Já lamentei aqui várias vezes ao longo dos últimos anos o desaparecimento de alguns dos meus intérpretes favoritos, e fui agora de novo confrontado com mais um acontecimento nefasto, a morte do maestro australiano Charles Mackerras, ocorrida ontem em Londres.
Em Novembro de 2006 listei alguns dos discos mais representativos deste maestro, de acordo, naturalmente, com o meu critério. Desde então houve várias e significativas adições ao catálogo, actualização que farei logo que tenha tempo disponível.
Pouco depois do final da 2ª Guerra Mundial, em 1947, as relações entre o bloco de leste, liderado pela União Soviética, e o ocidental, encimado pelos Estados Unidos, passaram a ser particularmente tensas, e apenas em 1991, com a perestroika de Mikhail Gorbachev (1931-), o clima ficou desanuviado o suficiente para se poder ter considerado que tinha chegado ao fim a guerra fria, que foi como ficou conhecido esse período.
Se o site do Concurso Internacional Tchaikovsky de Moscovo estivesse acessível, o que já não acontece há pelo menos 1 ano (ou mudou-se para outras bandas e eu não consigo dar com ele...), rapidamente nos aperceberíamos de um facto extraordinário que se deu logo na sua primeira edição, em 1958; assim sendo, e para não deixar os estimados leitores numa ânsia incontrolada, refiro que o vencedor do primeiro prémio na classe de piano nesse ano de estreia, em plena guerra fria, portanto, foi Van Cliburn, um pianista... americano! Uma coisa impensável, que fez deste herói improvável o primeiro best-seller da música clássica.
A competição tinha sido concebida para demonstrar a supremacia dos soviéticos no que aos grandes românticos dizia respeito, e não estava preparada para aquele "louro do Texas", um calmeirão que deixou o público em êxtase com as interpretações do Concerto para Piano Nº1 de Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) e do Concerto para Piano Nº3 de Sergei Rachmaninov (1873-1943). Um dos mais convencidos do júri foi o já nosso bem conhecido Sviatoslav Richter (1915-1997) que, desprezando as regras do concurso, deu nota 100 a Van Cliburn, "o único pianista presente", e correu todos os outros concorrentes a zero... Uma coisa memorável, ainda para mais preservada para a posteridade, pois as referidas interpretações encontram-se disponíveis em CD.
Van Cliburn celebra hoje o seu 76º aniversário.
CD
Van Cliburn - Final of the 1958 Tchaikovsky Competition Piotr Ilyich Tchaikovsky Piano Concerto No.1 in B flat minor, Op.23. Sergei Rachmaninov Piano Concerto No.3 in D minor, Op.30. Dmitri Kabalevsky Rondo in A minor, Op.59. Van Cliburn (piano) Moscow Philharmonic Orchestra Kyrill Kondrashin Testament SBT1440
Temos estado ausentes, mas sempre empenhados nas nossas actividades quotidianas. O regresso aqui ao desNorte far-se-á lenta mas seguramente, com as coisas da música ainda como pilar principal, e outros temas de interesse (viagens, fotografia) a pontuarem ocasionalmente. Enquanto andámos longe destas paragens continuámos a comprar discos, a ouvir música e a ler sobre música, embora não tanto como desejaríamos, pois a vida não está fácil para ninguém (pelo menos para ninguém que conheçamos), e o tempo disponível para os hobbies já não é o que era.
O que não mudou foi a nossa paixão pela música do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911), um dos grandes sinfonistas de todos os tempos. Nos últimos dias, em particular, temos andado às voltas com a sua 4ª Sinfonia, talvez a mais atípica que compôs. Mais jovial que qualquer uma das anteriores, é também a de menor duração, para já não falar do facto de ter nascido ao contrário; na verdade, o quarto e último andamento resultou do aproveitamento de sobras do ciclo de canções Das Knaben Wunderhorn, tendo os outros 3 andamentos sido compostos a partir dele.
Uma grande sinfonia, com algumas excelentes gravações disponíveis no mercado, pelo que temos dado o nosso precioso tempo por muito bem empregue...
Gustav Mahler nasceu há 150 anos, no dia 7 de Julho de 1860.
P.S.
Notícias perturbadoras, estas que nos chegam de longe. Um dos nossos pianistas de eleição, além de maestro de créditos mais do que firmados. Fazemos votos para que tudo não passe de um lamentável mal-entendido, mas...
CDs
Gustav Mahler Symphony No.4. Juliane Banse (soprano) Cleveland Orchestra Pierre Boulez Deutsche Grammophon 463 257-2 (1998)
Gustav Mahler Symphony No.4. Margaret Price (soprano) London Philharmonic Orchestra Jascha Horenstein Classics for Pleasure 5 74882-2 (1970)
Gustav Mahler Symphonies 1-10. Das Lied von der Erde. Kölner Rundfunk-Sinfonieorchester Gary Bertini EMI Classics 3 40238-2 (1984, 1985, 1987, 1990, 1991)
Gustav Mahler Symphony No.4. Juliane Banse (soprano) Staatskapelle Dresden Giuseppe Sinopoli Profil PH07047
Bruno Walter The Vienna Farewell Concert. Franz Schubert Symphony No.8 in B, "Unfinished". Gustav Mahler Symphony No.4 in G. Three Lieder. Elisabeth Schwarzkopf (sop) Vienna Philharmonic Orchestra Bruno Walter Music & Arts CD-4705(2)
SACD
Gustav Mahler Symphony No.4. Miah Persson (soprano) Budapest Festival Orchestra Iván Fischer Channel Classics CCSSA26109 (2008)
O russo Arcadi Volodos (1972-) passa por ser um dos mais reputados pianistas da actualidade, com vários e significativos prémios listados no seu curriculum vitae. No último Sábado deu um recital na Casa da Música, a que tivemos o prazer de assistir. Por motivos que não interessa agora aqui trazer (até para não ferir certas susceptibilidades...), foi a nossa primeira ida este ano àquela casa, e temos apenas mais uma visita programada até Dezembro, para ocasiões especialmente seleccionadas.
Depois de, no dia anterior, os VIPs terem enchido a sala para o concerto da celebração dos 5 anos da referida casa, seria de esperar que a mesma se revelasse insuficiente para acolher todos os interessados em ouvir tão ilustre músico. Puro engano, pois as nossas elites, sempre tão despachadas em aparecer em eventos sociais, primam pela ausência em eventos apenas culturais; foi o que aconteceu no Sábado, apenas um dia depois de terem sido apontadas como refinadas melómanas e frequentadoras assíduas daquele espaço... Não deixa de ser um pensamento curioso, imaginar que o tipo de assistência a estes espectáculos depende fortemente do facto de a revista Caras tencionar ou não enviar um repórter; lá dizia o ditado, "Quem vê Caras vê coirões"...
Um dos primeiros discos que aqui trouxe, no já longínquo mês de Setembro de 2004, ofereceu-nos a Sinfonia Nº2 de Johannes Brahms (1833-1897) interpretada pela Orquestra do Concertgebouw, de Amesterdão, dirigida pelo maestro Willem Mengelberg. Nessa altura prometi que voltaria a este maestro holandês, promessa hoje cumprida, 5 anos e meio depois; mais vale tarde do que nunca...
Mengelberg foi director musical da principal orquestra de Amesterdão durante 50 anos, entre 1895 e 1945, num exemplo pouco habitual de longevidade. E só não se aguentou mais tempo nessa posição porque foi de lá corrido mal a 2ª Grande Guerra terminou, por suspeitas de menor antipatia para com os invasores nazis durante a ocupação da Holanda. Da proibição inicial de voltar a trabalhar no país natal passou-se para uma pena de 6 anos, após recursos interpostos pelos seus advogados, só que Mengelberg, que tinha passado a residir na Suíça, faleceu 2 meses antes da sentença estar cumprida.
Pelo caminho, e de novo de volta às questões musicais, tornou-se amigo e grande intérprete das obras de um dos meus compositores de eleição, Gustav Mahler (1860-1911), e estreou obras de alguns dos mais importantes compositores do século XX, como Paul Hindemith (1895-1935), Béla Bartók (1881-1945), Darius Milhaud (1892-1974) e Ottorino Respighi (1879-1936). A importância do papel que teve no mundo da música atesta-se ainda pelo facto de o compositor Richard Strauss (1864-1949) lhe ter dedicado um dos seus poemas sinfónicos, Ein Heldenleben.
Willem Mengelberg nasceu há 139 anos, no dia 28 de Março de 1871.
CDs
Johannes Brahms Symphonies - No.2 in D, Op.73; No.4 in E minor, Op.98. Concertgebouw Orchestra Willem Mengelberg Teldec 0927 42662-2
Christoph Willibald Gluck Alceste - Overture. Franz Schubert Rosamunde, D797 - Overture. Symphony No.9 in C major, 'Great', D944. Concertgebouw Orchestra Willem Mengelberg Opus Kura OPK2071 (1935, 1938, 1942)
Luigi Cherubini Anacreón Overture. Antonín Dvorák Cello Concerto in B minor, Op.104. César Franck Symphony in D minor. Paul Tortelier (violoncelo) French Radio National Orchestra Willem Mengelberg Malibran Music CDRG188 (1944)
Hector Berlioz La Carnaval Romain Overture, Op.9. Frédéric Chopin Piano Concerto No.2 in F minor, Op.21. Pyotr Ilyich Tchaikovsky Symphony No.6 in B minor, Op.74, 'Pathétique'. Alfred Cortot (piano) French Radio National Orchestra Willem Mengelberg Malibran Music CDRG189 (1944)
Não sei se se lembram, mas a culpa do fracasso da estreia da Sinfonia Nº1 de Sergei Rachmaninov (1873-1943), em Março de 1897, foi desde logo atribuída ao maestro, o igualmente compositor russo Alexander Glazunov (1865-1936), tendo havido muito boa gente que chegou a suspeitar que ele estivesse com uns copos a mais..., única forma de explicar tão desastrada prestação.
Não custa muito acreditar que Glazunov fosse melhor compositor do que regente, mas sabe-se que não era um maestro tão mau quanto isso; o que também se sabe é que se empenhava mais quando se tratava de interpretar as suas próprias obras. Não nos admiramos, então, quando verificamos que apenas um mês antes do referido espalhanço, tenha estreado com sucesso a sua Sinfonia Nº6; tal como aconteceu com a sinfonia de Rachmaninov, também dessa vez foi Glazunov quem dirigiu a orquestra, só que com resultados bem melhores!
O uruguaio José Serebrier (1938-) é também compositor e maestro, só que, no caso dele, o reconhecimento internacional deve-se principalmente às suas actividades de regência de orquestras. Esta gravação da Sinfonia Nº6 de Glazunov vem reforçar o seu prestígio na interpretação dos grandes compositores russos, contando já na sua discografia, por exemplo, com alguns excelentes discos com obras de Piotr Iliych Tchaikovsky (1840-1893).
Alexander Glazunov faleceu há 74 anos, no dia 21 de Março de 1936.
Alexander Glazunov Symphony No.6 in C minor, Op.58. La Mer, Op.28. Introduction and Dance from Salome, Op.90. Royal Scottish National Orchestra José Serebrier Warner Classics 2564 69627-0 (2008)
A primeira vez que por aqui falei do compositor russo Sergei Rachmaninov (1873-1943) foi em Outubro de 2005, e desde essa altura tem sido visita frequente aqui do burgo. O que volta a acontecer hoje, e de novo por causa de um dos seus concertos para piano e orquestra.
Rachmaninov compôs 4 concertos para piano, sendo que o último foi simultaneamente a primeira obra que escreveu depois de se ter mudado para os Estados Unidos, país para onde se tinha mudado em consequência da Revolução Bolchevique de 1917.
Quando foi para o Novo Mundo, teso que nem um virote, a sua maior preocupação era ganhar dinheiro, pelo que optou por se dedicar quase por inteiro à carreira de pianista, esquecendo por uns tempos a regência e a composição. Só em 1926 voltaria então a compor, escrevendo o referido Concerto para Piano Nº4, que seria estreado no dia 18 de Março de 1927, passam hoje 83 anos, com o próprio compositor ao piano e o já nosso conhecido Leopold Stokowski (1882-1977) a dirigir a orquestra (de Filadélfia). Uma dupla de peso...
CDs
Sergei Rachmaninov Piano Concertos - No.1 in F sharp minor, Op.1; No.3 in C minor, Op.18; No.3 in D minor, Op.30; No.4 in G minor, Op.40. Rhapsody on a theme of Paganini, Op.43. Stephen Hough (piano) Dallas Symphony Orchestra Andrew Litton Hyperion CDA67501/2 (2004)
Sergei Rachmaninov Piano Concertos - No.1, Op.1; No.2, Op.18; No.3, Op.30; No.4, Op.40. Rhapsody on a Theme of Paganini, Op.43. Sviatoslav Richter, Yakov Zak, Lev Oborin (pianos) USSR State Symphony Orchestra, Kurt Sanderling Moscow Symphony Orchestra, Kyrill Kondrashin USSR State Symphony Orchestra, Kyrill Kondrashin APR APR6005 (1947, 1949, 1952, 1954, 1955)
Sergei Rachmaninov Piano Concertos - No.1 in F sharp minor, Op.1 (ver. 1917); No.2 in C minor, Op.18; No.3 in D minor, Op.30; No.4 in G minor, Op.40. Sergei Rachmaninov (piano) Living Era AJD2014
Maurice Ravel Piano Concerto in G. Sergei Rachmaninov Piano Concerto No.4 in G minor, Op.40. Arturo Bendetti Michelangeli (piano) Philharmonia Orchestra Ettore Gracis EMI 5 67238-2
Depois de um longo interregno, por absoluta falta de tempo para me dedicar aqui a este canto, estou de volta às lides no desNorte, e procurarei manter um ritmo minimamente regular de colocação de novos textos.
Este regresso fica ainda marcado por um outro regresso, no caso da família Busch; há mais de dois anos, em Janeiro de 2008, trouxe aqui um disco com gravações de um duo que se salientou na primeira metade do século XX, formado pelo pianista Rudolf Serkin (1903-1991) e pelo violinista Adolf Busch (1891-1952). Pois um dos irmãos de Adolf, Fritz Busch, fez igualmente carreira no mundo da música, mas como regente. Fritz nunca alcançou a fama do seu irmão mais novo, mas não deixou de construir uma carreira de prestígio, tendo efectuado gravações de excelente nível, de que listo algumas mais abaixo. Distinguiu-se principalmente na interpretação das obras dos compositores do período clássico, e são essas que aparecem em maioria nestas gravações. Chamo a atenção em particular para um dos discos, pelo facto de juntar os dois irmãos Busch.
Fritz Busch nasceu há 120 anos, no dia 13 de Março de 1890.
CDs
Giuseppe Verdi Otello. Licia Albanese (soprano), Martha Lipton (meio-soprano), Ramon Vinay, John Garris, Robert Hayward (tenores), Leonard Warren (barítono), Nicola Moscona, Clifford Harvout, Philip Cinsman (baixos) New York Metropolitan Opera Chorus & Orchestra Fritz Busch Preiser 90377 (1948)
Wolfgang Amadeus Mozart Don Giovanni. John Brownlee, Roy Henderson (barítonos), Ina Souez, Luise Helletsgruber, Audrey Mildmay (sopranos), Koloman von Pataky (tenor), Salvatore Baccaloni, David Franklin (baixos) Glyndebourne Festival Chorus Glyndebourne Festival Orchestra Fritz Busch Naxos Historical 8.110135-7 (1936)
Great Conductors of the 20th Century - Fritz Busch Danish State Radio Symphony Orchestra London Philharmonic Orchestra Fritz Busch EMI 5 75103-2
Adolf Busch Plays Bach and Beethoven Johann Sebastian Bach Violin Concerto in A minor, BWV1041. Ludwig van Beethoven Violin Concerto in D major, Op.61. Romances - No.1 in G major, Op.40; No.2 in F major, Op.50. Adolf Busch (violino) Busch Chamber Players New York Philharmonic Symphony Orchestra Fritz Busch Music & Arts CD1183 (1942, 1943)
A poetisa inglesa Edith Sitwell (1887-1964), de ascendência aristocrática, além de ter uma figura que não a ajudava muito, desengonçada do alto do seu 1,83m, ainda a piorava espetando um turbante fora da moda na extremidade superior, tornando-a num alvo preferido dos seus (numerosos) detractores. Além disso a senhora, excêntrica por natureza, depois de uma infância infeliz marcada por uma relação difícil com os pais, achou por bem entreter-se a escandalizar a classe média inglesa. Foi obviamente atacada de todas as formas e feitios, o que deu origem a frequentes e azedas trocas de palavras, pois não gostava de deixar ninguém sem resposta.
Começou muito jovem a escrever poemas, tendo publicado o primeiro em 1913. Alguns anos depois, em 1918, publicou os primeiros poemas da série Façade. Segundo o livro que acompanha o disco, o título Façade vem do facto de um certo pintor ter afirmado que Edith Sitwell "até podia ser muito esperta, mas não passava de uma fachada!". Não sei se terá apreciado o mimo, mas, pelo menos, sempre ganhou um título para os poemas...
Edith Sitwell tinha 2 irmãos, os escritores Osbert Sitwell (1892-1969) e Sacheverell Sitwell (1897-1988) que, a partir de 1919, partilharam uma casa em Chelsea com o compositor William Walton (1902-1983). Quando Osbert e Sacheverell se lembraram de musicar os poemas da irmã viraram-se, naturalmente, para Walton que, apesar de achar a tarefa nada fácil, lá se conseguiu desenrascar, após muitos ensaios com a própria autora. A primeira apresentação, privada, teve lugar há 88 anos, no dia 24 de Janeiro de 1922.
A própria Sitwell gravou por duas vezes Façade, a segunda das quais, que é a que consta deste disco, em 1954, acompanhada pelo já nosso bem conhecido tenor Peter Pears (1910-1986). Este é, aliás, um disco extraordinário pois, além das participações já referidas, conta ainda com o actor Laurence Olivier (1907-1989), o próprio William Walton a dirigir a Orquestra Filarmonia, e ainda o grande maestro Malcolm Sargent (1895-1967) à frente da Orquestra Sinfónica de Londres. Mas que disco...
William Walton Façade. Scenes from Henry V. Orb and Sceptre Coronation March. Edith Sitwell, Laurence Olivier, Peter Pears (narradores) Philharmonia Chorus English Opera Group Ensemble, Anthony Collins Philharmonia Orchestra, William Walton London Symphony Orchestra, Malcolm Sargent alto ALC 1026 (1944, 1954)
Um daqueles discos que levaria para uma ilha deserta, não só pela excelência da interpretação como também por toda a carga simbólica que lhe está associada. Albert Schweitzer (1875-1965) foi um homem de interesses vários, começando por estudar teologia, fazendo pouco tempo depois por um doutoramento em filosofia, após o que se licenciou em medicina e ainda encontrou tempo para efectuar estudos musicais... E não foi um músico qualquer, se é que a expressão é adequada: extraordinário organista, desenvolveu um conhecimento aprofundadíssimo sobre a obra do seu compositor de eleição, Johann Sebastian Bach (1685-1750), sobre o qual escreveu dois livros; dedicou-se ainda ao estudo da construção de órgãos, área em que rapidamente se tornou num dos mais reputados peritos.
Em 1905, Albert Schweitzer edita o seu primeiro livro sobre Bach, J. S. Bach: Le Musicien-Poète e, nesse mesmo ano inicia os estudos de medicina, com o objectivo de ir para África; em 1913 foi para Lambaréne, África Equatorial (actualmente Gabão), onde fundou um hospital, entre muitas outras actividades que acabaram por lhe valer o Prémio Nobel da Paz em 1952. Uma das formas que encontrou de arranjar fundos para as suas actividades humanitárias foi a de dar regularmente recitais, pelo que não deixou de tocar pelo facto de passar grandes períodos de tempo em Lambaréne. A partir de 1948, em particular, Albert Schweitzer passou a viajar mais frequentemente para a Europa e, a par dos referidos recitais, efectuou ainda algumas gravações.
Este disco triplo da Andromeda contém algumas dessas gravações, efectuadas em França em 1951 e 1952. Um disco precioso, mais uma vez resultado de gravações efectuadas na década de 1950, para mim uma década vintage no que às gravações da grande música diz respeito.
Albert Schweitzer nasceu há 135 anos, no dia 14 de Janeiro de 1875.
Albert Schweitzer Johann Sebastian Bach The complete American Columbia Recordings published for the first time in one box. Albert Schweitzer (órgão) Andromeda ANDRCD 5123
O primeiro violoncelista a ter honras de destaque nestas páginas foi o francês Pierre Fournier, já lá vão mais de 4 anos e meio. Na altura, e como é mais ou menos habitual nos textos que aqui vou espetando, deixei uma pequena lista de discos de referência, daqueles que evidenciam o nível artístico do intérprete. A (mais ou menos) recente moda de ir ao baú buscar gravações antigas e de as colocar à venda a preços módicos faz com que novos discos históricos vão aparecendo a bom ritmo. Uma óptima notícia, pois claro, mas com um pequeno senão: qualquer lista actualizada fica rapidamente obsoleta...
Fournier não tem sido excepção a essa regra, e nos últimos anos temos sido brindados com a edição de alguns discos de audição essencial. Primeira razão para a ele ter voltado neste momento. Entretanto alguma alma caridosa lembrou-se de inventar o YouTube, e outras almas não menos caridosas deram-se ao trabalho de lá colocar milhões de vídeos. A maior parte deles é puro lixo, mas muitos são documentos estimáveis, alguns dos quais incluem gravações de interpretações de Pierre Fournier. Segunda razão para este regresso. Penso que havia uma terceira razão, não me lembro agora qual, mas farão a delicadeza de aceitar que as duas apresentadas são de peso...
Pierre Fournier faleceu há 24 anos, no dia 8 de Janeiro de 1986.
CDs
Pierre Fournier: Aristocrat of the Cello Pierre Fournier (violoncelo), Rudolf Firkusny, Jean Fonda, Lamar Crowson (pianos) Berlin Philharmonic Orchestra George Szell, Alfred Wallenstein Deutsche Grammophon 477 5939
Luigi Boccherini Cello Concerto No.9 in B flat major, G482. Robert Schumann Cello Concerto in A minor, Op.129. Edward Elgar Cello Concerto in E minor, Op.85. Pierre Fournier (violoncelo) NDR Symphony Orchestra Cologne Radio Symphony Orchestra Georg Solti, Hans Rosbaud Archipel ARPCD0410 (1955-58)
Ludwig van Beethoven Complete Works for Cello and Piano. Pierre Fournier (violoncelo), Friedrich Gulda (piano) Deutsche Grammophon 477 6266 (1959)
Munch Conducts Romantic Favourites Robert Schumann Cello Concerto in A minor, Op.129. Symphony No.4 in D minor, Op.120. Richard Strauss Tod und Verklärung. Don Juan, Op.20. Orchestral Songs. Ein Heldenleben, Op.40. Divertimento (after Couperin), Op.86. Johannes Brahms Concerto for Violin, Cello and Orchestra, Op.102. Symphony No.2, Op.73. Academic Festival Overture, Op.80. Piano Concerto No.1. Antonín Dvorák Symphony No.9 in E minor, 'From the New World', Op.95. Pierre Fournier, Samuel Mayes (violoncelos), Zino Francescatti, Richard Burgin (violinos), Rudolph Serkin (piano), Irmgard Seefried (soprano) Boston Symphony Orchestra Charles Munch West Hill Radio Archive WHRA6017 (1951, 1953, 1954, 1955, 1956, 1957)
A música checa, apesar de não tão reconhecida como a alemã ou a austríaca, por exemplo, tem revelado extraordinários compositores ao longo dos tempos, nomeadamente desde o século XVII. Os seus expoentes foram, naturalmente, Antonín Dvorák (1841-1904) e Bedrich Smetana (1824-1884), mas, depois deles, já nos brindou com compositores como Leos Janácek (1854-1928), Vítezslav Novák (1870-1949), que ainda não passou por estas páginas, e Bohuslav Martinu (1890-1959).
Outro nome incontornável é o de Josef Suk (1874-1935) que, não sendo tão aventureiro como Janácek, acabou, de alguma forma, por representar uma certa extensão da obra de Dvorák. Os dois, aliás, estiveram intimamente ligados, ou não tivesse Suk sido aluno de Dvorák no Conservatório de Praga e, em 1898, casado com a filha deste, Otilie. Tiveram ainda em comum a sorte de ter um consagrado Johannes Brahms (1833-1897) a ajudar ao início das suas carreiras, promovendo as suas primeiras obras; no caso de Suk tal sucedeu com o seu opus 6, a Serenade for Strings.
O falecimento de Dvorák, em Maio de 1904, levou Suk a iniciar a escrita daquela que viria a ser a sua obra mais emblemática, a Sinfonia Asrael. A morte de Otilie, pouco mais de um ano depois, marcou mais um momento trágico, que o levou a rever a obra e a torná-la ainda mais sombria. Por altura do falecimento da esposa, Suk encontrava-se a trabalho no 4º andamento desta sinfonia; acabou por largar aquilo que dele já tinha composto, e escreveu um novo de raiz, que é geralmente considerado como sendo um retrato de Otilie, que nos é apresentada pelo violino. Foi também por esta altura que Suk adicionou o sub-título à obra, Asrael (ou Azrael), que é o Anjo da Morte, aquele que vigia os moribundos e tira as almas dos corpos. Esta sinfonia foi estreada no dia 3 de Fevereiro de 1907.
Josef Suk nasceu há 136 anos, no dia 4 de Janeiro de 1874.
Josef Suk Asrael, Op.27. Helsinki Philharmonic Orchestra Vladimir Ashkenazy Ondine ODE 1132-6 (2008)
Este é o dia dos maestros, assinalando-se o aniversário do nascimento ou do falecimento de vários (quais?!). Um dos constantes dessa lista é o inglês Antonio Pappano, que hoje celebra o seu 50º aniversário, o que, aqui para este vosso escriba, significa estarmos perante um jovem maestro. Claro que ele é igualmente conhecido como pianista, mas essa sua faceta não é hoje para aqui chamada.
Pappano é o director musical da Royal Opera House, Covent Garden, desde 2002, o que fez dele o mais jovem de sempre a assumir tal posição. Um feito e tanto, se nos lembrarmos de que o espaço começou a funcionar como uma casa de ópera em meados do século XIX... É à lírica, aliás, que pertencem algumas das suas mais significativas gravações, e que listo mais abaixo. É a minha lista pessoal, bien sur, discutível como qualquer uma...
CDs
Giacomo Puccini La Rondine. Angela Gheorghiu, Inva Mula-Tchako, Patrizia Ciofi (sopranos), Roberto Alagna, William Matteuzzi, Gareth Roberts (tenores), Alberto Rinaldi (barítono), Riccardo Simmonetti (baixo-barítono) London Voices London Symphony Orchestra Antonio Pappano EMI 5 56338-2 (1996)
Giacomo Puccini Messa di Gloria in A flat. Preludio sinfonico in A. Crisantemi (arr. Cpsr). Roberto Alagna (tenor), Thomas Hampson (barítono) London Symphony Chorus London Symphony Orchestra Antonio Pappano EMI 5 57159-2 (2000)
Giacomo Puccini Tosca. A. Gheorghiu (soprano), R. Alagna, D. Cangelosi (tenores), R. Raimondi (barítono), M. Muraro, E. Fissore, S Coliban, G. Howell (baixos) Royal Opera House Chorus Royal Opera House Orchestra Antonio Pappano EMI 5 57173-2 (2000)
Giacomo Puccini Madama Butterfly. Angela Gheorghiu (soprano), Jonas Kaufmann, Gregory Bonfatti (tenores), Enkeledja Shkosa (meio-soprano), Fabio Capitanucci (barítono), Raymond Aceto (baixo) Accademia di Santa Cecilia Chorus Accademia di Santa Cecilia Orchestra Antonio Pappano EMI 2 64187-2 (2008)
Richard Wagner Siegfried - Act 3 scene 3. Tristan und Isolde - Act 2 scene 2 (concert version starting from 'O sink hernieder'). Deborah Voigt (soprano), Violeta Urmana (meio-soprano), Plácido Domingo (tenor) Royal Opera House Orchestra Antonio Pappano EMI 5 57004-2 (1999)
Richard Wagner Tristan und Isolde. Plácido Domingo, Jared Holt, Ian Bostridge, Rolando Villazón (tenores), Nina Stemme, Mihoko Fujimura (sopranos), René Pape (baixo), Olaf Bär, Matthew Rose (barítonos) Royal Opera House Chorus Royal Opera House Orchestra Antonio Pappano EMI 5 58006-2 (2004-5)
Jules Massenet Manon. A. Gheorghiu, A. M. Panzarella (sopranos), R. Alagna, G. Ragon (tenores), E. Patriarco, N. Rivenq (barítonos), J. van Dam (baixo-barítono), S. Koch (meio-soprano) Chorus of La Monnaie Symphony Orchestra of La Monnaie Antonio Pappano EMI 5 57005-2 (1999)
Sergei Rachmaninov Piano Concerto No.1 in F sharp minor, Op.1. Piano Concerto No.2 in C minor, Op.18. Leif Ove Andsnes (piano) Berliner Philharmoniker Antonio Pappano EMI 4 74813-2 (2005)
Piotr Ilyich Tchaikovsky Francesca da Rimini. Romeo and Juliet. 1812. Eugene Onegin - Waltz; Polonaise. Santa Cecilia Academy Chorus Santa Cecilia Academy Orchestra Antonio Pappano EMI 3 70065-2 (2005)
Romance Antonín Dvorák Rondo, B181. Alexander Glazunov Mélodie, Op.20 No.1. Édouard Lalo Cello Concerto. Han-Na Chang (violoncelo) Santa Cecilia Academy Orchestra Antonio Pappano EMI 3 82390-2 (2005)
Richard Strauss Vier letzte Lieder. Capriccio - Interlude (Moonlight Music); Morgen mittag um elf! Salome - Ach, du wolltest mich nicht deinen Mund… Nina Stemme (soprano), Liora Grodnikaite (meio-soprano), Gerhard Siegel (tenor), Jeremy White (baixo) Royal Opera House Orchestra Antonio Pappano EMI 3 78797-2 (2006)
Ottorino Respighi Fontane di Roma. Pini di Roma. Feste romane. Il tramonto. Christine Rice (soprano) Santa Cecilia Academy Orchestra Antonio Pappano EMI 3 94429-2 (2007)
Giuseppe Verdi Messa di Requiem. Anja Harteros (soprano), Sonia Ganassi (meio-soprano), Rolando Villazón (tenor), René Pape (baixo) Santa Cecilia Academy Chorus Santa Cecilia Academy Orchestra Antonio Pappano EMI 6 98936-2 (2009)