chant du rossignol. Fireworks, Op.4.
Vienna Philharmonic Orchestra
Lorin Maazel
RCA Red Seal 74321 57127-2
Igor Stravinsky
Scherzo fantastique, Op.3. L'histoire du soldat - Suite. King of the Stars.
Le chant du rossignol.
Cleveland Chorus & Orchestra
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 471 197-2
Internet
Igor Stravinsky
Biografia & Obras / Classical Music Pages / bbc.co.uk / Le Rossignol
As sonatas para piano tiveram um papel importante na música de Franz Schubert (1797-1828), algo não tão comum como isso entre os compositores do período romântico. Os compositores românticos em geral, e os que eram simultaneamente pianistas em particular, preferiam as peças líricas, de pequenas dimensões, às sonatas, obras normalmente mais vastas, compostas por vários andamentos. E assim, depois da morte de Schubert, a sonata não mais voltou a ter a mesma predominância, e compositores como Brahms (1833-1897), Chopin (1810-1849), Liszt (1811-1886), Mendelssohn (1809-1847) e Schumann (1810-1856) poucas vezes se dedicaram a esse género.
Schubert compôs 23 sonatas para piano, mas apenas deixou 12 completamente acabadas, o que leva, por vezes, a alguma confusão na sua numeração. As primeiras 15 são do seu período da juventude, escritas entre 1815 e 1819. A 16ª, dedicada a Mendelssohn, aparece como uma obra isolada. Seguiu-se-lhe um conjunto de 7 grandiosas sonatas, formado por 2 ciclos de 3 sonatas, um de 1825 e o outro de 1828, separados pela Sonata D894, de 1826, que Schubert considerava "a mais perfeita de todas quanto ao espírito e à forma".
Schubert nasceu há 209 anos, no dia 31 de Janeiro de 1797.
CDs



Franz Schubert
The Piano Sonatas.
Wilhelm Kempff (piano)
Deutsche Grammophon 463 766-2
(7 CDs)
Franz Schubert
Piano Sonata in B flat, D960.
Stephen Kovacevich (piano)
EMI 5 55359-2
Franz Schubert
Piano Sonatas in B, D575; in F minor, D625 & in A, D664.
Sviatoslav Richter (piano)
BBC Legends BBCL4010-2
Franz Schubert
Piano Sonatas in A minor, D845 & in B, D575.
Mitsuko Uchida (piano)
Philips 462 596-2
Franz Schubert
Piano Sonatas in D major, D850 & in A minor, D784.
Mitsuko Uchida (piano)
Philips 464 480-2
Franz Schubert
Piano Sonatas in A minor, D537 & in A, D664.
Mitsuko Uchida (piano)
Philips 470 265-2
Franz Schubert
Piano Sonatas in B, D575; in G, D894; in A, D959 & in B flat, D960.
Alfred Brendel (piano)
Philips 456 573-2
Franz Schubert
Piano Sonatas in E, D157; in G, D894.
Arcadi Volodos (piano)
Sony Classical SK89647
Franz Schubert
Piano Sonatas in A major, D664 & in A minor, D784.
Maria João Pires, Ricardo Castro (pianos)
Deutsche Grammophon 477 5233
Internet
Classical Music Pages / Wikipedia / Master of Song
O nome Cyril Scott não dirá grande coisa a muita gente. Não o diz no seu país natal, a Inglaterra, não será de estranhar então que não seja demasiadamente popular em Portugal... Mas na viragem do século, Cyril Scott (1879-1970) obteve assinalável notoriedade como pianista e compositor. Foi ainda escritor e um destacado ocultista, facetas a que talvez um dia regressemos.

As suas composições denotam clara influência do impressionismo, o que lhe valeu mesmo o apelido de "Debussy inglês". A sua obra mais representativa é o Concerto para Piano, escrito em 1915. Também se dedicou a outros géneros musicais, como a música de câmara, a que pertencem as obras constantes do disco que hoje aqui se traz, os Quartetos de Cordas Nº1 (estreado há 87 anos, no dia 30 da Janeiro de 1919), Nº2 e Nº4. Refira-se, a terminar, que o Quarteto Nº4 foi finalizado em 1965, 46 anos depois do 1º, tinha Cyril Scott a respeitável idade de 85 anos.

Cyril Scott
String Quartets Nos. 1, 2 & 4.
Archaeus Quartet
Dutton Epoch CDLX 7138
Internet
Cyril Scott / Composer-Author-Poet / Wikipedia
Esperar-se-ia que, depois de todas as vicissitudes que o seu reinado já tinha enfrentado, D. Maria II gozasse finalmente de um período prolongado de acalmia. As atrapalhações constitucionais, com a reposição, em 1836, da Constituição de 1822, a elaboração da Constituição de 1838 e, em 1842, a restauração da Carta seriam por si só suficientes para atestar da instabilidade do reino. Somar-se-iam os episódios envolvendo Sá da Bandeira e Passos Manuel, numa primeira fase, e Costa Cabral, durante a década de 1840. Mas o desassossego continuaria...
O duque de Saldanha, que presidia a um ministério desde o dia 18 de Dezembro de 1848, viu D. Maria II dar-lhe guia de marcha nos finais de Junho do ano seguinte, que o seu ministério era de transição. Ferido no seu orgulho, que quem não se sente não é filho de boa gente, o duque de Saldanha fez a vida negra ao seu sucessor, o já nosso bem conhecido Costa Cabral. Primeiro através de uma oposição feroz, verbal e escrita, que lhe valeu a demissão de todos os outros cargos que ocupava, e que depois se valeu das armas, um meio que se revelou assaz convincente. Não quando arrancou, no dia 7 de Abril de 1851, pois saiu de Sintra apenas com alguns oficiais e poucos soldados se lhes juntariam no caminho para Mafra, de tal forma que, vendo a coisa mal parada, tratou de diligentemente ir gastar as solas para o país nosso vizinho...
Já lá se encontrava, aliás, quando, surpresa das surpresas, foi informado do sucesso do seu movimento em terras lusas, para onde de imediato regressou e onde, no dia 13 de Maio de 1851, teve uma triunfante entrada em Lisboa. Foi a vez de Costa Cabral ser apeado, e foi também o fim da sua carreira política. D. Maria II lá se viu compelida a aclamar quem anteriormente tinha demitido e a dar-lhe de novo a direcção do governo, de que também viria a fazer parte Fontes Pereira de Melo (1819-1887), e que duraria 5 anos, no segundo dos quais procedeu à reforma da Carta Constitucional, fazendo passar um Acto Adicional.
D. Maria II viria a falecer no dia 15 de Novembro de 1853, durante o parto do seu décimo primeiro filho.
Internet
D. Maria II / Duque de Saldanha / Costa Cabral / Fontes Pereira de Melo
Há 250 anos nascia Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), um dos mais prodigiosos compositores de todos os tempos. E um dos mais precoces, também, bastando recordar que, aos 12 anos de idade, já tinha escrito 3 óperas!
Escreveu algumas (muitas...) das mais conhecidas e admiradas óperas de sempre, como Idomeneo, rè di Creta (1781), Le nozze di Figaro (1786), Don Giovanni (1787), Così fan tutte (1790), Die Zauberflöte (1791) e La clemenza di Tito (1791), para referir apenas algumas.
O libreto para A Flauta Mágica foi da autoria do actor, cantor, compositor, empresário, libretista e poeta Emanuel Schikaneder (1751-1812), a partir do conto Lulu, oder Die Zauberflöte, de August Jacob Liebeskind. Schikaneder precisava urgentemente de uma ópera de sucesso para salvar o seu Theater auf der Wieden da falência eminente e Mozart, igualmente membro da loja maçónica vienense Nova Esperança Coroada, aceitou ajudá-lo.
Há quem especule, aliás, sobre eventuais mensagens maçónicas incluídas na própria ópera, nomeadamente as relacionadas com o místico número 3 (3 damas, 3 rapazes, 3 testes efectuados por Tamino, supervisionados por 3 padres,...). É uma tese que, por mais interessante que seja, nunca foi provada; nem Mozart, nem Schikaneder, fizeram alguma vez qualquer referência a estas hipotéticas ligações, pelo que, possivelmente, estaremos condenados a ficar pelas teses...
A estreia teve lugar no dia 30 de Setembro de 1791, e foi um evento bastante familiar: Mozart tocou fortepiano e dirigiu a récita, a Rainha da Noite foi interpreta por Josepha, sua cunhada, o próprio Schikaneder fez o papel de Papageno e o seu pai, Urban Schikaneder, de um dos padres. Do elenco fez ainda parte uma Anna Schikaneder, soprano, não fosse alguém da família ficar esquecido...
Teve um sucesso enorme, de que Mozart não desfrutou muito, dado ter falecido cerca de 2 meses depois, no dia 5 de Dezembro. Rezam as crónicas que, no dia anterior ao da sua morte, Mozart, delirante, imaginava-se a assistir a uma nova récita d'A Flauta Mágica, tendo pedido repetidamente silêncio para melhor ouvir a Rainha da Noite, naquelas que terão sido as suas últimas palavras. E a verdade é que, nessa altura, decorria mesmo uma récita da ópera, só que Mozart estava já no seu leito de morte.
Das interpretações da gravação ora aqui trazida, todas de excelente nível, destaco em particular a do barítono Simon Keenlyside demonstrando, além dos vocais, extraordinários dotes de representação. Mais do que justa a excepcional ovação com que foi premiado no final. E que extraordinária forma de celebrar Mozart!!!

Mozart
Die Zauberflöte.
Will Hartmann, Dorothea Röschmann, Diana Damrau, Franz-Josef Selig,
Simon Keenlyside, Ailish Tynan, Adrian Thompson, Gillian Webster,
Christine Rice, Yvonne Howard, Thomas Allen, Matthew Beale,
Richard van Allan, Alan Oke, Graeme Broadbent, Zico Shaker,
Tom Chapman, John Holland-Avery
The Royal Opera Chorus
The Orchestra of the Royal Opera House
Colin Davis
BBC Opus Arte OA 0885 D
Internet
Wolfgang Amadeus Mozart
the Mozart Project / Mozart.at / Biografia
Die Zauberflöte / Libreto
A morte do imperador José II, em Fevereiro de 1790, não veio facilitar em nada a vida de Mozart. O sucessor, Leopoldo II (1747-1792), irmão de José II, decidiu cortar nos custos, a começar pelos apoios às artes, de que resultou, por exemplo, o encerramento de todos os teatros. Como se tal não bastasse, ainda se dava o caso da sua esposa, Maria Luísa, ter uma especial aversão pela música de Mozart... A consequência mais imediata para o compositor foi ver o fim das récitas de Così fan tutte, na altura em cena na capital austríaca.
O ano de 1790 foi assim muito difícil para Mozart que, além dos problemas referidos, foi ainda afectado por problemas de saúde. Mas se nesse ano a sua produção foi parca, contando-se apenas uma dezena de obras, já 1791, ano da sua morte, assistiu a uma explosão de criatividade, contando-se, entre as cerca de 30 obras que escreveu, algumas das suas mais significativas. São desta fase, por exemplo, os Quintetos para Cordas K593 (este de Dezembro de 1790) e K614, o Concerto para Clarinete, K622, o Concerto para Piano Nº27, K595, as óperas La clemenza di Tito e Die Zauberflöte, e o Requiem, deixado incompleto e posteriormente finalizado por Franz Xaver Süssmayr (1766-1803).
Mozart fez os possíveis para cair nas boas graças do imperador, assistindo às suas coroações em Francoforte, em Setembro de 1790, e em Praga, um ano depois, altura em que La clemenza di Tito teve a sua estreia. Sem registar um grande sucesso, diga-se, até por esta não ser certamente uma das melhores óperas do compositor. Escusado será referir o empenho com que a imperatriz Maria Luísa divulgou a sua opinião sobre a obra...
Por essa altura Mozart recebeu do conde Walsegg uma encomenda para um Requiem. O conde, de apenas 28 anos, chorava a morte de sua esposa, 8 anos mais nova, e ambicionava interpretar aquela obra em sua memória. Mozart, contudo, não viveria o suficiente para a terminar. Atacado de febre reumática, faleceria no dia 5 de Dezembro de 1791. Uma morte porventura já esperada pelo compositor que, uns meses antes, se despediu de Haydn, que estava de partida para Londres, com um "este será provavelmente o nosso último adeus". Já no leito da morte, Mozart afirmaria mesmo que "estava a escrever um Requiem para ele mesmo".
fim
Textos anteriores:
Munique e Viena (1756-1762)
Paris e Londres (1763-1766)
Viena e Itália (1767-1771)
Salzburgo (1775-1777)
Mannheim e Paris (1777-1779)
Viena (1779-1781)
Viena e Salzburgo (1781-1785)
Viena e Praga (1785-1790)
Bibliografia
The Lives & Times of The Great Composers, Michael Steen
The Oxford Companion to Music
The Rough Guide to Opera, Matthew Boyden
The Opera Lover's Companion, Charles Osborne
Ópera, András Batta
Dicionário Grove de Música, Stanley Sadie
Internet
Mozart forum / the Mozart Project / Wolfgang Mozart / Mozart 2006 Salzburg / Mozart 2006 / Classical Music Pages
As despesas da família Mozart aumentavam ao mesmo ritmo que os rendimentos, senão mesmo maior, o que, se não permitia conservar muito dinheiro debaixo do colchão, sempre dava para levar uma vida faustosa. De tal forma que, quando Leopold Mozart foi a Viena visitar o filho, em Fevereiro de 1785, ficou favoravelmente impressionado com os sinais exteriores de riqueza. Entre carruagens, várias casas, mordomos, grandes mariscadas, champanhe qb e festas até às tantas, tudo exibia o sucesso de Wolfgang.
Mas as preocupações financeiras de Mozart não eram pequenas, que às despesas referidas se somavam as relacionadas com a sua esposa Constanze, várias vezes grávida durante a década de 80 e inícios da de 90, e frequentemente doente. Urgia uma encomenda operática que, contudo, apenas chegou em 1786. Entre 1785 e 1786, e enquanto a ansiada encomenda não chegava, Mozart escreveu várias obras importantes, com particular destaque para os Concertos para Piano: Nº20 K466, Nº21 K467, Nº22 K482, Nº23 K488 e Nº24 K491.
Dando-se o caso de o imperador austríaco apoiar a ópera italiana em detrimento da alemã, e de ter uma especial preferência pelo libretista, também italiano, Lorenzo da Ponte (1749-1838), compreende-se que tenha sido deste último a responsabilidade de escrever os libretos para as 3 óperas de Mozart que se seguiram. A primeira, Le nozze di Figaro, baseada num texto de Beaumarchais (1732-1799), cuidadosamente expurgado de todas as conotações políticas por forma a não incomodar o sensível imperador. Não teve grande sucesso em Viena, ao contrário do que aconteceu em Praga, onde Mozart recebeu uma encomenda para uma nova ópera, que viria a dar origem a Don Giovanni. Estreada nessa cidade no dia 29 de Outubro de 1787, obteria um enorme sucesso, ao contrário do que viria a acontecer em Viena, onde foi recebida com frieza.
A última das 3 óperas que teve Lorenzo da Ponte como libretista foi Così fan tutte, encomendada e escrita em 1789, e estreada em Janeiro de 1790. Para não variar, o público vienense não mostrou grande apreço pela obra...continua
Textos anteriores:
Munique e Viena (1756-1762)Paris e Londres (1763-1766)Viena e Itália (1767-1771)Salzburgo (1775-1777)Mannheim e Paris (1777-1779)Viena (1779-1781)Viena e Salzburgo (1781-1785)