15/06/2006

Pianistas #13: Alfred Cortot (1877-1962)

Como é sabido, Richard Wagner (1813-1883) compôs as óperas d'O Anel de Nibelungo na ordem inversa, tendo começado por Siegfrieds Tod, de que mais tarde mudou o nome para Götterdämmerung, a última do ciclo, e terminado com Das Rheingold, a primeira. A estreia de Götterdämmerung teve lugar no dia 17 de Agosto de 1876, com a condução a cargo do maestro Hans Richter (1843-1916). A estreia em Paris aconteceria apenas em Maio de 1902, graças à iniciativa de Alfred Cortot que, em 1898, tinha ido para Bayreuth estudar a música de Wagner.

É que Cortot, por essa altura já um reputado pianista, especialmente admirado em Ludwig van Beethoven (1770-1827), tinha-se dedicado recentemente à direcção de orquestras e, além da referida obra, foram da sua responsabilidade as estreias em França da Missa Solemnis de Beethoven e do Requiem de Johannes Brahms (1833-1897).

Antigo aluno de Émile Descombes (1829-1912) que, por sua vez, tinha sido aluno de Frédéric Chopin (1810-1849), Cortot tornar-se-ia num dos grandes intérpretes deste último, com várias gravações de referência. Como pianista, Cortot concentrou-se em poucos compositores, não tendo abordado um repertório muito alargado; além de Chopin, podemos referir Claude Debussy (1862-1918) e Robert Schumann (1810-1856) como aqueles que mais frequentemente tocou.

Cortot também se dedicou à música de câmara e, em 1905, formou um dos mais conceituados trios, com o violoncelista Pablo Casals (1876-1973) e o violinista Jacques Thibaud (1880-1953). Alfred Cortot faleceu há 44 anos, no dia 15 de Junho de 1962.


CDs



Felix Mendelssohn
Piano Trio in D minor, Op.49.
Robert Schumann
Piano Trio in D minor, Op.63.
Pablo Casals (violoncelo), Alfred Cortot (piano), Jacques Thibaud (violino)
Naxos Historical 8.110185
(1927, 1928)

Frédéric Chopin
Solo Piano Music - Volume I.
vários pianistas, incluindo Alfred Cortot
Andante AND1150

Frédéric Chopin
Solo Piano Music - Volume II.
vários pianistas, incluindo Alfred Cortot
Andante AN1190


Internet

Alfred Cortot
Piano bleu / Wikipédia / École Normal de Musique de Paris

14/06/2006

CDs #86: Tchaikovsky, Symphonies 2 & 6

Nos finais do ano passado andei às voltas com o Grupo dos Cinco (neste e neste postais), formado por cinco compositores russos (Balakirev, Borodin, Cui, Mussorgsky e Rimsky-Korsakov), e que tinha como principal objectivo a criação de uma escola de composição distintamente russa. Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893), contemporâneo do Grupo dos Cinco, nunca pertenceu ao grupo mas, em 1869, recebeu o incentivo de Mily Balakirev (1837-1910) para compôr a Fantasia-Abertura Romeu e Julieta. Bem vistas as coisas, pode-se mesmo dizer que recebeu vários incentivos, já que Balakirev o forçou a reescrever a obra diversas vezes, até que ficasse a preceito... Não foi um apoio desinteressado, passe-se a deselegância da expressão, mas resultante do facto de Balakirev ter-se apercebido da eminência do aparecimento de uma nova e importante voz na criação do tal estilo tipicamente russo. Aquele estilo que se pretendia independente dos estilos estrangeiros, em particular do modelo germânico.

Em 1872, quando se encontrava em Moscovo, Tchaikovsky terminou a 2ª Sinfonia, que seria estreada no dia 26 de Janeiro de 1873. O maestro de serviço foi o do costume, que já tinha estreado a e viria ainda a estrear as e 4ª sinfonias: Nikolai Rubinstein (1835-1881). Aquele mesmo que, no Natal de 1874, iria recusar-se a interpretar o Concerto para Piano que Tchaikovsky lhe tinha escrito...

Em 1879, Tchaikovsky procederia a uma revisão da sinfonia, e esta nova versão seria estreada no dia 31 de Janeiro de 1881. Tal como em Romeu e Julieta, a influência de Berlioz perpassa toda a obra. É que, ao contrário do que alguns esperavam, Tchaikovsky vir-se-ia a revelar um compositor cosmopolita, no sentido em que foi culturalmente influenciado por outros países, como a Itália, a França e a... Alemanha!

Neste duplo CD, gravado entre 1956 e 1962, à frente da Orquestra Filarmonia encontra-se o grande maestro italiano Carlo Maria Giulini (1914-2005), falecido há precisamente um ano.




Pyotr Ilyich Tchaikovsky
Symphony No.2 in C minor, Op.17, "Little Russian".
Francesca da Rimini, Op.32.
Symphony No.6 in B minor, Op.74, "Pathétique".
Romeo and Juliet.
Philharmonia Orchestra
Carlo Maria Giulini
EMI Classics 5 86531-2


Internet

Tchaikovsky
/ Classical Music Pages / Wikipedia
Carlo Maria Giulini
/ bbc.co.uk / Wikipedia

12/06/2006

Compositores #63: György Ligeti (1923-2006)

No filme 2001: Odisseia no Espaço, de que aqui falámos ontem, além do poema sinfónico Also sprach Zarathustra, de Richard Strauss (1864-1949), Stanley Kubrick (1928-1999) utilizou para a banda sonora parte da música de bailado Gayaneh, de Aram Khachaturian (1903-1978), o último compositor de que por aqui se falou, bem como várias obras do compositor austríaco de origem húngara György Ligeti (1923-2006), de quem hoje se anunciou o falecimento.

Ligeti começou por ter lições de piano quando tinha 14 anos de idade, tendo entrado para o Conservatório de Kolozsvar em 1941. Foi lá parar por ter sido impedido de frequentar a universidade, dada a sua ascendência judaica. O mesmo motivo que o levou a ser internado num campo de trabalhos forçados, entre o início de 1944 e 1945, e a perder pai e irmão, mortos em Auschwitz, de onde apenas a sua mãe sobreviveu. Ligeti confessaria mais tarde: "Vivo permanentemente aterrorizado; serei assaltado por fantasias de vingança até ao fim dos meus dias".

Em Março deste ano tivemos a oportunidade, neste texto
, de trazer aqui um disco inteiramente dedicado a obras de Ligeti. Com a sua morte desaparece um dos mais importantes e inovadores compositores da 2ª metade do século XX.


CDs




Boulez Conducts Ligeti
Concerto for Piano and Orchestra.
Concerto for Violoncello and Orchestra.
Concerto for Violin and Orchestra.
Pierre Laurent Aimard (piano), Jean-Guihen Queyras (violoncelo),
Saschko Gawriloff (violino)
Ensemble InterContemporain
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 439 808-2
(1992, 1993)

György Ligeti
String Quartets - No.1, "Métamorphoses Nocturnes"; No.2.
Artemis Quartet
Virgin Classics 336 934-2

György Ligeti
String Quartets - No.1, "Métamorphoses Nocturnes"; No.2.
Hommage à Hilding Rosenberg. Balada Si Joc. Andante and Allegretto.
Arditti Quartet
Sony Classical SK62306

György Ligeti
Lontano. Atmosphères. Apparitions. San Francisco Polyphony.
Concert Românesc.
Berlin Philharmonic Orchestra
Jonathan Nott
Teldec 8573-88261-2

György Ligeti
Clocks and Clouds. Cello Concerto. Violin Concerto.
Sippal, dobbal, nádihegedüvel, "With pipes, drums, fiddles".
Katalin Károlyi (meio-soprano), Frank Peter Zimmermann (violino),
Siegfried Palm (violoncelo)
Amadinda Percussion Group
Cappella Amsterdam
Schoenberg Ensemble
Reinbert de Leeuw
Teldec 8573-87631-2


Internet

György Ligeti
Classical Music Pages
/ Biography / Wikipedia / IRCAM

2001: A Space Odissey
Original Soundtrack / Kubrick2001 / 2001: A Space Odissey

11/06/2006

Poemas Sinfónicos #2: Also sprach Zarathustra, Richard Strauss

Richard Strauss (1864-1949), o último dos românticos, foi o primeiro a utilizar o termo poema sinfónico. Foi aliás com um, composto em 1886 e estreado no ano seguinte, Aus Italien, que começou por chamar a atenção do público, até pela controvérsia que levantou.


Richard Strauss

Seria ainda a estreia de um outro poema sinfónico, Don Juan, que levaria Strauss a ser considerado o sucessor de Wagner como o mais representativo compositor alemão. Aquele que trazemos aqui hoje, em que se assinalam os 142 anos passados sobre o nascimento de Richard Strauss, tem uma história singular. Um filme, um extraordinário filme, fez dos primeiros cento e poucos segundos do poema sinfónico Also sprach Zarathustra um dos trechos musicais mais conhecidos de todos os tempos, de tal forma que muitos desconhecem em absoluto os outros 34 minutos que se seguem...



O filme, 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1928-1999), já tem quase 40 anos, mas aquele nascer do Sol ao som da música de Strauss ficará para sempre nas nossas memórias.


CDs



Richard Strauss
Also sprach Zarathustra. Horn Concerto No.2. Vier letzte Lieder.
Don Juan. Till Eulenspiegels lustige Streiche. Ein Heldenleben.
Norbert Hauptmann, horn
Gundula Janowitz, soprano
Berliner Philharmoniker
Herbert von Karajan
Deutsche Grammophon 469 208-2

Richard Strauss
Also sprach Zarathustra. Don Juan. Salome. Till Eulenspiegels lustige Streich.
Wiener Philharmoniker
Herbert von Karajan
Decca 466 388-2

Richard Strauss
Also sprach Zarathustra. Don Juan. Four Last Songs.
Lucia Popp, soprano
London Philharmonic Orchestra
Klaus Tennstedt
EMI Seraphim 73560-2

09/06/2006

Exposições #8: Um Olhar sobre Suggia

Organizada pela Fundação Musical dos Amigos das Crianças, irá decorrer, entre os próximos dias 17 e 27 de Junho, a exposição "Um olhar sobre Suggia", inserida nas comemorações dos 120 anos do nascimento da violoncelista Guilhermina Suggia.

Da exposição, patente ao público de a das 15 às 19:30 e aos Sábados das 10 às 13, constarão, entre outros, documentos, fotos, objectos e programas musicais, tendo o seguinte programa:

Início: 17 de Junho às 16 horas

Salão Guilhermina Suggia

» Abertura da exposição
» Pequena conversa sobre o tema "Suggia"
» Momento musical organizado pela violoncelista D. Madalena Sá e Costa, antiga aluna de Suggia

Jardins

Concerto de jovens instrumentistas da Escola de Música Guilhermina Suggia e da Orquestra Juvenil de Instrumentos de Arco da FMAC, dirigida pelo maestro Leonardo de Barros.


A exposição, para a qual estão todos convidados, decorrerá nas instalações da FMAC, à rua D. Manuel II, 226, Porto.

08/06/2006

Obras para Bailado #3: Daphnis et Chloé, de Maurice Ravel

Igor Stravinsky (1882-1971) apelidou a música de bailado Daphnis et Chloé, de Maurice Ravel (1875-1937), de "uma das mais belas obras da música francesa". Nada que tivesse impedido, contudo, as várias atribulações por que a obra passou, com sucessivos adiamentos da estreia, desentendimentos entre os intervenientes, e pouca receptividade por parte do público, que levou inclusivé à sua retirada de cena por algum tempo. Espantoso, considerando que esta sinfonia coreográfica de Ravel é por muitos considerada, não só uma obra-prima, como a sua melhor composição e uma das mais brilhantes orquestrações de todo o século XX.

O romance Dafne e Cloé, do escritor grego Longus, de quem pouco se conhece, não havendo sequer a certeza de ser esse o seu verdadeiro nome, há muito que havia fascinado o coreógrafo e bailarino Mikhail Fokine (1880-1942) que, já em 1904, havia proposto a sua adaptação para bailado. Na altura Fokine encontrava-se em S. Petersburgo, mas só uns anos depois, quando já em Paris, deu com alguém disposto a levar a empreitada por diante. Esse alguém foi o já nosso bem conhecido empresário Sergei Diaghilev (1872-1929) que, por sua vez, encomendou a parte musical a Maurice Ravel.

Ravel trabalhou nesta obra entre 1909 e 1912 e, segundo as suas próprias palavras, a sua intenção ao escrevê-la era "a de compor um vasto fresco musical, menos preocupado com o arcaísmo do que com a fidelidade à Grécia dos meus sonhos (...)". A estreia, no dia 8 de Junho de 1912, esteve longe de ser um sucesso, para o que a deficiente preparação, a que não foram alheios os permanentes desentendimentos entre Fokine e Vaslav Nijinski (1890-1950), o bailarino escolhido para dançar Daphne, terá certamente contribuído.

Retirado de cena, o bailado Daphnis et Chloé seria reposto no ano seguinte mas, ironia do destino, passaria de novo despercebido pela enorme algazarra provocada pela estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, aqui descrita muito recentemente.


CDs




Maurice Ravel
Daphnis et Chloé. La Valse.
Berlin Radio Chorus
Berlin Philharmonic Orchestra
Pierre Boulez
Deutsche Grammophon 447 057-2
(1994)

Maurice Ravel
Daphnis et Chloé.
Boston Symphony Orchestra
Charles Munch
RCA Living Stereo 82876 61388-2
(1955)

Maurice Ravel
Daphnis et Chloé.
Claude Debussy
Jeux.
René Duclos Chorus
Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire
André Cluytens
EMI 4 76853-2
(1962)

Maurice Ravel
Daphnis et Chloé - Suite No.2. La Valse.
Georges Bizet
Symphony in C.
South West German Radio Symphony Orchestra
Georges Prêtre
Hänssler Classic 93 013

Maurice Ravel
Pavane pour une Infante Défunte. Daphnis et Chloé - Suite No.2.
Claude Debussy
La Mer. Prélude à l'Après-midi d'un Faune.
Berlin Philharmonic Orchestra
Herbert von Karajan
Deutsche Grammophon 413 589-2
(1985)

Maurice Ravel
Alborada del Gracioso. Rapsodie espagnole. Daphnis et Chloé - Suite No.2.
Le tombeau de Couperin. La Valse.
Claude Debussy
Nocturnes. La mer. Images - Ibéria.
SWR Vocal Ensemble
SWR Stuttgart Radio Symphony Orchestra
Sergiu Celibidache
Deutsche Grammophon 453 194-2

Maurice Ravel
Daphnis et Chloé - Suite No.2.
Franz Schubert
Symphony No.8 in B minor, "Unfinished", D759.
Jean Sibelius
Symphony No.7 in C, Op.105.
Georges Bizet
Jeux d'enfants, Op.22.
Royal Philharmonic Orchestra
Philharmonia Orchestra
Adrian Boult
BBC Legends BBCL4039-2


Internet

Maurice Ravel
Maurice Ravel
/ Classical Music Pages / Wikipedia / IRCAM

Longus
Wikipedia / Daphnis and Chloe / Daphnis & Chloe

06/06/2006

Sopranos #10: Francesca Cuzzoni (1698-1770)

Francesca Cuzzoni foi a primeira prima donna da ópera, com uma estreia de arromba em Veneza em 1719, que a catapultou de imediato para o estrelato. Por essa altura, Georg Friedrich Handel (1685-1759) disputava com Giovanni Bononcini (1670-1747) o lugar de compositor de ópera mais popular para o público londrino.


Francesca Cuzzoni

Em 1722 o nosso amigo Handel concluiu que precisaria de algo mais nas suas óperas para obter a preferência do público, e vai daí decidiu contratar Cuzzoni, de quem tinha ouvido extraordinárias referências: voz muito expressiva, versátil, dona de um trinado famoso. Foi com base nestas premissas que Handel desenvolveu o papel de Teofane na sua ópera Ottone, uma coisa feita mesmo à medida da senhora. Havia, em particular, uma ária de que Handel se orgulhava particularmente, ansiando para apreciar o resultado.


Georg Friedrich Handel, Giovanni Bononcini

A primeira reacção de Cuzzoni foi a de recusar-se a cantar tal ária, por a ter achado "demasiado simples"... Handel, avisado como estava do feitio da dama, não esteve com meias medidas: disse-lhe que, se ela era o demónio, ele era Belzebu, o demónio-chefe, após o que a levantou pelos ombros, que a senhora era assim para o curto, e ameaçou atirá-la pela janela fora! A segunda reacção de Cuzzoni foi cantar de imediato a ária, de fio a pavio...

A estreia de Ottone, em 1723, obteria um sucesso tremendo, e Cuzzoni viria ainda a interpretar diversos papéis em óperas de Handel, como o de Cleopatra em Giulio Cesare e o de Asteria em
Tamerlano.

Entretanto, Faustina Bordoni (1700-1781), meio-soprano italiana com quem Cuzzoni já tinha anteriormente contracenado, começou a fazer furor nos meios operáticos, e veio a Londres efectuar 3 temporadas, entre 1726 e 1728. Não tardou muito até que as duas primas donas se odiassem uma à outra. O auge atingiu-se no dia 6 de Junho de 1727, quando ambas se pegaram no palco, primeiro com trocas de mimos verbais, espicaçadas pelas respectiva claques, e depois com puxões de cabelos e arranhões, como só as mulheres sabem fazer! Acabou tudo em festa: as duas engalfinhadas, quais gatas assanhadas, e as claques a arremessarem o mobilário da sala uma à outra...


Faustina Bordoni

Com os anos Cuzzoni perdeu a voz mas não a mania das extravagâncias, que acabariam por a levar a fugir diversas vezes aos credores e a aterrar por duas ocasiões na prisão. Acabaria na miséria, a fazer botões para sobreviver.


Bibliografia

The Rough Guide to Opera, Matthew Boyden
The Opera Lover's Companion, Charles Osborne
Dicionário Grove de Música, Stanley Sadie


Internet

Francesca Cuzzoni:
biografia
Faustina Bordoni:
biografia
Giovanni Bononcini:
biografia
Georg Friedrich Handel:
Mr. Handel and His Singers / gfhandel.org

04/06/2006

CDs #85: Cecilia Bartoli, Opera Proibita

Nos inícios do século XVII, Cornélio Jansénio (1585-1638), bispo de Ipres, estabeleceu um conjunto de princípios que, entre outras coisas, lhe valeram a condenação da Igreja Católica como herege. O jansenismo, defende, por exemplo, ser a natureza humana, por si só, incapaz de praticar o bem.

Cerca de um século depois, Pasquier Quesnel (1634-1719), salientou-se pela sua convicta defesa dos princípios jansenistas, em conjunto com o teólogo francês Antoine Arnaud (1612-1694). Com a morte deste último, Quesnel assumiu a direcção do movimento jansenista. Antes disso, em 1675, vira o papa Clemente X (1590-1676) proibir a leitura das suas Réflexions morales sur les évangiles. Em 1713, naquela que ficou como a sua mais célebre publicação, o papa Clemente XI (1649-1721) escreveu a bula Unigenitus, condenando 101 proposições de Quesnel, por heréticas. Foi do bom e do bonito na igreja francesa, uma polémica que ocupou uma boa parte do século XVIII.

O pontificado de Clemente XI ficou ainda marcado pelos problemas políticos relacionados com a sucessão em Espanha, que levariam mesmo à guerra. Em 1701, no meio de um intrincado ambiente político, o papa decretou a proibição de espectáculos públicos em Roma pelo que, durante a 1ª década do século XVIII, ópera era coisa a que lá não se podia assistir. Pelo menos em locais públicos, que os poderosos rapidamente encontraram meios (locais) alternativos... A outra forma de dar a volta ao texto consistiu em escrever oratórios, satisfazendo desse modo imperiosas necessidades operáticas... O disco Opera Proibita, da meio-soprano italiana Cecilia Bartoli, que hoje comemora o 40º aniversário, contém precisamente árias de alguns desses oratórios, da autoria de Handel (1685-1759), Alessandro Scarlatti (1660-1725) e Antonio Caldara (1670?-1736). As almas mais curiosas poderão sempre encontrar uma opinião pessoalíssima sobre este disco aqui.




Opera Proibita.
Cecilia Bartoli (meio-soprano)
Les Musiciens du Louvre
Marc Minkowski
Decca 475 6924
(2004, 2005)


Internet

Cecilia Bartoli
deccaclassics.com
/ Gulbenkian.pt / Wikipedia

02/06/2006

Concertos #41

Em Novembro de 2004, neste texto, trouxe a estas páginas um DVD em que o pianista austríaco Alfred Brendel (1931-) interpretava obras de Joseph Haydn (1732-1809), Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Franz Schubert (1797-1828). Posteriormente, em Abril do ano passado, referi aqui um recital que este pianista deu na Casa da Música tendo, na ocasião, interpretado obras de Mozart, Robert Schumann (1810-1856), Schubert e Ludwig van Beethoven (1770-1827).

No recital desta noite, mais uma vez na Casa da Música
, este pianista irá de novo centrar-se nos períodos clássico (Haydn, Mozart) e início do romântico (Schubert). O que vem na sequência do que Brendel afirmou em entrevista à revista Gramophone: "I just don't feel physically inclined to take the responsibility for very large cycles in the future. What I may do is perhaps a few programmes of Haydn, Mozart and Schubert, for instance, going through the late Mozart sonatas". Muito dificilmente o ouviremos a interpretar de novo, por exemplo, a Sonata em si menor de Franz Liszt (1811-1886), pelo esforço físico que requer e por decisão do próprio Brendel: "(...) I feel that after living with the Liszt Sonata since my 19th year it has got somewhere where I more or less want it to be, within my possibilities. Having now left the piece for good I had the impression that I had come to the end of the process".

E assim, um ano e pouco depois, volto a ouvir ao vivo um dos meus pianistas favoritos, sempre na Casa da Música, um edifício da Porto 2001. Que, apesar de se terem esquecido do fosso para a orquestra na sala Guilhermina Suggia (para que pudessemos ver óperas) e de uma simples cortinas na Sala 2 (para que pudessemos ver os músicos nas tardes mais solarengas), tem sido da maior utilidade para a cidade do Porto. Ao contrário do edifício transparente, que até hoje apenas serviu para retirar o mar da vista e entreter uns quantos à volta de imbróglios judiciais. Não há bela sem senão.


Programa

Joseph Haydn
Sonata para Piano em ré maior, Hob.XVI/42.
Sonata para Piano em dá maior, Hob.XVI/50.
Franz Schubert
Sonata para Piano Nº18 em sol maior, D894.
Wolfgang Amadeus Mozart
Fantasia em dó menor, K474.
Rondó em lá menor, K511.
Alfred Brendel (piano)


Internet

Alfred Brendel
Official Site
/ Calouste Gulbenkian Foundation / Interviews / Wikipedia

01/06/2006

Pianistas #12: Vianna da Motta (1868-1948)

As artes, musicais incluídas, não são um dos temas favoritos da maioria da nossa comunicação social, mais atenta a outras expressões que garantam maiores audiências. Por tabela, os criadores artísticos são igualmente ignorados e, por consequência, é comum ver alguns dos nossos maiores vultos serem olimpicamente esquecidos. Alguns leitores deste blogue têm mencionado este facto, exortando-me, ao mesmo tempo, a dar uma maior atenção aos músicos portugueses.

Vianna da Motta, pianista e compositor, foi um grande músico português, aluno de Hans von Bülow (1830-1894) e Franz Liszt (1811-1886) e amigo pessoal de Ferruccio Busoni (1866-1924). Este último chegou a dedicar a Vianna da Motta a transcrição de prelúdios corais de Bach (1685-1750). Existe até um livro, editado pela Caminho, com a correspondência trocada entre os dois, principalmente durante a 1ª Grande Guerra, quando ambos se refugiaram na Suíça (o português em Genebra, Busoni em Zurique). Vianna da Motta tinha ido estudar para Berlim em 1882, graças a uma bolsa concedida pelo rei D. Fernando II (1816-1885) e pela condessa de Edla.

Na última década do século XIX era já um pianista conceituado, com uma primeira turné pelos Estados Unidos e inúmeros concertos no velho continente. Em 1917 deu-se o regresso, definitivo, a Portugal, tendo sido director do Conservatório de Lisboa durante 2 décadas. Manteve em paralelo a carreira de pianista internacional, tendo representado Portugal nas comemorações do centenário da morte de Ludwig van Beethoven (1770-1827), que decorreram em Viena.

Vianna da Motta faleceu há 58 anos, no dia 1 de Junho de 1948.


Internet

Vianna da Motta
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