Pelo menos no que à música de câmara diz respeito podemos, sem correr o risco de dizer grandes disparates, dividir em duas fases a vida do compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897): uma primeira, até à volta de 1864, em que não se distinguiu particularmente no género, e uma segunda totalmente distinta, com uma produção bem mais vasta e interessante.
A obra charneira foi o Quinteto com Piano, Op.34, que conheceu pelo caminho várias formas e feitios até chegar à versão definitiva em 1865. Começou, entre 1861 e 1862, por ser um quinteto de cordas (que teve uma recepção fria), passou depois para uma obra para dois pianos (com uma estreia a roçar o desastre), e só a partir do Verão de 1864 é que o compositor pegou de novo na partitura e a transformou numa obra para piano e quarteto de cordas.
Houve uma primeira audição privada com a presença da dedicatária, a princesa Anna de Hesse (1843-1865) e a estreia pública, com assinalável sucesso, teve lugar no dia 22 de Julho de 1866, passam hoje 146 anos.
CDs
Johannes Brahms Complete String Quartets. Quintets. Sextets.
Christoph Eschenbach (piano), Cecil Aronowitz (viola), Karl Leister (clarinete),
Georg Donderer, William Pleeth (violoncelos)
Amadeus Quartet
Deutsche Grammophon 474 358-2 (2003)
Johannes Brahms Piano Quintet in F minor, Op.34.
Andreas Staier (piano)
Leipzig Quartet
Dabringhaus und Grimm MDG307 1218-2 (2002)
Johannes Brahms Piano Quintet in F minor, Op.34.
Maurizio Pollini (piano)
Quartetto Italiano
Deutsche Grammophon 474 839-2 (1980)
Johannes Brahms Piano Quintet in F minor, Op.34. String Quartet No.2, Op.51 No.2.
Stephen Hough (piano)
Takács Quartet
Hyperion CDA67551 (2007)
Johannes Brahms Piano Quintet in F minor, Op.34. String Quartet No.1, Op.51 No.1.
Silke Avenhaus (piano)
Arcanto Quartet
Harmonia Mundi HMC90 2000
Robert Schumann Carnaval, Op.9. Johannes Brahms Piano Quintet in F minor, Op.34.
Myra Hess (piano)
Griller Quartet
APR APR5646 (1942, 1950)
Robert Schumann Piano Quintet, Op.44. Johannes Brahms Piano Quintet in F minor, Op.34.
Leif Ove Andsnes (piano)
Artemis Quartet
Virgin Classics 3 95143-2 (2006)
Desde a altura em que publiquei os primeiros textos neste blogue muita coisa mudou no mundo da música, não só ao nível de novos intérpretes, gravações e editoras, como à intensificação da reedição de antigas gravações, numa incansável ida aos baús que nos mantém na expectativa da próxima jóia a ser desvendada.
É um pouco de tudo isto que justifica o regresso ao compositor norte-americano de origam suíça Ernest Bloch, falecido no dia 15 de Julho de 1959, passam hoje 53 anos. Em 2005 apontei apenas para as suas principais obras com temas judaicos (o tema mais presente em tudo o que compôs na década de 1910), agora segue uma versão melhorada e aumentada, mostrando um pouco do que de bom se foi editando nos últimos anos.
CDs
Ernest Bloch Schelomo. Max Bruch Kol Nidrei, Op.47. Canzone, Op. 55. Adagio on Celtic Themesa, Op. 56. Ave Maria, Op. 61.
Ofra Harnoy (violoncelo)
London Philharmonic Orchestra
Charles Mackerras
RCA Victor Red Seal 60757-2 (1991)
Ernest Bloch Violin Sonatas - No.1; No.2, 'Poème mystique'. Suite hébraïque. Abodah. Melody.
Miriam Kramer (violino), Simon Over (piano)
Naxos 8.554460 (1998)
Ernest Bloch Suite hébraïque. Two Pieces for Viola and Piano. Concertino. Suite for Viola and Piano. Suite for Viola (unfinished).
Paul Cortese (viola), Michel Wagemans (piano), Maarika Jarvi (flauta)
ASV CDDCA1094
(2000)
Ernest Bloch Piano Quintets - No.1; No.2. Paysages Landscapes. Night. Two Pieces.
Piers Lane (piano), Goldner String Quartet
Hyperion CDA67638 (2007)
Ernest Bloch Schelomo. Sacred Service. Concerto Grosso No.1 for String Orchestra and Piano. Violin Concerto in A minor.
Mstislav Rostropovich (violoncelo), Francis Grier (piano), Yehudi Menuhin (violino),
Douglas Lawrence (barítono)
Orchestre National de France, Leonard Bernstein
Utah Symphony Choir & Orchestra, Maurice Abravanel
Academy of St Martin in the Fields, Neville Marriner
Philharmonia Orchestra, Paul Kletzki
EMI Classics 4 56319-2
From Jewish Life Ernest Bloch Schelomo. From Jewish Life - Prayer. Gerard Schwarz In memoriam. David Diamond Kaddish. Max Bruch Kol Nidrei, Op.47.
Jonathan Aasgaard (violoncelo)
Royal Liverpool Philharmonic Orchestra
Gerard Schwarz
Avie AV2149 (2004, 2005)
Já há algum tempo que andava a seguir o tenor alemão Jonas Kaufmann (1969-), menos dado a espalhafatos que alguns dos seus mais mediáticos competidores, mas já dono de uma senhora reputação. Um seu anterior disco, Romantic Arias, recebeu encómios generalizados (ver, por exemplo, aqui), o mesmo tendo acontecido com aquele que aqui trago hoje, gravado em Dezembro de 2008 e editado em 2009 pela Decca. Desta vez, procurando evitar erros passados, não demorei a adquirir o disco...
Um outro motivo de interesse neste disco reside no maestro de serviço, o italiano Claudio Abbado (1933-), um dos meus preferidos e que, na minha modesta opinião, foi algo injustiçado durante a sua passagem por Berlim. Não foi grandemente apreciado enquanto lá esteve mas, para a defesa da minha tese, invoco algumas das extraordinárias gravações que efectuou (Beethoven, Brahms, Mahler, Mozart, Verdi, ...), já para não falar de várias outras que fez já depois de lá sair. Declaração de interesses: o facto de ser um grande intérprete de Mahler é o suficiente para que a minha admiração por Abbado não tenha limites...
Claudio Abbado nasceu há 79 anos, no dia 26 de Junho de 1933.
Wolfgang Amadeus Mozart Die Zauberflöte - Dies Bildnis ist bezaubernd schön; Die Weisheitslehre dieser Knaben... Wie stark ist nicht dein Zauberton. Franz Schubert Fierrabras - Was quälst du mich, o Miβgeschick!... In tiefbewegter Brust. Alfonso und Estrella - Schon wenn beginnt zu tagen. Ludwig van Beethoven Fidelio - Gott! welch Dunkel hier! Richard Wagner Lohengrin - In fernem Land; Mein lieber Schwan! Die Walküre - Winterstürme wichen dem Wonnemond. Parsifal - Amfortas! - Die Wunde!; Nur eine Waffe taugt.
Jonas Kaufmann (tenor), Margarete Joswig (meio-soprano),
Michael Volle (baixo-barítono)
Coro del Teatro Regio di Parma
Mahler Chamber Orchestra
Claudio Abbado
Decca 478 1463
O compositor americano Philip Glass (1937-) foi um dos que mais contribuiu para a minha transição da música pop/rock para a música erudita, pelas pontes que ele próprio estabeleceu entre esses dois mundos. E assim, ao lote de músicos pelos quais eu nutria uma enorme admiração, como Brian Eno (1948-), David Byrne (1952-) ou Ravi Shankar (1920-), a partir de certa altura foi-se juntando Glass, que com todos eles colaborou. Primeiro com Shankar, que conheceu em Paris em meados da década de 1960, quando lá estudava com a nossa já muito bem conhecida compositora e professora Nadia Boulanger (1887-1979).
Terminados os estudos parisienses, em 1967 deu-se o regresso de Philip Glass a Nova Iorque, mas apenas em 1976 obteve o primeiro sucesso significativo, com a ópera Einstein on the Beach. Na década seguinte colaboraria com Paul Schrader (1946-) na banda sonora do filme Mishima: A Life in Four Chapters, sobre a vida do dramaturgo e novelista japonês Yukio Mishima (1925-1970). Dessa banda sonora Glass extrairia posteriormente um quarteto de cordas que, desse modo, ganharia vida própria, algo explicado pelo próprio compositor: "At the time of writing the film music, I anticipated the String Quartet section would be extracted form the film score and made into a concert piece in its own right".
A estreia pública do Quarteto de Cordas Nº3, "Mishima", teve lugar no dia 10 de Junho de 1985, passam hoje 27 anos.
O nome de Henry Lee Higginson (1834-1919) não dirá muito a muita gente, mas a verdade é que este homem de negócios e filantropo ficará para a história como o fundador da Orquestra Sinfónica de Boston. Começou a trabalhar na ideia em 1856, mas apenas 25 anos depois, na Primavera de 1881, a coisa ganhou realmente forma, culminando no concerto inaugural da orquestra no dia 22 de Outubro desse mesmo ano.
Grande apreciador da tradição musical alemã, Higginson foi indo sucessivamente à Europa central recrutar os maestros titulares, numa lista de prestígio que incluiu, por exemplo, Arthur Nikisch (1855-1922), que a dirigiu entre 1889 e 1893. A este primeiro período da orquestra, o período alemão, seguiu-se, a partir de 1918, o período francês, com a entrada ao serviço de Henri Rabaud (1873-1949) que, contudo, só se aguentou no poleiro 1 ano, sendo substituído por Pierre Monteux (1875-1964), bem menos conservador que o seu antecessor e, curiosamente, grande apreciador da música... alemã. Outra curiosidade tem a ver com o facto de a orientação tendencialmente francesa da orquestra não ter sido interrompida com a entrada, em 1924, do maestro russo Serge Koussevitzky, por várias e boas razões:
Koussevitzky tinha vivido anteriormente em Paris, onde promoveu (e continuou a organizar mesmo depois de se mudar para os Estados Unidos) uma série de concertos (os "Concertos Koussevitzky");
A orquestra manteve uma política de recrutamento de músicos franceses ou com formação musical francesa, para assim garantir o ADN do conjunto.
O sucesso de Koussevitzky à frente da orquestra foi inegável, medido até pelo tempo em que lá se manteve como maestro principal: 25 anos (a anterior melhor marca era de 8...).
Serge Koussevitzky faleceu há 61 anos, no dia 4 de Junho de 1951.
CDs
Sergei Prokofiev
Symphony No.5 in B flat, Op.100. Piano Concerto No.3 in C, Op.26.
Sergei Prokofiev (piano)
Boston Symphony Orchestra, Serge Koussevitzky
London Symphony Orchestra, Piero Coppola
Dutton Laboratories CDBP9706
(1946)
Modest Mussorgsky
Pictures at an Exhibition.
Maurice Ravel
Rapsodie espagnole. Ma Mere l'Oye. Bolero.
Boston Symphony Orchestra
Serge Koussevitzky
Naxos Historical 8.110154
(1930, 1945, 1947)
Great Conductors of the 20th Century - Serge Koussevitzky
Piotr Ilyich Tchaikovsky
Symphony No.5 in E minor, Op.64.
Sergei Rachmaninov
The Isle of the Dead, Op.29.
Franz Liszt
Mephisto Waltz No.1, S110.
Jean Sibelius
Symphony No.7 in C major, Op.105.
Roy Harris
Symphony No.3.
Ludwig van Beethoven
Symphony No.5 in C minor, Op.67.
Boston Symphony Orchestra
BBC Symphony Orchestra
London Philharmonic Orchestra
EMI / IMG Artists 5 75118-2
(1933, 1934, 1936, 1939, 1944, 1945)
Richard Strauss
Don Juan. Op.20.
Béla Bartók
Concerto for Orchestra, Sz116.
Igor Stravinsky
Elegiac Chant - Ode.
Carl Maria von Weber
Oberon - Overture.
Boston Symphony Orchestra
Serge Koussevitzky
Guild GHCD2321
(1943-48)
Ralph Vaughan Williams Symphony No.5 in D. Piotr Ilyich Tchaikovsky Francesca da Rimini, Op.32. Modest Mussorgsky Khovanshchina - Prelude. A Night on the Bare Mountain.
Boston Symphony Orchestra
Serge Koussevitzky
Guild GHCD2324 (1943-48)
Richard Wagner Der fliegende Hollander: Overture. Lohengrin - Act I: Prelude. Parsifal - Act I: Prelude; Act III: Good Friday Spell. Siegfried Idyll. Johannes Brahms Academic Festival Overture, Op.80.
Boston Symphony Orchestra
Serge Koussevitzky
Naxos Historical 8.111283 (1946, 1947, 1949)
Serge Koussevitzky - A Conductor of the 20th Century Wolfgang Amadeus Mozart Symphony No.34 in C major, K338. Ludwig van Beethoven Symphony No.5 in C minor, Op.67. Franz Schubert Symphony No.8 in B minor, D759, 'Unfinished'. Hector Berlioz La Damnation de Faust, Op.24. Harold en Italie, Op.16. Piotr Ilyich Tchaikovsky Romeo and Juliet Overture. Johannes Brahms Symphony No.4 in E minor, Op.98. Academic Festival Overture, Op.80. Richard Wagner Der fliegende Holländer - Overture. Richard Strauss Till Eulenspiegels lustige Streiche, Op.28. Franz Liszt Mephisto Waltz No.1. Jean Sibelius Symphony No.2 in D major, Op.43.
Boston Symphony Orchestra
Serge Koussevitzky
United Archives UAR022
Ludwig van Beethoven Violin Concerto in D, Op.61. Johannes Brahms Violin Concerto in D, Op.77.
Jascha Heifetz (violino)
NBC Symphony Orchestra, Arturo Toscanini
Boston Symphony Orchestra, Serge Koussevitzky
Naxos Historical 8.110936 (1939, 1940)
William Kapell Plays Khachaturian Aram Khachaturian Piano Concerto in D flat. Ludwig van Beethoven Piano Concerto No.2 in B flat, Op.19. Dmitri Shostakovich Preludes, Op.34 - No.5 in D; No.10 in C sharp minor; No.24 in D minor. William Kapell (piano) NBC Symphony Orchestra, Vladimir Golschmann Boston Symphony Orchestra, Serge Koussevitzky Dutton Laboratories CDBP9701
(1944, 1946)
Ludwig van Beethoven Piano Concerto No.2 in B flat, Op.19. Franz Schubert Moment musical, D780 No.3. Waltzes - D145, Nos.2 & 6; D365, Nos.26, 32 & 34. German Dances, D783 - Nos.6 & 7. Ländler, D734 - Nos.1 & 2. Impromptu, D935 No.2. Claude Debussy Children's Corner. Dmitri Shostakovich Three Preludes, Op.34. Frédéric Chopin Piano Sonata No.2 in B flat minor, Op.35. Aram Khachaturian Piano Concerto. Sergei Rachmaninov Rhapsody on a Theme of Paganini, Op.43.
William Kapell (piano)
NBC Symphony Orchestra, Vladimir Golschmann
Boston Symphony Orchestra, Serge Koussevitzky
Chicago Symphony Orchestra, Fritz Reiner
RCA Red Seal 74321 84595-2 (1946, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953)
Com o falecimento do barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau, na passada Sexta-feira, desapareceu um dos mais extraordinários intérpretes do século passado, em particular do lieder alemão. Da longa colaboração que manteve com o pianista inglês Gerald Moore (1899-1987) resultou um legado de enorme valor que inclui, nomeadamente, as canções de Franz Schubert (1797-1828), Robert Schumann (1810-1856) e Hugo Wolf (1860-1903). Estes são 3 dos compositores que aparecem representados num duplo CD que aqui trouxe em Agosto de 2005, aquando da passagem do 80º aniversário de Fischer-Dieskau.
No DVD que acompanha esses CDs o pianista de serviço é Sviatoslav Richter (1915-1997), um dos grandes nomes do piano com quem Fischer-Dieskau colaborou, numa lista que inclui igualmente Daniel Barenboim (1942-), Alfred Brendel (1931-), Jörg Demus (1928-) e Vladimir Horowitz (1903-1989). E não é por acaso que eu refiro estas parcerias; é que, apesar de Fischer-Dieskau ter igualmente brilhado nos palcos operáticos (em Mozart, Strauss e Wagner, nomeadamente), sempre o preferi ouvir quando apenas tinha ao seu lado um pianista. Assim sendo, a minha modesta homenagem a Fischer-Dieskau passa pela audição de Winterreise, precisamente a obra com que se estreou nas récitas, em 1948.
CDs
Dietrich Fischer-Dieskau: Opera Scenes 1976-1992. Wolfgang Amadeus Mozart Le nozze di Figaro - Crudel! Perchè finora; Hai già vinta la causa! Robert Schumann Genoveva - Nichts halt mich mehr; Bald blick ich dich wieder, mein Heimatschloss; Du Golo? Herzlich sei gegrusst. Richard Strauss Arabella - Sie seh'n nicht aus wie jemand.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono), R. Grist, J. Varady, L. Popp (sopranos),
A. Salvan, G. Wewezow, C. Wulkopf, M. Lipovsek (meios-sopranos),
P. Schreier, R. Swensen, P. Seiffert, U. Ress (tenores)
Bavarian State Opera Chorus
Bavarian State Orchestra
Karl Böhm, Wolfgang Sawallisch
Orfeo C545001B (1976, 1977, 1979, 1980, 1982, 1992)
Dietrich Fischer-Dieskau. An die Musik.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono)
Deutsche Grammophon 477 5556
'Dietrich Fischer-Dieskau - Recordings from the Archives'.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono)
Daniel Barenboim, Hartmut Höll, Gerald Moore, Aribert Reimann (pianos),
Yehudi Menuhin (violino), Heinrich Schiff (violoncelo)
EMI Classics 4 55431-2 (1982, 1984)
'Dietrich Fischer-Dieskau: The Great EMI Recordings'.
Dietrich Fischer-Dieskau (barítono)
Sviatoslav Richter, Daniel Barenboim, Wolfgang Sawallisch, Hermann Reutter,
Hartmut Holl, Aribert Reimann, Gerald Moore, Hertha Klunst (pianos)
London Symphony Orchestra, George Szell
New York Philharmonic Orchestra, John Barbirolli
EMI Classics 4 56352-2
O meu professor de inglês do ensino secundário, o professor Macedo, era um calmeirão bem disposto, dotado de um agudo sentido de humor, nunca deixando sem um comentário adequado as nossas respostas mais disparatadas. Quando estas passavam o limite do imaginável limitava-se a disparar um "a ignorância é muito atrevida", ao mesmo tempo que as bochechas bem guarnecidas ajudavam a compor um largo sorriso, que tão bem recordo passados todos estes anos.
Pois a ignorância, no caso a minha, continua a fazer das suas, e foi por via dela que este blogue agora tem o aspecto que tem. Ao procurar resolver um pequeno problema com a template do desNorte, fui brindado com uma mensagem do Blogger informando-me de que esta, pela sua antiguidade, tinha sido descontinuada e que, por via disso, não era mais possível disponibilizar qualquer tipo de suporte. Não dando a velha havia que espetar com uma nova em cima, pensei, o que foi rapidamente executado e com os resultados que estão à vista: as várias ligações que tanto trabalharam deram a preparar (para blogues, orquestras, editoras, etc.) desapareceram completamente e já desisti de as tentar repor. O que vale é que, sendo o número de leitores (muito) pequeno, as consequências nunca serão devastadoras...
Como o foram, por exemplo, e agora estou de volta ao tema habitual que por aqui nos mantém entretidos, no dia 28 de Junho de 1928, quando um incêndio destruiu o interior da Salle Pleyel, em Paris, palco das estreias de obras de vários compositores consagrados. Uma delas foi do Concerto para Piano Nº2 do compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), uma obra que, curiosamente, foi composta precisamente por causa dessa sala. É que o já nosso bem conhecido pianista Anton Rubinstein (1829-1894) tinha pedido a Saint-Saëns que lá lhe organizasse um concerto mas, como a sala já tinha ocupação para as 3 semanas seguintes, o compositor achou que teria tempo para preparar algo de novo, até como compensação pela demora. O pouco tempo de gestação não impediu que, com os anos, este se viesse a revelar o mais popular dos 5 concertos para piano que escreveu. A falta de tempo de preparação não evitou, contudo, o falhanço da estreia, ocorrida no dia 13 de Maio de 1868, passam hoje 144 anos.
CDs
Camille Saint-Saëns
Piano Concertos - No.1 in D, Op.17; No.2 in G minor, Op.22; No.3 in E flat, Op.29;
O plano inicial para hoje previa assinalar a passagem de mais um ano sobre o falecimento do compositor checo Antonín Dvorák (1841-1904), ocorrido no dia 1 de Maio de 1904. Intenção de breve duração, contudo, atendendo às inúmeras vezes em que este compositor já por aqui passou, e à ausência de grandes novidades susceptíveis de atrair a atenção de algum leitor mais distraído. Vai daí, houve que dar a volta ao texto e, partindo ainda de Dvorák, encontrar um outro assunto de alguma forma relacionado com este dia do trabalhador (e em que, por norma, a maioria de nós ainda trabalha menos do que nos outros dias...).
Pois dá-se a notável coincidência de o maestro Walter Susskind ter nascido a um dia 1 de Maio, no caso do ano de 1913, passam hoje 99 anos. E como diabo cheguei a este não tão conhecido como isso regente, perguntarão?! A ligação não é propriamente estreita, mas admitirão que também não é assim tão rebuscada: Susskind efectuou os estudos musicais no Conservatório de Praga, cidade onde nasceu, e teve lá como professor, entre outros, Josef Suk (1874-1935), genro de... Dvorák. Nada de particularmente avassalador, mas desculpa suficiente para ter hoje como convidado este nosso amigo.
Os alemães é que não foram muito amigos, e na altura em que Hitler informava as autoridades checoslovacas sobre as suas intenções invasoras, Susskind punha-se a milhas de Praga, rumo ao Reino Unido. O timing dificilmente poderia ter sido mais adequado: Susskind partiu no dia 13 de Março de 1939, apenas 2 dias antes da propalada invasão. Viria depois a desenvolver uma importante carreira de regente em vários países e continentes, destacando-se a Inglaterra, a Escócia, a Austrália, o Canadá e os Estados Unidos. Durante esse percurso, sendo essa outra das boas razões do meu apreço por ele, teve a oportunidade de partilhar o palco com alguns dos (grandes) músicos que por aqui já foram passando: Jascha Heifetz (1901-1987), Artur Rubinstein (1887-1982), Glenn Gould (1932-1982), Dennis Brain (1921-1957), Pierre Fournier (1906-1986), Szymon Goldberg (1909-1993), Leonard Pennario (1924-2008), Artur Schnabel (1882-1951), Shura Cherkassky (1909-1995), Tito Gobbi (1913-1984).
CDs
'Jascha Heifetz: The Unpublished Recordings'. Ludwig van Beethoven Romances - No.1 in G major, Op.40; No.2 in F major, Op.50. Ernest Chausson Poème, Op.25.
Edouard Lalo
Symphonie espagnole, Op.21.
Jascha Heifetz (violino)
Philharmonia Orchestra, Walter Susskind
San Francisco Symphony Orchestra, Pierre Monteux
Testament SBT1216 (1945, 1950) Johann Sebastian Bach Concerto for Two Violins and Strings in D minor, BWV1043.
Arthur Grumiaux, Jean Pougnet (violinos)
Philharmonia String Orchestra
Walter Susskind
Pristine Audio PASC093 (1946)
Solomon. Edvard Grieg Piano Concerto in A minor, Op.16. Franz Liszt Fantasia on Hungarian Folk Themes, S123. Robert Schumann Piano Concerto in A minor, Op.54.
Solomon (piano)
Philharmonia Orchestra
Herbert Menges, Walter Susskind
Testament SBT1231 (1948, 1958)
Johannes Brahms Violin concerto in D major, Op.77. Jean Sibelius Violin concerto in D minor, Op.47.
Ginette Neveu (violino)
Philharmonia Orchestra
Issay Dobrowen, Walter Susskind
EMI 7 61011-2 (1945, 1946)
Sergei Prokofiev (1891-1953) será sempre um dos convidados mais regulares aqui do burgo pois, além de ter sido um dos maiores compositores do século XX, facto já de si importante, é um dos meus favoritos, condição essencial e suficiente para aqui aparecer. Só que até hoje apenas aqui foi referido pela sua música concertante e sinfónica, nunca pela instrumental, em particular pela escrita para o seu instrumento de eleição, o piano.
Prokofiev entrou no Conservatório de São Petersburgo (que este ano celebra o seu 150º aniversário) em 1904 pela mão de Alexander Glazunov (1865-1936), tendo-se começado rapidamente a salientar não apenas pelo virtuosismo ao piano mas também, e principalmente, pela ousadia e rebeldia das peças que compunha e ele mesmo executava.
Sabe-se que entre 1907 e 1909, enquanto aluno do Conservatório, Prokofiev escreveu 6 sonatas para piano, sem que qualquer delas alguma vez tenha sido editada como tal; duas perderam-se definitivamente, e excertos das restantes 4 viriam a ser utilizadas posteriormente pelo compositor noutras obras. É o caso da terceira sonata, composta na Primavera de 1917, e que utilizou parte do tal material da época estudantil, daí ostentar o sub-título "segundo os velhos cadernos".
A estreia da Sonata para Piano Nº3 em lá menor, Op.28, de Sergei Prokofiev, teve lugar no dia 15 de Abril de 1918, passam hoje 94 anos.
CDs
Sergei Prokofiev Piano Sonatas - No.2 in D minor, Op.14; No.3 in A minor, Op.28; No.5 in C major, Op.38; No.9 in C major, Op.103. Yefim Bronfman (piano) Sony Classical SK53273 (1996)
Sergei Prokofiev The Sonatas for Piano. Sacarsms, Op.17. Anne-Marie McDermott (piano) Bridge 9298A/C (2009)
Wolfgang Amadeus Mozart Piano Sonata No.6, K284. Rondo, K511. Variations on 'Ah, vous dirai-je, maman', K265. Sergei Prokofiev Piano Sonata No.3. Toccata, Op.11. Ten Pieces from Romeo and Juliet, Op.75 - excerpts. Lise de la Salle (piano) Naïve V5080 (2007)
Apesar de ter demonstrado um grande interesse pela música desde muito jovem, a verdade é que o francês Albert Roussel (1869-1937), quando chegou a altura das grandes decisões, optou pela marinha francesa. Ao contrário do que eventualmente pensaria na altura, esta acabou por não ser uma decisão para a vida e, em 1894, zarpou rumo ao mundo musical, por onde ficaria até ao fim dos seus dias.
Em Paris estudaria com o compositor e organista Eugène Gigout (1844-1925), numa primeira fase, e com Vincent d'Indy (1851-1931) na recém-criada Schola Cantorum, 4 anos depois. Em 1902 já Roussel lá ensinava contraponto, tendo tido entre os seus alunos Bohuslav Martinu (1890-1959) e Erik Satie (1866-1925).
É usual dividir-se a carreira de Roussel como compositor em 3 fases: uma primeira, impressionista, que vai do início do século XX até 1913, marcada pela influência de Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937); seguiu-se a fase das complexidades harmónicas, concentrada na década de 1920, caracterizada ainda pela inclusão de melodias tradicionais da Índia, e a que pertence a Sinfonia Nº2, a obra principal apresentada neste disco; finalmente, a fase neo-clássica, da maturidade do compositor, a que pertencem, nomeadamente, as Sinfonias Nºs 3 e 4. Porventura a produção musical de Roussel é apenas dividida nestas 3 fases porque o compositor mandou para o caixote do lixo tudo o que compôs na década de 1890...
Albert Roussel nasceu há 143 anos, no dia 5 de Abril de 1869.
Albert Roussel Symphony No.2. Pour une fête de printemps. Suite in F. Royal Scottish National Orchestra Stéphane Denève Naxos 8.570529 (2006, 2007)
Há exactamente 7 anos atrás trouxe aquiSergei Rachmaninov (1873-1943), o compositor, num texto em que acabei por dar bastante realce a Rachmaninov, o pianista. A partir daí, e não foram tão poucas vezes quanto isso que ele regressou a este canto, apenas a sua faceta de compositor foi chamada à liça.
O que, se poderá ser aceitável nos tempos que correm, dificilmente alguém compreenderia nas primeiras décadas do século XX, em que as qualidades pianísticas de Rachmaninov brilhavam com grande intensidade.
Felizmente para nós, que apreciamos de sobremaneira as coisas ligadas à grande música, Rachmaninov deixou-nos várias gravações, muitas das quais das suas próprias obras, incluindo os 4 concertos para piano que compôs. Não é o caso do presente disco, editado pela Naxos, com gravações que Rachmaninov efectuou entre 1925 e 1942 de obras de Frédéric Chopin (1810-1849) e Robert Schumann (1810-1856).
Sergei Rachmaninov nasceu há 139 anos, no dia 1 de Abril de 1873.
Sergei Rachmaninov - Historical Recordings 1925-1942 Frédéric Chopin Ballade No.3 in E flat, Op.47. Nocturne in E flat, Op.9 No.2. Waltzes, Op.64 - No.2 in C sharp minor; No.3, Waltz in A flat. Waltz in E minor, Op. posth. Sonata No.2 in B flat minor, Op.35. Chants polonais, S480/R145 (excerpts). Robert Schumann Carnaval, Op.9. Spanisches Liederspiel, Op.74. Sergei Rachmaninov (piano) Naxos 8.112020