16/04/2006

Lugares #129

Nos seus tempos áureos, a Prússia, com Berlim como capital, estendeu os seus domínios da Holanda à Rússia, tendo começado por existir como um pequeno território, actualmente dividido entre a Polónia, a Rússia e a Lituânia, numa história que remonta ao 1º século antes de Cristo. História que, como é hábito nestas coisas, se fez de guerras várias, com conquistas e perdas de territórios, como as travadas entre os séculos XV e XVII: com os Polacos, em 1410, em que a Prússia sofreu uma derrota humilhante; um século depois, entre 1519 e 1521, nova derrota, que a mantém sob o domínio polaco; e a Guerra dos Trinta Anos, travada entre 1618 e 1648, que terminou com o Tratado de Vestefália e o fim dessa autoridade.

O século XVIII, que começou por ver nascer o Reinado da Prússia como reconhecimento da participação de Frederico III (1688-1713) na Guerra da Sucessão da Espanha, foi de prosperidade e riqueza para a Prússia, que viu ainda o seu território continuar a aumentar. O século seguinte seria mais complicado, com as guerras napoleónicas, uma derrota em Iena e a consequente ocupação das tropas francesas, aí por volta de 1807.




Apenas na 2ª metade do século XIX haveria uma evolução significativa da situação que a Prússia vivia, graças à subida ao trono de Guilherme I (1861-1888). Este chamou ao poder Otto von Bismarck (1815-1898), e ambos tinham como grande objectivo a unificação da Alemanha, que foi conseguida após a vitória na Guerra Franco-Prussiana, em 1870. Esta guerra terminou oficialmente em 1871, com a assinatura do Tratado de Paz de Francoforte, cidade a que respeitam as fotografias que procuram embelezar este texto. A Prússia desapareceria como Estado em 1933, com a subida de Adolf Hitler (1889-1945) ao poder.


Internet

Francoforte
Frankfurt.de / frankfurt online / Wikipedia

Prússia
Wikipedia / A Brief History of Prussia / História da Prússia

14/04/2006

CDs #79: Taneyev, Chamber music

Tal como em várias outras ocasiões, a ideia inicial era a de estar aqui hoje a dizer umas coisas sobre mais um daqueles compositores menos conhecidos, neste caso o russo Sergei Taneyev (1856-1915). Ideia rapidamente posta de parte, pelo facto de na caixa do CD que era suposto servir de base à dissertação alguém ter colado um papel com a seguinte frase: "Sergei Taneyev foi uma figura chave na história da música russa, o maior polifonista depois de Bach". O autor de tão peremptória afirmação foi o pianista e maestro, igualmente russo, Mikhail Pletnev (1957-), que estará no próximo mês de Maio na Casa da Música a dirigir a Orquestra Nacional Russa. Escusado será dizer que já possuo o rectângulo mágico...

Os que por aqui vão ocasionalmente passando, lembrar-se-ão porventura da história
da recusa de Nikolai Rubinstein (1835-1881) em tocar o Concerto para Piano que Tchaikovsky (1840-1893) lhe tinha escrito. Pois Taneyev foi aluno de ambos no Conservatório de Moscovo, tendo estudado piano com o primeiro e composição com o segundo. A mais ambiciosa obra de Taneyev foi a ópera em 3 actos Oresteya, estreada em S. Petersburgo no dia 29 de Outubro de 1895. A música de câmara, contudo, foi o estilo que mais cultivou, entre trios, quartetos e quintetos de cordas, além de sonatas para violino e piano.



Este disco da Deutsche Grammophon inclui precisamente duas dessas obras, o Quinteto em sol menor, Op.30, e o Trio em ré maior, Op.22, e apresenta um conjunto notável de músicos: ao referido Pletnev juntaram-se os violinistas russos Vadim Repin e Ilya Gringolts, a violista japonesa Nobuko Imai e o violoncelista norte-americano Lynn Harrell. E, ao contrário do que acontece amiúde, lembremo-nos, por exemplo, daquele conjunto de primas-donas madrilenas incapazes de formarem uma equipa digna desse nome, neste caso o conjunto notável de instrumentistas deu origem a um disco notável, porque notáveis são igualmente as interpretações. E quando assim é, temos boas audições garantidas!




Sergei Taneyev
Quintet for Piano, 2 Violins, Viola and Violoncello in G minor, Op.30.
Trio for Piano, Violin and Violoncello in D major, Op.22.
Vadim Repin, Ilya Gringolts (violinos), Nobuko Imai (viola),
Lynn Harrell (violoncelo), Mikhail Pletnev (piano)
Deutsche Grammophon 477 5419
(2003)


Internet

Karadar Classical Music
/ Guardian Unlimited / Wikipedia

12/04/2006

Sopranos #9: Montserrat Caballé (1933-)

O bel canto apareceu em meados do século XVII, em árias de óperas e cantatas, em que se dava a oportunidade aos cantores de mostrarem em pleno os seus dotes vocais, pela beleza do som e souplesse do fraseado, em oposição ao estilo recitativo reinante até essa altura.

O mesmo termo serve também para caracterizar o estilo vocal italiano entre os finais do século XVIII e a primeira metade do século XIX: elegante, grande beleza de timbre, com floreados qb. Ou, como a minha mãe costuma dizer, "enfim, salamaleques!"... O bel canto teve em Vincenzo Bellini (1801-1835), Gaetano Donizetti (1797-1848) e, principalmente, Gioacchino Rossini (1792-1868), os seus compositores mais representativos.

A soprano espanhola Montserrat Caballé, que hoje comemora o seu 73º aniversário, foi um dos expoentes do bel canto. Género em que só se iniciou quase uma década depois da sua estreia operática, em 1956, e por um imprevisto quando, em 1965, substituiu em cima da hora uma adoentada Marilyn Horn (1934-), na ópera Lucrezia Borgia, de Donizetti, no
Carnegie Hall. Seria, aliás, com esta mesma ópera que se estrearia no La Scala, em 1970. Senhora de uma técnica extraordinária, a que deu sempre primazia sobre os imperativos teatrais, não será certamente pelas artes dramáticas que será recordada mais tarde, mas pelas interpretações de mais de 80 papéis operáticos. Não só de bel canto, naturalmente, pois Caballé brilhou igualmente em Verdi (1813-1901) e Richard Strauss (1864-1949), já para não falar em Wagner (1813-1883).

Feliz aniversário!


CD



Giuseppe Verdi
Don Carlo.
Plácido Domingo, Ryland Davies (tenores), Montserrat Caballé (soprano),
Shirley Verrett, Delia Wallis (meios-sopranos), Sherrill Milnes (barítono),
Ruggero Raimondi, Giovanni Foiani (baixos), Simon Estes (baixo-barítono)
Ambrosian Opera Chorus
Royal Opera House Orchestra
Carlo Maria Giulini
EMI GROC 5 67401-2
(1970)


Internet

Montserrat Caballé
Montserrat Caballé / Unesco.org / Montserrat Caballé / Wikipedia

Gioacchino Rossini
Classical Music Pages / Gioacchino Rossini / Wikipedia / Operas

10/04/2006

Pianistas #10: Glenn Gould (1932-1982)

O pianista canadiano Glenn Gould (1932-1982), nascido a 25 de Setembro de 1932, foi um precoce militante: aos 12 anos ganhou a única competição em que entrou em toda a sua vida (um pouco como Piotr Anderszewski, recusando a competição entre músicos, só que Gould não desertou a meio da competição...); em 1946 fez a sua estreia como solista; em 1955, com 22 anos, estreou-se em Nova Iorque, e logo com as Variações Goldberg, de Bach (1685-1750), que o homem não era para menos!; em 1964, apenas com 32 anos de idade, decidiu retirar-se dos palcos, dando o seu último recital no dia 10 de Abril. A partir dessa altura dedicou-se às gravações e às transmissões radiofónicas.


Glenn Gould

As Variações Goldberg representaram algo de muito especial na carreira de Glenn Gould: além de ter sido com esta obra que se estreou em Nova Iorque, com um sucesso tal que lhe garantiu de imediato um contrato com uma editora, foi ainda com ela que Gould abriu uma excepção à sua regra de não gravar a mesma obra duas vezes.

De facto, Gould gravaria as Variações Goldberg duas vezes: a primeira, em 1955, imediatamente após o seu recital em Nova Iorque; a segunda, apenas 26 anos depois e, curiosamente, efectuada exactamente no mesmo estúdio da primeira. Interpretações consensuais? Longe disso, muitos adoram-nas, outros tantos abominam-nas, sem esquecer o grupo dos indiferentes...


CDs



Johann Sebastian Bach
Goldberg Variations, BWV988.
Glenn Gould (piano)
CBS 38479
(1955)

Johann Sebastian Bach
Goldberg Variations, BWV988.
Glenn Gould (piano)
CBS 37779
(1981)


Internet

http://www.glenngould.ca/index.ie.html
http://www.sonyclassical.com/artists/gould/bio.html
http://www.glenngould.com/
http://glenngould.com/gg/
http://www.collectionscanada.ca/glenngould/index-e.html

08/04/2006

Sinfonias #14: Sinfonia Nº2, de Leonard Bernstein

Em Outubro do ano passado, aquando do 15º aniversário da sua morte, falámos aqui de Leonard Bernstein (1918-1990) e da sua estreia à frente da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, em Novembro de 1943, substituindo em cima da hora um adoentado Bruno Walter (1876-1962), e sem que Bernstein tivesse tempo para efectuar qualquer ensaio com a orquestra.

Leonard Bernstein acabaria por se vir a tornar num caso único de popularidade, prosseguindo três carreiras em simultâneo: a de maestro, a de pianista e a de compositor. Isto sem esquecer, naturalmente, o sucesso dos seus programas televisivos, momentos inolvidáveis do nosso imaginário a preto e branco. Sucesso obtido aquém e além fronteiras, recordemos que Bernstein foi o primeiro (nativo) americano a dirigir a Orquestra do Teatro alla Scala, de Milão. Foi em 1953, com Maria Callas (1923-1977) na ópera Médée, de Luigi Cherubini (1760-1842).

Como compositor, Bernstein escreveu algumas das mais conhecidas páginas da música do século XX, como a comédia musical West Side Story ou a abertura Candide. Compôs igualmente 3 sinfonias: a Nº1, Jeremiah (1941-2), a Nº2, The Age of Anxiety (1948-9) e a Nº3, Kaddish (1957). A Sinfonia Nº2 teve a sua estreia no dia 8 de Abril de 1949, com o compositor ao piano e a Orquestra Sinfónica de Boston dirigida por Serge Koussevitzky (1874-1951). É a sinfonia onde as origens judaicas de Bernstein são menos evidentes. Refira-se que Bernstein esteve em Israel em 1947, tendo dirigido a Orquestra Filarmónica Palestina em vários concertos, e manteve uma relação estreita com aquele país até ao fim da vida. Em 1978, a Orquestra Filarmónica de Israel organizou inclusivamente um festival para assinalar precisamente a dedicação de Bernstein, no ano em que o compositor celebrou o 60º aniversário.


CDs



Leonard Bernstein
Overture - Candide. Symphony No.2, "The Age of Anxiety".
Bournemouth Symphony Orchestra
Andrew Litton
Virgin Classics 91433-2

Leonard Bernstein
Symphony No.2, "The Age of Anxiety".
William Bolcom
Piano Concerto.
Marc-André Hamelin (piano)
Ulster Orchestra
Dimitry Sitkovetsky
Hyperion CDA67170


Internet

Leonard Bernstein
The Official Leonard Bernstein Web Site / Biography / Wikipedia

06/04/2006

Lugares #128

Os Habsburgos são visita periódica deste blogue, o que decorre, naturalmente, do facto de terem sido uma das mais influentes famílias europeias. E também com uma das mais longas histórias, conhecida desde o século VI e apenas arredada do poder (na Áustria e na Hungria) na 1ª Guerra Mundial. Pelo caminho foram dominando os destinos de vários países, entre eles a Espanha, desde o início do século XVI até ao ano de 1700, altura em que se extinguiu a linha espanhola da família, resultando então na Guerra da Sucessão, que se prolongaria por mais de uma década.

Entre 1556 e 1598 a Espanha teve como rei um membro dessa família, Filipe II (1527-1598). Que, entre 1580 e 1598 também foi rei de Portugal, é bom que se saiba, sob o título de Filipe I. Se pensaram que o nosso rectângulo escapou aos poderes dos Habsburgos enganaram-se redondamente...

Pois foi Filipe II quem, em 1594, criou a Farmácia Real, no antigo Alcázar dos Habsburgos, em Madrid. A farmácia viria a ter uma vida deveras atribulada: um incêndio, ocorrido no dia 24 de Dezembro de 1734, destruiu por completo o edifício, farmácia incluída, e apenas no dia 6 de Abril de 1738, passam hoje 268 anos, seria colocada a primeira pedra do novo Palácio Real de Madrid. Apenas em 1794, já no reinado de Carlos IV (1748-1819), foi a farmácia de novo instalada. Pouco tempo ficou no palácio, contudo, já que, com as invasões napoleónicas foi transferida para o Seminário dos Nobres, tendo regressado de novo ao palácio no final do século XIX.




Para quem, como eu, desenvolveu uma particular aversão às farmácias, esta representa uma variante admirável, por completamente distinta das actuais. Linda de morrer, pelos menos segundo os meus discutíveis critérios estéticos, situada num edifício esplendoroso e... de entrada grátis, bastando para tal visitá-la na época baixa.


Internet

Palacio Real de Madrid / Madrid Royal Palace

05/04/2006

Sinfonias #13: Sinfonia Nº2, de Beethoven

Em Novembro de 1792, Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi a Viena, pensava ele que por pouco tempo, para ter lições com Joseph Haydn (1732-1809), regressado há não muito da sua primeira viagem a Londres. As lições prolongar-se-iam até 1794, quando Haydn partiu para a segunda viagem a Londres, mas Beethoven ficaria por Viena, nunca mais regressando a Bona, sua cidade natal.

O início do século XIX encontrou Beethoven fortemente abalado com a progressiva perda da audição, que o levou a isolar-se da sociedade, chegando mesmo a pensar em suicídio. Em 1802, após um período de 6 meses passado na pacatez de Heiligenstadt, distante 1 hora de Viena, Beethoven escreveu um documento, dirigido aos seus irmãos Carl e Johann, que era suposto ser lido apenas após a sua morte, e em que dava conta das suas intenções de se suicidar. Beethoven escreveu-o entre os dias 6 e 10 de Outubro de 1802, e intitulou-o "O Testamento de Heiligenstadt".

Foi ainda em Heiligenstadt que Beethoven, apesar do período que atravessava, escreveu a Sinfonia Nº2, durante o Verão de 1802, e começou a esboçar a Sinfonia Nº3
, que terminaria em Maio de 1804. Surpreendente (ou talvez não?!) que, após tamanha crise, Beethoven tenha composto tal conjunto de obras: além das 2 referidas sinfonias, são dessa época o oratório Christus am Ölberge e a ópera Fidelio.

Além disso, da 2ª Sinfonia, estreada no dia 5 de Abril de 1803, não transparece o ambiente de tragédia eminente, contendo, pelo contrário, momentos de intensa alegria. Razão teria Bernardo Soares:

O poeta é um fingidor
Mente tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente


CDs



Ludwig van Beethoven
Symphonies - No.1 in C, Op.21 & No.2 in D major, Op.36.
NDR Symphony Orchestra
Gunter Wand
RCA Red Seal 74321 66458-2
(1997, 1999)

Ludwig van Beethoven
Symphonies - No.2 in D major, Op.36 & 8 in F major, Op.93.
London Classic Players
Roger Norrington
Virgin Classics 5 61375-2

Great Conductors of the 20th Century: Pierre Monteux.
Ludwig van Beethoven
Symphony No.2 in D major, Op.36.
+ obras de Wagner, Hindemith, Debussy, Tchaikovsky.
Women of the Berkshire Festival Chorus
Boston Symphony Orchestra
North German Radio Symphony Orchestra
Danish State Radio Symphony Orchestra
London Symphony Orchestra
Pierre Monteux
EMI 5 75474-2


Internet

Ludwig van Beethoven
Ludwig van Beethoven: A Musical Titan
/ The "Heiligenstädter Testament" / The Text of the Heiligenstadt Testament

04/04/2006

CDs #78: Berio, Sinfonia, Ekphrasis

A dada altura da sua vida, o compositor italiano Luciano Berio (1925-2003) afirmou o seguinte: "Creio que é preciso viver no espírito do fim da Renascença e dos alvores do barroco, viver no espírito de Monteverdi, que inventou a música para os três séculos seguintes". (1)

Para os mais dados aos preciosismos, é sempre possível fazer as contas e concluir de imediato que os referidos 300 anos cobririam o período musical que vai até meados do século passado.

Coerente com este princípio, Berio fez várias vezes uso de obras de outros compositores, sendo a 3ª parte da sua Sinfonia um caso exemplar. Nela Berio cita livremente o scherzo da Segunda Sinfonia de Gustav Mahler (1860-1911) e, de caminho, sempre se foi lembrando de Bach, Beethoven, Debussy, Ravel e Strauss, para nomear apenas alguns...

O assassínio de Martin Luther King, no dia 4 de Abril de 1968, levou a que a 2ª parte da sinfonia, em que Berio trabalhava na altura, tivesse um rumo inesperado. Acabou por ser dedicada à memória do pastor evangélico, salientando-se as vozes que se limitam a pronunciar o seu nome. Berio viria a editar separadamente esta 2ª parte, sob o título de O King.

Os andamentos que abrem e fecham esta sinfonia para 8 vozes e orquestra baseiam-se em material extraído do livro Le Cru et le Cuit, do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-). Lévi-Strauss foi mais um dos que teve que atravessar o Atlântico por alturas da II Grande Guerra. Já o tinha feito anteriormente, com destino ao Brasil. Em trabalho. Voltou a fazê-lo mais tarde, rumo a Nova Iorque. Era judeu...



Luciano Berio
Sinfonia. Ekphrasis.
Ann de Renais, Wendy Nieper (sopranos),
Judith Rees, Carol Canning (meios-sopranos),
Philip Sheffield, Michael Robinson (tenores),
Mark Williams (barítono), Patrick Ardagh Walter (baixo)
London Voices
Gothenburg Symphony Orchestra
Peter Eötvös
Deutsche Grammophon 477 5380
(2004)


Internet

Luciano Berio
The Living Composers Projects
/ Biografia 1 / Biografia 2

Martin Luther King
Nobelprize.org
/ Martinlutherking.org / The King Center


Referências

(1) Guia da Música Sinfónica, de François-René Tranchefort

03/04/2006

Lugares #127

A Oktoberfest, que decorre anualmente em Munique entre meados de Setembro e o início de Outubro, é o evento que mais turistas atrai aquela cidade. Ao todo, durante aquelas 2 semanas e pico, são bebidos qualquer coisa como 6 milhões de litros de cerveja, pelo que se presume que alegria e são convívio não faltarão por aquelas bandas.

Terra de Richard Strauss (1864-1949), que lá nasceu, e de Thomas Mann (1875-1955) e Wassily Kandinsky (1866-1944), que lá viveram, Munique foi fundada na 2ª metade do século XII pelo príncipe Henrique, o Leão (1129-1195), na época do ouro branco, cuja rota passou a controlar após a construção de uma ponte sobre o rio Isar, em 1158.

Em 1505 passou a capital da Bavária e o século XVI foi bom para a cidade, que cresceu e prosperou. Depois, vieram os tempos difíceis: a Guerra dos 30 Anos, entre 1618 e 1648, a peste que, em 1634, matou 1/3 da população, e a ocupação austríaca, entre 1705 e 1715.

Munique também não passou imune no século XX: foi lá que Hitler (1889-1945) viveu e efectuou a primeira tentativa de assalto ao poder, em 1923; e a 2ª Guerra Mundial, que teve efeitos devastadores para a cidade, tendo sido praticamente arrasada. Um dos edifícios seriamente afectados foi o do Teatro Nacional, de construção neo-clássica. Foi lá que aconteceram as estreias de várias óperas de Richard Wagner (1813-1883), como a de Tristan und Isolde, no dia 10 de Junho de 1865, e a de Die Meistersinger von Nürnberg, a 21 de Junho de 1868, para citar apenas duas. O teatro reabriu em 1963, após finalizadas as obras de reconstrução.


Internet

Oktoberfest
Oktoberfest / Welcome to the Oktoberfest! / Wikipedia

Richard Wagner
Classical Music Pages / Wagnermania / Bayreuther Festspiele / Wikipedia

01/04/2006

Óperas #8: La vida breve, de Manuel de Falla

A história da lírica espanhola até ao século XIX coincide, no essencial, com a história da zarzuela, uma versão de ópera ligeira e à base de recitativos. A zarzuela, reza ainda a história, terá nascido em 1657, com El Laurel de Apolo, com música de Juan de Hidalgo (1614-1685) baseada num texto de Pedro Calderón de la Barca (1600-1681), tendo contado com os reis de Espanha entre a assistência e herdado o nome pelo facto de a récita ter decorrido no Palácio de la Zarzuela.

Manuel de Falla (1876-1946) começou por afirmar-se como um compositor de... zarzuelas, como era de bom tom na época, nos finais do século XIX. Não foi grande a afirmação, verdade seja dita, pois o compositor não obteve sucesso com as primeiras 4 ou 5 que compôs. Em 1901, Falla trava conhecimento com o compositor Felipe Pedrell (1841-1922), que na altura se encontrava empenhado em desenvolver um estilo especificamente espanhol, num encontro que se viria a revelar decisivo para a carreira de Manuel de Falla. Entre 1901 e 1904, Falla teria aulas de composição com Pedrell, e é precisamente em 1904 que Falla decide começar a escrever a ópera La vida breve, para concorrer à competição "Ópera espanhola em um acto", anunciada pela Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, de Madrid. Falla venceu a competição mas os organizadores, curiosamente, recusaram-se a levá-la à cena...

Em 1907, Falla foi a Paris, onde planeava ficar uma semana, mas acabou por ficar 7 anos por terras gaulesas. A estreia da La vida breve aconteceria mesmo em França, na cidade de Nice, no dia 1 de Abril de 1913. Com libreto de Carlos Fernández Shaw (1865-1911), já muito rodado em libretos para zarzuelas, La vida breve é a versão espanhola da ópera verista
, com os seus diversos retratos da vida real. Na sua versão definitiva tem 2 actos, com que se apresentou em Madrid em 1914 e com grande sucesso, o suficiente para tirar Falla dos apertos financeiros com que (sobre)vivia em Paris.


CDs



Manuel de Falla
El sombrero de tres picos. El amor brujo. La vida breve - Interlude; Dance.
Teresa Berganza (soprano), Marina de Gabarain (meio-soprano)
Suisse Romande Orchestra
Ernest Ansermet
Decca 466 991-2
(1955, 1961)

Manuel de Falla
La vida breve. Canciones populares españolas. El sombrero de tres picos.
El amor brujo. Soneto a Córdoba. Psyché.
V. de los Angeles, M. Higueras (sopranos), I. Rivadeneyra (meio-soprano),
C. Cossutta, J. de Andia (tenores), V. de Narké (baixo)
Spanish National Orchestra
Philharmonic Orchestra
Rafael Frühbeck de Burgos, Carlo Maria Giulini
EMI 5 67587-2

Manuel de Falla
La vida breve.
Teresa Berganza (soprano), Alicia Nafé (meio-soprano), José Carreras (tenor),
Juan Pons (barítono)
Ambrosian Opera Chorus
London Symphony Orchestra
Garcia Navarro
Deutsche Grammophon 435 851-2


Internet

Zarzuela
Zarzuela!
/ La Zarzuela

Manuel de Falla
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